domingo, 13 de setembro de 2015

PEDRA FILOSOFAL – António Gedeão

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

PRAÇA DA REPÚBLICA DOS MEUS SONHOS - Roberto Piva

A estátua de Álvares de Azevedo é devorada
com paciência pela paisagem de morfina 
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo
e crianças brincando na tarde de esterco 
Praça da República dos meus sonhos 
onde tudo se faz febre e pombas crucificadas 
onde beatificados vêm agitar as massas 
onde Garcia Lorca espera seu dentista 
onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces 
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão 
lábios coagulam sem estardalhaço 
os mictórios tomam um lugar na luz 
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos 
delirium tremens diante do Paraíso
bundas glabras sexos de papel 
anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante
nas privadas cérebros sulcados de acenos 
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro 
há jovens pederastas embebidos em lilás 
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas 
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada 
enquanto o sangue faz naufragar as corolas 
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud
Praça da República dos meus Sonhos
última sabedoria debruçada numa porta santa

sábado, 12 de setembro de 2015

DISTRAÇÃO – Cláudia Gonçalves

quase meia-noite
onde estava
que não embarquei

contando estrelas
talvez…

quase meia-noite
a lua prata
avisou-me
e não…
não escutei

quase meia-noite
onde estava
que não embarquei

se o bonde passou
deixei… sobrei
parti-me de ti
sonhei as horas
que perdi

quase meia-noite
…desisti

PENSANDO – Charles Bukowski

outro dia fiquei pensando
no mundo sem mim
há o mundo continuando
a fazer o que faz e eu não estou lá
muito estranho
penso no caminhão do lixo passando
e levando o lixo e eu não estou lá
ou o jornal jogado no jardim
e eu não estou lá para pegá-lo
impossível e pior,
algum tempo depois de estar morto
vou ser verdadeiramente descoberto
e todos aqueles que tinham medo de mim
ou me odiavam vão subitamente me aceitar
minhas palavras vão estar em todos os lugares
vão se formar clubes e sociedades e será nojento
será feito um filme sobre a minha vida
me farão muito mais corajoso e talentoso do que sou
será suficiente para fazer os deuses vomitarem
a raça humana exagera em tudo:
seus heróis, seus inimigos, sua importância

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

CANTAR D'AMIGO – Fernando Namora

Estrangeiro!
talharam-nos em redor fossos, limites
e o cerco das fronteiras.
Estrangeiro! Ninguém entendeu, e nem tu, estrangeiro,
que entre nós não existem cordilheiras.

Ficaste de mãos desastradas, indiferentes,
quando a minha vida roçou a tua vida.
De olhos parados, indiferentes,
quando passei a teu lado.

Estrangeiro! Ficou-me esse desperdício de um adeus
que as tuas mãos frias não disseram,
nem os teus olhos vidrados,
nem a tua boca selada,
mas que eu pressenti, como alguém á beira de um cais,
ao ver sair barcos com gente que nos é estranha,
agitando lenços estranhos
alguém que sofre por nada.

Iludimos a vida, amigo!
E como para ultrapassar as fronteiras
os fossos,
as ironias
bastaria um só olhar!...
Não, estrangeiro! Vamos misturar o sangue dos rios
o abismo dos mapas
fazer qualquer coisa! Misturar, misturar.


PAZ DO POETA - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

O melhor do sentimento
É paixão no pensamento
É vontade de sonhar
Sentir na vida verdades
Viver curtindo saudades
Amar e sempre sonhar
O melhor do sentimento
Está guardado lá dentro
Na caixa do coração
É como um monumento
Erguido no firmamento
Construído de ilusão
E mesmo nessa miragem
O poeta tem coragem
(Ele nunca vive em paz)
A paz maior do poeta
É a musa predileta
Que ele não tem jamais.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

FOI UM BEIJO – Martha Medeiros


foi um beijo onde não importava a boca
só tuas mãos quentes me apertando pelas costas
nada estava acontecendo na minha frente
e a ansiedade que havia não era pouca
teus dedos perguntavam pra minha blusa
se meu corpo acolheria um delinquente
descoladas as línguas um instante
minha resposta saiu um tanto rouca

ANGÚSTIA – Stéphane Mallarmé


Não vim domar teu corpo esta noite, ó cadela
Que encerras os pecados de um povo, ou cavar
Em teus cabelos torpes a triste procela
No incurável fastio em meu beijo a vazar:

Busco em teu leito o sono atroz sem devaneios
Pairando sob ignotas telas do remorso,
E que possas gozar após negros enleios,
Tu que acima do nada sabes mais que os mortos:

Pois o Vício, a roer minha nata nobreza,
Tal como a ti marcou-me de esterilidade,
Mas enquanto teu seio de pedra é cidade.

