segunda-feira, 30 de junho de 2014

Vitrine de Tabacaria – Konstantinos Kaváfis (traduzido por Fernanda Lima)

Perto da vitrine iluminada
de uma tabacaria pararam em meio a muitos outros.
Por acaso, seus olhares se encontraram
e o ilegal desejo das suas carnes
se revelou timidamente, hesitante.
Depois, alguns passos ansiosos pela calçada
até que sorriram e trocaram acenos discretos.

E depois, na carruagem fechada...
O sensual aproximar de corpos;
as mãos que se penetram, os lábios que se penetram.

Histórias de marinheiros (1954) – Tomas Tranströmer (traduzido por Roberto Mascaro e Francisco Uriz)

Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.

Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.

(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.

Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio)

Sonhos de ossos – Seamus Heaney (traduzido por José Antonio Arantes)

Osso branco achado
na pastagem:
a rude, porosa
linguagem do toque

e a amarelenta, estriada
impressão na relva -
um miúdo navio-túmulo.
Inerte como pedra,

sílex-sina, pepita
de greda,
toco nele de novo,
meto-o na

funda da memória
para atirá-lo contra a Inglaterra
e seguir-lhe a queda
em campos estranhos.
2
Osso-casa:
um esqueleto
nos velhos cárceres
da língua.

Rechaço
de dicções,
dosséis elisabetanos,
estratagemas normandos,

as eróticas flores de maio
de Provença
e os latins cobertos de hera
de clérigos

até o zangarreio
do bardo, o lampejo
férreo de consoantes
dividindo o verso.

Sorte - Charles Bukowski

o que está mal a respeito disso
tudo
é ver as pessoas
bebendo café e
esperando. gostaria de
embebê-los todos
na sorte. eles precisam
disso. precisam bem
mais do que eu.

sento nos cafés
e os vejo a
esperar. não creio
que haja muito mais
a fazer. as moscas
vão pra lá e pra cá
nos vidros das janelas
e bebemos nosso
café e fingimos
não olhar uns
para os outros.
espero junto com eles.

entre o movimento
das moscas
as pessoas vagueiam.

Blues fúnebre - Wystan Hugh Auden (Tradução: Rodrigo Suzuki Cintra)

Parem todos os relógios, calem o telefone,
Impeçam o latido do cão com um osso para a fome,
Silenciem os pianos e com tambores chamem
A vinda do caixão, deixem que os desconsolados clamem.

Que aviões circulem no alto, um voo torto,
Rabiscando no céu a mensagem: ele está morto.
Que se coloque nos brancos pescoços de pombas coleiras pretas,
E os guardas de trânsito usem luvas de algodão negras.

Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,
Minha semana de trabalho, um domingo campestre,
Meu meio-dia, meia-noite, minha fala, minha canção;
Eu pensava que o amor duraria para sempre: eu não tinha razão.

Não me importam mais as estrelas; tirem-nas da minha frente,
Empacotem a lua, desmantelem o sol quente,
Despejem o oceano, tirem as florestas de perto:
Pois agora nada mais pode vir a dar certo.

As horas - Salvador Olguín

A maioria das pessoas
mede os ciclos da Terra
com máquinas chamadas relógios ou cronômetros
A unidade principal de medida
é a hora

O relógio opera como um ponto de interseção
entre o movimento do planeta e os processos internos
da mente humana

Diferente das rochas e dos rios
que se movem e param
conforme os ritmos naturais, o mecanismo do relógio
tende a seguir
uma regularidade artificial, produto de uma curiosa
reverência humana
ao pensamento
matemático

Os anjos colegiais - Rafael Alberti (Tradução de Amálio Pinheiro)

Nenhum compreendia o segredo noturno das
lousas
nem porque a esfera armilar se exaltava tão só
quando a olhávamos.
Somente sabíamos que uma circunferência pode não ser
redonda
e que um eclipse de lua confunde as flores
e adianta os relógios dos pássaros.
Nenhum de nós compreendia nada:
nem porque nossos dedos eram de tinta nanquim
e a tarde fechava compassos para a alva abrir
livros.
Somente sabíamos que uma reta, se quer, poder ser
curva ou quebrada
e que as estrelas errantes são meninos que ignoram
a aritmética.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Solitário - Antonio Carlos Gomes

Solitário
Preso a detalhes
Faço entalhes
Busco o viver.

