sábado, 24 de setembro de 2016

TRANSEUNTE VIAJANTE - Rafael Rocha

Do livro “Poemas Escolhidos”

Quando da mente e do corpo a paixão expira
a esperança morre como o ator que se retira
de um palco vazio sem plateia alguma.
Resta no teatro da vida apenas dissabor
e o enredo que um dia chamamos de amor
dissolvido em eterna e merencória espuma.

Atores estão lutando ainda com perseverança
acreditando (simplórios) que a esperança
está viva e novas alegrias irão nascer.
Esqueceram a tempestade a levar o navio
a naufragar no delta do oceano vindo de um rio
onde a barca de Caronte navega ao entardecer.

E no estio do tempo na busca de aventuras
os poetas criam versos repletos de obscuras
ilusões antigas a matar sonhos de glórias.
Voltam os olhos ao passado e só restam lágrimas
na revelação da dor maior de suas rimas
e nas saudades débeis mentais de suas histórias.

Eis meu corpo aqui de transeunte viajante
tentando recriar a trilha do comediante
para a plateia imbecil gargalhar e sonhar.
Só não posso mais mergulhar em repouso
meus versos querem agora o ritmo poderoso
da correnteza que me leva direto para o mar.

Assim no vazio do teatro eis a peça inédita
saindo da voz do ator como se fosse uma prédica
ao mundo louco e maldito onde a vida cresceu:
sem motivos de ser e encaminhada à morte,
sem deuses para crer, mas a se fazer consorte
do frio a enregelar o amor que feneceu.

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