De um coração que crime algum fere com presas,
Pálido, fujo, nulo, envolto em meu sudário,
Com medo de morrer pois durmo solitário.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

SONETO SEXTO DA INFÂNCIA – Farias de Carvalho

A PRIMEIRA NAMORADA

Como pássaros brancos que voltassem
de uma estranha região de coisas mortas,
as tuas mãos, Teresa, em meus cabelos
vieram ninhar saudades esquecidas.

Deixa eu tê-las nas minhas. Vamos juntos
passear velhos domingos de outros tempos,
fazer a turma toda roer de inveja
quando eu passar contigo pela praça.

Repetiremos tudo novamente:
- eu, orgulhoso, comprarei sorvetes
com os dez mil réis contados da semana;

ficaremos depois no velho banco
sem dizer nada, nossas sombras juntas
como duas saudades que se achassem!

AS ESTRELAS – Ascânio Lopes

Ele enamorou-se das estrelas e quis possuí-las.
E começou a construir uma torre para alcançá-las.
Mas quanto mais a torre crescia no ar
mais longe ficava o céu inatingível -
e as estrelas cada vez brilhavam mais.

Um dia, quando a torre estava enorme, fina, alta
e o céu tão longe e as estrelas tão altas
ele desanimou e pôs-se a chorar.

E debruçou-se no alto da torre alta.
Mas deu um grito de dor
porque, lá embaixo, embaixo, as estrelas brilhavam mais
no espelho das águas paradas.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

MULHER NUA - Juan Ramón Jimenez (Tradução de José Bento)


Humana fonte bela, 
repuxo de delícia entre as coisas, 
terna, suave água redonda, 
mulher nua: um dia, 
deixarei de te ver, 
e terás de ficar 
sem estes assombrados olhos meus, 
que completavam tua beleza plena, 
com a insaciável plenitude do seu olhar? 

(Estios; verdes frondes, 
águas entre as flores, 
luas alegres sobre o corpo, 
calor e amor, mulher nua!) 

Limite exato da vida, 
perfeito continente, 
harmonia formada, único fim, 
definição real da beleza, 
mulher nua: um dia, 
quebrar-se-á a minha linha de homem, 
terei que difundir-me 
na natureza abstrata; 
não serei nada para ti, 
árvore universal de folhas perenes, 
concreta eternidade!

MULHER NUA - Gilka Machado (1893-1980)

Alma de pomba - corpo de serpente,
enche de adejos e rastejos
teu ambiente,
caiam em torno a ti pedras ou flores
de uma contemplativa multidão:
de lisonjeiros e de malfeitores
cheias as sendas da existência estão.
 
Toda de risos tua boca enfeita
quando te surja um ser sincero, irmão;
e sejas sempre pura, espelhante e perfeita,
na verdade da tua imperfeição.
Musa satânica e divina
ó minha Musa sobrenatural,
em cujas emoções, igualmente, culmina
à indução do Bem, a tentação do Mal!
Em teus meneios lânguidos ou lestos
expõe ao Mundo que te espia
que assim como há na Dança a poesia dos gestos,
há nos versos a dança da Poesia.
 
Dança para esse gozo,
o grande gozo maternal da Terra,
que te fez sem igual,
e, envaidecida,
em seu amor te encerra,
amando em ti a sua própria vida,
sua vida carnal e espiritual.
Torce e destorce o ser flexuoso
ó Musa emocional!
 
Maneja os versos de maneira tal
que eles fiquem pelos séculos dispersos,
com os ritmos da existência universal.
E a dançar, a dançar,
num delicioso sacrifício,
patenteia a nudez desse teu ser ante o sereno altar
do deus que te domina.
 
Que importa a injúria hostil de quem te não compreenda?
dança, porém, não como a Salomé da lenda,
a lírica assassina: dança de um modo vivificador;
dança de todo nua,
mas que seja a nudez sensual da dança tua
a imortalização do teu glorioso Amor!

