segunda-feira, 20 de novembro de 2017

AMOR FEINHO – Adélia Prado



Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.

DISTÂNCIAS – Paul Celan

Tradução: Claudia Cavalcanti

Olho no olho, no frio,
deixa-nos também começar assim:
juntos
deixa-nos respirar o véu
que nos esconde um do outro,
quando a noite se dispõe a medir
o que ainda falta chegar
de cada forma que ela toma
para cada forma
que ela a nós dois emprestou.

sábado, 28 de outubro de 2017

DOMÍNIO DO ESPAÇO – Antonio Carlos Gomes

Falar
É nomear sentimentos
Catalogar objetos.

Criar arabescos
Em formas verbais
Separar o bem e o mal.

Balbuciar
Amor e medo
Delimitando espaços:
- Dizer amo ou odeio
Nada mais.

NOSTALGIA – Valdeci Ferraz

Onde está aquele olor inebriante
que tornava a emoção tão comestível
como as pétalas de uma rosa branca?
Onde estão aquelas notas
que de tão harmoniosas
geravam rios de lágrimas e arco-íris inversos?
Onde está aquela luz
que emanava dos nossos corpos
despertando as estrelas
tornando nossas noites muito mais iluminadas?
Onde se escondeu o beijo
que não aconteceu
e tornou mágica a manhã de abril?

Em alguma esquina,
na ponta de um iceberg,
no topo de um mastro,
nas brumas de um sonho
alguém encontrará o nosso cheiro.
E por ele se guiará ao paraíso,
pois diante de nossos olhos desfilam os mortos,
enquanto os vivos vagueiam
na neblina de sua existência medíocre.

Eles voltam para refazer a sua história
que alguém não registrou como devia
ou morreu antes de escrevê-la.
Nas ruas se erguem paliçadas
para barrar o inevitável,
enquanto os mísseis cruzam o ar
e o homem da caneta de ouro distribui migalhas.

Onde está o violão
que fumegava tarântulas assustadoras
sobre a mesa do homem nu?
Onde estão os guardanapos
sobre os quais os poetas escreviam as suas profecias
embriagados de cerveja e sexo?

No tempo que se fez de chumbo
ergueram-se as baionetas
e amordaçaram o espantalho que vigiava o campo.
E veio a noite e veio o dia
as aves do céu devoraram o fígado do espantalho
enquanto Quíron dormia
sob as marquises dos velhos pardieiros.

O que fizeram dos corrimãos de sonhos dourados?
O que fizeram dos caracóis alados?
Cadê o meu cavalo de pau?
As ruas estão desertas ou repletas de homens vazios
embora conduzam o mundo nas mãos.

domingo, 22 de outubro de 2017

NO CORREDOR DA MORTE - Talis Andrade

Do livro A Partilha do Corpo

Não há neste mundo
uma palavra de compaixão
para os que sofrem
Todos sabem quanto dói
o abandono a solidão
o desamor. Todos sabem
Todos temem a morte

Todos se afastam dos velhos
dos moribundos
Todos sentem
do corpo exânime
o odor nauseabundo

ÉRATO – Marcus Accioly (1943/2017)

“por detrás o prazer é diferente
do gozo pela frente" (diz) e a boca
suplica ("mais") aí toda a carne é pouca
para todo o desejo (pela frente
o amor no Próprio amor se satisfaz)
mas é diverso o coito por detrás
da fêmea (é como os animais copulam)
existe um cio por detrás (um jeito
de pegar os cabelos quando ondulam
suas crinas) que o gozo insatisfeito
precisa de mais gozo para ser
em sua plenitude ou gozar mais
(se uma só vez o amor acontecer
é preciso que seja por detrás)

domingo, 1 de outubro de 2017

OUTUBRO – Rafael Rocha

No dia em que o fogo queimou as plantas.
No dia em que a água dançou no ar.
No dia em que a terra gritou pelo vento:
- Nasceu um poeta!

