quinta-feira, 30 de julho de 2015

TELA NÚMERO DOIS – Valdeci Ferraz

Na terra dos homens clonados
foram extintos os espelhos
e encerrados em caixões de aço os revolucionários,
ato que se tornou inútil,
pois as palavras formaram versos
cuja força derreteu a abóbada
e se expandiu além das fronteiras.

O sangue dos dedos cortados adubaram a terra
e a mulher elevou a voz numa canção desesperada.
Os heróis voltaram aos seus quartos
e foram dormir com suas amantes
enquanto um poeta se masturbava
diante de um computador moribundo.

Das ruas, dos becos, debaixo dos viadutos,
das pontes, das marquises, dos sobrados abandonados
elevou-se o clamor das prostitutas,
dos mendigos, dos meninos de rua,
dos bêbados pedindo aos clonados
que não deixassem a poesia morrer.

Do topo das árvores surgiram
milhares de beija-flores empurrando com o bico
um general e um capitalista em direção
a um mar repleto de tubarões.
De repente, os homens clonados deram-se as mãos
e começaram a cantar liderados por um menino
que trazia em uma mão uma tesoura vermelha
e na outra uma batuta em forma de caneta.

À medida que escrevia ao vento
os homens clonados incorporavam as notas
e a canção chegava aos morros, nas favelas,
nos campos, onde as mulheres e as crianças
se punham a dançar enquanto
a esperança brilhava nos olhos dos homens.

Sobre o asfalto um grupo de seres encapuzados
tentava destruir a roda dos homens clonados
jogando sobre eles cruzes de madeiras em chamas,
em contato com as palavras que o menino escrevia
as cruzes se apagavam, desconjuntavam-se
e caíam no chão formando palavras
que só o menino maestro podia entender.

Depois que a música cessou
o menino apanhou as palavras
guardando-as dentro de um saco
que entregou para uma prostituta
conhecida como Maria Madalena.
No tempo da última trombeta será decifrado
o significado desse mistério,
disse ele com uma voz grave, porém serena.

Em seguida, o menino maestro empunhou
a tesoura vermelha e avançou sobre os encapuzados,
as cabeças cobertas de sangue rolaram pelo asfalto
e sopradas pelo vento caíram no rio que banhava a cidade.

O avesso de mim surgiu novamente
e expôs sobre as calçadas livros
cujos personagens fluíam das folhas
espantados com o tamanho dos arranha-céus
e a cor avermelhada das águas.
Que terra estranha é essa?
Perguntou um homem seco
vestido com uma armadura de lata
e armado com uma lança comprida.

Um jovem magro com ar esfomeado
se aproximou do menino.
Ele tinha um relógio nas mãos
e pretendia empenhá-lo para comprar comida.
Outro senhor ofereceu uma guilhotina pela tesoura,
porém todos os olhares se voltaram
para uma mulher que
emergiu dos livros completamente nua
e ornada nos cabelos com um diadema de diamantes e rubis.

Quem é ela?
perguntaram os homens clonados,
mas ninguém ousou responder,
pois temiam fazê-la desaparecer,
tal a fragilidade de sua figura exuberante.
A mulher nua ergueu a mão num gesto solene
e todos se calaram.
Ela então subiu no palco
formado pelas madeiras das cruzes e anunciou a nova aurora.

Da sua boca fluíam estrelas e sonhos
que os homens clonados recolhiam
para alimentar os que haviam
perdido a capacidade de sonhar.
Da sua boceta negra emanava um cheiro de liberdade
razão pela qual todos compreenderam 
que ela fora amada por todos os revolucionários
que haviam escapado dos caixões de aço.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A VERDADE – Donatien Alphonse François - Marquês de Sade

Tradução de Magnólia Costa Santos

Mas que quimera é esta, estéril e impotente,
Que divindade é esta imposta à néscia gente
Por sacerdotes vis, cambada de impostores?
Quererão eles contar-me entre os seus seguidores?

Ah, jamais, juro-o, e não faltarei ao já dito,
Jamais ídolo tão repelente e esquisito
Esse que do delírio é filho e da irrisão
A mim me causará a mais leve impressão.

Eu, glorioso e feliz com o meu epicurismo,
Só pretendo expirar no seio do ateísmo
E que o infame Deus feito para me alarmar
Seja ideado por mim tão só para o blasfemar.

Minha alma te detesta, oh sim, vã ilusão,
E protesto-o aqui, pra tua convicção.
Quisera que existir pudesses por um momento
Pra gozar o prazer de insultar-te a contento.

De fato ele quem é, esse fantasma odioso,
Esse poltrão de Deus, esse ser horroroso
Que nada oferece ou mostra ao espírito e ao olhar,
Que faz tremer o parvo e o que é sábio zombar,

Que aos sentidos não fala e nem o entende alguém,
Cujo culto cruel mais sangue sempre tem
Feito correr que a guerra ou que Témis feroz
Em mil anos verter fizeram entre nós?

