domingo, 26 de julho de 2015

DIAS CONTADOS – Talis Andrade

Estou com os pés atados
os dias contados
Nunca mais
andar por aí
onde os caminhos eram ladeados
pelas verdes árvores
que davam sombra
e o canto dos pássaros
Onde os caminhos tinham o perfume
das flores e dos frutos

Estou com os pés atados
e as asas cortadas
Nunca mais
andar por aí
onde o rio era mais azul
Nunca mais
voar por aí
sobre o vale verdejante
Ousar o longe
as alturas

Voar sobre o campanário
da igreja da cidade que nasci
Voar sobre a casa amarela
dos meus assombros e encantos

Vê a menina na janela
que se faz mais distante
de quando eu caminhava
suplicante por um sorriso
um olhar

A menina não me via
nem percebia eu possuía
o poder de transformar
o que era feio em coisas lindas
Uma magia que apenas dependia
dos olhos dela cegos de mim

Nunca mais
voar por aí
Ousar o longe
as alturas
Nunca mais

Nunca mais
pelo vale verdejante
a voz cantante
da ninfa Eco
Nunca mais

quinta-feira, 23 de julho de 2015

COISA AMAR – Manuel Alegre

Contar-te longamente as perigosas
Coisas do mar. Contar-te o amor ardente
E as ilhas que só há no verbo amar
Contar-te longamente longamente

Amor ardente. Amor ardente. E mar
Contar-te longamente as misteriosas
Maravilhas do verbo navegar
E mar. Amar as coisas perigosas

Contar-te longamente que já foi
Num tempo doce coisa amar. E mar
Contar-te longamente como dói

Desembarcar em ilhas misteriosas
Contar-te o mar ardente e o verbo amar
E longamente as coisas perigosas.

INTIMIDADE - Juareiz Correya

eu gosto
do teu cheiro de dentro
de dizer que te mato
de prazer de cansaço
de perder os meus braços
navegando em teu mar

eu gosto
dessa carne que arde
mais cedo e mais tarde
pelos cantos da casa
de fazer minha rede
no vai-vem dessas pernas
(no aconchego das coxas)
de cair de cabeça
nos segredos da gruta

eu gosto
desse gosto mais doce
que o teu corpo oferece
de tanto gozar
do teu longo arrepio
dessas voltas do cio
desse amor sem parar

segunda-feira, 13 de julho de 2015

INDEPENDÊNCIA – Jorge de Sena

Recuso-me a aceitar o que me derem. 
Recuso-me às verdades acabadas; 
recuso-me, também, às que tiverem 
pousadas no sem-fim as sete espadas. 

Recuso-me às espadas que não ferem 
e às que ferem por não serem dadas. 
Recuso-me aos eus-próprios que vierem 
e às almas que já foram conquistadas. 

Recuso-me a estar lúcido ou comprado 
e a estar sozinho ou estar acompanhado. 
Recuso-me a morrer. Recuso a vida. 

Recuso-me à inocência e ao pecado 
como a ser livre ou ser predestinado. 
Recuso tudo, ó Terra dividida!

sexta-feira, 10 de julho de 2015

LUTA INSANA - Manuel Maria Barbosa du Bocage

Meu ser evaporei na luta insana 
Do tropel de paixões que me arrastava: 
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava 
Em mim quase imortal a essência humana! 

De que inúmeros sóis a mente ufana 
Existência falaz me não dourava! 
Mas eis sucumbe Natureza escrava 
Ao mal, que a vida em sua origem dana. 

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos! 
Esta alma, que sedenta em si não coube, 
No abismo vos sumiu dos desenganos 

Deus, ó Deus!... quando a morte a luz me roube, 
Ganhe um momento o que perderam anos, 
Saiba morrer o que viver não soube.

MULHER NUA - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

A beleza toda de uma mulher nua
É fatal e, no entanto, imperfeita
Ao dormir na pureza de que é feita
Como um planeta atraindo uma lua

Necessária na paisagem de uma vida
Traz em seu ventre a umidade da paixão
E na suave epiderme a ilusão
De que vai ser eternamente pressentida

Uma mulher nua é prazer a meu olhar
De meu saber, meu sentir, meu contemplar
A beleza superior de seu momento

Uma mulher nua é a música do luar
No desvario do sangue a se condensar
Com pasmo, a luxúria e o sentimento.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

FLORIRAM POR ENGANO AS ROSAS BRAVAS - Camilo Pessanha

Floriram por engano as rosas bravas 
No Inverno: veio o vento desfolhá-las... 
Em que cismas, meu bem? Por que me calas 
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!... 
Onde vamos, alheio o pensamento, 
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento 
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve, 
Surda, em triunfo, pétalas, de leve 
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparge – quanta flor! – do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

terça-feira, 7 de julho de 2015

COMPROMISSO – Dione Barreto


Poucas coisas são de valia neste mundo:
a solidão ancestral
alguma delicadíssima tristeza
este gesto contínuo de perder-se
e a tua ausência - esta
- a que me traz uma saudade necessária.

tudo que sou trago comigo
e dou-te.
este poder de consagrar o mundo
torná-lo meu
e pertencê-lo.

esta alegria de saber ser pássaro
um jeito de colorir palavras
e o meu olhar dentro do teu, configurado.

não é muito
mas este é o meu compromisso com a felicidade.

