sábado, 16 de maio de 2015

A UM AUSENTE – Carlos Drummond de Andrade

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

A MERETRIZ - Augusto dos Anjos


A rua dos destinos desgraçados
Faz medo. O Vício estruge. Ouvem-se os brados
Da danação carnal... Lúbrica, à lua,
Na sodomia das mais negras bodas
Desarticula-se, em coréias doudas,
Uma mulher completamente nua!

É a meretriz que, de cabelos ruivos,
Bramando, ébria e lasciva, hórridos uivos
Na mesma esteira pública, recebe,
Entre farraparias e esplendores,
O eretismo das classes superiores
e o orgasmo bastardíssimo da plebe!

É ela que, aliando, à luz do olhar protervo,
O indumento vilíssimo do servo
Ao brilho da augustal toga pretexta,
Sente, alta noite, em contorções sombrias,
Na vacuidade das entranhas frias
o esgotamento intrínseco da besta!

É ela que, hirta, a arquivar credos desfeitos,
Com as mãos chagadas, espremendo os peitos,
Reduzidos, por fim, a âmbulas moles,
Sofre em cada molécula a angústia alta
De haver secado, como o estepe, à falta
Da água criadora que alimenta as proles!

É ela que, arremessada sobre o rude
Despenhadeiro da decrepitude,
Na vizinhança aziaga dos ossuários
Representa, através dos meus sentidos,
A escuridão dos gineceus falidos
E a desgraça de todos os ovários!

Irrita-se-lhe a carne à meia-noite.
Espicaça-a a ignomínia, excita-a o açoite
Do incêndio que lhe inflama a língua espúria.
E a mulher, funcionária dos instintos,
Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos,
Gene instintivamente de luxúria!

Navio para o qual todos os portos
Estão fechados, urna de ovos mortos,
Chão de onde uma só planta não rebenta,
Ei-la, de bruços, bêbada de gozo
Saciando o geotropismo pavoroso
De unir o corpo à terra famulenta!

Nesse espolinhamento repugnante
O esqueleto irritado da bacante
Estrala... Lembra o ruído harto azorrague
A vergastar ásperos dorsos grossos.
E é aterradora essa alegria de ossos
Pedindo ao sensualismo que os esmague!

É o pseudo-regozijo dos eunucos
Por natureza, dos que são caducos
Desde que a Mãe-Comum lhes deu início...
É a dor profunda da incapacidade
Que, pela própria hereditariedade
A lei da seleção disfarça em Vício!

É o júbilo aparente da alma quase
A eclipsar-se, no horror da ocídua fase
Esterilizadora de órgãos... É o hino
Da matéria incapaz, filha do inferno,
Pagando com volúpia o crime eterno
De não ter sido fiel ao seu destino! –

É o Desespero que se faz bramido
De anelo animalíssimo incontido,
Mais que a vaga incoercível na água oceana...
É a Carne que, já morta essencialmente,
Para a Finalidade Transcendente
Gera o prodígio anímico da Insânia!

Nas frias antecâmaras do Nada
O fantasma da fêmea castigada,
Passa agora ao clarão da lua acessa
E é seu corpo expiatório, alvo e desnudo,
A síntese eucarística de tudo
Que não se realizou na Natureza!

Antigamente, aos tácitos apelos
Das suas carnes e dos seus cabelos,
Na óptica abreviatura de um reflexo,
Fulgia, em cada humana nebulosa,
Toda a sensualidade tempestuosa
Dos apetites bárbaros do Sexo!

O atavismo das raças sibaritas,
Criando concupiscências infinitas
Como eviterno lobo insatisfeito;
Na homofagia hedionda que o consome,
Vinha saciar a milenária fome
Dentro das abundâncias do seu leito!

Todas as libidinagem dos mormaços
Americanos fluía-lhe dos braços,
Irradiava-se-lhe, hírcica, das veias
E em torrencialidades quentes e úmidas,
Gorda e escorrer-lhe das artérias túmidas
Lembrava um transbordar de ânforas cheias.

A hora da morte acende-lhe o intelecto
E à úmida habitação do vício abjeto
Afluem milhões de sóis, rubros, radiando...
Resíduos memoriais tornam-se luzes,
Fazem-se ideias e ela vê as cruzes
Do seu martirológio miserando!

Indícios atrofiados de ética, ânsia
De perfeição, sonhos de culminância,
Libertos da ancestral modorra calma,
Saem da infância embrionária e erguem-se, adultos,
Lançando a sombra horrível dos seus vultos
Sobre a noite fechada daquela alma!

É o sublevantamento coletivo
De um mundo inteiro que aparece vivo,
Numa cenografia de diorama,
Que, momentaneamente luz fecunda,
Brilha na prostituta moribunda
Como a fosforescência sobre a lama!