Tornou-se o dia de embelezamento das palavras.
Tornou-se o dia de abrir todos os livros.
Tornou-se o dia de enfeitar a atmosfera
com uma canção incomum.

O acaso trouxe o sangue à esfera
de um cérebro vivo e rutilante.
E as horas e os minutos e os segundos fizeram a reverência
igual àquela que se faz a um rei.

Às catorze horas de um sábado
hoje mais remoto que o primeiro sábado da idade da pedra
a carne se fez em paixão e inteligência
em plena tarde.

No dia em que o vento girava pela terra.
No dia em que o ar musicava as águas.
No dia em que as plantas apagavam o fogo
a vida tornava-se poema.

Era apenas o primeiro dia de outubro
tão comum como qualquer outro dia.
Era o meu!

terça-feira, 19 de setembro de 2017

DE AMOR NADA MAIS RESTA QUE UM OUTUBRO – Natália Correia

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

O SELVAGEM – Antonio Gomes Leal

Eu não amo ninguém. Também no mundo
Ninguém por mim o peito bater sente,
Ninguém entende meu sofrer profundo,
E rio quando chora a demais gente.

Vivo alheio de todos e de tudo,
Mais calado que o esquife, a morte e as lousas,
Selvagem, solitário, inerte e mudo,
- Passividade estúpida das Cousas.

Fechei, de há muito, o livro do Passado
Sinto em mim o desprezo do Futuro,
E vivo só comigo, amortalhado
N'um egoísmo bárbaro e escuro.

Rasguei tudo o que li. Vivo nas duras
Regiões dos cruéis indiferentes,
Meu peito é um covil, onde, às escuras,
Minhas penas calquei, como as serpentes.

E não vejo ninguém. Saio somente
Depois de pôr-se o sol, deserta a rua,
Quando ninguém me espreita, nem me sente,
E, em lamentos, os cães ladram à lua...

BALADA DE SEMPRE – Fernando Namora

Espero a tua vinda
a tua vinda,
em dia de lua cheia.

Debruço-me sobre a noite
a ver a lua a crescer, a crescer...

Espero o momento da chegada
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas...

Rasgarás nuvens de ruas densas,
Alagarás vielas de bêbados transformadores.
Saltarás ribeiros, mares, relevos...
- A tua alma não morre
aos medos e às sombras!-

Mas...,
Enquanto deixo a janela aberta
para entrares,
o mar,
aí além,
sempre duvidoso,
desenha interrogações na areia molhada...

ELOGIO DA DISTÂNCIA – Paul Celan

 Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno
 
Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.

Aqui, coração
que andou entre os homens, arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:

Mais negro no negro, estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.

Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.

Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.

Na fonte dos teus olhos
um enforcado estrangula o baraço.

A MACHADO DE ASSIS – Ruben Dário

Traduzido por Anderson Braga Horta

Doce ancião que vi, em seu Brasil repleno
de fogo e vida e amor, todo graça e eutimia.
Moreno que da Índia teve a aristocracia;
aspecto mandarino, língua de sábio heleno.
Aceita esta lembrança de quem ouviu uma tarde
em teu divino Rio tua palavra nobre,
dando ao orgulho todos os farrapos em que arde,
e à inveja ruim o que apenas a cobre.

AMOR DE TARDE – Mario Benedetti

Tradução Julio Luiz Gehlen

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer “e aí?” e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

VOZES – Prisca Agustoni

Tempo e espaço
não me limitam.
A procura
me avizinha ao mundo.

A moça espera
quem nunca partiu,
depois abraça
o que nunca chegou.

Minha palavra
é explosão de argila.

DESENCANTO – Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento , de desencanto
Fecha meu livro se por agora
Não tens motivo algum de pranto

Meu verso é sangue , volúpia ardente
Tristeza esparsa , remorso vão
Dói-me nas veias amargo e quente
Cai gota à gota do coração.

