terça-feira, 25 de novembro de 2014

DESPREZO – José Aparecido Botacini


Não suporto mais este teu vil desprezo
Ao meu coração nada disso nos convém.
Dediquei a ti minha vida, só recebi menosprezo,
Não desejo esta dor para mais ninguém.
 
Foram dias e noites de pura dedicação
Amei-te além do que o amor contém.
Lutei contra tudo e todos por esta paixão,
Mas meu amor por ti, não valia um vintém.
 
Não haverá de ser um amor repleto de desdém
Que levará minha vida para a bancarrota.
E nem vai falir este meu sofrido coração.
 
De modos que tudo foi apenas uma ilusão,
Uma luta que terminou com a minha derrota,
Mas mesmo assim lhe concedo todo o perdão.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A ROSA CONVICTA – Aurora Duarte

Ante a fúria do mar e em fundo espelho,
hei de pintar meus olhos de infinito.
Depois, no corpo quieta traçarei
limpas cores do céu e chuva e sol:
pois meus seios são aves prematuras
que entre gestos e orvalho guardarei.

 Mas, por ser bela eu hei de ser sozinha
porque o espanto e a ternura tem moradas
em chão diverso e de diverso intento.
Mas por ser bela me liguei ao tempo
e por ser bela girarei sorrindo
entre os raios de sol e o cata-vento.

domingo, 2 de novembro de 2014

Alicerce – Rafael Rocha

Não construa o alicerce da vida
Seguindo pessoas falsas
Os conselhos dessas pessoas
E as palavras delas.
Melhor levantar a base da casa
Na areia movediça

Construir seguindo ideias dessas pessoas
É erro matemático
Elas se acham certas demais
E elementos certinhos demais
Desfiguram os cálculos

O alicerce de nossas vidas
Tem de nascer de dentro
Com o cimento natural
Dos genes de pais e de mães
Assim a casa ganha força e não desaba
Nem com vento forte

Algumas pessoas são números negativos
Nos espaços geométricos
Sem serventia para calcular a vida
Na sabedoria do nosso tempo na Terra
Como disse Bukowski:
“Não deixe tais pessoas serem seu alicerce”

Eu sou eu! Você é você!
E meu poema sai vivaz de mim!
Não preciso escrevê-lo
Para iluminar rótulos falsos
Se eu fizer isso melhor apagar a luz e dormir

Dramas pessoais - Valdimir Diniz

A mula-sem-cabeça tinha olhos azuis
um dia ela disse ao psiquiatra que, com a vida que
                             levava, ia acabar ficando louca
não conseguia conversar com os vizinhos  
não aguentam mais as novelas de televisão
sentia-se perseguida por ter tantas contas a pagar

A mula-sem-cabeça não suportava as recordações da
                                                                    infância
sua memória desconhecia o nome de uma boneca, de
                                            uma ex-colega de escola
preferia viver sem marido podendo ter um marido
                                                quando bem entendesse
lembrava-se do hálito de café, carne, feijão, e de todos
                        os hálitos que vêm com o casamento
lembrava-se do choro da criança, das dificuldades de
                        arranjar empregada e sentia que tudo
                                            isso acabaria por levá-la
                                                               ao hospício
então, perguntava: "Qual a origem do meu mal,
                                                                doutor?"

A mula-sem-cabeça perdia a voz, a visão e ficava surda
                            sempre que necessitava de coragem
                                                pra dizer o que pensava
tinha desejos de comer terra , bater a cabeça na parede
                              sair nua pela cidade e gritar da janela
                                    do seu apartamento que a vida
                                                                era uma bosta

A mula-sem-cabeça disse que não tinha forças nem
        para jogar fora os brincos com argolas de ouro
                                    que faziam tlintlin dentro da
                                                             sua cabeça
saía do divã, levantava os braços e perguntava:
"Qual a origem do meu mal, doutor?"
ela só se acalmava cantarolando "quem eu quero não
                                                                me quer"
em seguida tinha uma recaída porque essa música
               dava-lhe ânsias de se apaixonar novamente
"por quem?" - perguntava - "por quem? se quem
            eu quero não me quer?" e aí se acalmava para
                                                       piorar em seguida

