sábado, 13 de dezembro de 2014

CLAREIRA – Armindo Trevisan


Quando depois do amor 
ela está estendida 
para o céu 
e as pernas 
reluzem 

e a boca 
tem o ar 
de uma bicicleta junto 
a uma macieira 

e seu corpo 
se move 
e os seios 
estão no tanque 
dentro da sombra 

tomo-a 
mil vezes 
e lhe sopro na boca 
o ar 
que esfriou na distância 
que separa 
a fruteira de cristal 
dos lábios 
que a moldaram

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O POEMA QUE NÃO FIZ – Valdeci Ferraz

O poema que não fiz andou me cutucando...

Ameaçou paralisar o tempo
Para que as flores não brotassem

Espalhou tachinhas no leito
Para atiçar um sentimento adormecido

Pela manhã tingiu o céu com uma cor cinzenta
E inspirou um canário sonolento

O poema que não fiz se fez surdo
Para não me deixar ouvir um pranto
E envolveu minhas lembranças
Com uma fita de saudade
Na intenção de provocar meu verso

Como um menino mau
Escondeu todas as minhas rimas
Por fim sentou-se à janela de minh‘alma
E se banhou na primeira lágrima que surgiu

Ouvi a sua risada rasgar a noite
E vi algumas mulheres na sua companhia
Cada uma levando consigo pedaços do meu tempo

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

DEVORAÇÃO - Rafael Rocha

Do livro “Poemas Escolhidos”

Por desejos vãos nos devoramos
Ao não podermos ser mais outros eus
Pelas paixões loucas nos marcamos
Ao conhecer as terras que deixamos
Nessas trilhas onde caminhamos
Com nossos corações ateus

Em coitos demorados nós gozamos
Sob as lendas do Olimpo e de Zeus
Nos delírios onde vidas devassamos
No saber as paixões que criamos
Nos espaços onde ambos deliramos
As loucuras do nunca dar adeus

Chega o momento onde nos miramos
O tempo não é mais os outros eus
E as paixões loucas que mesclamos
Suas marcas não mais as encontramos
E a terra onde nós pisamos
É o minotauro lendário dos perseus

RECÉM-CASADO – Lélia Coelho Frota

É pelos corpos que nos perderemos
de nós mesmos, para nos ganharmos
É pelos beijos que nos despedimos
para nos encontrarmos pelos olhos.
É pela pele que escaldamos
o que em nós havia de secreto:
e é o nosso corpo entregue um corpo estranho
pois pertence só a quem amamos
por quem morosamente devassamos
o alheamento da carne -
o barqueiro, o pastor que a atravessa
num profundo arremesso vagaroso
levantando ondas, ondas, ondas e ervas
a subir e descer vagas e montes
levando-me com ele à raia clara
onde água a quebrar-se eu me constele
na sua barca, conduzida à praia.

AS AMADAS PASSAM COMO O VENTO – Francisco de Oliveira Carvalho

Um dia percebemos que as amadas se evaporam
no ar como se nunca tivessem existido.

Sombras de pássaros na água
elas emigram para lugares distantes
ou talvez para alguma estrela
dessas que flamejam nos trapézios do céu.

As amadas passam como o vento
são inconstantes como as brisas que derrubam
as folhas mortas de um pomar.

Semelhantes a esses gatos de pelúcia
que nos arranham com seus bigodes de mercúrio
e vão-se lambuzar no pires de leite.

As amadas, quando vão embora,
deixam apenas a memória do perfume
como um punhal cravado em nosso peito.

MINHA CULPA – Florbela Espanca

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo...um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou? Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro...
Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

UM BOM POEMA – Charles Bukowski

um bom poema é como uma cerveja gelada
quando você está mais a fim,
um bom poema é um sanduíche de presunto,
quando você está faminto,
um bom poema é uma arma quando
os bandidos te cercam,
um bom poema é algo que
te permite andar pelas ruas
da morte,
um bom poema pode fazer a morte
derreter feito manteiga,
um bom poema pode enquadrar a agonia e
pendurá-la na parede,
um bom poema pode fazer seu pé tocar
a China,
um bom poema pode fazer
você cumprimentar Mozart,
um bom poema permite você competir
com o diabo e ganhar,
um bom poema pode quase tudo,
isso sem dizer que
um bom poema sabe quando
parar.

BALADA DAS MULHERES DE PARIS – François Villon

Tradução de Jorge de Sena
Que sejam boas linguareiras
Florentinas e Venezianas,
Para servir de mensageiras,
Também Lombardas e Romanas,
E as Genovesas e as Toscanas.
Aqui vos garante quem diz
(Em que pese às Sicilianas):
- Para a boca, só de Paris.