E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre
Deixando um acre sabor na boca

Eu faço versos como quem morre.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

EU LAVO A CAMISA – Anna Swir

Tradução de Pedro Gonzaga

Pela última vez lavo a camisa
do meu pai morto.
A camisa cheira a suor. Lembro
desse suor de minha infância,
por tantos anos
lavei suas camisas e roupas de baixo,
sequei-as
junto ao fogão à lenha na garagem,
ele que as vestia sem passar.
Entre todos os corpos do mundo,
animais, humanos,
apenas um exsudava aquele suor.
Inalei-o
pela última vez. Ao lavar esta camisa
destruí-o
para sempre.
Agora
de meu pai restam apenas os quadros
que cheiram a óleo.

DERROTA – Adam Zagajewski

Tradução de Aleksandar Jovanović

De fato conseguimos viver nas derrotas.
As amizades aprofundam-se o amor esperto ergue a cabeça.
Até as coisas se tornam limpas.
As andorinhas brincam no ar instaladas sobre o abismo.
As folhas dos álamos tremulam.
As aparições escuras do inimigo projetam-se
contra a base brilhante da esperança.
A coragem cresce.
Eles, dizemos deles, nós, de nós, tu, de mim.
O chá amargo agrada como uma profecia bíblica.
Tomara que a vitória não nos surpreenda.

O LIVRO ESCURO (I) - Mar Becker

isadora duncan aparece em meu espelho
no lugar de mim
então me olha
e mostra
a língua. demoro a perceber que é uma língua
em forma de ponteiro de relógio
(o que falta em meu próprio relógio, na parede da cama)
*
vai até a cozinha
eu sigo
o gás atravessa a mangueira discreta
e pacientemente, como um segredo entre gerações.
lembro que esse é o gás com que sylvia plath se suicidou
e que sylvia plath é a poeta que cita a echarpe
de isadora duncan
num poema que se chama
"40 graus de febre"
*
o silvo: a válvula-vulva da panela de pressão
girando
*
o ponteiro nenhum do relógio, girando
o corpo e o sangue
a roda do conversível

sábado, 19 de agosto de 2017

HOMEM PEQUENINO-Alfonsina Storni

Tradução de Héctor Zanetti
Homem pequenino, homem pequenino,
solta teu canário que quer voar…
Eu sou teu canário, homem pequenino,
deixa-me saltar.

Estive na tua gaiola, homem pequenino,
homem pequenino que gaiola me dás.
Digo pequenino porque não me entendes,
nem me entenderás.

Também não te entendo, mas enquanto isso
abre-me a gaiola que quero escapar;
Homem pequenino, te amei meia hora,
não me peças mais.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

TODO TOCAR É UMA CANÇÃO - Carla Carbatti

enquanto acordo os pássaros
a mãe tece a mortalha do anoitecer
agora estamos fora
na linha curvilínea de uma folha que chora

que farei com minhas mãos
depois de tocarem aquilo que não se toca?

todo tocar é uma canção
- murmulha a mãe entre seus galhos e rascunhos
é isso que se perde, minha filha

e sua voz vibra as águas do meu punho

terça-feira, 15 de agosto de 2017

DA PAZ - Marcelino Freire (Pernambucano natural da cidade de Sertânia)


Eu não sou da paz.
Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. Não solto pomba nenhuma, não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça.
Uma desgraça.
Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para aonde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquela atriz? No trio elétrico, aquele ator?
Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não.
Não vou.
A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo.
A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue.
Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Eu não abro. Eu não deixo entrar. A paz está proibida. Proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida. Viu? Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem? A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém. Não vou.
Não vou.
Sabe de uma coisa: eles que se lasquem. É. Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou? Vou fazer mais o quê, hein?
Hein?
Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida. Marchar não vou, muito menos ao lado de polícia. Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. Uma saudade. Sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim. Uma dor. Dor. Dor. Dor.
Dor.
A minha vontade é sair gritando. Urrando. Soltando tiro. Juro. Meu Jesus! Matando todo mundo. É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. Todo mundo. Mas a paz é que é culpada. Sabe?
A paz é que não deixa.

sábado, 5 de agosto de 2017

SONETO AO ANJO - Sosígenes Costa

Por tua causa o meu jardim fechou-se
às mulheres que vinham buscar lírios,
quando o poente cor-de-rosa e doce
punha pavões nos capitéis assírios.

