quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

CORPO ANTERIOR – Jorge Wanderley

Que faço aqui, neste meu corpo, amando
Outro corpo, doado — e estranho a mim?
Dois corpos desiguais e no comando
O que eu decido. E quem decide assim?
Estranho todos os departamentos
E eu sou um outro, que não pousa aqui.
Cada nervura, poro, o tegumento
- Desconheço de todo, nunca vi.
Altura que não quero, mãos esquerdas,
O que está velho e não forjou memórias,
O gesto alheio, o olhar sobre tropeços,
São crônicas já pálidas, a perda
Do nunca possuído: alguma história
Que espera no futuro o seu começo.

O ORIENTE DA CIDADE – Cida Pedrosa

entre pombos e putas construí poemas

a cidade era lúcida
a radiola de fichas juntava nossas coxas
os retalhos eram enfeites de salão

entre pombos e putas construí poemas

a cidade era música
cama de loucos e as mulheres livres
para o copo para o corpo para as ruas

entre pombos e putas construí poemas

a cidade era à prova de balas
a ponte era à prova de sonhos
a dor visitava o capibaribe

entre putas e pombos construí poemas

DA ROTINA - Micheliny Verunschk


Varrer o dia de ontem
que ainda resta pela sala,
o dia que persiste,
quase invisível
pelo chão,
nos objetos
sobre os móveis da sala.
Varrer amanhã
o pó de hoje.
Varrer,
varrer hoje.
(E domingo quebrar nos dentes
o copo
e sua água de vidro.
Segunda, não esquecer:
varrer todos os vestígios.)

CANÇÃO DE MIM MESMO – Walt Whitman

EU CELEBRO a mim mesmo,
E o que eu assumo você vai assumir,
Pois cada átomo que pertence a mim pertence a
                                    [ você.

Vadio e convido minha alma,
Me deito e vadio à vontade .... observando uma
                            [ lâmina de grama do verão.

Casas e quartos se enchem de perfumes .... as
        [ estantes estão entulhadas de perfumes,
Respiro o aroma eu mesmo, e gosto e o
        [ reconheço,
Sua destilação poderia me intoxicar também,
        [ mas não deixo.

A atmosfera não é nenhum perfume .... não tem
        [ gosto de destilação .... é inodoro,
É pra minha boca apenas e pra sempre .... estou
        [ apaixonado por ela,
Vou até a margem junto à mata sem disfarces e
        [ pelado,
Louco pra que ela faça contato comigo.

A fumaça de minha própria respiração,
Ecos, ondulações, zunzuns e sussurros .... raiz
[ de amaranto, fio de seda, forquilha e videira,
Minha respiração minha inspiração .... a batida
    [ do meu coração .... passagem de sangue e
    [ ar por meus pulmões,
O aroma das folhas verdes e das folhas secas,
    [ da praia e das rochas marinhas de cores
    [ escuras, e do feno na tulha,
O som das palavras bafejadas por minha voz ....
    [ palavras disparadas nos redemoinhos do
    [ vento,
Uns beijos de leve .... alguns agarros .... o
    [ afago dos braços,
Jogo de luz e sombra nas árvores enquanto
    [ oscilam seus galhos sutis,
Delícia de estar só ou no agito das ruas, ou pelos
    [ campos e encostas de colina,
Sensação de bem-estar .... apito do meio-dia
    [ .... a canção de mim mesmo se erguendo
    [ da cama e cruzando com o sol.

Uma criança disse, O que é a relva? trazendo um
     [ tufo em suas mãos;
O que dizer a ela ?.... sei tanto quanto ela o que
     [ é a relva.
Vai ver é a bandeira do meu estado de espírito,
  [ tecida de uma substância de esperança verde.
Vai ver é o lenço do Senhor,
Um presente perfumado e o lembrete derrubado
  [ por querer,
Com o nome do dono bordado num canto, pra que possamos ver e examinar, e dizer
      É seu ?

O blablablá das ruas .... rodas de carros e o
     [ baque das botas e papos dos pedestres,
O ônibus pesado, o cobrador de polegar
     [ interrogativo, o tinir das ferraduras dos
     [ cavalos no chão de granito.
O carnaval de trenós, o retinir de piadas
     [ berradas e guerras de bolas de neve ;
Os gritos de urra aos preferidos do povo ....
     [ o tumulto da multidão furiosa,
O ruflar das cortinas da liteira — dentro um
     [ doente a caminho do hospital,
O confronto de inimigos, súbito insulto,
     [ socos e quedas,
A multidão excitada — o policial e sua estrela
     [ apressado forçando passagem até o centro
     [ da multidão;
As pedras impassíveis levando e devolvendo
     [ tantos ecos,
As almas se movendo .... será que são invisíveis
     [ enquanto o mínimo átomo é visível ?
Que gemidos de glutões ou famintos que
     [ esmorecem e desmaiam de insolação
     [ ou de surtos,
Que gritos de grávidas pegas de surpresa,
     [ correndo pra casa pra parir,
Que fala sepulta e viva vibra sempre aqui....
     [ quantos uivos reprimidos pelo decoro, Prisões de criminosos, truques, propostas
     [ indecentes, consentimentos, rejeições de
     [ lábios convexos,
Estou atento a tudo e as suas ressonâncias ....
     [ estou sempre chegando.
..............................................................
Sou o poeta do corpo,
E sou o poeta da alma.
Os prazeres do céu estão comigo, os pesares do
     [ inferno estão comigo,
Aqueles, enxerto e faço crescer em mim mesmo
     [ .... estes, traduzo numa nova língua.

