sábado, 25 de março de 2017

O BORDADO CRUEL - Alexei Bueno


Quando era noite, atrás daquela porta,
junto a uma vela duas velhas riam
Matando aos poucos uma aranha torta.

E a alegria que elas dividiam
Poucos tiveram já no mundo um dia,
Mas os que a achavam sempre a bendiziam.

Cheia de medo, a criatura fria
Dançava horrível rente de uma chama
Que lentamente o corpo lhe roía,

E as velhas rindo a observar da cama
Iam falando sobre de que modo
Com dor mais lenta um corpo vil se inflama.

Espécie estranha de um vivente lodo,
Sendo corcunda e só com sete pernas
A aranha uivava por seu corpo todo

Que se expandia em inchações externas
Causando às velhas, com o vermelho horrendo
Do seu ardor, as sensações mais ternas…

Emocionadas, com as mãos tremendo,
Vieram então com um bando de alfinetes
Que em cada pata foram se prendendo,

E a aranha presa de mil cacoetes
Foi só os espinhos de uma prata ardente
Que a recobria em infernais coletes.

E nesta arte foram indo em frente,
Depois agulhas, e um perfume ardido,
E ao fim de tudo uma tesoura ingente,

Até que o fogo e o animal vencido
Murcharam juntos sobre a mesa irada
Em mil pedaços de um negror transido,

E ambas as velhas, conhecendo o nada,
Com face imensa devoraram tudo
Que lhes restava da fatal jornada.

Enquanto, a olhá-las, um retrato mudo
De seu marido ia chorando as dores
Que o recobriam no ancestral escudo,

E todo o chão ia se abrindo em flores
E uma criança, que ninguém notara,
Pela janela olhava sem temores

E ia crescendo, e de uma forma rara,
Enquanto as velhas, enxugando as portas,
Varriam tétricas, na noite clara,

Todo o amargor das profecias mortas!


AMANHECIMENTO – Elisa Lucinda

De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
Para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada…
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.

quinta-feira, 23 de março de 2017

DOS MEUS 67 ANOS EM DIANTE - Rafael Rocha

Do livro “Poemas Escolhidos”

Além do que pude ser gente tão jovem
buscando uma espaçonave na internet
para o voo interestelar entre planetas
com o Capitão Kirk no comando
da grandiosa nave Enterprise
tendo ao lado o orelhudo Spock
para me espelhar na sua lógica.

Dos meus 67 anos em diante
vou recordar coisas distantes e do antes
tentar atingir as nuvens
buscar sentir as paisagens
coisas de quando ainda
nem cabelos brancos tinha.
Histórias fantásticas que ninguém escreveria.

Dos meus 67 anos do antes para o adiante
tentei até escrever um blog na internet
sobre quando ainda nem possuía
uma história de gente.
De quando ainda escrevia
odes tímidas dedicadas às papoulas vermelhas
da casa dos meus velhos pais
em um bairro proletário.

Dos meus 67 anos em diante a vir do antes
vejo a mulher dormindo nua
sem oferecer promessas certas
para usufruir a carne crua.
Faço do espaço do tempo sexagenário
em diante e mais adiante e adiante mais
o que possa caber de poemas sobre a lua
bebendo a minha cerveja em algum bar da minha rua.

Além do que pude ser:
intelectual radical de mim com amigos radicais de si
com tantos espaços ilimitados
para imaginar os efeitos do que fazer dos meus 67 anos
de agora em diante e adiante lembrando o antes.
Como bem disse Pessoa
“O poeta é um fingidor”...
Vamos fingir!

“Filhos, filhos, filhos
melhor não tê-los”
disse Vinicius.
“Mas se não os temos como sabê-los?”
Como sofrer por eles quando velhos?
E esperá-los quase inerte
olhando relógios nos espelhos
a pensar se eles e eu somos iguais
e de onde a vida lhes traz
vertiginosos perigos?

Dos meus 67 anos em diante
não pretendo dissertar coisas amáveis.
Eu não sei os anos da frente.
Sei os 67 anos de antes
e as aventuras loucas concebidas
sem permissão de ninguém.
Conhecendo a dama de vermelho.
Trepando com a dama de vermelho.
Amando a dama de vermelho
com o consentimento do amigo.

Dos meus 67 anos em diante
não poderei dissertar história alguma
mas dos 67 anos do antes
lembro dos meus aniversários e das festas
de quando a minha mãe era a mulher mais bela
de quando o meu pai era meu indiscutível herói
de quando meus irmãos eram destinos
afetivos e amorosos e amigos
a cada passo de cada um e ao passo de todos.

Saudades!
Eram carnavais que nos faziam a vida
ser a cada dia mais relampejante.
Eram bocas iguais à boca da Regina
aquela fantasia feita de primeiro amor
que só beijei em uma noite de folia
sob a marchinha da lua cantada por Ângela Maria.

Saudades!
Eram fugitivos dias nas praias da cidade.
Doses de vodca com laranjas (coisas especiais).
Saudades!
Eram toques das mãos da piniqueira Suely
antes de a gente ser profissional de punheta
atacados por maruins nos canaviais.

Dos meus 67 anos para o agora em diante
melhor dissertar os anos distantes
faltam poucas coisas para ver o sol poente.
Mas ainda faço um brinde
encho meu copo com a mais espumosa cerveja
e grito: Evoé, Baco!
E o mundo ainda me responde!
Evoé! Evoé!

Dos meus 67 anos para o agora em diante
sentindo as recordações distantes
hoje posso morrer sem medo
e usufruir as coisas proibidas
e gritar bem alto e de bom som
para os idiotas acadêmicos:
– Vão tomar no cu! –

Dos meus 67 anos para o agora em diante
eu sou dono de toda a minha história.
Busco a sabedoria como um Lama!
Sou revolução como um Guevara!
E, simplesmente, sou um homem!
Ainda estou vivo!

Desce à Terra a nave Enterprise.
Nosso mundo não está perdido.
Eu estou no comando junto com meu amigo. 
O mundo jamais vai se acabar!

sexta-feira, 10 de março de 2017

GUARDAR - Antonio Cicero


Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem voos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

MANUAL DA MÁQUINA CDA - Armando Freitas Filho

A máquina é de pedra e pensamento.
Funciona sem água, deslizando
seu lençol de laje e lembrança
aberto e desperto por natureza.
Tem por motor o atrito, a tração
a alavanca que levanta quem lê
e o modela, diferente, a cada passada
pois se faz também diversa:
novos perfis que se enfrentam
assimétricos, e que não esperam
o encaixe certo, feito à regua
mas o impossível, irregular, sem
efes-e-erres, com recortes irritados
se aproximando, como no boxe -
através do choque, onde se juntam -
íntimos, podendo parecer ternos
apesar dos dentes, roldanas, o amor
arranca, em chão de escorpião.
Quando revista, de perto, por dentro
a máquina - que não se passa a limpo -
se compreende um pouco do engenho
do mecanismo de suas linhas partidas.