sexta-feira, 10 de julho de 2015

LUTA INSANA - Manuel Maria Barbosa du Bocage

Meu ser evaporei na luta insana 
Do tropel de paixões que me arrastava: 
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava 
Em mim quase imortal a essência humana! 

De que inúmeros sóis a mente ufana 
Existência falaz me não dourava! 
Mas eis sucumbe Natureza escrava 
Ao mal, que a vida em sua origem dana. 

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos! 
Esta alma, que sedenta em si não coube, 
No abismo vos sumiu dos desenganos 

Deus, ó Deus!... quando a morte a luz me roube, 
Ganhe um momento o que perderam anos, 
Saiba morrer o que viver não soube.

MULHER NUA - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

A beleza toda de uma mulher nua
É fatal e, no entanto, imperfeita
Ao dormir na pureza de que é feita
Como um planeta atraindo uma lua

Necessária na paisagem de uma vida
Traz em seu ventre a umidade da paixão
E na suave epiderme a ilusão
De que vai ser eternamente pressentida

Uma mulher nua é prazer a meu olhar
De meu saber, meu sentir, meu contemplar
A beleza superior de seu momento

Uma mulher nua é a música do luar
No desvario do sangue a se condensar
Com pasmo, a luxúria e o sentimento.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

FLORIRAM POR ENGANO AS ROSAS BRAVAS - Camilo Pessanha

Floriram por engano as rosas bravas 
No Inverno: veio o vento desfolhá-las... 
Em que cismas, meu bem? Por que me calas 
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!... 
Onde vamos, alheio o pensamento, 
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento 
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve, 
Surda, em triunfo, pétalas, de leve 
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparge – quanta flor! – do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

terça-feira, 7 de julho de 2015

COMPROMISSO – Dione Barreto


Poucas coisas são de valia neste mundo:
a solidão ancestral
alguma delicadíssima tristeza
este gesto contínuo de perder-se
e a tua ausência - esta
- a que me traz uma saudade necessária.

tudo que sou trago comigo
e dou-te.
este poder de consagrar o mundo
torná-lo meu
e pertencê-lo.

esta alegria de saber ser pássaro
um jeito de colorir palavras
e o meu olhar dentro do teu, configurado.

não é muito
mas este é o meu compromisso com a felicidade.

ÊXTASE - Bianca Rossini


Uma noite, ao canto de uma lua cheia,
cercado por estrelas
que reinam sobre a vasta escuridão

como uma pedrinha
longe na distância
meu coração saudoso
repousa sob tua sombra.

Sim, certamente
poderia ter-se perdido
no mar de todas as coisas,
mas seu brilho reflete
uma presença
que não pode ser vista impunemente.

Ressoam profundos desejos,
mantêm-se doces memórias,
como numa canção de ninar,
sempre cantarei teu nome junto ao meu,
como era para ser os nossos corações.

Felicidade, felicidade, felicidade
tudo o que era,
tudo o que não foi roubado,
e tudo o que poderá ser…

Como pétalas arrancadas cedo
pela fúria de uma tempestade,
ainda que seu talo sustenha uma flor
pode também esconder lágrimas
por um amor abandonado com desprezo.

A minha flor sobrevive ao inimaginável,
supera o banal,
desafia todos os temores e tristezas,
permanecendo aveludada,
aberta
encarando o céu
sempre.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

NARCISO - Rafael Rocha

Eu te amo assim como amo todo a mim
E por amar-me tanto assim amo-te inteira
Ao te beijar dou-me sempre beijos loucos
E grito aos teus ouvidos a paixão completa
Vivenciada dentro de mim e para ti.

Amo-te assim porque muito me amo todo
E se vou te desprezar estarei me desprezando
Meu ódio e meu amor são medidos por meu ego
Não te sentir presente é não me sentir no mundo
Nunca saber as desilusões que carrego.

Nos signos do Zodíaco abraço luzes e trevas
Sou eu e sendo eu serei as tuas amplidões
Nossos destinos estão marcados em todos os planetas
Com os feitos dos deuses nas ínfimas canções
Porque te amo assim como amo todo a mim.

RESPIRAR - Rainer Maria Rilke

Tradução de William Zeytoulian

Respirar, ah, poesia invisível!
Câmbio puro e contínuo entre o espaço
e o ser. Contrapeso castiço,
em cujo compasso me enlaço.

