quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O DIA INTEIRO – Cláudia Roquette Pinto


O dia inteiro perseguindo uma ideia:
vagalumes tontos contra a teia
das especulações, e nenhuma
floração, nem ao menos
um botão incipiente
no recorte da janela
empresta foco ao hipotético jardim.
Longe daqui, de mim
(mais para dentro)
desço no poço de silêncio
que em gerúndio vara madrugadas
ora branco (como lábios de espanto)
ora negro (como cego, como
medo atado à garganta)
segura apenas por um fio, frágil e físsil,
ínfimo ao infinito,
mínimo onde o superlativo esbarra
e é tudo de que disponho
até dispensar o sonho de um chão provável
até que meus pés se cravem
no rosto desta última flor

COM UM SÓ FÓSFORO ILUMINO O INFINITO – Amadeu Baptista


Com um só fósforo ilumino o infinito.
E muitas vezes o infinito é algo
muito próximo, um livro, uma chávena
de chá, o teu rosto escondido
na penumbra, o retrato de alguém desconhecido
que de uma praça, acena,
um fio de tabaco, um monograma
num lenço muito branco.
O infinito o mais das vezes é
não mais do que o que toca o coração,
uma leve poeira pelo ar, um ponto fixo
que a mão ousa tocar, esta chama
que de repente amplia a escuridão
e me torna visível a quem passa
e no clarão acende o seu cigarro.

A MARGEM – Cristina Garcia Lopes


A visão do rio 
corre em si mesma 
quando não se tem rio na memória 

quando de outra margem 
a visão de fundo é desmedida 
para o raso da lembrança 

quando não há nome 
para a umidade plena 
nascida dentro 
sem rio que a sustente. 

Basta a visão do rio 
que corre em si mesmo 
sem arrancar memória.

ESFINGE – Solange Firmino


Decifra meu enigma
e toda a verdade,
toda a essência
por trás do verso.

Segue pela trilha do meu corpo
e revela a paisagem escondida.
Repousa sem tédio no meu abraço.
Implora pelo princípio e fim
de cada ato.

Descobre o segredo que habita
onde me esquivo,
onde a pergunta é só disfarce,
reverso.

Se me escondo,
é para devorar melhor.

sábado, 13 de dezembro de 2014

A CARNE É CRÁPULA – Mário Chamie


A carne é crápula 
sob o olho cego 
do desejo. 

A carne é trôpega 
se fala sob o pelo 
de outro desejo alheio. 

A carne é trêmula 
e fracta. 
Crina de nervos, 
veneno de víbora, 
a carne é égua 
sob o cabresto 
de seus incestos 
sem freios. 

Fálica e côncava, 
intrépida e férvida, 
a carne é estrábica 
nos entreveros 
do sexo 
com seus desacertos 
conexos. 

Sob o olho 
sem mácula e cego, 
a carne é crápula 
nos arpejos 
indefesos 
de seus perversos 
desejos. 

VERÃO - José Santiago Naud


Eu te chamo tumulto 
e virei sobre ti 
ao fogo dos frutos 
na hora em que a polpa da tarde 
fende 
e pelo campo escorrem farelos de ouro 
à luz azul da bruma. 

Para ti alço 
com a rigidez de um bico, 
garras, córneas, penas descendo 
em teu tremor, 
instante todo de corpo a não ser 
mais que carcaça, maré, esvaimento. 

E quando, inerte 
- casca ou pele, gretado 
o teu querer não for mais que apetência 
ou saudade, 
o sangue a escorrer ainda 
escondendo os talos da grama mais pequena, 
há-de permanecer aos olhos que o não vêem 
íntimo sinal de união 
entre a fêmea e o macho 
- o que penetra 
e quanto, deixando penetrar 
inaugura.


SÓ – Heitor Saldanha

Hoje enquanto tiver dinheiro
                                           beberei
Depois
          entregarei ao garçom
                                  meu relógio de pulso
                                    meus carpins de nylon
meus óculos de tartaruga (que nome bonito)
                         minha caneta tinteiro
e continuarei bebendo
                                  bebendo
                                  sem literatura
                                          sem poema
                                                 sem nada.
Só.
Como se o mundo começasse agora.
Estou nesses conscientes estados de alma
em que não posso me salvar
                                    e nem salvá-la.

CLAREIRA – Armindo Trevisan


Quando depois do amor 
ela está estendida 
para o céu 
e as pernas 
reluzem 

e a boca 
tem o ar 
de uma bicicleta junto 
a uma macieira 

e seu corpo 
se move 
e os seios 
estão no tanque 
dentro da sombra 

tomo-a 
mil vezes 
e lhe sopro na boca 
o ar 
que esfriou na distância 
que separa 
a fruteira de cristal 
dos lábios 
que a moldaram

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O POEMA QUE NÃO FIZ – Valdeci Ferraz

O poema que não fiz andou me cutucando...

