terça-feira, 18 de agosto de 2015

O BEIJA-FLOR - Tobias Barreto

Era uma moça franzina,

Bela visão matutina

Daquelas que é raro ver,

Corpo esbelto, colo erguido,

Molhando o branco vestido

No orvalho do amanhecer.

 

Vede-a lá: tímida, esquiva...

Que boca! é a flor mais viva,

Que agora está no jardim;

Mordendo a polpa dos lábios

Como quem suga o ressábio

Dos beijos de um querubim!

 

Nem viu que as auras gemeram,

E os ramos estremeceram

Quando um pouco ali se ergueu...

Nos alvos dentes, viçosa,

Parte o talo de uma rosa,

Que docemente colheu.

 

E a fresca rosa orvalhada,

Que contrasta descorada,

Do seu rosto a nívea tez,

Beijando as mãozinhas suas,

Parece que diz: nós duas!...

E a brisa emenda: nós três! ...

 

Vai nesse andar descuidoso,

Quando um beija-flor teimoso

Brincar entre os galhos vem,

Sente o aroma da donzela,

Peneira na face dela,

E quer-lhe os lábios também

 

Treme a virgem de surpresa,

Leva do braço em defesa,

Vai com o braço a flor da mão;

Nas asas d’ave mimosa

Quebra-se a flor melindrosa,

Que rola esparsa no chão.

 

Não sei o que a virgem fala,

Que abre o peito e mais trescala

Do trescalar de uma flor:

Voa em cima o passarinho...

Vai já tocando o biquinho

Nos beiços de rubra cor.

 

A moça, que se envergonha

De correr, meio risonha

Procura se desviar;

Neste empenho os seios ambos

Deixa ver; inconhos jambos

De algum celeste pomar! ...

 

Forte luta, luta incrível

Por um beijo! É impossível

Dizer tudo o que se deu.

Tanta coisa, que se esquece

Na vida!  Mas me parece

Que o passarinho venceu! ...

 

Conheço a moça franzina

Que a fronte cândida inclina

Ao sopro de casto amor:

Seu rosto fica mais lindo,

Quando ela conta sorrindo

A história do beija-flor.

domingo, 9 de agosto de 2015

PRAZERES - Antonio Carlos Gomes

Apenas três são os prazeres:
Abrigo,
Sexo,
Alimento...
O restante é medo.

Abrigo tem sentinela:
Cria a amizade...
Sexo: grande prazer
Cria a continuidade.
Alimento é trabalho:
Cria a comunidade...
O restante é medo
De um deus
Que dá e tira:
Como nada sabemos
Ou nos prostramos em adoração
Ou em orgias sem fim...

Criamos o ritual
Para espantar a morte
Caminhamos sem rumo...

quinta-feira, 30 de julho de 2015

TELA NÚMERO DOIS – Valdeci Ferraz

Na terra dos homens clonados
foram extintos os espelhos
e encerrados em caixões de aço os revolucionários,
ato que se tornou inútil,
pois as palavras formaram versos
cuja força derreteu a abóbada
e se expandiu além das fronteiras.

O sangue dos dedos cortados adubaram a terra
e a mulher elevou a voz numa canção desesperada.
Os heróis voltaram aos seus quartos
e foram dormir com suas amantes
enquanto um poeta se masturbava
diante de um computador moribundo.

Das ruas, dos becos, debaixo dos viadutos,
das pontes, das marquises, dos sobrados abandonados
elevou-se o clamor das prostitutas,
dos mendigos, dos meninos de rua,
dos bêbados pedindo aos clonados
que não deixassem a poesia morrer.

Do topo das árvores surgiram
milhares de beija-flores empurrando com o bico
um general e um capitalista em direção
a um mar repleto de tubarões.
De repente, os homens clonados deram-se as mãos
e começaram a cantar liderados por um menino
que trazia em uma mão uma tesoura vermelha
e na outra uma batuta em forma de caneta.