Deífico tratante, em vão eu o analiso
Com filósofo olhar, em vão o estudo e viso:
Não vejo no motor de tais religiões
Mais que um impuro nó de mil contradições,

Que cede e se desfaz mal a gente o encara,
O insulta à vontade, o ultraja, o declara
Gerado pelo temor e da esperança nascido,
Que o meu espírito jamais teria concebido;

Em alternância ele é, nas mãos dos que o erigem,
Objeto de terror, de alegria ou vertigem,
Que o astuto impostor que no-lo vem pregar
Faz sobre a vida humana a seu prazer reinar,

Que ora ruim o pinta, ora em bondade infindo,
Ora nos massacrando, ora de pai servindo,
Sempre lhe atribuindo, a mando das paixões,
Costumes como os seus, suas opiniões;

Ou a mão que perdoa ou a que nos entala,
Com este Deus idiota o padre nos embala.
Com que direito aquele que a mentira adstringe
Pretende submeter-me ao erro que o atinge?

Careço eu do Deus que a sábia mente abjura
Pra a mim mesmo explicar as leis da mãe natura?
Nela tudo se move, e o seu seio criador
Age sem precisar da ajuda dum motor.

Este duplo embaraço algo me dá a ganhar?
A causa do universo esse Deus vem mostrar?
Se cria, também é criado, e assim fico,
Em recorrer a ele como antes interdito.

Sai do meu seio, sai, infernal impostura,
Desaparecendo cede às leis da mãe natura:
Ela só tudo fez, tu és o nada hiante
Do qual, ao nos criar, sua mão nos pôs distante.

Desvanece-te, pois, execrável quimera!
Pra longes climas foge, abandona esta terra
Onde mais não verás que corações fechados
Ao patoá intrujão dos teus apaniguados!

Quanto a mim, reconheço, é tal e é tamanho,
Tão justo, grande e forte este horror que te tenho,
Que com prazer, Deus vil, e com tranqüilidade
Que digo eu? com enlevo e voluptuosidade,

Teu carrasco era eu se tua fraca existência
Oferecesse algum ponto à vingança, à violência,
E feliz o meu braço ia ao teu coração
Comprovar o rigor desta minha aversão.

Mas é trabalho vão pretender-te atingir,
A tua essência escapa ao que a quer coagir.
Não podendo esmagar-te, ao menos, entre os vivos,
Queria eu derrubar os teus altares nocivos

E mostrar aos que um Deus cativa inda por ora
Que esse aborto tão vil que sua fraqueza adora
Não é feito pra pôr algum termo às paixões.
Ó ímpeto sagrado, altivas impressões,

Sempre, sempre por nós sede homenageados:
Vós só podeis auferir o culto dos mais sábios,
Vós só seu coração constantes deleitar,
Dados pela natureza, vós só nos alegrar!

Ceda-se ao seu poder e que a sua violência,
Subjugando nossa alma alheia à resistência,
Nossos prazeres transforme em leis impunemente:
Basta ao nosso desejo o que a sua voz expende.

Por mais que à agitação seu órgão nos arraste
Há que ceder-lhes sem remorso e sem desgaste;
E, não escrutando leis nem costumes lembrando,
Ardentemente ao erro irmo-nos entregando,

Que sempre por suas mãos no-lo ditou natura.
Respeitemos tão só o que ela nos murmura;
O que a nossa lei vã fustiga em toda a terra
É, pra o que ela planeia, o que mais preço encerra.

O que ao homem parece uma injustiça atroz
Efeito da sua mão corruptora é em nós,
E quando – hábito nosso – ir errar receamos,
Acolhê-la melhor é o que enfim lucramos.

Essas doces ações a que vós chamais crime
Esses excessos que só o parvo ilegitima
São os desvios que mais lhe agradam ao olhar
Vícios, inclinações que a fazem deleitar;

O que ela grava em nós não é senão sublime;
Aconselhando o horror, oferece quem vitima.
É feri-la então sem medo e sem temor talvez
De ter, em lhe cedendo, obrado malvadez.

Vejamos como o raio em suas mãos fatais
Fulmina ao acaso e como os filhos e os pais,
Os templos, os bordéis, os crentes, os bandidos,
Tudo à natura apraz, carente de delitos.

Servimo-la nós também ao cometer o crime:
Mais nossa mão o espalha e mais aquela o estima.
Usemos do seu grande império sobre nós,
Entregando-nos sempre ao prazer mais atroz:

Defesas nunca são suas leis homicidas
E a violação, o incesto, o roubo, os parricídios,
Os gostos de Sodoma e o que Safo aprova,
O que ao homem faz mal ou o que o leva à cova

Tudo por certo é meio de lhe agradar.
Por terra os deuses pôr, o seu raio roubar
E destruir com ele, o dardo faiscante,
Tudo o que nos despraz num mundo horripilante.

Nada se poupe então: que as suas malvadezas
Sirvam de exemplo em tudo às nossas más proezas.
Sagrado, nada há: tudo neste universo
Deve ao jugo vergar do nosso vivo acesso.

