segunda-feira, 5 de maio de 2014

Primeiro de abril - Valdeci Ferraz

Menino,
Onde você estava quando quebraram a manhã
E soltaram os elefantes pelas ruas?
Enquanto seus pés chutavam sapotis
Coturnos sem alma esmagavam as flores
E os fuzis anunciavam uma noite sem fim.

Menino,
Você não ouviu o pio triste
De um pássaro sufocado
Pelas cordas de um violino mudo?
Não reparou na cor do vento,
Nas rugas das árvores,
Nos bancos das praças?

Menino,
Trocaram o seu uniforme
Pelo aborto de um sonho invertido
Para manter a pergunta sempre se repetindo no ar:
Mamãe! Quando papai vai chegar?
Menino,
Vai dormir, a noite chegou,

Menino,
Onde você estava quando soou a corneta?
O que trazia nas mãos,
O que trazia nas mentes?

Onde ficou o riso inocente,
A calma aparente, o quadro pintado,
A vida latente?

Menino, quem esticou o tempo
Para não perder o trono?
Quem se arrastou pela lama
Para enfrentar velhas utopias?
Quem compôs uma sinfonia de trás pra frente?
Quem esmagou o sonho com balas de chumbo?

Ah! Você não ouviu o grito das velhas árvores.
Não viu o sangue escorrendo entre as flores.
E quando a noite chegou onde você se escondeu?
Ah! Você não sabia da carta marcada
Porque só ouvia a mesma piada.
O mesmo tom.
A  mesma nota.
O mesmo som.
E trouxeram guizos e plumas,
Prenderam os homens e os seus sonhos,
Porque era o primeiro dia
De um dia que nunca acabaria.

Menino,
Por um momento escuta o vento.
Ouve o lamento dos que tombaram no palco
Pois ainda se move nas sombras
O Leviatã implacável.

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