quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O PREÇO – Charles Bukowski

Bebendo um champanhe de 15 dólares
Cordon Rouge – na companhia de putas.

uma se chama Geórgia e
não é chegada em meia-calça :
estou sempre tendo que ajudá-la
com suas longas meias negras.

a outra é Pam – mais bonita
porém meio desalmada, e
fumamos e conversamos e
brinco com suas pernas  e
enfio meu pé descalço na
bolsa aberta de Geórgia.
está cheia de
frascos com pílulas.
tomo algumas delas.

“escutem”, eu digo, “uma de
Vocês tem alma, a outra
aparência. posso combinar
vocês duas? Pegar a alma
e enfiar na aparência?”

“se você me quer”, diz Pam,  “ vai
lhe custar cem pratas.”
bebemos um pouco mais e Geórgia
despenca no chão e não consegue
se levantar.

digo a Pam que gosto muito
de suas orelhas. seu
cabelo é longo e natural e
ruivo.

“estava de brincadeira quando falei em
cem” , ela diz.

“oh”, eu digo, quanto vai me
custar?”

ela acende um cigarro com
meu isqueiro e me olha
através da chama:

seus olhos me dizem.

“olhe” , eu digo,  “acho que não
poderei pagar aquele preço novamente.”

ela cruza as pernas
dá uma tragada em seu cigarro
sorri enquanto expele a fumaça
e diz, “claro que pode”.

SONETO DO ESQUECIMENTO - Ruy Espinheira

Porque me esqueces é que me anoiteço:
o coração se envolve em névoa e sombra
e um lento desalento vem e assombra
a vida em  que, sei, não desanoiteço.
amanhã, ou depois, conheço
tua força de esquecer, que põe à sombra
de frio vazio a alma que se assombra
sob  estrelas de treva . Desconheço
caminhos de fugir. E tudo quanto,
tão esquecido assim, posso fazer
é procurar não me morrer enquanto
tarda o momento de resplandecer
o sol, o mar, o sonho, a flor, o canto
dessa clara  manhã de te esquecer.

DE LONGE – Alda Lara

Não chores Mãe... Faz como eu, sorri!
Transforma as elegias de um momento
em cânticos de esperança e incitamento.
Tem fé nos dias que te prometi.

E podes crer, estou sempre ao pé de ti,
quando por noites de luar, o vento,
segreda aos coqueirais o seu lamento,
compondo versos que eu nunca escrevi...

Estou junto a ti nos dias de braseiro,
no mar...na velha ponte,... no Sombreiro,
em tudo quanto amei e quis p’ra mim...

Não chores, mãe!... A hora é de avançadas!...
Nós caminhamos certos, de mãos dadas,
e havemos de atingir um dia, o fim...

terça-feira, 18 de agosto de 2015

CHUVA DE CAJU – Joaquim Cardozo


Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Teresa? Maria?
Entra, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros
e em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Porque eu te quero muito bem, doce chuva,
Quer te chames Teresa ou Maria.

MEU CORAÇÃO – J. G. De Araújo Jorge

Eu tenho um coração um século atrasado
ainda vive a sonhar... ainda sonha, a sofrer...
acredita que o mundo é um castelo encantado
e, criança, vive a rir, batendo palmas de prazer...

Eu tenho um coração - um mísero coitado
que um dia há de por fim, o mundo compreender...
- é um poeta, um sonhador, um pobre esperançado
que habita no meu peito e enche de sons meu ser...

Quando tudo é matéria e é sombra - ele é uma luz
ainda crê na ilusão, no amor, na fantasia
sabe todos de cor os versos que compus...

Deus pôs-me um coração com certeza enganado:
- e é por isso talvez, que ainda faço poesia
lembrando um sonhador do século passado! 

A PRIMEIRA LÁGRIMA – Luiz Delfino

Quando a primeira lágrima caindo,
Pisou a face da mulher primeira,
O rosto dela assim ficou tão lindo
E Adão beijou-a de uma tal maneira,

 Que anjos e tronos pelo espaço infindo
Qual rompe a catadupa prisioneira,
As seis asas de azul e d’ouro abrindo,
Fugiram numa esplêndida carreira.

Alguns, pousando à próxima montanha
Queriam ver de perto os condenados
Da dor fazendo uma alegria estranha

E ante o rumor dos ósculos dobrados,,
Todos queriam punição tamanha,
Ansiosos, mudos, trêmulos, pasmados...

SONETO PRESUNÇOSO – Ledo Ivo

Que forma luminosa me acompanha
quando, entre o lusco e o fusco, bebo a voz
do meu tempo perdido, e um rio banha
tudo o que caminhei da fonte à foz?