Quanto mais aumentar, variar a perfídia,
Melhor a sentirá nossa alma decidida:
Dobrando, encorajando as nossas tentativas,
Leva-nos passo a passo às ações mais nocivas.

Os belos anos vão-se, ela chama por nós;
Dos deuses escarnecendo, ouçamos sua voz:
Pra nos recompensar, seu crisol espera já;
O que o poder tomou, necessidade dá.

Tudo ali se restaura e reproduz também.
Do grande e do pequeno a puta será mãe,
E todos veem iguais seu olhar amoroso,
O monstro e o celerado, o bom e o virtuoso.

MEUS SETE ANOS E UM TREM PERIGOSO... – Ana Maria Leandro

Eu tinha então sete anos e queria ir
sozinha na minha primeira vez na escola.
Mas mamãe zelosa tinha medo de deixar
e vivia a falar: espere crescer mais um pouco...

O problema é que eu nunca crescia.
E era um tempo que eu nem sabia
o que eram problemas de segurança...
Estupros, drogas, maldade? Nem nunca ouvira falar!

O reino de nosso quintal só tinha fadas e anjos
pra com a gente subir na goiabeira e no abacateiro.
A gente dava “bom dia” a carteiros, de cabeça para baixo
pendurados que estávamos num galho qualquer...

Mas eu insistia, que um dia conseguiria
andar sozinha, os mais ou menos três quilômetros
entre minha casa e a escola... Lugar que ia todo dia!
Passei a maior parte da minha vida nas escolas.

Um dia ela arrumou meus cachinhos
assim como está na foto:
em duas pencas amarradas com laços de fita.
Era sempre assim: eram cachos ou trancinhas...

Neste dia, enfim, ela disse que eu poderia ir só:
mas avisou "cuidado no caminho...
E veja se a cancela do trem está aberta,
pra você atravessar". Então entendi: o perigo era o trem!
E hoje nem trem mais tem...

Anos depois, já adulta, eu soube que ela
fora atrás, se escondendo atrás de carros,
muros e postes, qualquer coisa,
prá saber se nada mal estava me acontecendo...

Sucesso total cheguei sã e salva à escola!
E eu emocionei-me quando ela contou essa história...
Por que será que hoje, as crianças se perdem
em caminhos, que nem de escola são?

Não culpo as mães, não é fácil hoje dizer “não”.
Mas onde estamos nos escondendo?!...
Enquanto isto o mal se esparrama, mais veloz
do que trens, às claras pelos caminhos...

terça-feira, 28 de julho de 2015

ACLAMAÇÃO AO RECIFE – Luiz Eduardo Garcia Aguiar

Recife, tu me dás razão
Para desta cidade gostar...

Tua música, tua gente,
Teus ritmos, tua mistura
Teu folclore, teu carnaval de rua,
Teu sol, teu mar.
Recife, tu me dás razões
Para desta cidade gostar...

Beberibe, Capibaribe,
Bacia do Pina, Beira-mar,
Recife Antigo, Boa Vista,
Agamenon, Caxangá.
Teus coqueiros, teu clima,
Tuas frutas, frutos do mar,
Casa Forte, Imbiribeira,
Espinheiro, Cruz Cabugá.
Recife, tu me dás razões
Para desta cidade gostar...

Teus folguedos juninos,
Coco, ciranda, baião,
Maracatu, caboclinhos,
Xaxado, frevo, xote, bumba-meu-boi,
Alceu Valença, Chico Science,
 Gilberto Freyre, forró, Gonzagão,
Recife, tu me dás razões
Que me despertam admiração...

Apipucos, Aurora,
Graças, do Sol, Fundão,
Água Fria, Guararapes,
Dantas Barreto, do Brum,
Campo Grande, Rosarinho,
Estelita, Malakoff,
Recife, tu me dás razões
Que me despertam admiração...

Encruzilhada, Entroncamento,
Chora Menino, Derby, Bom Jesus,
Maciel Pinheiro, tuas pontes,
Treze de Maio, Museu Brennand,
Recife, tu me dás razões
Para desta cidade gostar...

GUERREIROS DA VERDADE - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

Acalme-se o tempo! Estamos vivos!
Apesar dos imbecis que nos cercam!
Apesar dos alienados que nos insultam!
Apesar da idade negra querendo retornar!
Acalme-se o tempo! Estamos vivos!
Estamos aptos para a luta!

Agora é que podemos cantar Vandré em voz alta
Afiando as palavras no dedilhar dos versos.
E para não dizer que não falei das flores
Acalmemos o tempo porque a vida permanece.

Apesar dos alienados e das mídias e dos religiosos
Acalme-se o tempo! Estamos mais vivos do que nunca
E dessa vez não irão roubar nossos sapatos!
Dessa vez não irão invadir nossas casas!
Dessa vez não irão catequizar nossos filhos!

Temos força e voz para gritar por nossas vidas
E temos as armas da verdade contra a ignomínia!
Calem-se os sinos das igrejas!
Calem-se os fundamentalistas!
Calem-se os alienados e retardados da política!
Os guerreiros da verdade estão nas ruas!