domingo, 23 de agosto de 2015

O APANHADOR DE SONHOS – Valdeci Ferraz

Eu vi um homem com um saco nas mãos
Recolhendo os sonhos abandonados
Pelos homens vazios.
Seus pés estavam cheios de bolhas
E chorava cada vez que encontrava um sonho.
Segui-o de longe
Temendo que minha presença o incomodasse.
Ele andou por muitas ruas
E ao se aproximar das pessoas
Tirava o chapéu
Não para pedir alguma coisa,
Mas como uma reverência
De alguém diante de uma autoridade.
Alguns sorriam simplesmente,
Outros faziam menção de dar-lhe uma esmola
Ainda outros fingiam não vê-lo
Depois de caminhar o dia todo
Ele tomou o caminho de casa
Atravessou uma floresta de eucaliptos
Chegando a um imenso castelo
No meio de uma clareira
Antes de entrar olhou para trás e me viu
Antes que me escondesse ele me chamou
Quer conhecer a minha casa?
A voz dele era como uma música
O portão se abriu e pude ver
Os sonhos perdidos dos homens vazios
Eu tinha a impressão que estava entrando
Em uma gigantesca tela de Dali
O primeiro sonho que vi foi uma orelha
Encravada nas asas de uma borboleta
Encontrei este em uma casa de surdos
Explicou o apanhador de sonhos
Aqui há toda espécie de sonho:
Pequenos,
Médios,
Grandes,
Loucos,
Infantis,
Obscenos,
Serenos,
Possíveis,
Impossíveis
Porque você os recolhe?
Indaguei
Porque eu confio nos homens
Eles não podem viver sem seus sonhos
Mas estes sonhos impossíveis?
É melhor um sonho impossível do que nenhum.
De repente ouvi uma grande gritaria lá fora
Subi no muro que circundava o castelo
E vi milhares e milhares de homens e mulheres
Tinham os olhos tristes e eram secos
Quem são esses?
Indaguei
Eles vieram buscar seus sonhos.

sábado, 22 de agosto de 2015

PESCA - Micheliny Verunschk


O peixe
é palavra,
é sabre
e poema,
escamas de prata.
Desliza na linha,
se perde
na água,
ondula 
num verso,
esguio,
escapa.
Seus
olhos
(sereias)
fascinam
e matam.
O leque
do rabo
te acorda
com um tapa.
O peixe
é

palavra.

BRUMAS DO NUNCA SE ESQUECER - Poema de Rafael Rocha escrito e lido no Recife, em março de 1978

(Contra a obstinação dos ditadores fardados
as estrelas luziram dentro da noite, tímidas e
envergonhadas com a desmoralização
dos seus átomos girantes)


Hoje, corpos esqueléticos
Buscam a fuga das correntes negras
No calabouço onde imolaram a pátria
E os homens simples com seus bigodes e sapatos.
A dignidade foi pisoteada no fogo dos fuzis
Em ordem unida, degredados
Os verdadeiros juízes, mortos
Os bravos defensores dos operários.
Assim, puseram a toga sobre fantasmas vesgos,
Marionetes para guardar o futuro nos bolsos
E a justiça nas escrivaninhas de boa madeira.
A terra foi loteada com os agiotas ianques
E com os internacionais do lucro fácil.
Os soldados, infantes defensores da liberdade,
Tornaram-se guardiões
Das grandes redes bancárias,
Dos monopólios e dos trustes.
As escolas foram açambarcadas
E as universidades esculhambadas;
O feijão e o trigo doados aos atravessadores
Com a condição de não faltarem
Com o juro dourado aos “luminares das estrelas”.
Ofertaram para as crianças
Pelos canais televisivos
E livros de história,
velhas mídias fascistas
e verbos de cultura alienígena,
canhões e botas rugindo
como novos salvadores.


(Chama-se a isso lavagem cerebral
que diziam em linguagem culta:
educação cívica e moral)


Fez-se a apologia do deus dos fariseus:
Um altar ao Grande Bezerro de Ouro.
Senadores e deputados e ministros
Correram a realçar as leis
Especulando com francos e dólares,
Palácios e moradias campestres,
Enquanto os reais donos da terra
Dormiam com ratos e baratas
E grandes surtos epidêmicos.
Degolaram os mais fortes humanistas
E concentraram os mais fracos
No campo dos desaparecidos.
Aos poetas tentaram cortar as asas
E a poesia insistiu em caminhar pelo mundo.
Foi preciso, pois, criar a cloaca:
As casas de sujeição e de torturas
Com uso das correntes elétricas
Nos testículos, nos ânus, nas línguas
E sobre escorregadios paus-de-araras.
Depois, criaram lacaios nas casas de esperança.
Religiões capitalistas nasceram do lucro fácil
E gritos ásperos de Cólera e medo
Surgiram das artérias do povo
Contra os idiotas “luminares das estrelas”.
No fim, criaram a lei antipátria:
Obrigação de
Subornar,
Negociar,
Infectar,
Coagir,
Coonestar,
Confinar
e especular com as raízes da terra.
E, então, dentro dessa opressão sanguinolenta
A dor/silêncio criou ecos em todos nós:
Penando sobre sete chaves, o homem
Busca romper as cercas de arame,
Suas palavras jorram violentas dos lábios,
Seus pés insistem em trazer o corpo às ruas
E por esses produtos de lágrimas e dores
Dimensão de almas violentadas
Vem a supernova vermelha deglutindo
As frágeis estrelas dos opressores de sua vida
E mercadores de sua dignidade.