Em bem falar serão vezeiras,
Doutoras, as Napolitanas.
Como boas cacarejeiras
As de Bruges e as Alamanas.
Que sejam Gregas ou Troianas,
E de Hungria ou de outro país,
Aragonezas, Castelhanas;
- Para a boca, só de Paris.

Bretãs, Suíças, más palradeiras.
Mais Gascoas e Toulousanas:
Um par das nossas regateiras
Cala-as logo e às Alsacianas,
Às Inglesas como às Renanas
(É bastante a lista que eu fiz?),
E às Picardas e às Sabolanas:
Para a boca, só de Paris.

Senhor, às damas mais maganas
O prêmio deveis dar, feliz.
Por mais que valham Italianas
- Para a boca, só de Paris.

O PREÇO DA IMAGEM - Isidore Ducasse Lautréamont

Não nos contentamos com a vida que temos em nós.
Queremos viver na ideia dos outros
Uma vida imaginária.
Esforçamo-nos por parecer tais quais somos.
Fazemos por conservar aquele ser imaginário
Que não é outro senão o verdadeiro.
Se tivermos generosidade, fidelidade,
Apressamo-nos a não o dar a conhecer
Para ligarmos as suas virtudes a esse ser.
Somos valentes para adquirir a reputação
De que não somos poltrões.
É um sinal da capacidade do nosso ser
O de não estar satisfeito com uma coisa sem a outra
O de não renunciar nem a uma nem a outra.
O homem que não vivesse para conservar a sua virtude
Seria infame.

QUESTÕES – Alice Ruiz

Se a preguiça é pecado
O que Deus estará fazendo agora?
Em que se ocupa aquele que tudo pode?
Terá restado algo por fazer
Depois que o mundo foi criado?
Se o desejo é fraqueza,
Deus nunca deseja?
Mas se é verdade que nos criou
Algo nele desejou.
Se a vaidade é um erro
Por que nos fez à sua imagem e semelhança?
Ou terá sido o contrário?
Por que criar alguém capaz de duvidar da criação?

Por que nós e ele não?

AVENTURA GALANTE E FORTUNA - Tristan Corbière

Tradução de Antônio Siscar
Eu faço o ponto, quando belo vai o dia,
Para a passante que, com satisfação,
À ponta da sombrinha me fisgaria
O piscar da pupila, a pele do coração.

E acho que estou feliz - um pouco - é a vida:
O mendigo distrai a fome na bebida...

Um belo dia - triste ofício! - eu assim,-
Ofício!...- velejava. Ela passou por mim.
- Ela quem? - A Passante! E a sombrinha também!
Lacaio de carrasco, toquei-a...- porém,

Contendo um sorriso, Ela espiou meus botões
E...estendeu a mão,
e...me deu uns tostões.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

BILHETE – Lenilde Freitas


Se você dobrar à esquina
da rua detrás da minha
e se não tiver preguiça
de atravessá-la todinha,
encontrará na esquina oposta
num muro alto caiado
uma frase escrita em sânscrito
como se fosse um recado
para ninguém sabe quem
e por ninguém decifrado.
Se conseguir decifrá-la
responda seja o que for
lá mesmo no espaço ao lado
faça-me este favor
que não vai lhe faltar nada.
Era só isso. Obrigada.

SEIS – Maria Thereza Noronha


Seis palavras à procura de um poema
— pirotécnicas e pirandellianas —
passeiam pela noite descuidada.
Dadas as mãos, atravessam a praça,
olham o céu, buscando comovidas
da lua cheia a face sextavada.
Contam estrelas, meio envergonhadas:
bem sabem o banal deste recurso
e vão-se afastando, cabeças baixas.
Seis palavras flutuam, indecisas,
em demanda de estrofe onde se encaixem.
Soltas, nada mais são que sopro, brisa.
Soltas, nada mais são que folhas novas
brotando da videira, pressurosas:
furam o tronco e ainda não são uvas.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

BONECA – Dora Ferreira da Silva


A boneca de feltro
parece assustada com o próximo milênio. 
Quem a aninhará nos braços 
com seus olhos de medo e retrós?

O signo da boneca é frágil 
mais frágil que o de pássaro. 
Confia. Assim passiva 
o vento brincará contigo 
franzirá teu avental 
dirá coisas que entendes 
desde a aurora das coisas: 
foste um caroço de manga 
uma forma de nuvem 
ou um galho com braços 
de ameixeira no quintal.

Não temas. Solta o
corpo de feltro. Assim. 
Para ser embalada nos braços 
da menina que houver.

ANOITECEU – Angélica Torres Lima

Os homens inauguram-se
como monumentos bruscos.
Toscas palavras de sal.
Dormem secas as cascas
lacrimais da madrugada
desvirginada por galos e cães.

No vazio abismal bebem
as torrentes do sono aceso.
E o sangue foge
para um campo arredio, sem lamas
enquanto a Via Láctea espreita
o leite latino da transmutação