ÊXTASE - Bianca Rossini


Uma noite, ao canto de uma lua cheia,
cercado por estrelas
que reinam sobre a vasta escuridão

como uma pedrinha
longe na distância
meu coração saudoso
repousa sob tua sombra.

Sim, certamente
poderia ter-se perdido
no mar de todas as coisas,
mas seu brilho reflete
uma presença
que não pode ser vista impunemente.

Ressoam profundos desejos,
mantêm-se doces memórias,
como numa canção de ninar,
sempre cantarei teu nome junto ao meu,
como era para ser os nossos corações.

Felicidade, felicidade, felicidade
tudo o que era,
tudo o que não foi roubado,
e tudo o que poderá ser…

Como pétalas arrancadas cedo
pela fúria de uma tempestade,
ainda que seu talo sustenha uma flor
pode também esconder lágrimas
por um amor abandonado com desprezo.

A minha flor sobrevive ao inimaginável,
supera o banal,
desafia todos os temores e tristezas,
permanecendo aveludada,
aberta
encarando o céu
sempre.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

NARCISO - Rafael Rocha

Eu te amo assim como amo todo a mim
E por amar-me tanto assim amo-te inteira
Ao te beijar dou-me sempre beijos loucos
E grito aos teus ouvidos a paixão completa
Vivenciada dentro de mim e para ti.

Amo-te assim porque muito me amo todo
E se vou te desprezar estarei me desprezando
Meu ódio e meu amor são medidos por meu ego
Não te sentir presente é não me sentir no mundo
Nunca saber as desilusões que carrego.

Nos signos do Zodíaco abraço luzes e trevas
Sou eu e sendo eu serei as tuas amplidões
Nossos destinos estão marcados em todos os planetas
Com os feitos dos deuses nas ínfimas canções
Porque te amo assim como amo todo a mim.

RESPIRAR - Rainer Maria Rilke

Tradução de William Zeytoulian

Respirar, ah, poesia invisível!
Câmbio puro e contínuo entre o espaço
e o ser. Contrapeso castiço,
em cujo compasso me enlaço.

Única onda nos ares,
em cujo mar, progressivamente, me faço;
o menor de todos possíveis mares, –
conquista do espaço.

Quantas dessas estâncias de espaço não via
nascerem em mim? Muitos ventos
são cria minha.

Me reconheces, ar, cheio de partes da minha lavra?
Tu, que foste já casca lisa,
elipse e folha de minhas palavras.

ESTRELÁRIO - Luís Aranha

O céu...
Por que o olhas tanto tempo
Com os teus olhos castanhos
Como duas gotas de mel
Atravessadas de luz?
Pois não vês?
As estrelas são abelhas
Para a colmeia da lua...

quinta-feira, 2 de julho de 2015

CONSIDERAÇÕES SOBRE A VIOLÊNCIA DE ESTADO - Antonio Carlos Gomes

A história não muda
Mas os retardados
Tentam retardá-la
Não como saudosistas
Nem como arqueólogos
Mas como ratos
No paiol queimado
Procurando o grão de milho
Que se escondeu nas frestas

O homem mata o homem
Não como defesa
Mas para que este
Não perceba sua fraqueza
E sua ignorância
Pois nos destroços
Do seu palácio de quimeras
Tenta fazer à areia da demolição
Pedras da nova construção
Aparando o vento

Deixe a história andar
O rei não para a história
Apenas coloca na masmorra
Quem um dia será algoz
E a cabeça decepada
Dirá:
- Fui rei
Mais nada!

quinta-feira, 11 de junho de 2015

BARRO NU (OS ARAUTOS NEGROS) - César Vallejo

Tradução de Jorge Henrique Bastos

Erguem-se visagens fúnebres do lábio
Como batráquios terríveis na atmosfera.
Pelo Saara azul da Substância
Caminha um verso cinza, um dromedário

Fosforece um esgar de pesadelos cruéis.
E o cego que morreu repleto de vozes
De neve. Madrugar o poeta, o nômade,
É um dia áspero para ser homem.

As horas seguem febris e abortam
Nos ângulos rubros séculos de ventura.
Quem corta o fio, quem desfaz
Impiedosamente os nervos,
Cordéis já gastos, na tumba?

Amor! E tu também. Pedras gastas
Se delineiam na tua máscara que se rasga
Contudo, a tumba é
Um sexo de mulher que conquista o homem!