quarta-feira, 26 de novembro de 2014

BILHETE – Lenilde Freitas


Se você dobrar à esquina
da rua detrás da minha
e se não tiver preguiça
de atravessá-la todinha,
encontrará na esquina oposta
num muro alto caiado
uma frase escrita em sânscrito
como se fosse um recado
para ninguém sabe quem
e por ninguém decifrado.
Se conseguir decifrá-la
responda seja o que for
lá mesmo no espaço ao lado
faça-me este favor
que não vai lhe faltar nada.
Era só isso. Obrigada.

SEIS – Maria Thereza Noronha


Seis palavras à procura de um poema
— pirotécnicas e pirandellianas —
passeiam pela noite descuidada.
Dadas as mãos, atravessam a praça,
olham o céu, buscando comovidas
da lua cheia a face sextavada.
Contam estrelas, meio envergonhadas:
bem sabem o banal deste recurso
e vão-se afastando, cabeças baixas.
Seis palavras flutuam, indecisas,
em demanda de estrofe onde se encaixem.
Soltas, nada mais são que sopro, brisa.
Soltas, nada mais são que folhas novas
brotando da videira, pressurosas:
furam o tronco e ainda não são uvas.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

BONECA – Dora Ferreira da Silva


A boneca de feltro
parece assustada com o próximo milênio. 
Quem a aninhará nos braços 
com seus olhos de medo e retrós?

O signo da boneca é frágil 
mais frágil que o de pássaro. 
Confia. Assim passiva 
o vento brincará contigo 
franzirá teu avental 
dirá coisas que entendes 
desde a aurora das coisas: 
foste um caroço de manga 
uma forma de nuvem 
ou um galho com braços 
de ameixeira no quintal.

Não temas. Solta o
corpo de feltro. Assim. 
Para ser embalada nos braços 
da menina que houver.

ANOITECEU – Angélica Torres Lima

Os homens inauguram-se
como monumentos bruscos.
Toscas palavras de sal.
Dormem secas as cascas
lacrimais da madrugada
desvirginada por galos e cães.

No vazio abismal bebem
as torrentes do sono aceso.
E o sangue foge
para um campo arredio, sem lamas
enquanto a Via Láctea espreita
o leite latino da transmutação

INTIMIDADE – Mariana Botelho


um pequeno itinerário de passos
uma claustrofobia acariciada
gente que todo dia me bate
à porta e entrega-me os
cílios meus que encontraram
na calçada...

o dedinho de uma linda preta
com quem dividir os cílios caídos
com quem dividir o medo
de não sobreviver e de sofrer
a violência das crianças na escola.

aquela voz grave todas as manhãs
todas as manhãs
aquele cheiro só 
aquele cheiro de capim chovido
os olhos negros do meu pai
e uma cidade íntima
soluçando dentro de mim.

CLANDESTINIDADE – Maria Esther Maciel

Permanece em mim 
como um segredo
e que ninguém escute 
teu silêncio na minha boca
nem a linguagem de teus olhos
que em mim se inscreve
como poema.

Torna-te clandestino 
em meu país sem nome
e desenha em mim
o teu enigma
teu reverso
e teu verso sem tradução.


Te exila em minha teia 
me define com tua senha 
perenizando em meu corpo 
o teu mistério – 
entre cortinas, 
no refúgio exato dos lençóis.

DESPREZO – José Aparecido Botacini


Não suporto mais este teu vil desprezo
Ao meu coração nada disso nos convém.
Dediquei a ti minha vida, só recebi menosprezo,
Não desejo esta dor para mais ninguém.
 
Foram dias e noites de pura dedicação
Amei-te além do que o amor contém.
Lutei contra tudo e todos por esta paixão,
Mas meu amor por ti, não valia um vintém.
 
Não haverá de ser um amor repleto de desdém
Que levará minha vida para a bancarrota.
E nem vai falir este meu sofrido coração.
 
De modos que tudo foi apenas uma ilusão,
Uma luta que terminou com a minha derrota,
Mas mesmo assim lhe concedo todo o perdão.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A ROSA CONVICTA – Aurora Duarte

Ante a fúria do mar e em fundo espelho,
hei de pintar meus olhos de infinito.
Depois, no corpo quieta traçarei
limpas cores do céu e chuva e sol:
pois meus seios são aves prematuras
que entre gestos e orvalho guardarei.