Única onda nos ares,
em cujo mar, progressivamente, me faço;
o menor de todos possíveis mares, –
conquista do espaço.

Quantas dessas estâncias de espaço não via
nascerem em mim? Muitos ventos
são cria minha.

Me reconheces, ar, cheio de partes da minha lavra?
Tu, que foste já casca lisa,
elipse e folha de minhas palavras.

ESTRELÁRIO - Luís Aranha

O céu...
Por que o olhas tanto tempo
Com os teus olhos castanhos
Como duas gotas de mel
Atravessadas de luz?
Pois não vês?
As estrelas são abelhas
Para a colmeia da lua...

quinta-feira, 2 de julho de 2015

CONSIDERAÇÕES SOBRE A VIOLÊNCIA DE ESTADO - Antonio Carlos Gomes

A história não muda
Mas os retardados
Tentam retardá-la
Não como saudosistas
Nem como arqueólogos
Mas como ratos
No paiol queimado
Procurando o grão de milho
Que se escondeu nas frestas

O homem mata o homem
Não como defesa
Mas para que este
Não perceba sua fraqueza
E sua ignorância
Pois nos destroços
Do seu palácio de quimeras
Tenta fazer à areia da demolição
Pedras da nova construção
Aparando o vento

Deixe a história andar
O rei não para a história
Apenas coloca na masmorra
Quem um dia será algoz
E a cabeça decepada
Dirá:
- Fui rei
Mais nada!

quinta-feira, 11 de junho de 2015

BARRO NU (OS ARAUTOS NEGROS) - César Vallejo

Tradução de Jorge Henrique Bastos

Erguem-se visagens fúnebres do lábio
Como batráquios terríveis na atmosfera.
Pelo Saara azul da Substância
Caminha um verso cinza, um dromedário

Fosforece um esgar de pesadelos cruéis.
E o cego que morreu repleto de vozes
De neve. Madrugar o poeta, o nômade,
É um dia áspero para ser homem.

As horas seguem febris e abortam
Nos ângulos rubros séculos de ventura.
Quem corta o fio, quem desfaz
Impiedosamente os nervos,
Cordéis já gastos, na tumba?

Amor! E tu também. Pedras gastas
Se delineiam na tua máscara que se rasga
Contudo, a tumba é
Um sexo de mulher que conquista o homem!

A UM PAPA – Píer Paolo Pasolini

Tradução de Pedro Heise e Cide Piquet


Poucos dias antes de você morrer, a morte
havia posto os olhos sobre um seu coetâneo:
aos vinte anos, você era estudante, ele operário,
você nobre, rico, ele um rapazote plebeu:
mas os mesmos dias douraram sobre os dois
na velha Roma que voltava a ser tão nova.
Eu vi os seus restos, pobre Zucchetto.
Zanzava de noite bêbado perto do Mercado,
e um bonde que vinha de San Paolo o apanhou
e arrastou um tanto pelos trilhos entre os plátanos:
ficou ali algumas horas, embaixo das rodas:
algumas pessoas se juntaram ao redor para olhar,
em silêncio: era tarde, havia poucos passantes.
Um dos homens que existem porque você existe,
um velho policial escrachado como um louco,
a quem se aproximava muito gritava: “Fora, cambada!”.
Depois veio o automóvel de um hospital para levá-lo:
o povo foi embora, ficaram uns trapos aqui e ali,
e a dona de um bar noturno pouco adiante,
que o conhecia, disse a um recém-chegado
que Zucchetto tinha sido pego por um bonde, tinha morrido.
Poucos dias depois você morria: Zucchetto era um
do seu grande rebanho romano e humano,
um pobre bebum, sem família e sem cama,
que vagava de noite, vivendo quem sabe como.
Você não sabia nada sobre ele: como não sabia nada
sobre outros milhares de cristos como ele.
Talvez eu seja cruel ao me perguntar por que razão
pessoas como Zucchetto eram indignas do seu amor.
Existem lugares infames, onde mães e crianças
vivem numa poeira antiga, numa lama de outras épocas.
Não muito longe de onde você viveu,
à vista da bela cúpula de São Pedro,
há um desses lugares, o Gelsomino…
Um morro partido ao meio por uma pedreira, e embaixo,
entre um canal e uma fila de prédios novos,
um monte de construções miseráveis, não casas, mas pocilgas.
Bastava apenas um gesto seu, uma palavra,
para aqueles seus filhos terem uma casa:
você não fez um gesto, não disse uma palavra.
Não lhe pediam que perdoasse Marx! Uma onda
imensa que se refrata por milênios de vida
o separava dele, da sua religião:
mas na sua religião não se fala de piedade?
Milhares de homens sob o seu pontificado,
diante dos seus olhos, viveram em estábulos e pocilgas.
Você sabia, pecar não significa fazer o mal:
não fazer o bem, isto significa pecar.
Quanto bem você podia ter feito! E não fez:
nunca houve um pecador maior que você.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

