sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O diamante - Homero Prates

Ó divinos Heróis! que uma eterna auriflama

Atrai para o esplendor da noite merencória!

Este é o Inferno de luz que a vossa febre aclama

Em gritos de loucura e em gritos de vitória.

 

Nele, como num mar de luz fiava e ilusória,

Encheis a Taça de ouro... E o vosso olhar se inflama!

Bebei! que é o vosso sangue e esta é a divina chama

Da ara branca e imortal da Beleza e da Glória.

 

Ó agonia sublime! Ó jardim dos tormentos

Divinos! onde, ó Luz, nos meus olhos deliras,

Como uma águia ferida entre dois firmamentos!

 

Olha-os!  Morrem cantando, ó Beleza, que passas!

E os Heróis, para os céus soerguendo as grandes liras,

Tombam num resplendor de flamas e de taças.

Soneto dos dedos que falam - Orlando Tejo

Que importa que foguetes cruzem marte
E bombas de hidrogênio acabem tudo,
Se aos meus dedos, teus dedos de veludo
Ensinam que o amor é também arte?

Não desejo mais nada além de amar-te
E em êxtase viver, absorto e mudo,
Sorvendo da ternura o conteúdo
Que antes te buscava em toda parte!

Esses dedos que afago entre meus dedos,
Que acaricio a desvendar segredos
De amor nestes momentos que nos prendem,

Têm qualquer coisa que escraviza e doma,
Porque teus dedos falam num idioma
Que só mesmo meus dedos compreendem!

Mas que sei eu? - Ruy Belo

Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha

qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A estrada do silêncio - Valdeci Ferraz


Sigo por uma estrada cujas margens
Estão repletas de homens quebrados
Vomitados pela floresta dos deuses vencidos.
À minha frente outros homens caminham
Arrastados por uma fé que os leva à loucura.
No chão de terra negra as sombras desaparecem
E por um momento ninguém sabe o caminho.

O silêncio cai como uma mortalha de neve
E o instante que antecede a hora
É como uma garra de aço na garganta do tempo.
Para escapar eles caminham de costas
E não percebem a involução de suas mentes.
O pensamento agoniza, recolhendo seus tentáculos
Com medo do fogo do inferno.

A estrada se alonga como uma seta infinita
E um deus diabólico destrói a rosa dos ventos.
Segue a turba pisando nas sombras ocultas
Porque antes de tudo é preciso caminhar.
Todos se olham e se perguntam: quem somos?
Que estranha maneira é essa de estar?
Ainda existe um sonho para sonhar?

A estrada do silêncio amplia suas margens
Para recolher os corpos dos homens quebrados
Pois dentro dela alguém caminha na direção da luz.
Ouso então quebrar o silêncio da estrada
E lá do fundo de minha alma um trovão estronda
Anunciando que somos a razão do que somos
E não há razão para calar.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Meu canto - Medeiros Braga


Invejo o doce cântico dos poetas
Externando as belezas e os amores,
Os aromas febris das róseas flores,
O sussurrar das ondas inquietas!

Invejo o verso altivo sem clamores
Que aos lábios foge enunciando festas!...
A lira comovente das serestas,
A arte romântica dos pintores!

Mas não consigo usar a mesma pinça
Porque meus olhos só veem injustiças,
Meu coração só sente o pranto e a dor!

Por isso que meu canto é um brado ardente
Um facho de poesia a me guiar em frente
Enquanto um poeta, triste, em vida eu for!

No tempo em que a canção - Maria Thereza Noronha

A música eletrônica me faz nervosa e insone
centopeia no ar gritando com cem pernas
queria envelhecer ao som do gramofone
no tempo em que a canção era abafada e terna.

O tempo onde o mocinho vencia o bandido
e a vida em preto e branco alternava mistérios
vivia-se e ninguém falava ao telefone
e o pai levava o filho a ver o trem de ferro.

Vivia-se e ninguém falava em Microsoft
e a vida, delicada, punha os pés na terra
queria envelhecer ao som de um foxtrote
no tempo em que a canção era abafada e terna.

Defasagem - Antonio Carlos Gomes

Pois é! Enquanto passo
Sei que tu começas...
Não há contrariedades
A vida é um continuum
Uns chegam outros vão
É assim a saudade.

Somos flash de estrelas
Brilhos do planeta
Um instante apenas
Caminhos que espraiam
Pelos campos verdes
Mares agitados

No sonhar constante,
Luz da eternidade
Em gotas de orvalho

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Sonhos - Ana Maria Leandro

E no sonho do céu tão azul
que desce à terra,
ao ver-te tão belo e pulsante
penso contente que neste celeiro
sempre comigo estarás
pois este é o meu reino...

Aqui eu tudo posso
viver e viver e novamente viver,
no meu alfa inatingível,
onde todos, sem me tocar
se fazem presentes na força de amar...

Durmo com estrelas que
em meu quarto se adentram
só para me proteger
e me dizer: descansa
amanhã a luta vai recomeçar...

As estrelas são os todos
que me amam...
Porque mesmo em sonhos
aprendi que amor
é retorno de amor...

