terça-feira, 7 de outubro de 2014

ENCARGO - Rafael Rocha


Meus sapatos envelheceram nas andanças  
Dos tempos vários nos asfaltos destas ruas  
Velhas poeiras restaram nas tardanças  
De quando unia minhas mãos nas tuas  
Em momentos dos antanhos doutras luas
O que restou não mais fácil se aconchega  
Pois teu olhar de hoje é de uma cega
De mortas esperanças
 
Ainda creio em sentimentos tão inúteis  
Viajando como um filme nas paredes  
Conhecendo como todos me são fúteis  
Nos infernos ideais de suas redes  
Acreditando nas mentiras como em sedes  
De águas em veneno. Paridos em vão  
Humanos hipócritas inimigos da paixão  
Querem a pureza dos inconsúteis

O mundo a cercar o tempo que me resta  
É um encargo a ficar pesado a cada dia  
Ainda que eu procure viver em grande festa  
Amando e tendo o sonho da nostalgia  
Mormente sabedor que a alegria  
Atualmente não mais presta  
Nem possui a pureza de uma Vesta  
Deusa do fogo da virginal poesia
 
Nas andanças minhas pernas já cansadas  
Tentam fazer as viagens impossíveis  
De tanto eu ser escuto vozes indelicadas  
A discordar de meus sonhos incríveis.

Ah, meus sapatos estão gastos...  
Para que devo continuar a calçá-los?  
Quando só me restam passos  
Poucos passos  
Lassos...

Um comentário:

  1. Uma poesia de algum desânimo mas muito bem escrita.

    Descreve a realidade da vida, que nos compete tentar
    inverter em tons mais positivos e acreditar que o amor
    é sempre possível, em qualquer estação da vida.
    Um abraço amigo.
    Irene Alves

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