À medida que escrevia ao vento
os homens clonados incorporavam as notas
e a canção chegava aos morros, nas favelas,
nos campos, onde as mulheres e as crianças
se punham a dançar enquanto
a esperança brilhava nos olhos dos homens.

Sobre o asfalto um grupo de seres encapuzados
tentava destruir a roda dos homens clonados
jogando sobre eles cruzes de madeiras em chamas,
em contato com as palavras que o menino escrevia
as cruzes se apagavam, desconjuntavam-se
e caíam no chão formando palavras
que só o menino maestro podia entender.

Depois que a música cessou
o menino apanhou as palavras
guardando-as dentro de um saco
que entregou para uma prostituta
conhecida como Maria Madalena.
No tempo da última trombeta será decifrado
o significado desse mistério,
disse ele com uma voz grave, porém serena.

Em seguida, o menino maestro empunhou
a tesoura vermelha e avançou sobre os encapuzados,
as cabeças cobertas de sangue rolaram pelo asfalto
e sopradas pelo vento caíram no rio que banhava a cidade.

O avesso de mim surgiu novamente
e expôs sobre as calçadas livros
cujos personagens fluíam das folhas
espantados com o tamanho dos arranha-céus
e a cor avermelhada das águas.
Que terra estranha é essa?
Perguntou um homem seco
vestido com uma armadura de lata
e armado com uma lança comprida.

Um jovem magro com ar esfomeado
se aproximou do menino.
Ele tinha um relógio nas mãos
e pretendia empenhá-lo para comprar comida.
Outro senhor ofereceu uma guilhotina pela tesoura,
porém todos os olhares se voltaram
para uma mulher que
emergiu dos livros completamente nua
e ornada nos cabelos com um diadema de diamantes e rubis.

Quem é ela?
perguntaram os homens clonados,
mas ninguém ousou responder,
pois temiam fazê-la desaparecer,
tal a fragilidade de sua figura exuberante.
A mulher nua ergueu a mão num gesto solene
e todos se calaram.
Ela então subiu no palco
formado pelas madeiras das cruzes e anunciou a nova aurora.

Da sua boca fluíam estrelas e sonhos
que os homens clonados recolhiam
para alimentar os que haviam
perdido a capacidade de sonhar.
Da sua boceta negra emanava um cheiro de liberdade
razão pela qual todos compreenderam 
que ela fora amada por todos os revolucionários
que haviam escapado dos caixões de aço.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A VERDADE – Donatien Alphonse François - Marquês de Sade

Tradução de Magnólia Costa Santos

Mas que quimera é esta, estéril e impotente,
Que divindade é esta imposta à néscia gente
Por sacerdotes vis, cambada de impostores?
Quererão eles contar-me entre os seus seguidores?

Ah, jamais, juro-o, e não faltarei ao já dito,
Jamais ídolo tão repelente e esquisito
Esse que do delírio é filho e da irrisão
A mim me causará a mais leve impressão.

Eu, glorioso e feliz com o meu epicurismo,
Só pretendo expirar no seio do ateísmo
E que o infame Deus feito para me alarmar
Seja ideado por mim tão só para o blasfemar.

Minha alma te detesta, oh sim, vã ilusão,
E protesto-o aqui, pra tua convicção.
Quisera que existir pudesses por um momento
Pra gozar o prazer de insultar-te a contento.

De fato ele quem é, esse fantasma odioso,
Esse poltrão de Deus, esse ser horroroso
Que nada oferece ou mostra ao espírito e ao olhar,
Que faz tremer o parvo e o que é sábio zombar,

Que aos sentidos não fala e nem o entende alguém,
Cujo culto cruel mais sangue sempre tem
Feito correr que a guerra ou que Témis feroz
Em mil anos verter fizeram entre nós?