A mula-sem-cabeça temia cada vez mais a proximidade
                                                                     da morte
sentia-se insegura dentro de casa, no carro e não
                            conseguia respirar dentro do elevador
desejava matar-se todos os dias às 6 da tarde
evitava esse pensamento pensando em comer o tapete
                    da sala de visitas ou o pano de chão
uma dia escrevia com sangue um grande poema de
                                                                    amor

A mula-sem-cabeça cuspia pedras de fogo quando se
                                                                enfurecia
e falou com o psiquiatra: "O Senhor duvida que seja
                                                    verdade, doutor?"
ele disse que não, pois tudo isso era normal num ser
                                                                    humano
ela não acreditou porque mesmo assim nada impediria
                                        que acabasse ficando louca
pela manhã, temia olhar-se no espelho, acordar com
                                       a boca torta e até ser presa

A mula-sem-cabeça tinha medo de acabar a vida apenas
                                como uma personagem folclórico

Sobre a poesia - Juan Gélman

Tradução de Léo Gonçalves

haveria um par de coisas por dizer/
que não é muito lida por ninguém/
que esses ninguém são poucos/
que estão todos preocupados com a crise mundial/ e

com o assunto de comer a cada dia/ trata-se
de um assunto importante/ eu me lembro
quando tio joão morreu de fome/
dizia que nem se lembrava de comer e
que pra ele  não tinha problema/

problema veio foi depois/
não havia dinheiro para comprar caixão/
e quando finalmente o caminhão municipal
passou para levá-lo/
tio joão parecia um passarinho/

o pessoal do caminhão olhou para ele
com desprezo e com desdém/
murmuravam/
que eram sempre molestados/
que sendo gente eles enterravam gente/ e não
passarinhos como tio joão/ especialmente

porque o tio foi cantando piu piu
a viagem inteira até o crematório municipal/
e sentiram-se desrespeitados e estavam muito ofendidos/
e quando davam-lhe um tapinha pra calar a boca/
o piu piu voava pela cabine do caminhão
e eles sentiam que ouviam um piu
piu na cabeça/ tio

joão era assim/ adorava cantar/
e não via por quê não cantar depois de morto/
foi para o forno cantando
piu piu/ as cinzas saíram e ainda deram uns
pios/
os companheiros do municipal se entreolharam
com os sapatos cinzentos de
vergonha/ bem mas

voltando à poesia/
os poetas passam muita dificuldade/
não são muito lidos por ninguém/
esses ninguém são poucos/
o ofício perdeu o prestígio/
para o poeta está cada dia mais difícil

conquistar uma linda namorada/
ser candidato a presidente/ ser patrocinado por um mecena/
que um guerreiro faça façanhas para serem cantadas/
que um rei lhe pague cada
verso com três moedas de ouro/

e não se sabe se é porque acabaram as namoradas/
os mecenas/ os
guerreiros/ os reis/
ou simplesmente os poetas/
ou foram as duas coisas e é inútil
esquentar a cabeça com uma coisa dessas/

bonito é saber que a gente pode cantar piu piu
nas horas mais estranhas/
tio joão depois de morto/ eu agora
para que me queiras/

Lição das Gentes - Thaís Guimarães

Levei tempo para aprender:
desamizades não são coisas de inimigos.
Doemos pelos anos,
pilamos com devagareza amargores sob a língua,
de um amor interdito
pelo perdido.

Os desamigos não têm sabor, nem ardor,
raspam pela garganta, como um jacto triste
de um bom tempero que azedou.
Depois, é a vida correndo pela vida afora,
deixando pedaços para coser
sem uma linha de costura.
Então, os desamigos ficam
nesse lugar:
da possível cerzidura.

Erótica batalha – Sebastião Nunes

Tua latejante buceta palpitante.
Meu amargo cacete perfilado.
Ovos batem continência à beira do saco.
Como um guerreiro de merda
o cu recua ante a dura ofensiva.
Grandes e pequenos lábios
batem palmas e riem.
Meu cacete é a bandeira nacional.
A guerra é santa e eu avanço.

