sábado, 16 de janeiro de 2016

TRÊS SONETOS METAFÍSICOS – Cláudio Aguiar

I
Por que gostamos tanto do passado? 
A interrogante leva-me a pensar
no segredo que fica em si guardado,
que não sei se algum dia vou achar.

Perdido na palavra ou termo dado,
sempre o presente vive a deslizar
em busca do impossível já pensado
ou do que não se pode desvendar:

os três instantes num sopro da vida,
que poderia até vê-la esquecida,
no que será ou já foi existente.

O melhor é não mais perder o tempo,
ainda que eu resuma num momento
o passado e o futuro no presente.


II
Quanto mistério tem a flor guardado,
pois, desde sempre, desafia a mente 
dos que desejam descobrir o dado
oculto no desvão duma semente.

E como o pólen nela está cravado,
dele o áspide mau tira somente
o venenoso, enquanto o mel levado
por uma abelha logo se pressente.

Quem tudo sabe pouco talvez veja.
Quem nada sabe afronta sua verdade
ou seu direito de bem percebê-la.

Que o mistério segredo sempre seja
para que nunca o mal vença a bondade,
impondo a morte à vida sem querê-la.

III
Algo há nas flores que acalentam feras, 
chamando abelhas vivas do sereno
para as tocarem, há perdidas eras,
nunca alterando forma nem aceno.

É preciso viver as primaveras
para sentir o gestual e ameno, 
esforço feito, sol florindo esperas,
elaborando o bom mel e o veneno.


Há nelas algo que esconde o mistério,
fazendo com que a abelha encontre o mel
no mesmo pólen que o áspide tira

o veneno letal, momento sério,
grito de morte, do holocausto ao fel,
que cega os olhos, apagando a pira.

Um comentário:

  1. Cá estou eu em 2016 apreciando a poesia
    inserida neste blogue.
    Os meus cumprimentos a todos os poetas vivos
    e ao autor deste blogue.
    Irene Alves

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