 Mas, por ser bela eu hei de ser sozinha
porque o espanto e a ternura tem moradas
em chão diverso e de diverso intento.
Mas por ser bela me liguei ao tempo
e por ser bela girarei sorrindo
entre os raios de sol e o cata-vento.

domingo, 2 de novembro de 2014

Alicerce – Rafael Rocha

Não construa o alicerce da vida
Seguindo pessoas falsas
Os conselhos dessas pessoas
E as palavras delas.
Melhor levantar a base da casa
Na areia movediça

Construir seguindo ideias dessas pessoas
É erro matemático
Elas se acham certas demais
E elementos certinhos demais
Desfiguram os cálculos

O alicerce de nossas vidas
Tem de nascer de dentro
Com o cimento natural
Dos genes de pais e de mães
Assim a casa ganha força e não desaba
Nem com vento forte

Algumas pessoas são números negativos
Nos espaços geométricos
Sem serventia para calcular a vida
Na sabedoria do nosso tempo na Terra
Como disse Bukowski:
“Não deixe tais pessoas serem seu alicerce”

Eu sou eu! Você é você!
E meu poema sai vivaz de mim!
Não preciso escrevê-lo
Para iluminar rótulos falsos
Se eu fizer isso melhor apagar a luz e dormir

Dramas pessoais - Valdimir Diniz

A mula-sem-cabeça tinha olhos azuis
um dia ela disse ao psiquiatra que, com a vida que
                             levava, ia acabar ficando louca
não conseguia conversar com os vizinhos  
não aguentam mais as novelas de televisão
sentia-se perseguida por ter tantas contas a pagar

A mula-sem-cabeça não suportava as recordações da
                                                                    infância
sua memória desconhecia o nome de uma boneca, de
                                            uma ex-colega de escola
preferia viver sem marido podendo ter um marido
                                                quando bem entendesse
lembrava-se do hálito de café, carne, feijão, e de todos
                        os hálitos que vêm com o casamento
lembrava-se do choro da criança, das dificuldades de
                        arranjar empregada e sentia que tudo
                                            isso acabaria por levá-la
                                                               ao hospício
então, perguntava: "Qual a origem do meu mal,
                                                                doutor?"

A mula-sem-cabeça perdia a voz, a visão e ficava surda
                            sempre que necessitava de coragem
                                                pra dizer o que pensava
tinha desejos de comer terra , bater a cabeça na parede
                              sair nua pela cidade e gritar da janela
                                    do seu apartamento que a vida
                                                                era uma bosta

A mula-sem-cabeça disse que não tinha forças nem
        para jogar fora os brincos com argolas de ouro
                                    que faziam tlintlin dentro da
                                                             sua cabeça
saía do divã, levantava os braços e perguntava:
"Qual a origem do meu mal, doutor?"
ela só se acalmava cantarolando "quem eu quero não
                                                                me quer"
em seguida tinha uma recaída porque essa música
               dava-lhe ânsias de se apaixonar novamente
"por quem?" - perguntava - "por quem? se quem
            eu quero não me quer?" e aí se acalmava para
                                                       piorar em seguida

A mula-sem-cabeça temia cada vez mais a proximidade
                                                                     da morte
sentia-se insegura dentro de casa, no carro e não
                            conseguia respirar dentro do elevador
desejava matar-se todos os dias às 6 da tarde
evitava esse pensamento pensando em comer o tapete
                    da sala de visitas ou o pano de chão
uma dia escrevia com sangue um grande poema de
                                                                    amor

A mula-sem-cabeça cuspia pedras de fogo quando se
                                                                enfurecia
e falou com o psiquiatra: "O Senhor duvida que seja
                                                    verdade, doutor?"
ele disse que não, pois tudo isso era normal num ser
                                                                    humano
ela não acreditou porque mesmo assim nada impediria
                                        que acabasse ficando louca
pela manhã, temia olhar-se no espelho, acordar com
                                       a boca torta e até ser presa

A mula-sem-cabeça tinha medo de acabar a vida apenas
                                como uma personagem folclórico