Um bonde chamado destempo - Carmem Vasconcelos

A encosta de capins invisíveis
desvela os desvarios dos meus antes.

A morte já não é futuro,
minha aldeia noutra aldeia se desvela,
eu me desvelo, pouca e escura.

Tornei-me antiga como antigo
é todo esgar desse rio esgotado
e dessas casas tornadas demasiado sérias.

Tornei-me ida,
meu tempo se desvela escorrido
no rosto dos parceiros de infância.

Tornei-me santa,
o deus imenso agora se desvela
na minha porção de amor,
porque o amei humanamente
e jamais neguei meu corpo a esta adoração.

Minha outra aldeia fica.
Sou eu a passagem.

Trágica – Ana Elisa Ribeiro

meu galego
não conhecia minha ira

era dono do meu corpo
meu espírito de porco

sabia minha ginga
minha pletora, minha míngua

conhecia cada fresta
cada trinca, cada aresta

cada vinco, furo, fissura,
mau humor, amargura

mas da minha ira
condenada ira
ira da maldita

ira de mulher
fêmea exata
ana saliente
uterina, enfezada
ele não sabia nada

(meu galego dorme esta noite num cemitério improvisado)

Do progresso nas profissões – Adriano Scandolara

Não se vê daqui, mas sei
que a prostituta na rua
tem um olho de vidro,

É mais aparente o gancho
na mão esquerda
ou, mais à luz, sob o poste
a prótese

da perna.

A insaciedade da fome de carne
que tem que se satisfazer
com borracha.

É tempo de fetiches, pessoas
que se fazem fetiches.
Servir-se
da prostituta na rua
não era tanto sexo com gente
quanto era sexo
com coisa
tevê, geladeira,
sonho transerótico do transumanista.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Contra o que quer que esteja invadindo - Charles Simic

Tradução de Adriano Scandolara

O melhor de tudo é o ócio,
E mais ainda numa quinta,
E sorver vinho enquanto se estuda a luz:
Como ela envelhece, amarela, empalidece
E então hesita para sempre
No limiar da noite
Que podia ser a que trará a primeira geada.

É bom ter uma mulher consigo nesta hora,
E duas é melhor ainda.
Que sussurrem uma para a outra
E te olhem com um sorrisinho.
Que arregacem as mangas e desabotoem um pouco as blusas
Como merece esse bom e velho pôr-do-sol,

E o garotinho em idade escolar
Que voltou para casa para um quarto quase escuro
E agora assiste de olhar arregalado
Os adultos erguerem-lhe suas taças,
A mulher ruiva, toda zonza
Com os olhos bem cerrados,
Como se prestes a irromper em choro ou canto.

Rapsódia sobre uma noite de vento – T. S. Eliot


Tradução de Ivan Junqueira

Meia-noite.
Uma síntese lunar captura
Todas as fases da rua,
Sussurrantes sortilégios lunares
Dissolvem os planos da memória
E todas as suas límpidas tramas,
Divisões e precisos mecanismos.
Cada lampião que ultrapasso
Pulsa como um tambor fatídico,
E através das lacunas do escuro
A meia-noite golpeia a memória
Como um louco brande um gerânio morto.

Uma e meia,
O lampião cuspia,
O lampião resmungava,
O lampião dizia: “Olha aquela mulher
Ao teu encontro hesitante à luz da porta
Que a recorta como um riso escarninho.
Repara-lhe a barra do vestido
Rasgada e suja de areia,
E o canto de seu olho que se arqueia
Como um grampo retorcido.”

A memória expele e disseca
Um turbilhão de coisas tortas;
Um ramo tortuoso sobre a praia
Polidamente carcomido e cinzelado
Como se o mundo erguesse à superfície
O segredo de seu esqueleto,
Rígido e alvadio.
A mola espatifada no pátio de uma fábrica,
A ferrugem que se aferra à forma
Que a força deixou tensa e enrodilhada
E pronta a abocanhar com uma dentada.