Dos homens desde o berço enfrento a sanha
que os difere da abelha e do albatroz.
Meu irmão, meu algoz! No perde-e-ganha
quem ganhou, quem perdeu, não fomos nós.

O mundo nada pesa. Atlas, sinto
a leveza dos astros nos meus ombros.
Minha alma desatenta é mais pesada.

Quer ganhe ou perca, sou verdade e minto.
Se pergunto, a resposta é dos assombros.
No sol a pino finjo a madrugada.

O BEIJA-FLOR - Tobias Barreto

Era uma moça franzina,

Bela visão matutina

Daquelas que é raro ver,

Corpo esbelto, colo erguido,

Molhando o branco vestido

No orvalho do amanhecer.

 

Vede-a lá: tímida, esquiva...

Que boca! é a flor mais viva,

Que agora está no jardim;

Mordendo a polpa dos lábios

Como quem suga o ressábio

Dos beijos de um querubim!

 

Nem viu que as auras gemeram,

E os ramos estremeceram

Quando um pouco ali se ergueu...

Nos alvos dentes, viçosa,

Parte o talo de uma rosa,

Que docemente colheu.

 

E a fresca rosa orvalhada,

Que contrasta descorada,

Do seu rosto a nívea tez,

Beijando as mãozinhas suas,

Parece que diz: nós duas!...

E a brisa emenda: nós três! ...

 

Vai nesse andar descuidoso,

Quando um beija-flor teimoso

Brincar entre os galhos vem,

Sente o aroma da donzela,

Peneira na face dela,

E quer-lhe os lábios também

 

Treme a virgem de surpresa,

Leva do braço em defesa,

Vai com o braço a flor da mão;

Nas asas d’ave mimosa

Quebra-se a flor melindrosa,

Que rola esparsa no chão.

 

Não sei o que a virgem fala,

Que abre o peito e mais trescala

Do trescalar de uma flor:

Voa em cima o passarinho...

Vai já tocando o biquinho

Nos beiços de rubra cor.

 

A moça, que se envergonha

De correr, meio risonha

Procura se desviar;

Neste empenho os seios ambos

Deixa ver; inconhos jambos

De algum celeste pomar! ...

 

Forte luta, luta incrível

Por um beijo! É impossível

Dizer tudo o que se deu.

Tanta coisa, que se esquece

Na vida!  Mas me parece

Que o passarinho venceu! ...

 

Conheço a moça franzina

Que a fronte cândida inclina

Ao sopro de casto amor:

Seu rosto fica mais lindo,

Quando ela conta sorrindo

A história do beija-flor.

domingo, 9 de agosto de 2015

PRAZERES - Antonio Carlos Gomes

Apenas três são os prazeres:
Abrigo,
Sexo,
Alimento...
O restante é medo.

Abrigo tem sentinela:
Cria a amizade...
Sexo: grande prazer
Cria a continuidade.
Alimento é trabalho:
Cria a comunidade...
O restante é medo
De um deus
Que dá e tira:
Como nada sabemos
Ou nos prostramos em adoração
Ou em orgias sem fim...

Criamos o ritual
Para espantar a morte
Caminhamos sem rumo...

quinta-feira, 30 de julho de 2015

TELA NÚMERO DOIS – Valdeci Ferraz

Na terra dos homens clonados
foram extintos os espelhos
e encerrados em caixões de aço os revolucionários,
ato que se tornou inútil,
pois as palavras formaram versos
cuja força derreteu a abóbada
e se expandiu além das fronteiras.

O sangue dos dedos cortados adubaram a terra
e a mulher elevou a voz numa canção desesperada.
Os heróis voltaram aos seus quartos
e foram dormir com suas amantes
enquanto um poeta se masturbava
diante de um computador moribundo.

Das ruas, dos becos, debaixo dos viadutos,
das pontes, das marquises, dos sobrados abandonados
elevou-se o clamor das prostitutas,
dos mendigos, dos meninos de rua,
dos bêbados pedindo aos clonados
que não deixassem a poesia morrer.

Do topo das árvores surgiram
milhares de beija-flores empurrando com o bico
um general e um capitalista em direção
a um mar repleto de tubarões.
De repente, os homens clonados deram-se as mãos
e começaram a cantar liderados por um menino
que trazia em uma mão uma tesoura vermelha
e na outra uma batuta em forma de caneta.

À medida que escrevia ao vento
os homens clonados incorporavam as notas
e a canção chegava aos morros, nas favelas,
nos campos, onde as mulheres e as crianças
se punham a dançar enquanto
a esperança brilhava nos olhos dos homens.