É a visita alarmante do que outrora
Na abundância prospérrima da aurora,
Pudera progredir, talvez, decerto,
Mas que, adstrito a inferior plasma inconsútil,
Ficou rolando, como aborto inútil,
Como o abutre do deserto!

Vede! A prostituição, ofídia aziaga
Cujo tóxico instila a infâmia, e a estraga
Na delinqüência assaz ainda impune,
Agarrou-se-lhe aos seios impudicos
Como o abraço mortífero do Fícus
Sugando a seiva da árvore a que se une!

Ser meretriz depois do túmulo! A alma
Roubada à hirta quietude da urbe calma
Onde se extinguem todos os escolhos;
E, condenada, ao trágico ditame,
Oferecer-se à bicharia infame
Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos!

sábado, 2 de maio de 2015

NUVENS – Mikhail Yurevitch Lermontov

Tradução Jorge de Sena

Ó nuvens pelos céus que eternamente andais!
Longo colar de pérolas na estepe azul,
exiladas como eu, correndo rumo ao sul,
longe do caro norte que, como eu, deixais!

Que vos impele assim? Uma ordem do Destino?
Oculto mal secreto? Ou mal que se conhece?
Acaso carregais o crime que envilece?
Ou só de amigos vis o torpe desatino?

Ah não: fugis cansadas da maninha terra,
e estranhas a paixões e ao sofrimento estranhas
eternas pervagais as frígidas entranhas.
E não sabeis, sem pátria, a dor que o exílio encerra.

MUSA - Anna Akhmátova

Tradução de Renato Suttana

Quando à noite eu espero a sua vinda,
numa balança a minha vida pende.
Que é a honra, a liberdade, a juventude?
Fumo que de um cachimbo se desprende.

Veio, jogando o manto para trás,
e uma atenção cordial me concedeu.
“Foste – eu lhe disse – quem ditou a Dante
as páginas do Inferno?” E ela: “Fui eu.”

AGORA NÃO TEM MAIS VOLTA – Serguei Iessiênin

Tradução de Pablo Polese

Sim! Está decidido, agora não tem mais volta
Deixei minha querida terra natal,
as folhas de álamos carregadas pelo vento
nunca mais cairão sobre mim,
não sentirei novamente o toque das folhas,
nem ouvirei seus sussurros, é verdade.
Nossa antiga casa vai vir abaixo na minha ausência,
e o meu velho cão já há tempos está morto.
Nas frias e tortuosas ruas de Moscou
caminho para a morte, esperando conhecer a misericórdia
desse Deus que tem me julgado.
Amo demais essa cidade de olmos,
cheia de prédios decrépitos e casas velhas.
Um sonho asiático de inesquecível beleza
onde repousam templos cobertos de ouro.
À noite, quando a luz da Lua, dissipada,
Brilha por sobre a cidade… diabos!
O inferno sabe como queimar!
Estou a andar pelas ruas, cabisbaixo,
Rumo à taverna mais próxima, para um drinque ou dois.
É um antro sinistro e barulhento esse lugar,
Apesar disso, durante a noite toda,
até de madrugada,
leio poemas para as meninas que vão se prostituir,
enquanto me embebedo e elas se divertem
prazerosamente com os ladrões.
Meu coração começa a palpitar com mais e mais força,
então choro, finalmente perdendo a compostura,
e falo, meio sem propósito, meio fora de contexto:
“Assim como vocês, eu falhei e me perdi,
mas pra mim já não há caminho de volta”.
Minha antiga casa desmoronou na minha ausência,
meu velho cão já há tempos está morto.
Nas frias e tortuosas ruas de Moscou
estou fadado a morrer, esperando a misericórdia
desse Deus que tem me julgado.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

O QUE ACONTECEU COMIGO - Vladimir Maiakovski


As esquadras acodem ao porto.
O trem corre para as estações.
Eu, mais depressa ainda,
vou a ti,
atraído, arrebatado,
pois que te amo.
Assim como se apeia
o avarento cavaleiro de Púchkin,
alegre por encafuar-se em seu sótão,
assim eu
regresso a ti, amada,
com o coração encantado de mim.
Ficais contentes de retornar à casa.
Ali vos livrais da sujeira,
raspando-vos, lavando-vos,
fazendo a barba.
Assim retorno eu a ti.
Por acaso,
indo a ti não volto à minha casa?
Gente terrena ao seio da terra volta.

NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI - Eduardo Alves da Costa

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

terça-feira, 28 de abril de 2015

A VIDA SÃO DEVERES – Mário Quintana

A vida são deveres,
que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas...
Quando se vê, já é sexta-feira
Quando se vê, já é Natal ....
Quando se vê, já terminou o ano .
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida .
Quando se vê, passaram-se 50 anos !
Agora, é tarde demais para ser reprovado ...
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, 
eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente
e iria jogando pelo caminho, 
a casca dourada e inútil das horas ...
Eu seguraria todos os meus amigos, que
Já não sei como e onde eles estão e diria:
vocês são extremamente importantes para mim.
Seguraria o amor que está a minha frente
e diria que eu o amo...
Dessa forma eu digo, não deixe de fazer
algo que gosta devido a falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado
por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo
que, infelizmente, nunca mais voltará.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O BRANCO HOTEL – Lêdo Ivo

Em cada cidade um cemitério
um túmulo para cada residência
um morto exclusivamente
para o pranto de dois olhos.
Hoje é o dia dos desacordados,
dos sonâmbulos e dos fantásticos.
Tenho um irmão num cemitério,
fora um que tinha o meu nome.
Tenho uma namorada num cemitério.
São os hóspedes de um branco hotel
que perturba as floristas.

POSSE - João José Cochofel

Lá fora
o sol passava as fronteiras
de horizontes longínquos,
e dentro do quarto tombava
uma luz vaga…
Deitado
o teu lindo corpo espraiava-se
brando,
num abandono morno
que a luz sem arestas afagava.
Tudo em ti era uma espera
dos teus seios suaves de menina
e do teu sexo em flor.
Minhas mãos escorregaram lentas…
Tu lentamente cedias
e os olhos eram poços fundos e escuros
na noite que descia

ENCONTRO – Marina Tsvetaeva

(Tradução de Décio Pignatari )

Vou chegar tarde ao encontro marcado,
cabelos já grisalhos. Sim, suponho
ter-me agarrado à primavera, enquanto
via você subir de sonho em sonho.

Vou carregar esse amargo – por largo
tempo e muitos lugares, de penedos
a praças (como Ofélia – sem lámurias)
por corpos e almas – e sem medos!

A mim, digo que viva; à terra, gire
com sangue no bosque e sangue corrente,
mesmo que o rosto de Ofélia me espie
por entre as relvas de cada corrente,

e, amorosa sedenta, encha a boca
de lodo – oh, haste de luz no metal!
Não chega este amor à altura do seu
amor … Então, enterre-me no céu!

O QUE DIZEM OS GIRASSÓIS SOBRE A MORTE – Micheline Verunschk


Eles vestiram
suas roupas sujas
e saíram de casa.
E suas mãos
se desmanchando
em linhas de sangue
borraram a lã dos cordeiros
e as amendoeiras.
Nossas tias lamentavam a lua,
o tapete que teciam,
a voz de esmeralda
da menina caída no poço.
Eles não sabiam,
mas estávamos lá.
Bebemos em silêncio
o sêmen ainda quente do morto.

terça-feira, 17 de março de 2015

A LUA NOVA – Manoel Azevedo da Silveira Neto



No silêncio da cor - treva silente -
abriu-se a noite mádida e sombria,
logo que o Sol, rezando: Ave Maria...
fechou no Ocaso as portas de oiro ardente.
 
  A terra, a mata, o rio, a penedia,
tudo se fora pela treva e, rente
ao céu, ficou a lua nova algente,
como um sonho esquecido pelo dia.
 
  Ela assim foi: morreu; desde esse instante,
pálido e frio, como a lua nova,
 ficou-me entre as saudades seu semblante.
 
  Mas, ouve: quanto mais doída cresce
 a noite que me vem da sua cova, 
mais branca e inda mais fria ela aparece.

A NUVEM – Teófilo Dias



Sulcas o ar de um rastro perfumoso
que os nervos me alvoroça e tantaliza,
 quando o teu corpo musical desliza
ao hino do teu passo harmonioso.
 
A pressão do teu lábio saboroso
verte-me na alma um vinho que eletriza,
que os músculos me embebe, e os nectariza,
e afrouxa-os, num delíquio langoroso.
 
E quando junto a mim passas, criança,
revolta a crespa, luxuosa trança,
 na espádua arfando em túrbidos negrumes,
 
naufraga-me a razão em sombra densa,
 como se houvera sobre mim suspensa
uma nuvem de cálidos perfumes!

CLEÓPATRA - Alberto Samain

 (Tradução de Álvaro Reis)
 
Densa, a noite a pesar sobre o Nilo obscuro.
Cleópatra, arrebatada à luz fria e esplendente
dos astros, afastando as servas, de repente,
rasga as vestes num gesto impudico e seguro.
 
De pé, no alto terraço, a plástica imponente
 mostra cheia de amor como um fruto maduro!
 Toda nua, ela vibra, ignívoma serpente,
do vento ao morno beijo, alva, no cimo escuro.
 
Ela quer tenha o mundo esta noite o perfume
da sua carne! E ao olhar, fulge-lhe estranho lume...
- sombria flor do sexo esparsa no ar noturno

- E a Esfinge, pelo areal do tédio taciturno,
sente um fogo invadir-lhe o impassível granito,
- e um frêmito percorre o deserto infinito...