Deífico tratante, em vão eu o analiso
Com filósofo olhar, em vão o estudo e viso:
Não vejo no motor de tais religiões
Mais que um impuro nó de mil contradições,

Que cede e se desfaz mal a gente o encara,
O insulta à vontade, o ultraja, o declara
Gerado pelo temor e da esperança nascido,
Que o meu espírito jamais teria concebido;

Em alternância ele é, nas mãos dos que o erigem,
Objeto de terror, de alegria ou vertigem,
Que o astuto impostor que no-lo vem pregar
Faz sobre a vida humana a seu prazer reinar,

Que ora ruim o pinta, ora em bondade infindo,
Ora nos massacrando, ora de pai servindo,
Sempre lhe atribuindo, a mando das paixões,
Costumes como os seus, suas opiniões;

Ou a mão que perdoa ou a que nos entala,
Com este Deus idiota o padre nos embala.
Com que direito aquele que a mentira adstringe
Pretende submeter-me ao erro que o atinge?

Careço eu do Deus que a sábia mente abjura
Pra a mim mesmo explicar as leis da mãe natura?
Nela tudo se move, e o seu seio criador
Age sem precisar da ajuda dum motor.

Este duplo embaraço algo me dá a ganhar?
A causa do universo esse Deus vem mostrar?
Se cria, também é criado, e assim fico,
Em recorrer a ele como antes interdito.

Sai do meu seio, sai, infernal impostura,
Desaparecendo cede às leis da mãe natura:
Ela só tudo fez, tu és o nada hiante
Do qual, ao nos criar, sua mão nos pôs distante.

Desvanece-te, pois, execrável quimera!
Pra longes climas foge, abandona esta terra
Onde mais não verás que corações fechados
Ao patoá intrujão dos teus apaniguados!

Quanto a mim, reconheço, é tal e é tamanho,
Tão justo, grande e forte este horror que te tenho,
Que com prazer, Deus vil, e com tranqüilidade
Que digo eu? com enlevo e voluptuosidade,

Teu carrasco era eu se tua fraca existência
Oferecesse algum ponto à vingança, à violência,
E feliz o meu braço ia ao teu coração
Comprovar o rigor desta minha aversão.

Mas é trabalho vão pretender-te atingir,
A tua essência escapa ao que a quer coagir.
Não podendo esmagar-te, ao menos, entre os vivos,
Queria eu derrubar os teus altares nocivos

E mostrar aos que um Deus cativa inda por ora
Que esse aborto tão vil que sua fraqueza adora
Não é feito pra pôr algum termo às paixões.
Ó ímpeto sagrado, altivas impressões,

Sempre, sempre por nós sede homenageados:
Vós só podeis auferir o culto dos mais sábios,
Vós só seu coração constantes deleitar,
Dados pela natureza, vós só nos alegrar!

Ceda-se ao seu poder e que a sua violência,
Subjugando nossa alma alheia à resistência,
Nossos prazeres transforme em leis impunemente:
Basta ao nosso desejo o que a sua voz expende.

Por mais que à agitação seu órgão nos arraste
Há que ceder-lhes sem remorso e sem desgaste;
E, não escrutando leis nem costumes lembrando,
Ardentemente ao erro irmo-nos entregando,

Que sempre por suas mãos no-lo ditou natura.
Respeitemos tão só o que ela nos murmura;
O que a nossa lei vã fustiga em toda a terra
É, pra o que ela planeia, o que mais preço encerra.

O que ao homem parece uma injustiça atroz
Efeito da sua mão corruptora é em nós,
E quando – hábito nosso – ir errar receamos,
Acolhê-la melhor é o que enfim lucramos.

Essas doces ações a que vós chamais crime
Esses excessos que só o parvo ilegitima
São os desvios que mais lhe agradam ao olhar
Vícios, inclinações que a fazem deleitar;

O que ela grava em nós não é senão sublime;
Aconselhando o horror, oferece quem vitima.
É feri-la então sem medo e sem temor talvez
De ter, em lhe cedendo, obrado malvadez.