Caminho
Peito arfante
Olhar distante
Querendo amar.

Sigo em frente
Olhar dolente
Busco o instante
Onde pousar.

Estrada
Longa e imponente
Ofusca a mente
Que quer amar.

Avante sempre
De modo insistente
Canto eloquente:
- Necessito amar...

Frineia - Rafael Rocha

Mulher vinda do ar e dos pensamentos
Sacolejando os quadris em mil chamados
Provoca chuvas e recria chãos molhados
Deslizando as fantasias entre os ventos.

Sorri intensa e provocante nos momentos
De seduzir machos. Deixando apaixonados
Seres que passam fitando-a em tormentos
Com os corações sendo desmembrados.

É toda linda! Deusa morena insinuante
A propagar miragens por dentro dos espelhos
Dos desertos invernais. E em um instante

Quando o poema tenta matar os pesadelos
Faz renascer a solidão horripilante
Entre as madeixas dos seus negros cabelos.

Saciado - Valdeci Ferraz

Amanheceu domingo.
O calor do teu corpo
Embaçava os vidros frios da janela.
E dele emanava um resto de paixão.
Não me atrevi a consumi-la.

Amanheceu sorrindo.
A minha alma contemplando a tua
Que, cheia de pudor, se escondia
Sob os lençóis molhados.

Amanheceu tão lindo
Em minha volta
Que não me importei em morrer,
Apenas te contemplar até
Que se esvaísse o último suspiro.

Amanheceu caindo
Uma chuva fina
Pra sepultar de vez
A saudade dos desejos saciados.

Devaneio kafkiano - Marisa Soveral

Há uma tristeza
De pele branca e fria
Que não consigo despir
Tecida em arrepios de dor…

As piores mentiras
São as que digo
A mim própria!..

Abro a janela
Preciso de respirar
Sufoco
Mas deparo com um muro
Compacto e intransponível
Um muro que me cerca…

De mim irrompe o insecto
Não posso comunicar
Perdi todo o contacto
Sou um insecto medonho
Que chora no silêncio
…tudo está longe…
Mas ouço vozes a sussurrar sorrindo…
Fechada em mim
Não vejo, mas é como se visse
E escuto
Alguém se lembra?
Alguém sabe que eu existo?
E até quando resistirei
Condenada a morrer de míngua!?...

Vida - Amado Nervo (Tradução de Anderson Braga Horta)

Perto do meu ocaso, eu te bendigo, ó Vida,
porque nunca me deste esperança falida
nem trabalhos injustos, nem pena imerecida.

Porque vejo no fim de meu rude caminho
que fui eu o arquiteto de meu próprio destino;
que se os méis ou o fel eu extraí das cousas
foi que nelas pus mel ou biles amargosas:
quando plantei roseiras, não colhi senão rosas.

Às minhas louçanias vai suceder o inverno;
mas tu não me disseste que maio fosse eterno!
Julguei sem fim as longas noites de minhas penas;
mas não me prometeste noites boas apenas,
e, afinal, tive algumas santamente serenas...

Amei e fui amado, o sol beijou-me a face.
Vida, nada me deves! Vida, estamos em paz!

Cores da solidão - Ézio Pires

só falo
sonâmbulo
o que acordado me calo
mas me ofereço
paisagem
de carne e osso
nos balanços de seios
na beira do rio
na beira do corpo...
nas viagens
das virgens
(babilônicas)
fui feito urgente
de desejo insatisfeito
fiquei sem caminhos
(sem rios)
para chegar ao mar
me sonho boi
para mastigar cores
da solidão...

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Circumnavegare - Sônia Rangel

Volto
E acendo a luz
Dessa casa
Única e múltipla
Onde transbordo e navego
Lagos, rios e mares
Da minha existência.

Em essência,
Continente e oceano,
Sou saudades de ti, ó casa,
E sou tu mesma.

Saudade dos momentos sem saudade.

Onde nada há
Para te conhecer
Para re cor dar
nem com parar.
E passo.

Mas ou também por isso
Sujeito e verbo
Dessa oração nova
Construída a duras penas.

Se volto porque saí
Onde estive para voltar
Ó familiar e assustadora casa.
Se só tua respiração
É a minha luz?