MINHA SERRA – Patativa do Assaré

Quando o sol nascente se levanta
Espalhando os seus raios sobre a terra,
Entre a mata gentil da minha serra
Em cada galho um passarinho canta.

Que bela festa! Que alegria tanta!
E que poesia o verde campo encerra!
O novilho gaiteia a cabra berra
Tudo saudando a natureza santa.

Ante o concerto desta orquestra infinda
Que o Deus dos pobres ao serrano brinda,
Acompanhada da suave aragem.

Beijando a choça do feliz caipira,
Sinto brotar da minha rude lira
O tosco verso do cantor selvagem.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

PESSOA – Koló Farias Eduão

Pessoa!
venha me consolar
a estrada não me espera
é tempo da nova era
de vera; mas vai passar.

Pessoa!
deixe a vida me levar
é hora de acontecer
tenho tudo pra fazer
se o vento me levar.

Pessoa!
eu quero subir o rio
e preciso do meu barco
é nele que eu embarco
na hora de navegar.

Pessoa!
não me deixe andar só
e se quiser uma companhia
eu sou versos e sou poesia
e a vida chama para amar

CASABLANCA – Ana Cristina César

Te acalma, minha loucura!
Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!
Este som de serra de afiar facas
não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardias...

Estas molas a gemer no quarto ao lado
Roberto Carlos a gemer nas curvas da Bahia
O cheiro inebriante dos cabelos na fila em frente no cinema...

As chaminés espumam pros meus olhos
As hélices do adeus despertam pros meus olhos
Os tamancos e os sinos me acordam depressa na
madrugada feita de binóculos de gávea
e chuveirinhos de bidê que escuto rígida nos lençóis de pano.

OS HOMENS NÃO SABEM O QUE É O AMOR (crônica) - Michel Houellebecq, in “As Partículas Elementares”

De forma geral, os homens não sabem o que é amor, é um sentimento que lhes é totalmente estranho. Conhecem o desejo, o desejo sexual em estado bruto e a competição entre machos; e depois, muito mais tarde, já casados, chegam, chegavam antigamente, a sentir um certo reconhecimento pela companheira quando ela lhes tinha dado filhos, tinha mantido bem a casa e era boa cozinheira e boa amante - então chegavam a ter prazer por dormirem na mesma cama. Não era talvez o que as mulheres desejavam, talvez houvesse aí um mal-entendido, mas era um sentimento que podia ser muito forte - e mesmo quando eles sentiam uma excitação, aliás cada vez mais fraca, por esta ou aquela mulher, já não conseguiam literalmente viver sem a mulher e, se acontecia ela morrer, eles desatavam a beber e acabavam rapidamente, em geral uns meses bastavam. Os filhos, esses, representavam a transmissão de uma condição, de regras e de um patrimônio. Era evidentemente o que acontecia nas classes feudais, mas igualmente com os comerciantes, camponeses, artesãos, de forma geral com todos os grupos da sociedade.

Hoje, nada disso existe. As pessoas são assalariadas, locatárias, não têm nada para deixar aos filhos. Não têm nada para lhes ensinar, nem sequer sabem o que eles poderão vir a fazer; as regras que conheceram não serão de todo aplicáveis a eles, porque eles viverão num mundo completamente diferente. Aceitar a ideologia da mudança permanente significa aceitar que a vida de um homem está reduzida estritamente à sua existência individual e que as gerações passadas e futuras não têm, aos seus olhos, nenhuma importância.

É assim que nós vivemos, e ter um filho, hoje, para um homem, já não faz qualquer sentido. O caso das mulheres é diferente, porque elas continuam a sentir a necessidade de terem um ser que amem – o que não é, nem nunca foi, o caso dos homens. É um disparate acreditar que os homens também têm necessidade de acarinhar e de brincar com os filhos, de lhes fazer festinhas. Por mais que no-lo digam, é um disparate. Depois de nos termos divorciado e de o quadro familiar se ter desfeito, as relações com os filhos perdem o sentido. Um filho é uma armadilha que se fechou, é o inimigo que temos de continuar a manter e que vai acabar por nos enterrar. 

DIA DE AÇÃO DE GRAÇAS, 28 DE NOVEMBRO DE 1986 - William Burroughs - Tradução de Leo Gonçalves

agradeço pelo peru selvagem e os pombos passageiros,
destinados a virar merda nas saudáveis tripas americanas.
agradeço por um continente a espoliar e envenenar.
agradeço pelos índios por garantirem
uma módica dose de desafio e perigo.
agradeço pelas vastas manadas de bisões
para matar e depelar e depois deixar as suas carcaças à putrefação.
agradeço pelos troféus de caça de lobos e coiotes.
agradeço pelo sonho americano,
por inventar lorotas até que elas brilhem à luz do dia.
agradeço pela klu klux klan
aos policiais que matam negros e os contabilizam.
às decentes beatas de igreja
com suas mesquinhas, interesseiras, feias e perversas caras.
agradeço pelos adesivos de
“mate uma bicha em nome de jesus cristo”.
agradeço pela aids de laboratório.
agradeço pela proibição e pela guerra contra as drogas.
agradeço por um país onde a ninguém
é permitido cuidar de seus próprios problemas.
agradeço por uma nação de dedos-duros.
agradeço, sim, todas as lembranças
– ok, deixa eu ver o que você tem nas mãos!
você foi sempre uma dor de cabeça e uma encheção de saco.
agradeço pela última e maior traição
do último e maior sonho dos sonhos humanos.