Vejamos como o raio em suas mãos fatais
Fulmina ao acaso e como os filhos e os pais,
Os templos, os bordéis, os crentes, os bandidos,
Tudo à natura apraz, carente de delitos.

Servimo-la nós também ao cometer o crime:
Mais nossa mão o espalha e mais aquela o estima.
Usemos do seu grande império sobre nós,
Entregando-nos sempre ao prazer mais atroz:

Defesas nunca são suas leis homicidas
E a violação, o incesto, o roubo, os parricídios,
Os gostos de Sodoma e o que Safo aprova,
O que ao homem faz mal ou o que o leva à cova

Tudo por certo é meio de lhe agradar.
Por terra os deuses pôr, o seu raio roubar
E destruir com ele, o dardo faiscante,
Tudo o que nos despraz num mundo horripilante.

Nada se poupe então: que as suas malvadezas
Sirvam de exemplo em tudo às nossas más proezas.
Sagrado, nada há: tudo neste universo
Deve ao jugo vergar do nosso vivo acesso.

Quanto mais aumentar, variar a perfídia,
Melhor a sentirá nossa alma decidida:
Dobrando, encorajando as nossas tentativas,
Leva-nos passo a passo às ações mais nocivas.

Os belos anos vão-se, ela chama por nós;
Dos deuses escarnecendo, ouçamos sua voz:
Pra nos recompensar, seu crisol espera já;
O que o poder tomou, necessidade dá.

Tudo ali se restaura e reproduz também.
Do grande e do pequeno a puta será mãe,
E todos veem iguais seu olhar amoroso,
O monstro e o celerado, o bom e o virtuoso.

MEUS SETE ANOS E UM TREM PERIGOSO... – Ana Maria Leandro

Eu tinha então sete anos e queria ir
sozinha na minha primeira vez na escola.
Mas mamãe zelosa tinha medo de deixar
e vivia a falar: espere crescer mais um pouco...

O problema é que eu nunca crescia.
E era um tempo que eu nem sabia
o que eram problemas de segurança...
Estupros, drogas, maldade? Nem nunca ouvira falar!

O reino de nosso quintal só tinha fadas e anjos
pra com a gente subir na goiabeira e no abacateiro.
A gente dava “bom dia” a carteiros, de cabeça para baixo
pendurados que estávamos num galho qualquer...

Mas eu insistia, que um dia conseguiria
andar sozinha, os mais ou menos três quilômetros
entre minha casa e a escola... Lugar que ia todo dia!
Passei a maior parte da minha vida nas escolas.

Um dia ela arrumou meus cachinhos
assim como está na foto:
em duas pencas amarradas com laços de fita.
Era sempre assim: eram cachos ou trancinhas...

Neste dia, enfim, ela disse que eu poderia ir só:
mas avisou "cuidado no caminho...
E veja se a cancela do trem está aberta,
pra você atravessar". Então entendi: o perigo era o trem!
E hoje nem trem mais tem...

Anos depois, já adulta, eu soube que ela
fora atrás, se escondendo atrás de carros,
muros e postes, qualquer coisa,
prá saber se nada mal estava me acontecendo...

Sucesso total cheguei sã e salva à escola!
E eu emocionei-me quando ela contou essa história...
Por que será que hoje, as crianças se perdem
em caminhos, que nem de escola são?

Não culpo as mães, não é fácil hoje dizer “não”.
Mas onde estamos nos escondendo?!...
Enquanto isto o mal se esparrama, mais veloz
do que trens, às claras pelos caminhos...

terça-feira, 28 de julho de 2015

ACLAMAÇÃO AO RECIFE – Luiz Eduardo Garcia Aguiar

Recife, tu me dás razão
Para desta cidade gostar...

Tua música, tua gente,
Teus ritmos, tua mistura
Teu folclore, teu carnaval de rua,
Teu sol, teu mar.
Recife, tu me dás razões
Para desta cidade gostar...