Teu beijo como um pássaro me trouxe
o mais azul de todos os delírios.
Por tua causa o meu jardim fechou-se
às mulheres que vinham buscar lírios.

Só tu agora colhes azaleia
e os cintilantes cachos da azureia,
mágica flor que em meu jardim nasceu.

Só tu verás os lírios cor da aurora.
Meu pavão dormirá contigo agora
e o meu jardim dourado agora é teu.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

TOMAR CATUABA COM VOCÊ – Regina Azevedo

Tomar catuaba com você
é ainda mais tesudo
que ir a Hellcife, Natal, Fortaleza
ou ficar sequelado de 51 na Lapa

em parte por dançar forró com um mendigo suado
em parte por você ser o boy com o quadril mais eficiente do mundo
em parte por causa do meu amor por você
em parte por causa do seu amor por maconha
em parte por causa dos ipês albinos na estrada de Brasília

é difícil de acreditar quando estou com você
na existência de algo tão inerte
tão inodoro e ao mesmo tempo tão putrefato
quanto o atual Presidente da República

Nós andamos entre as fantasias da nossa canção
e de repente você se pergunta por que caralhos
alguém construiria um edifício atrapalhando o carnaval
Eu imagino o desmoronamento de um arranha-céu
e eu prefiro assistir ao acontecimento
de um desastre natural refletido nos seus olhos
Eu prefiro ver o seu sorriso diante de um maremoto
diante da falência da agroindústria ou das imobiliárias
a ver qualquer quadro pós-impressionista
exceto talvez Lautrec porque quando eu danço com você
eu não preciso fechar os olhos pra dançar com a melhor pessoa do mundo

Tomar catuaba com você
é ainda mais tesudo
que te assistir tragando um míssil
que ouvir você falando da potência das flores
que reposicionar a cama no lugar
que tropeçar e te encontrar
repetindo a palavra calma
enquanto o vento nos dá um sacode
e você diz que sente
a primavera fazendo cócegas
em nossas barrigas

EDUCAÇÃO DO CACIQUE – Pablo Neruda (*)

Lautero era uma flecha delgada
elástico e azul foi o nosso pai.
Foi sua primeira idade só silêncio.
Sua adolescência foi  domínio.
Sua juventude foi um vento dirigido.
Preparou-se como uma longa lança.
Acostumou os pés nas  cachoeiras.
Educou a cabeça nos espinhos.
Executou as provas do guanaco.
Viveu pelos covis da neve.
Espreitou as águia comendo.
Arranhou os segredos no penhasco.
Entreteve as pétalas do fogo.
Amamentou-se da primavera fria.
Queimou-se nas gargantas infernais.
Foi caçador entre as aves cruéis.
Tingiram-se de vitória as suas mãos.
Leu as agressões da noite.
Amparou o desmoronamento do enxofre.
Se fez velocidade, luz repentina.
Tomou as vagarezas do outono.
Trabalhou nas guaridas invisíveis.
Dormiu sobre os lençóis da nevasca.
Igualou-se à conduta das flechas.
Bebeu o sangue agreste dos caminhos.
Arrebatou o tesouro das ondas.
Se fez ameaça  como um deus sombrio
Comeu  em cada cozinha de seu povo.
Aprendeu o alfabeto do relâmpago.
Farejou as cinzas espalhadas.
Envolveu o coração de peles negras.
Decifrou o frio espiral do fumo.
Construiu-se de fibra, taciturno.
Azeitou-se como a alma da azeitona.
Fez-se cristal de transparência dura.
Estudou para vento furacão.
Combateu-se até apagar o sangue.

E só então foi digno de seu povo.

 (*) A Educação do Cacique poema  copiado do livro “Canto Geral”, do poeta Pablo Neruda (1904-1973),  tradução de Paulo Mendes Campos.