O UIVO - Allen Ginsberg

Eu vi os expoentes da minha geração, destruídos
Pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada
em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,
hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo
contato celestial com o dínamo estrelado da
maquinaria da noite,
que pobres esfarrapados e olheiras fundas, viajaram
fumando sentados na sobrenatural escuridão dos
miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando
sobre os tetos das cidades contemplando o jazz,
que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado
e viram anjos maometanos cambaleando iluminados
nos telhados das casas de cômodos,
que passaram por universidades com olhos frios e
radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz
de Blake entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos
& publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes com pintura
descascada em roupa de baixo queimando seu
dinheiro em cestos de papel escutando o Terror
através da parede,
que foram detidos em suas barbas púbicas voltando
por Laredo com um cinturão de marijuana para
Nova Iorque,
Que comeram fogo em hotéis mal pintados ou
Beberam terebentina em Paradise Alley, morreram ou
Flagelaram seus torsos noite após noite com
Som, sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília,
Álcool e caralhos em intermináveis orgias,
Incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula,
E clarão na mente pulando nos postes dos pólos de
Canadá & Paterson, iluminando completamente o
Mundo imóvel do Tempo intermediário,
solidez de Peite dos corredores, aurora de fundo de
quintal das verdes árvores do cemitério, porre de vinho
nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio
na luz cintilante de neon do tráfego na
corrida de cabeça feita do pazer, vibrações de
sol e lua e árvore no tronco de crepúsculo de
inverno de Brooklyn, declamações entre latas
de lixo e a suave soberana luz da mente,
que se acorrentaram aos vagões do metrô para o
infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx
de benzedrina até que o barulho das rodas e
crianças os trouxesse de volta, trêmulos, a boca
arrebentada o despovoado deserto do cérebro
esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do
Zoológico, que afundaram a noite toda na luz submarina
de Bickford´s, voltaram à tona e passaram a tarde
de cerveja choca no desolado Fuggazi´s escutando
o matraquear da catástrofe na vitrola
automática de hidrogênio,
que falaram setenta e duas horas sem parar do
parque ao apê ao bar ao Hospital Bellevue ao
Museu à Ponte do Brooklyn,
Batalhão perdido de debatedores platônicos saltando
Dos gradis das escadas de emergência dos parapeitos
Das janelas do Empire State da Lua,
Tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando fatos
E lembranças e anedotas e viagens visuais e choques
Nos hospitais e prisões e guerras,
Intelectos inteiros regurgitados em recordação total
Com os olhos brilhando por sete dias e noites,
Carne para a sinagoga jogada à rua,
Que desapareceram no Zen de Nova Jersey de
lugar algum deixando um rastro de postais ambíguos
do Centro Cívico de Atlantic City,
sofrendo suores orientais, pulverizações tangerianas
de ossos e enxaquecas da China por causa da
falta da droga no quarto pobremente mobiliado de Newark,
que deram voltas e voltas à meia noite no pátio da
ferrovia perguntando-se aonde ir e foram, sem
deixar corações partidos,
que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões
de carga, vagões de carga, que rumavam ruidosamente
pela neve até solitárias fazendas dentro da noite do avô,
que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz, telepatia
e bop-cabala pois o Cosmos instintivamente
vibrava a seus pés em Kansas,
que passaram solitários pelas ruas de Idaho procurando
anjos índios e visionários que eram anjos índios e visionários
que só acharam que estavam loucos quando Baltimore
apareceu em estase sobrenatural,
que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma
no impulso da chuva de inverno na luz das ruas
da cidade pequena à meia-noite,
que vaguearam famintos e sós por Huston procurando
jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol
brilhante para conversar sobre a América e a Eternidade,
inútil tarefa, e assim embarcaram
num navio para a África,
que desapareceram nos vulcões do México
nada deixando além da sombra das suas calças
rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas
pela lareira Chicago,
que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI
de barba e bermudas com grandes olhos pacifistas
e sensuais nas suas peles morenas, distribuindo
folhetos ininteligíveis,
que apagaram cigarros acesos nos seus braços