Sobre a poesia - Juan Gélman

Tradução de Léo Gonçalves

haveria um par de coisas por dizer/
que não é muito lida por ninguém/
que esses ninguém são poucos/
que estão todos preocupados com a crise mundial/ e

com o assunto de comer a cada dia/ trata-se
de um assunto importante/ eu me lembro
quando tio joão morreu de fome/
dizia que nem se lembrava de comer e
que pra ele  não tinha problema/

problema veio foi depois/
não havia dinheiro para comprar caixão/
e quando finalmente o caminhão municipal
passou para levá-lo/
tio joão parecia um passarinho/

o pessoal do caminhão olhou para ele
com desprezo e com desdém/
murmuravam/
que eram sempre molestados/
que sendo gente eles enterravam gente/ e não
passarinhos como tio joão/ especialmente

porque o tio foi cantando piu piu
a viagem inteira até o crematório municipal/
e sentiram-se desrespeitados e estavam muito ofendidos/
e quando davam-lhe um tapinha pra calar a boca/
o piu piu voava pela cabine do caminhão
e eles sentiam que ouviam um piu
piu na cabeça/ tio

joão era assim/ adorava cantar/
e não via por quê não cantar depois de morto/
foi para o forno cantando
piu piu/ as cinzas saíram e ainda deram uns
pios/
os companheiros do municipal se entreolharam
com os sapatos cinzentos de
vergonha/ bem mas

voltando à poesia/
os poetas passam muita dificuldade/
não são muito lidos por ninguém/
esses ninguém são poucos/
o ofício perdeu o prestígio/
para o poeta está cada dia mais difícil

conquistar uma linda namorada/
ser candidato a presidente/ ser patrocinado por um mecena/
que um guerreiro faça façanhas para serem cantadas/
que um rei lhe pague cada
verso com três moedas de ouro/

e não se sabe se é porque acabaram as namoradas/
os mecenas/ os
guerreiros/ os reis/
ou simplesmente os poetas/
ou foram as duas coisas e é inútil
esquentar a cabeça com uma coisa dessas/

bonito é saber que a gente pode cantar piu piu
nas horas mais estranhas/
tio joão depois de morto/ eu agora
para que me queiras/

Lição das Gentes - Thaís Guimarães

Levei tempo para aprender:
desamizades não são coisas de inimigos.
Doemos pelos anos,
pilamos com devagareza amargores sob a língua,
de um amor interdito
pelo perdido.

Os desamigos não têm sabor, nem ardor,
raspam pela garganta, como um jacto triste
de um bom tempero que azedou.
Depois, é a vida correndo pela vida afora,
deixando pedaços para coser
sem uma linha de costura.
Então, os desamigos ficam
nesse lugar:
da possível cerzidura.

Erótica batalha – Sebastião Nunes

Tua latejante buceta palpitante.
Meu amargo cacete perfilado.
Ovos batem continência à beira do saco.
Como um guerreiro de merda
o cu recua ante a dura ofensiva.
Grandes e pequenos lábios
batem palmas e riem.
Meu cacete é a bandeira nacional.
A guerra é santa e eu avanço.

Um bonde chamado destempo - Carmem Vasconcelos

A encosta de capins invisíveis
desvela os desvarios dos meus antes.

A morte já não é futuro,
minha aldeia noutra aldeia se desvela,
eu me desvelo, pouca e escura.

Tornei-me antiga como antigo
é todo esgar desse rio esgotado
e dessas casas tornadas demasiado sérias.

Tornei-me ida,
meu tempo se desvela escorrido
no rosto dos parceiros de infância.

Tornei-me santa,
o deus imenso agora se desvela
na minha porção de amor,
porque o amei humanamente
e jamais neguei meu corpo a esta adoração.

Minha outra aldeia fica.
Sou eu a passagem.

Trágica – Ana Elisa Ribeiro

meu galego
não conhecia minha ira

era dono do meu corpo
meu espírito de porco

sabia minha ginga
minha pletora, minha míngua

conhecia cada fresta
cada trinca, cada aresta

cada vinco, furo, fissura,
mau humor, amargura

mas da minha ira
condenada ira
ira da maldita

ira de mulher
fêmea exata
ana saliente
uterina, enfezada
ele não sabia nada

(meu galego dorme esta noite num cemitério improvisado)

Do progresso nas profissões – Adriano Scandolara

Não se vê daqui, mas sei
que a prostituta na rua
tem um olho de vidro,

É mais aparente o gancho
na mão esquerda
ou, mais à luz, sob o poste
a prótese

da perna.

A insaciedade da fome de carne
que tem que se satisfazer
com borracha.

É tempo de fetiches, pessoas
que se fazem fetiches.
Servir-se
da prostituta na rua
não era tanto sexo com gente
quanto era sexo
com coisa
tevê, geladeira,
sonho transerótico do transumanista.