Ameaçou paralisar o tempo
Para que as flores não brotassem

Espalhou tachinhas no leito
Para atiçar um sentimento adormecido

Pela manhã tingiu o céu com uma cor cinzenta
E inspirou um canário sonolento

O poema que não fiz se fez surdo
Para não me deixar ouvir um pranto
E envolveu minhas lembranças
Com uma fita de saudade
Na intenção de provocar meu verso

Como um menino mau
Escondeu todas as minhas rimas
Por fim sentou-se à janela de minh‘alma
E se banhou na primeira lágrima que surgiu

Ouvi a sua risada rasgar a noite
E vi algumas mulheres na sua companhia
Cada uma levando consigo pedaços do meu tempo

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

DEVORAÇÃO - Rafael Rocha

Do livro “Poemas Escolhidos”

Por desejos vãos nos devoramos
Ao não podermos ser mais outros eus
Pelas paixões loucas nos marcamos
Ao conhecer as terras que deixamos
Nessas trilhas onde caminhamos
Com nossos corações ateus

Em coitos demorados nós gozamos
Sob as lendas do Olimpo e de Zeus
Nos delírios onde vidas devassamos
No saber as paixões que criamos
Nos espaços onde ambos deliramos
As loucuras do nunca dar adeus

Chega o momento onde nos miramos
O tempo não é mais os outros eus
E as paixões loucas que mesclamos
Suas marcas não mais as encontramos
E a terra onde nós pisamos
É o minotauro lendário dos perseus

RECÉM-CASADO – Lélia Coelho Frota

É pelos corpos que nos perderemos
de nós mesmos, para nos ganharmos
É pelos beijos que nos despedimos
para nos encontrarmos pelos olhos.
É pela pele que escaldamos
o que em nós havia de secreto:
e é o nosso corpo entregue um corpo estranho
pois pertence só a quem amamos
por quem morosamente devassamos
o alheamento da carne -
o barqueiro, o pastor que a atravessa
num profundo arremesso vagaroso
levantando ondas, ondas, ondas e ervas
a subir e descer vagas e montes
levando-me com ele à raia clara
onde água a quebrar-se eu me constele
na sua barca, conduzida à praia.

AS AMADAS PASSAM COMO O VENTO – Francisco de Oliveira Carvalho

Um dia percebemos que as amadas se evaporam
no ar como se nunca tivessem existido.

Sombras de pássaros na água
elas emigram para lugares distantes
ou talvez para alguma estrela
dessas que flamejam nos trapézios do céu.

As amadas passam como o vento
são inconstantes como as brisas que derrubam
as folhas mortas de um pomar.

Semelhantes a esses gatos de pelúcia
que nos arranham com seus bigodes de mercúrio
e vão-se lambuzar no pires de leite.

As amadas, quando vão embora,
deixam apenas a memória do perfume
como um punhal cravado em nosso peito.

MINHA CULPA – Florbela Espanca

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo...um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou? Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro...
Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

UM BOM POEMA – Charles Bukowski

um bom poema é como uma cerveja gelada
quando você está mais a fim,
um bom poema é um sanduíche de presunto,
quando você está faminto,
um bom poema é uma arma quando
os bandidos te cercam,
um bom poema é algo que
te permite andar pelas ruas
da morte,
um bom poema pode fazer a morte
derreter feito manteiga,
um bom poema pode enquadrar a agonia e
pendurá-la na parede,
um bom poema pode fazer seu pé tocar
a China,
um bom poema pode fazer
você cumprimentar Mozart,
um bom poema permite você competir
com o diabo e ganhar,
um bom poema pode quase tudo,
isso sem dizer que
um bom poema sabe quando
parar.

BALADA DAS MULHERES DE PARIS – François Villon

Tradução de Jorge de Sena
Que sejam boas linguareiras
Florentinas e Venezianas,
Para servir de mensageiras,
Também Lombardas e Romanas,
E as Genovesas e as Toscanas.
Aqui vos garante quem diz
(Em que pese às Sicilianas):
- Para a boca, só de Paris.

Em bem falar serão vezeiras,
Doutoras, as Napolitanas.
Como boas cacarejeiras
As de Bruges e as Alamanas.
Que sejam Gregas ou Troianas,
E de Hungria ou de outro país,
Aragonezas, Castelhanas;
- Para a boca, só de Paris.

Bretãs, Suíças, más palradeiras.
Mais Gascoas e Toulousanas:
Um par das nossas regateiras
Cala-as logo e às Alsacianas,
Às Inglesas como às Renanas
(É bastante a lista que eu fiz?),
E às Picardas e às Sabolanas:
Para a boca, só de Paris.

Senhor, às damas mais maganas
O prêmio deveis dar, feliz.
Por mais que valham Italianas
- Para a boca, só de Paris.