protestando contra o nevoeiro narcótico de
tabaco do Capitalismo,
que distribuíram panfletos supercomunistas em Union
Square, chorando e despindo-se enquanto as
Sinrenes de Los Alamos os afugentavam gemendo
mais alto que eles e gemiam pela Wall Street e
também gemia a balsa de Staten Island
que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos,
nus e trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,
que morderam policiais no pescoço e berraram de
prazer nos carros de presos por não terem cometido
outro crime a não ser sua transação pederástica e tóxica,
que uivaram de joelhos no metrô e foram arrancados do
telhado sacudindo genitais e manuscritos,
que se deixaram foder no rabo por motociclistas
santificados e berraram de prazer,
que enrabaram e foram enrabados por esses serafins
humanos, os marinheiros, carícias de amor
atlântico e caribeano,
que transaram pela manhã e ao cair da tarde em
roseirais, na grama de jardins públicos e cemitérios,
espalhando livremente seu sêmen para
quem quisesse vir,
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar
mas acabaram choramingando atrás de um tabique
de banho turco onde o anjo loiro e nu veio
trespassá-los com sua espada,
que perderam seus garotos amados para as três
megeras do destino, a megera caolha do dólar heterossexual,
megera caolha  que pisca de
dentro do ventre e a megera caolha que só sabe
sentar sobre sua bunda retalhando os dourados
fios intelectuais do tear do artesão,
que copularam em êxtase insaciável com um garrafa
de cerveja, uma namorada, um maço de cigarros, uma
vela, e caíram na cama e continuaram
pelo assoalho e pelo corredor e terminaram
desmaiando contra a parede com uma visão da
boceta final e acabaram sufocando
o derradeiro lampejo da consciência,
que adoçaram as trepadas de um milhão de garotas
trêmulas ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos
no dia seguinte mesmo assim prontos
para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas
nos celeiros e nus no lago,
que foram transar em Colorado num miríade de
carros roubados à noite, N.C., herói secreto destes
poemas, garanhão e Adônis de Denver – prazer
ao lembrar suas incontáveis trepadas com garotas
em terrenos baldios & pátios dos fundos de
restaurantes de beira de estrada, raquíticas fileiras
de poltronas de cinema, picos de montanha
cavernas com esquálidas garçonetes no
familiar levantar de saias solitário à beira da
estrada & especialmente secretos solipsismos de
mictórios de postos de gasolina
& becos da cidade natal também,
que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram
transportados em sonho, acordaram num
Manhattan súbito e conseguiram voltar com uma
Impiedosa ressaca de adegas de Tokay e horror
Dos sonhos de ferro da Terceira Avenida &
Cambalearam até as agências de desemprego,
Que caminharam a noite toda com os sapatos cheios
De sangue pelo cais coberto por montões de
Neve, esperando que uma porta se abrisse no
East River dando para um quarto cheio de vapor e ópio,
Que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos
De apartamentos do Huston à luz azul de holoforte
Antiaéreo da luta & suas cabeças receberão
Coroas de louro no esquecimento,
Que comeram o ensopado de cordeiro da imaginação
Ou digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos
Rios de Bovery,
Que choraram diante do romance das ruas com seus
Carrinhos de mão cheios de cebola e péssima música,
Que ficaram sentados em caixotes respirando a
escuridão sob a ponte e ergueram-se para construir
clavicórdios em seus sótãos,
que tossiram num sexto andar do Harlem coroando de
chamas sob um céu tuberculoso rodeados pelos
caixotes de laranja da teologia,
que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre
invocações sublimes que ao amanhecer amarelado
revelaram-se versos de tagarelice sem sentido,
que cozinharam animais apodrecidos, pulmão coração
pé rabo borsht & tortilhas sonhando com
o puro reino vegetal,
que se atiraram sob caminhões de carne
em busca de um ovo,
que jogaram seus relógios do telhado fazendo seu
lance de aposta pela Eternidade fora do Tempo
& despertadores caíram em suas cabeças por
Todos os dias da década seguinte,
Que cortaram seus pulsos sem resultado três vezes
Seguidas, desistiram e foram obrigados a abrir
Lojas de antiguidades onde acharam que estavam
Ficando velhos e choraram,
Que foram queimados vivos em seus inocentes
ternos de flanela em Madison Avenue no meio das
rajadas de versos de chumbo & o estrondo contido
dos batalhões de ferro da moda & os guinchos
de nitroglicerina das bichas da propaganda &
o gás mostarda de sinistros editores inteligentes
ou foram atropelados pelos taxis bêbados