HORTÊNCIAS (Poema Homenagem) – Silas Corrêa Leite


ontem eu vi Oscar Niemeyer
numa avenida paulista
tomava caldo-de-cana
como se espremesse frutas
bebia daquela doçura
como quem apalpa um halo
e olhava os horizontes
querendo, neles, pôr calço
ontem eu vi Oscar Niemeyer
que é menor que gabirova
pequeno como candura
sem pose de ser medida
tinha sonhos sem cimento
estática como um emissor
e punha reparos nas coisas
da Augusta Sampa embrutecida
ontem eu vi Oscar Niemeyer
descendo a Rua Augusta
(ou seria a Mário de Andrade
pois que não apreciei direito?)
tinha palavras em si
como cabem na videira
e ouvia com prazeirança
os ruídos do progresso
ontem eu vi Oscar Niemeyer
entre uma bodega , um circo
nem preciso dizer direito
tenho certeza , era ele
parecia com Juscelino
um pouco com Burle Marx
mas era tão brasileirinho
como uma palmeira ao sol
(meus alunos não acreditaram ;
minha mulher disse - é incrível
- mas eu só acredito vendo -
falou-me, sem entusiasmo)
tapei o sol com peneira
olhei para uma árvore , vi
também ela era ele sim
pois se muito me parece.
ontem eu vi Oscar Niemeyer
chispando pegar um táxi
foi-se embora antes da chuva
com sua postura Brasília
fiquei olhando seu corpo
caldo de cana-de-açúcar
depois fui camelar hortênsias
num dia de todos os santos

A UMA CADEIRA – Bruno Ramalho de Carvalho

Em conversa com a solidão,
por acidente de um fim de tarde,
descobri que meu corpo arde
de poesia sem explicação.

Decerto, outrora me acharia louco,
mas agora um bobo sem inspiração,
dedicando a ela todo o coração,
o que, um dia, a outrem dediquei tão pouco.

Assim, pela arte que em mim não morre,
e sobrevive, sim, à linha mais torta,
fiz estes versos a uma cadeira,
que, por acaso, segurava a porta.

SUFOCO – Gisele Lemper

Eu também grito.
Não para que ouças ou te comova 
minha aflição, afinal de nada me valeria 
mais uma desculpa esfarrapada
ou aquela costumeira incompreensão. 
Eu também grito.
Não para que me socorras, piedoso, 
com mentiras rebatidas naquele calor 
confuso, que critica a intensidade
e se defende de maior envolvimento. 
Porque apenas te quero inteiro
- inferno! - para dentro me desintegrar 
no delicioso prazer do meu orgasmo. 
Eu me esforço, me agrido, me exijo
em meus bons motivos, discretamente,
sem te confrontar com perguntas profundas, 
embaraçosas, cobradoras, irrespondíveis. 
Eu grito e me viro - agora sabes -
porque sufoco.

SENSUAL ALICE – Francisco Miguel de Moura

Foi na queda da minha meninice,
desaguando na minha juventude, 
que me veio à cabeça esta virtude
de te gravar no coração, Alice.

Tu brincavas na areia, ondas salgadas
vinham quebrar-se nos teus pés sem pejo.
Aproveitar meu prematuro ensejo
seria um céu. Perdi nossas pegadas.

Sonho as curvas da praia, as curvas tuas
como o seio nascente que guardavas...
De tantas coisas desejei só duas.

Na noite, as mãos levíssimas de sondas...
E entre séria e risonha te afastavas,
levada docemente pelas ondas.