Beberibe, Capibaribe,
Bacia do Pina, Beira-mar,
Recife Antigo, Boa Vista,
Agamenon, Caxangá.
Teus coqueiros, teu clima,
Tuas frutas, frutos do mar,
Casa Forte, Imbiribeira,
Espinheiro, Cruz Cabugá.
Recife, tu me dás razões
Para desta cidade gostar...

Teus folguedos juninos,
Coco, ciranda, baião,
Maracatu, caboclinhos,
Xaxado, frevo, xote, bumba-meu-boi,
Alceu Valença, Chico Science,
 Gilberto Freyre, forró, Gonzagão,
Recife, tu me dás razões
Que me despertam admiração...

Apipucos, Aurora,
Graças, do Sol, Fundão,
Água Fria, Guararapes,
Dantas Barreto, do Brum,
Campo Grande, Rosarinho,
Estelita, Malakoff,
Recife, tu me dás razões
Que me despertam admiração...

Encruzilhada, Entroncamento,
Chora Menino, Derby, Bom Jesus,
Maciel Pinheiro, tuas pontes,
Treze de Maio, Museu Brennand,
Recife, tu me dás razões
Para desta cidade gostar...

GUERREIROS DA VERDADE - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

Acalme-se o tempo! Estamos vivos!
Apesar dos imbecis que nos cercam!
Apesar dos alienados que nos insultam!
Apesar da idade negra querendo retornar!
Acalme-se o tempo! Estamos vivos!
Estamos aptos para a luta!

Agora é que podemos cantar Vandré em voz alta
Afiando as palavras no dedilhar dos versos.
E para não dizer que não falei das flores
Acalmemos o tempo porque a vida permanece.

Apesar dos alienados e das mídias e dos religiosos
Acalme-se o tempo! Estamos mais vivos do que nunca
E dessa vez não irão roubar nossos sapatos!
Dessa vez não irão invadir nossas casas!
Dessa vez não irão catequizar nossos filhos!

Temos força e voz para gritar por nossas vidas
E temos as armas da verdade contra a ignomínia!
Calem-se os sinos das igrejas!
Calem-se os fundamentalistas!
Calem-se os alienados e retardados da política!
Os guerreiros da verdade estão nas ruas!

MINHA SERRA – Patativa do Assaré

Quando o sol nascente se levanta
Espalhando os seus raios sobre a terra,
Entre a mata gentil da minha serra
Em cada galho um passarinho canta.

Que bela festa! Que alegria tanta!
E que poesia o verde campo encerra!
O novilho gaiteia a cabra berra
Tudo saudando a natureza santa.

Ante o concerto desta orquestra infinda
Que o Deus dos pobres ao serrano brinda,
Acompanhada da suave aragem.

Beijando a choça do feliz caipira,
Sinto brotar da minha rude lira
O tosco verso do cantor selvagem.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

PESSOA – Koló Farias Eduão

Pessoa!
venha me consolar
a estrada não me espera
é tempo da nova era
de vera; mas vai passar.

Pessoa!
deixe a vida me levar
é hora de acontecer
tenho tudo pra fazer
se o vento me levar.

Pessoa!
eu quero subir o rio
e preciso do meu barco
é nele que eu embarco
na hora de navegar.

Pessoa!
não me deixe andar só
e se quiser uma companhia
eu sou versos e sou poesia
e a vida chama para amar

CASABLANCA – Ana Cristina César

Te acalma, minha loucura!
Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!
Este som de serra de afiar facas
não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardias...

Estas molas a gemer no quarto ao lado
Roberto Carlos a gemer nas curvas da Bahia
O cheiro inebriante dos cabelos na fila em frente no cinema...

As chaminés espumam pros meus olhos
As hélices do adeus despertam pros meus olhos
Os tamancos e os sinos me acordam depressa na
madrugada feita de binóculos de gávea
e chuveirinhos de bidê que escuto rígida nos lençóis de pano.