da Realidade Absoluta,
que se jogaram da ponte de Brooklyn, isso realmente
aconteceu, e partiram esquecidos e desconhecidos
para dentro da espectral confusão das ruelas
de sopa & carros de bombeiros de Chinatown,
nem uma cerveja de graça,
que cantaram desesperados nas janelas, jogaram-se
da janela do metrô saltaram no imundo rio
Paissac, pularam nos braços dos negros, choraram
Pela rua afora, dançaram sobre garrafas
Quebradas de vinho descalços arrebentando
Nostálgicos discos de jazz europeu dos anos 30
Na Alemanha, terminaram o whisky e vomitaram
Gemendo no toalete sangrento, lamentações nos
Ouvidos e o sopro de colossais apitos a vapor,
Que mandaram brasa pelas rodovias do passado
Viajando pela solidão da vigília da cadeia de
Gólgota de carro envenenado de cada um ou então
A encarnação do Jazz de Birmingham,
Que guiaram atravessando o país durante setenta e duas
Horas para saber se eu tinha tido uma visão ao se ele tinha
Tido uma visão para descobrir a Eternidade,
Que viajaram para Denver, que morreram em Denver,
Que retornaram a Denver & esperaram em vão,
Que espreitaram Denver & ficaram parados pensando
& solitários em Denver e finalmente partiram
para descobrir o Tempo & agora
Denver está saudosa de seus heróis,
que caíram de joelhos em catedrais sem esperança
rezando por sua salvação e luz e peito até que a
alma iluminasse seu cabelo por um segundo,
que se arrebentassem nas suas mentes na prisão
aguardando impossíveis criminosos de cabeça
dourada e o encanto da realidade em seus corações
que entoavam suaves blues de Alcatraz,
que se recolheram ao México para cultivar um
vício ou às Montanhas Rochosas para o suave
Buda ou Tânger para os garotos do Pacífico Sul
para a locomotiva negra ou Havard para Narciso
para o cemitério de Woodlaw para a coroa
de flores para o túmulo,
que exigiram exames de sanidade mental acusando
o rádio de hipnotismo & foram deixados com sua
loucura & e mãos & um júri suspeito,
que jogaram salada de batata em conferencistas da
Universidade de Nova Iorque sobre Dadaísmo
e em seguida se apresentaram nos degraus de
granito do manicômio com cabeças raspadas e [
fala de arlequim dobre suicídio, exigindo lobotomia imediata,
e que em lugar disso receberam o vazio concreto da
insulina metrazol choque elétrico hidroterapia
psicoterapia terapia ocupacional pingue-pongue & amnésia,
Que num protesto sem humor viraram apenas uma
Mesa simbólica de pingue-pongue mergulhando
logo a seguir na catatonia,
Voltando anos depois, realmente calvos exceto por
Uma peruca de sangue e lágrimas e dedos
Para a visível condenação de louco nas celas da
Cidades-manicômio do Leste,
Pilgrim State, Rockland, Greystone, seus corredores
Fétidos, brigando com os ecos da alma, agitando-se
E rolando e balançando no banco de solidão à
Meia-noite dos domínios de mausoléu
Druídico do amor, o sonho da vida um
pesadelo , corpos transformados em pedras
tão pesadas quanto a lua,
com a mãe finalmente ***** e o último livro
fantástico atirado pela janela do cortiço e a última
porta fechada às 4 da madrugada e o último
telefone arremessado contra a parede em
resposta e o último quarto mobiliado esvaziado até
a última peça de mobília mental, uma rosa de papel
amarelo retorcida num cabide de arame do armário
e até mesmo isso imaginário, nada mais
que um bocadinho esperançoso de alucinação –
ah, Carl, enquanto você não estiver a salvo eu não
estarei a salvo e agora você está inteiramente
mergulhado no caldo animal total do tempo –
e que por isso correram pelas ruas geladas obcecadas
por um súbito clarão da alquimia do uso da elipse
do catálogo do metro inviável & do plano vibratório,
que sonharam e abriram brechas encarnadas no
Tempo & Espaço através de imagens justapostas
E capturaram o arcanjo da alma entre 2 imagens
Visuais e reuniram os verbos elementares e
Juntaram o substantivo e o choque da consciência
Saltando numa sensação de Pater Omnipotens Aeterne Deus,
Para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa
Humana e ficaram parados à sua frente, mudos e
Inteligentes e trêmulos de vergonha, rejeitados
Todavia expondo a alma para conformar-se ao
Ritmo do pensamento em sua cabeça nua e infinita,
O vagabundo louco e Beat angelical no Tempo,
Desconhecido mas mesmo assim deixando aqui
o que houver para ser dito no tempo após a morte,
e se reergueram reencarnados na roupagem
fantasmagórica do jazz no espectro de trompa
dourada da banda musical e fizeram soar o
sofrimento da mente nua da América pelo
amor num grito de saxofone de eli eli lama lama
sabactani que fez com que as cidades tremessem
até seu último rádio,
com o coração absoluto do poema da vida arrancado
de seus corpos bom para comer por mais mil anos