Duas e meia,
O lampião dizia:
“Observa o gato que na calha se adelgaça,
Espicha a sua língua e saboreia
Um naco rançoso de manteiga.”
Tal a mão do menino, automática,
Surripiou e embolsou um brinquedo
Que ao longo do cais deslizava.
Eu nada podia ver atrás dos olhos do menino.
Tenho visto pela rua olhos que tentam
Emergir por entre iluminadas persianas,
E certa tarde um caranguejo vi na lama,
Um velho caranguejo em sua carcaça calcária
A agarrar-se à ponta do graveto que eu sustinha.

Três e meia,
O lampião cuspia,
O lampião no escuro resmungava,
O lampião zumbia:
“Olha a lua,
La lune ne garde aucune rancune.
Pisca um olho tímido,
Sorri pelas esquinas.
Alisa os cabelos de gramínea.
A lua perdeu a memória.
Bexigas descoradas ulceram-lhe a face.
Suas mãos retorcem uma rosa de papel
Que recende a pó e água-de-colônia.
Ela está só, em companhia
De todos os antigos eflúvios noturnos
Que lhe cruzam e entrecruzam o cérebro.”
Aflora a reminiscência
De secos gerânios pálidos
E de poeira nas frinchas,
Aroma de castanhas pela rua,
E odor de fêmea nas alcovas clandestinas,
E de cigarros pelos corredores
E de coquetéis nos bares.

O lampião disse:
“Quatro horas,
Eis o número sobre a porta.
Memória!
Tens a chave,
A luminária alastra um círculo na escada.
Sobe.
A cama é franca; a escova de dentes na parede pende,
Põe teus sapatos junto à porta, dorme, a vida te talha”.

O último talho da navalha.

Presságios - Dahlia Ravikovitch

Tradução de Adriano Scandolara

Quando o copo cai
um caco dispara,
e um papel escorrega,
e algo mexe ou se move,
e algo se parte em sua estrutura ––
é preciso ficar sempre de guarda.

Agora escrevo e paro
para pensar
quantas folhas de papel entalaram na minha garganta.
Eu, se assim posso dizer, não sou mais eu.
Estou partida, definhando rápido.
Um tremor no ar. Falta um padrão.
Talvez seja eu que caia depressa.

E eu me recuso a acreditar.
Simplesmente me recuso a ver.

Som tardio – John Ashbery

Tradução de Duda Machado

A sós com nossa loucura e flor favorita
Vemos que não sobra mesmo nada sobre que escrever
Ou seja, é preciso escrever sobre as mesmas coisas de sempre
Ao mesmo custo, repetindo sempre e sempre as mesmas coisas
Para o amor continuar e ser pouco a pouco diferente.

Colmeias e formigas têm que ser reexaminadas eternamente
E a cor do dia fixada
Centenas de vezes e variada do verão ao inverno
Até ser modulada ao compasso de uma autêntica
Sarabanda que se agita ali, viva e em repouso.

Só assim pode a crônica desatenção de nossas vidas
dispor a nosso redor - conciliatória
E com um olho nessas longas brônzeo-aveludadas sombras
Que falam tão fundo ao despreparado conhecimento
De nós mesmos – o que dizem os instrumentos de nosso dia.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Mulheres de amigos - Kurt Tucholsky

Tradução de Paulo César Souza

Mulheres de amigos destroem a amizade
No princípio ocupam timidamente uma parte do amigo
Aninham-se nele,
Aguardam,
Observam, e aparentemente participam do círculo.

Esse pedaço do amigo não nos pertencia –
Nada notamos.
Mas logo a coisa muda:
Elas tomam um aposento após o outro,
Penetram mais fundo,
Logo têm o amigo inteiro.

Ele está mudado;
é como se tivesse vergonha de sua amizade.
Assim como antes envergonhava-se do amor diante de nós,
Agora envergonha-se da amizade diante do amor.
Não nos pertence mais.
Ela já não está entre nós – já o levou.

Ele não é mais nosso amigo:
É o seu marido.
Um leve melindre permanece.
Tristemente o seguimos com os olhos.

A da cama tem sempre razão.