Sou o poeta da mulher tanto quanto do homem,
E digo que é tão bom ser mulher quanto ser
     [ homem,
E digo que não há nada maior que a mãe dos
     [ homens.
.........................................................................

Vadio uma jornada perpétua,
Meus sinais são uma capa de chuva e sapatos
      [ confortáveis e um cajado arrancado
      [ do mato ;
Nenhum amigo fica confortável em minha
      [ cadeira,
Não tenho cátedra, igreja, nem filosofia;
Não conduzo ninguém à mesa de jantar ou à
      [ biblioteca ou à bolsa de valores,
Mas conduzo a uma colina cada homem e mulher
      [ entre vocês,
Minha mão esquerda enlaça sua cintura,
Minha mão direita aponta paisagens de
      [ continentes, e a estrada pública.
Nem eu nem ninguém vai percorrer essa estrada
      [ pra você,
Você tem que percorrê-la sozinho.

Não é tão longe assim .... está ao seu alcance,
Talvez você tenha andado nela a vida toda e não
      [ sabia,
Talvez a estrada esteja em toda parte sobre a
      [ água e sobre a terra.

Pegue sua bagagem, eu pego a minha, vamos em
      [ frente;
Toparemos com cidades maravilhosas e nações
      [ livres no caminho.

Se você se cansar, entrega os fardos, descansa a
      [ mão macia em meu quadril,
E quando for a hora você fará o mesmo por mim;
Pois depois de partir não vamos mais parar.

PERDIÇÃO – Rafael Rocha

Do livro “Poemas Escolhidos”

(Eis o poeta desaparecido.
Esteve perdido na própria ausência)

Agora... olham para mim e riem
Os pobres de espírito
Eu estive sempre perto de todos
Eu estive ao lado de seus caprichos
Eu cantei suas luzes e suas sombras

(Que pessoas são essas
A tentarem zombar da perdição do poeta na ausência?)

No calor do verão eis os reflexos
Das luzes nas sombras dos hipócritas
Ora! Eu sempre estive aqui presente
Ainda que aparentemente
Todos vejam e pensem:
“Essa permanência é tão invernal
Mas tão invernal
Que não precisa de outono.”

(Quando o poeta esteve perdido na ausência
O mundo fez de conta que ele não existia)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

QUEREIS MUITO - Silvia Chueire


quereis a palavra certa 
na hora certa.
não apenas o metro correto,
a frase bem feita.
quereis o sangue,
a alma do poeta,
a vida curta a galopar
gargantas

- como se não custasse esforço
fingir que fingimos -

quereis a vida,
a árvore da vida. 
não apenas o trajeto reto,
geometria exata.
quereis elipses, parábolas, 
o sabor mais íntimo
a perpassar vocábulos.

- como se cada letra
não fosse gota derramada -

quereis o que não sei 
se posso dar.
o segredo do olhar,
o frio que me corta a pele
antes que a palavra
se esfacele e arda 
na fina folha
de cada momento.

- como se cada volta da caneta
não fosse hesitação -

quereis muito, senhores, 
muito.
mais do que pode
a mão que escreve o poema.
mais do que pode
um simples coração.

O DIA INTEIRO – Cláudia Roquette Pinto


O dia inteiro perseguindo uma ideia:
vagalumes tontos contra a teia
das especulações, e nenhuma
floração, nem ao menos
um botão incipiente
no recorte da janela
empresta foco ao hipotético jardim.
Longe daqui, de mim
(mais para dentro)
desço no poço de silêncio
que em gerúndio vara madrugadas
ora branco (como lábios de espanto)
ora negro (como cego, como
medo atado à garganta)
segura apenas por um fio, frágil e físsil,
ínfimo ao infinito,
mínimo onde o superlativo esbarra
e é tudo de que disponho
até dispensar o sonho de um chão provável
até que meus pés se cravem
no rosto desta última flor

COM UM SÓ FÓSFORO ILUMINO O INFINITO – Amadeu Baptista


Com um só fósforo ilumino o infinito.
E muitas vezes o infinito é algo
muito próximo, um livro, uma chávena
de chá, o teu rosto escondido
na penumbra, o retrato de alguém desconhecido
que de uma praça, acena,
um fio de tabaco, um monograma
num lenço muito branco.
O infinito o mais das vezes é
não mais do que o que toca o coração,
uma leve poeira pelo ar, um ponto fixo
que a mão ousa tocar, esta chama
que de repente amplia a escuridão
e me torna visível a quem passa
e no clarão acende o seu cigarro.