II

Que esfinge de cimento e alumínio arrombou seus
Crânios e devorou seus cérebros e imaginação?
Moloch! Solidão! Sujeira! Fealdade! Latas de
Lixo o dólares intangíveis! Crianças berrando
sob as escadarias! Garotos soluçando nos
exércitos! Velhos chorando nos parques!
Moloch! Moloch! Pesadelo de Moloch! Moloch o
mal-amado! Moloch mental! Moloch o pesado juiz dos homens!
Moloch a incompreensível prisão! Moloch o
Presidio desalmado de tíbias cruzadas e o Congresso
Dos Sofrimentos! Moloch cujos prédios são
Julgamento! Moloch a vasta pedra da guerra!
Moloch os governos atônitos! Moloch
Cuja mente é pura maquinaria! Moloch cujo
Sangue é dinheiro corrente! Moloch cujos
Dedos são dez exércitos! Moloch cujo peito é
Um dínamo canibal! Moloch cujo ouvido é
Um túmulo fumegante!
Moloch cujos olhos são mil janelas cegas! Moloch
Cujos arranha-céus jazem ao longo de ruas como
Infinitos Jeovás! Moloch cujas fábricas sonham
E grasnam na neblina! Moloch cujas colunas de fumaça
E antenas coroam as cidades!
Moloch cujo amor é interminável óleo e pedra!
Moloch cuja alma é eletricidade e bancos!
Moloch cuja pobreza é o espectro do gênio!
Moloch cujo destino é uma nuvem de hidrogênio
Sem sexo! Moloch cujo nome é a Mente!
Moloch em que permaneço solitário! Moloch em
Que sonho com anjos! Louco em Moloch!
Chupador de caralhos em Moloch! Mal-amado
E sem homens em Moloch!
Moloch que penetrou cedo na minha alma! Moloch
Em quem sou uma consciência sem corpo!
Moloch que me afugentou do meu êxtase natural!
Moloch a quem abandono! Despertar em Moloch!
Luz escorrendo do céu!
Moloch! Moloch! Apartamentos de robôs! Subúrbios
Invisíveis! Tesouros de esqueletos! Capitais cegas!
Indústrias demoníacas! Nações espectrais! Invencíveis hospícios! Caralhos de granito! Bombas monstruosas!
Eles quebraram suas costas erguendo Moloch ao Céu!
Calçamento, arvores, rádios, toneladas! Levantando
A cidade ao Céu que existe e está em todo lugar
ao nosso redor!
Visões! Professias! Alucinações! Milagres! Êxtases!
Descendo pela correnteza do rio americano!
Sonhos! Adorações! Iluminações! Religiões! O
Carregamento todo em bosta sensitiva!
Desabamentos! Sobre o rio! Saltos e crucificações!
Descendo a correnteza! Ligados! Epifanias!
Desesperos! Dez anos de gritos animais e suicídios!
Mentes! Amores novos! Geração louca! Jogados
Nos rochedos do Tempo!
Verdadeiro riso no santo rio! Eles viram tudo! O olhar
selvagem! Os berros sagrados! Eles deram adeus!
Pularam do telhado! Rumo à solidão! Acenando! Levando
flores! Rio abaixo! Rua acima!

III

Cal Solomon! Eu estou com você em Rockland
onde você está mais louco do que eu
Eu estou com você em Rockland
onde você deve sentir-se muito estranho
Eu estou com você em Rockland
onde você imita a sombra da minha mãe
Eu estou com você em Rockland
onde você assassinou suas doze secretárias
Eu estou com você em Rockland
onde você ri desse humor invisível
Eu estou com você em Rockland
onde somos grandes escritores na mesma
abominável máquina de escrever
Eu estou com você em Rockland
onde seu estado se tornou muito grave e é
noticiado pelo rádio
eu estou com você em Rockland
onde as faculdades do crânio não agüentam
mais os vermes dos sentidos
Eu estou com você em Rockland
onde você bebe o chá dos seios das solteironas de Utica
eu estou com você em Rockland
onde você bolina os corpos das suas
enfermeiras as harpias do bronx
Eu estou com você em Rockland
onde você grita de dentro de uma camisa de
força que está perdendo o verdadeiro jogo
de pingue-pongue do abismo
Eu estou com você em Rockland
onde você martela o piano catatônico a alma
é inocente e imortal e nunca poderia morrer
impiamente num hospício armado,
Eu estou com você em Rockland
onde com mais de cinqüenta eletrochoques
sua alma nunca mais retornará a seu corpo de
volta de sua peregrinação rumo a uma cruz no vazio
Eu estou com você em Rockland
onde você acusa seus médicos de loucura e
prepara a revolução socialista hebraica contra
o Gólgota nacional e fascista
Eu estou com você em Rockland
onde você rasga os céus de Long Island e faz
surgir seu Jesus vivo e humano do túmulo sobre-humano
Eu estou com você em Rockland
onde há mais de vinte e cinco mil camaradas
loucos todos juntos cantando os versos finais da
Internacional
Eu estou com você em Rockland
onde abraçamos e beijamos os Estados Unidos
sob nossas cobertas Estados Unidos que
Tossem a noite toda e não nos deixam dormir
Eu estou com você em Rockland
onde despertamos eletrocutados do coma pelos
nossos próprios aeroplanos da mente roncando
Sobre o telhado eles vieram jogar bombas
angelicais o hospital ilumina-se paredes imaginárias
desabam Ó legiões esqueléticas correi para fora
Ò choque de misericórdia salpicado de estrelas
a guerra eterna chegou
Ó vitória esquece tua roupa de baixo estamos livres
Eu estou com você em Rockland
nos meus sonhos você caminha gotejante de volta
de uma viagem marítima pela grande rodovia que
atravessa a América em lágrimas até a porta do
meu chalé dentro da Noite Ocidental.