Sobre o asfalto um grupo de seres encapuzados
tentava destruir a roda dos homens clonados
jogando sobre eles cruzes de madeiras em chamas,
em contato com as palavras que o menino escrevia
as cruzes se apagavam, desconjuntavam-se
e caíam no chão formando palavras
que só o menino maestro podia entender.

Depois que a música cessou
o menino apanhou as palavras
guardando-as dentro de um saco
que entregou para uma prostituta
conhecida como Maria Madalena.
No tempo da última trombeta será decifrado
o significado desse mistério,
disse ele com uma voz grave, porém serena.

Em seguida, o menino maestro empunhou
a tesoura vermelha e avançou sobre os encapuzados,
as cabeças cobertas de sangue rolaram pelo asfalto
e sopradas pelo vento caíram no rio que banhava a cidade.

O avesso de mim surgiu novamente
e expôs sobre as calçadas livros
cujos personagens fluíam das folhas
espantados com o tamanho dos arranha-céus
e a cor avermelhada das águas.
Que terra estranha é essa?
Perguntou um homem seco
vestido com uma armadura de lata
e armado com uma lança comprida.

Um jovem magro com ar esfomeado
se aproximou do menino.
Ele tinha um relógio nas mãos
e pretendia empenhá-lo para comprar comida.
Outro senhor ofereceu uma guilhotina pela tesoura,
porém todos os olhares se voltaram
para uma mulher que
emergiu dos livros completamente nua
e ornada nos cabelos com um diadema de diamantes e rubis.

Quem é ela?
perguntaram os homens clonados,
mas ninguém ousou responder,
pois temiam fazê-la desaparecer,
tal a fragilidade de sua figura exuberante.
A mulher nua ergueu a mão num gesto solene
e todos se calaram.
Ela então subiu no palco
formado pelas madeiras das cruzes e anunciou a nova aurora.

Da sua boca fluíam estrelas e sonhos
que os homens clonados recolhiam
para alimentar os que haviam
perdido a capacidade de sonhar.
Da sua boceta negra emanava um cheiro de liberdade
razão pela qual todos compreenderam 
que ela fora amada por todos os revolucionários
que haviam escapado dos caixões de aço.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A VERDADE – Donatien Alphonse François - Marquês de Sade

Tradução de Magnólia Costa Santos

Mas que quimera é esta, estéril e impotente,
Que divindade é esta imposta à néscia gente
Por sacerdotes vis, cambada de impostores?
Quererão eles contar-me entre os seus seguidores?

Ah, jamais, juro-o, e não faltarei ao já dito,
Jamais ídolo tão repelente e esquisito
Esse que do delírio é filho e da irrisão
A mim me causará a mais leve impressão.

Eu, glorioso e feliz com o meu epicurismo,
Só pretendo expirar no seio do ateísmo
E que o infame Deus feito para me alarmar
Seja ideado por mim tão só para o blasfemar.

Minha alma te detesta, oh sim, vã ilusão,
E protesto-o aqui, pra tua convicção.
Quisera que existir pudesses por um momento
Pra gozar o prazer de insultar-te a contento.

De fato ele quem é, esse fantasma odioso,
Esse poltrão de Deus, esse ser horroroso
Que nada oferece ou mostra ao espírito e ao olhar,
Que faz tremer o parvo e o que é sábio zombar,

Que aos sentidos não fala e nem o entende alguém,
Cujo culto cruel mais sangue sempre tem
Feito correr que a guerra ou que Témis feroz
Em mil anos verter fizeram entre nós?

Deífico tratante, em vão eu o analiso
Com filósofo olhar, em vão o estudo e viso:
Não vejo no motor de tais religiões
Mais que um impuro nó de mil contradições,

Que cede e se desfaz mal a gente o encara,
O insulta à vontade, o ultraja, o declara
Gerado pelo temor e da esperança nascido,
Que o meu espírito jamais teria concebido;

Em alternância ele é, nas mãos dos que o erigem,
Objeto de terror, de alegria ou vertigem,
Que o astuto impostor que no-lo vem pregar
Faz sobre a vida humana a seu prazer reinar,

Que ora ruim o pinta, ora em bondade infindo,
Ora nos massacrando, ora de pai servindo,
Sempre lhe atribuindo, a mando das paixões,
Costumes como os seus, suas opiniões;

Ou a mão que perdoa ou a que nos entala,
Com este Deus idiota o padre nos embala.
Com que direito aquele que a mentira adstringe
Pretende submeter-me ao erro que o atinge?