A MARGEM – Cristina Garcia Lopes


A visão do rio 
corre em si mesma 
quando não se tem rio na memória 

quando de outra margem 
a visão de fundo é desmedida 
para o raso da lembrança 

quando não há nome 
para a umidade plena 
nascida dentro 
sem rio que a sustente. 

Basta a visão do rio 
que corre em si mesmo 
sem arrancar memória.

ESFINGE – Solange Firmino


Decifra meu enigma
e toda a verdade,
toda a essência
por trás do verso.

Segue pela trilha do meu corpo
e revela a paisagem escondida.
Repousa sem tédio no meu abraço.
Implora pelo princípio e fim
de cada ato.

Descobre o segredo que habita
onde me esquivo,
onde a pergunta é só disfarce,
reverso.

Se me escondo,
é para devorar melhor.

sábado, 13 de dezembro de 2014

A CARNE É CRÁPULA – Mário Chamie


A carne é crápula 
sob o olho cego 
do desejo. 

A carne é trôpega 
se fala sob o pelo 
de outro desejo alheio. 

A carne é trêmula 
e fracta. 
Crina de nervos, 
veneno de víbora, 
a carne é égua 
sob o cabresto 
de seus incestos 
sem freios. 

Fálica e côncava, 
intrépida e férvida, 
a carne é estrábica 
nos entreveros 
do sexo 
com seus desacertos 
conexos. 

Sob o olho 
sem mácula e cego, 
a carne é crápula 
nos arpejos 
indefesos 
de seus perversos 
desejos. 

VERÃO - José Santiago Naud


Eu te chamo tumulto 
e virei sobre ti 
ao fogo dos frutos 
na hora em que a polpa da tarde 
fende 
e pelo campo escorrem farelos de ouro 
à luz azul da bruma. 

Para ti alço 
com a rigidez de um bico, 
garras, córneas, penas descendo 
em teu tremor, 
instante todo de corpo a não ser 
mais que carcaça, maré, esvaimento. 

E quando, inerte 
- casca ou pele, gretado 
o teu querer não for mais que apetência 
ou saudade, 
o sangue a escorrer ainda 
escondendo os talos da grama mais pequena, 
há-de permanecer aos olhos que o não vêem 
íntimo sinal de união 
entre a fêmea e o macho 
- o que penetra 
e quanto, deixando penetrar 
inaugura.


SÓ – Heitor Saldanha

Hoje enquanto tiver dinheiro
                                           beberei
Depois
          entregarei ao garçom
                                  meu relógio de pulso
                                    meus carpins de nylon
meus óculos de tartaruga (que nome bonito)
                         minha caneta tinteiro
e continuarei bebendo
                                  bebendo
                                  sem literatura
                                          sem poema
                                                 sem nada.
Só.
Como se o mundo começasse agora.
Estou nesses conscientes estados de alma
em que não posso me salvar
                                    e nem salvá-la.

CLAREIRA – Armindo Trevisan


Quando depois do amor 
ela está estendida 
para o céu 
e as pernas 
reluzem 

e a boca 
tem o ar 
de uma bicicleta junto 
a uma macieira 

e seu corpo 
se move 
e os seios 
estão no tanque 
dentro da sombra 

tomo-a 
mil vezes 
e lhe sopro na boca 
o ar 
que esfriou na distância 
que separa 
a fruteira de cristal 
dos lábios 
que a moldaram

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O POEMA QUE NÃO FIZ – Valdeci Ferraz

O poema que não fiz andou me cutucando...

Ameaçou paralisar o tempo
Para que as flores não brotassem

Espalhou tachinhas no leito
Para atiçar um sentimento adormecido

Pela manhã tingiu o céu com uma cor cinzenta
E inspirou um canário sonolento

O poema que não fiz se fez surdo
Para não me deixar ouvir um pranto
E envolveu minhas lembranças
Com uma fita de saudade
Na intenção de provocar meu verso

Como um menino mau
Escondeu todas as minhas rimas
Por fim sentou-se à janela de minh‘alma
E se banhou na primeira lágrima que surgiu

Ouvi a sua risada rasgar a noite
E vi algumas mulheres na sua companhia
Cada uma levando consigo pedaços do meu tempo