Depois na vida acordada
tenho lembranças mil a lembrar
dos sonhos que ninguém,
mesmo acordada,
jamais vai me roubar!...

domingo, 21 de setembro de 2014

Adeus - Eugênio de Andrade

Já gastamos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastamos tudo menos o silêncio.
Gastamos os olhos com o sal das lágrimas,
gastamos as mãos à força de as apertarmos,
gastamos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes
E eu acreditava.
Acreditava.
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastamos as palavras.
Quando agora digo: meu amor
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Ausência - Judith Teixeira

Meu amor, como eu sofro este tormento
da tua ausência!... Ando magoada
como a folha arrancada pelo vento
ao carinhoso anseio da ramada...

Procuro desviar o pensamento...
mas ouço ao longe a tua voz molhada
em lágrimas, vibrando o sofrimento
da nossa vida assim, tão separada!

Os meus beijos escutam os teus beijos
exigentes - perdidos de saudade...
crispando amargamente os meus desejos!

E dia a dia essa canção de dor,
ritornelo sombrio de ansiedade,
exalta ainda mais o meu amor!

Velho tema - Vicente de Carvalho

I

Só a leve esperança em toda a vida
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
  
II

Eu cantarei de amor tão fortemente
Com tal celeuma e com tamanhos brados
Que afinal teus ouvidos, dominados,
Hão de à força escutar quanto eu sustente.

Quero que meu amor se te apresente
— Não andrajoso e mendigando agrados,
Mas tal como é: — risonho e sem cuidados,
Muito de altivo, um tanto de insolente.

Nem ele mais a desejar se atreve
Do que merece; eu te amo, e o meu desejo
Apenas cobra um bem que se me deve.

Clamo, e não gemo; avanço, e não rastejo;
E vou de olhos enxutos e alma leve
À galharda conquista do teu beijo.
  
III

Belas, airosas, pálidas, altivas,
Como tu mesma, outras mulheres vejo:
São rainhas, e segue-as num cortejo
Extensa multidão de almas cativas.

Têm a alvura do mármore; lascivas
Formas; os lábios feitos para o beijo;
E indiferente e desdenhoso as vejo
Belas, airosas, pálidas, altivas...

Por quê?  Porque lhes falta a todas elas,
Mesmo às que são mais puras e mais belas,
Um detalhe sutil, um quase nada:

Falta-lhes a paixão que em mim te exalta,
E entre os encantos de que brilham, falta
O vago encanto da mulher amada.
  
IV

Eu não espero o bem que mais desejo:
Sou condenado, e disso convencido;
Vossas palavras, com que sou punido,
São penas e verdades que sobejo.

O que dizeis é mal muito sabido,
Pois nem se esconde nem procura ensejo,
E anda à vista naquilo que mais vejo:
Em vosso olhar, severo ou distraído.

Tudo quanto afirmais eu mesmo alego:
Ao meu amor desamparado e triste
Toda a esperança de alcançar-vos nego.

Digo-lhe quanto sei, mas ele insiste;
Conto-lhe o mal que vejo, e ele, que é cego,
Põe-se a sonhar o bem que não existe.

V

Alma serena e casta, que eu persigo
Com o meu sonho de amor e de pecado;
Abençoado seja, abençoado
O rigor que te salva e é meu castigo.

Assim desvies sempre do meu lado
Os teus olhos; nem ouças o que eu digo;
E assim possa morrer, morrer comigo
Esse amor criminoso e condenado.

Sê sempre pura!  Eu com denodo enjeito
Uma ventura obtida com teu dano,
Bem meu que de teus males fosse feito".

Assim penso, assim quero, assim me engano
Como se não sentisse que em meu peito
Pulsa o covarde coração humano.

Meu ser evaporei na lida insana - Manuel Maria Barbosa du Bocage

Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua orgia dana.

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.

No mapa - Oliveira Silveira

Pelo litoral
ficou
de norte a sul
nagô.
Ficou no Recife:
xangô.
Na Bahia ficou:
candomblé.
No Rio grande é o que?
- Batuque, tchê.

Filho de santo
de bombacha,
Ogum
comendo churrasco:
jeito
gaúcho
do negro
batuque.

O último recado antes do inverno - Francisco José Viegas

O tempo vai passando. Vamos morrendo devagar,
subindo o rio, descansamos sob os choupos,
as vinhas escurecem com a luz do dia.
Muitas vezes, nesta altura do ano, não chega a amanhecer,
a água do rio turva rente às margens,
os areais prolongam-se, claros demais, brancos.

O tempo vai passando entre a erva,
emudece como o musgo do Outono nos pinhais,
escuta as vozes poisando mais além, entre os canais

onde a morte aguarda, serena. Amo estas árvores,
é o último recado que gostaria de deixar,
mais que as mulheres que me amaram,
ou que amei. O tempo vai passando devagar.

Soneto da morte - Gabriela Mistral

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Do nicho gelado em que os homens te puseram,
abaixar-te-ei à terra humilde e ensolarada.
Que hei de dormir-me nela os homens não souberam,
que havemos de sonhar sobre o mesmo travesseiro.

Deitar-te-ei na terra ensolarada com uma
doçura de mãe para o filho dormido,
e a terra há de fazer-se suave como berço
ao receber teu corpo de criança dolorido,

Logo irei polvilhando terra e pó de rosas,
e na azulada e leve poeira da lua,
os despojos levianos irão ficando presos.

Afastar-me-ei cantando minhas vinganças formosas,
porque a essa profundidade oculta a mão de nenhum
abaixará a disputar-me teu punhado de ossos!