Careço eu do Deus que a sábia mente abjura
Pra a mim mesmo explicar as leis da mãe natura?
Nela tudo se move, e o seu seio criador
Age sem precisar da ajuda dum motor.

Este duplo embaraço algo me dá a ganhar?
A causa do universo esse Deus vem mostrar?
Se cria, também é criado, e assim fico,
Em recorrer a ele como antes interdito.

Sai do meu seio, sai, infernal impostura,
Desaparecendo cede às leis da mãe natura:
Ela só tudo fez, tu és o nada hiante
Do qual, ao nos criar, sua mão nos pôs distante.

Desvanece-te, pois, execrável quimera!
Pra longes climas foge, abandona esta terra
Onde mais não verás que corações fechados
Ao patoá intrujão dos teus apaniguados!

Quanto a mim, reconheço, é tal e é tamanho,
Tão justo, grande e forte este horror que te tenho,
Que com prazer, Deus vil, e com tranqüilidade
Que digo eu? com enlevo e voluptuosidade,

Teu carrasco era eu se tua fraca existência
Oferecesse algum ponto à vingança, à violência,
E feliz o meu braço ia ao teu coração
Comprovar o rigor desta minha aversão.

Mas é trabalho vão pretender-te atingir,
A tua essência escapa ao que a quer coagir.
Não podendo esmagar-te, ao menos, entre os vivos,
Queria eu derrubar os teus altares nocivos

E mostrar aos que um Deus cativa inda por ora
Que esse aborto tão vil que sua fraqueza adora
Não é feito pra pôr algum termo às paixões.
Ó ímpeto sagrado, altivas impressões,

Sempre, sempre por nós sede homenageados:
Vós só podeis auferir o culto dos mais sábios,
Vós só seu coração constantes deleitar,
Dados pela natureza, vós só nos alegrar!

Ceda-se ao seu poder e que a sua violência,
Subjugando nossa alma alheia à resistência,
Nossos prazeres transforme em leis impunemente:
Basta ao nosso desejo o que a sua voz expende.

Por mais que à agitação seu órgão nos arraste
Há que ceder-lhes sem remorso e sem desgaste;
E, não escrutando leis nem costumes lembrando,
Ardentemente ao erro irmo-nos entregando,

Que sempre por suas mãos no-lo ditou natura.
Respeitemos tão só o que ela nos murmura;
O que a nossa lei vã fustiga em toda a terra
É, pra o que ela planeia, o que mais preço encerra.

O que ao homem parece uma injustiça atroz
Efeito da sua mão corruptora é em nós,
E quando – hábito nosso – ir errar receamos,
Acolhê-la melhor é o que enfim lucramos.

Essas doces ações a que vós chamais crime
Esses excessos que só o parvo ilegitima
São os desvios que mais lhe agradam ao olhar
Vícios, inclinações que a fazem deleitar;

O que ela grava em nós não é senão sublime;
Aconselhando o horror, oferece quem vitima.
É feri-la então sem medo e sem temor talvez
De ter, em lhe cedendo, obrado malvadez.

Vejamos como o raio em suas mãos fatais
Fulmina ao acaso e como os filhos e os pais,
Os templos, os bordéis, os crentes, os bandidos,
Tudo à natura apraz, carente de delitos.

Servimo-la nós também ao cometer o crime:
Mais nossa mão o espalha e mais aquela o estima.
Usemos do seu grande império sobre nós,
Entregando-nos sempre ao prazer mais atroz:

Defesas nunca são suas leis homicidas
E a violação, o incesto, o roubo, os parricídios,
Os gostos de Sodoma e o que Safo aprova,
O que ao homem faz mal ou o que o leva à cova

Tudo por certo é meio de lhe agradar.
Por terra os deuses pôr, o seu raio roubar
E destruir com ele, o dardo faiscante,
Tudo o que nos despraz num mundo horripilante.

Nada se poupe então: que as suas malvadezas
Sirvam de exemplo em tudo às nossas más proezas.
Sagrado, nada há: tudo neste universo
Deve ao jugo vergar do nosso vivo acesso.

Quanto mais aumentar, variar a perfídia,
Melhor a sentirá nossa alma decidida:
Dobrando, encorajando as nossas tentativas,
Leva-nos passo a passo às ações mais nocivas.

Os belos anos vão-se, ela chama por nós;
Dos deuses escarnecendo, ouçamos sua voz:
Pra nos recompensar, seu crisol espera já;
O que o poder tomou, necessidade dá.

Tudo ali se restaura e reproduz também.
Do grande e do pequeno a puta será mãe,
E todos veem iguais seu olhar amoroso,
O monstro e o celerado, o bom e o virtuoso.