sábado, 14 de novembro de 2015

VELHO TEMA – Vicente de Carvalho

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A CONCHA – Vitorino Nemésio

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

SUNETTO CRASSICO - Juó Bananére

Sette anno di pastore, Giacó servia Labó,
Padre da Raffaela, serrana bella,
Ma non servia o pai, che illo non era trouxa nó!
Servia a Raffaela p'ra si gazá c'oella.

I os dia, na speranza di un dia só,
Apassava spiano na gianella;
Ma o páio, fugino da gombinaçó,
Deu a Lia inveiz da Raffaela.

Quano o Giacó adiscobri o ingano,
E che tigna gaido na sparella,
Ficô c'um brutto d'um garó di arara,

I incominciô di servi otros sette anno
Dizeno: Si o Labó non fossi o pai d'ella
Io pigava elli i li quibrava a gara.

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NOTA: Publicado em O Pirralho, São Paulo, n.201, 4 set. 1915. Paródia do soneto "Sete Anos de Pastor Jacó Servia", de Luís de Camões. Juó Bananére era o pseudônimo do escritor, poeta e engenheiro brasileiro Alexandre Ribeiro Marcondes Machado.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

HÁ DIAS... – Débora Novaes de Castro

Há dias
em que os quero longos
para que da magia, a trama
vá traçando sonhos
urdindo fantasias.

Há dias
em que os quero curtos
para que num minuto
se acabem os desenganos
e a dor do desamor
desabe como areias.

Há dias
em que os quero festa
para que se deem mãos
homens e natureza
e eu cante então a certeza
de enfim saber
que existo!

LUA CHEIA – Carol Pires

Demorou muito tempo.   
A cada dia ela estava em um lugar diferente   
Ora no quarto da mamãe,   
Ora no alto do prédio   
Ou, até mesmo,   
em lugar nenhum.

Um dia ela aparece,   
Na frente da minha janela,   
Sorrindo e irradiando todas as emoções vividas   
enquanto adormecia nas sombras.

As nuvens nadam num céu cinza claro.   
Um contorno natural emudece a noite.   
As estrelinhas parecem brilhar   
como jamais fora visto.

Honra a minha, de tê-la a minha frente   
Num dia como este   
A luz que ilumina a cidade,   
Que ilumina o meu quarto anuncia,   
é lua cheia!

domingo, 25 de outubro de 2015

III - SALMOS DA NOITE – Alphonsus de Guimaraens

Ó minha amante, eu quero a volúpia vermelha
Nos teus braços febris receber sobre a boca;
Minh'alma, que ao calor dos teus lábios se engelha
E morre, há de cantar perdidamente louca.

O peito, que a uma furna escura se assemelha,
De mágicos florões o teu olhar me touca;
Ao teu lábio que morde e tem mel como a abelha,
Dei toda a vida... e eterna ela seria pouca.

Ao teu olhar, oceano ora em calma ora em fúria,
Canta a minha paixão um salmo fundo e terno,
Como o ganido ao luar de uma cadela espúria...

- Salmo de tédio e dor, hausteante, negro e eterno,
E no entanto eu te sigo, ó verme da luxúria,
E no entanto eu te adoro, ó céu do meu inferno!

CHARCO – Mafalda Veiga

Se chover na madrugada em que eu procuro o meu caminho
Será vaga a nostalgia que outro charco faz viver
A canção lânguida e lenta de quem vai devagarinho
Em cada charco uma mágoa que não se pode esquecer

Tenho ideias que não tenho, sentimentos que não sinto
Sou imagem de outra imagem que se fez não sei de quê
Procurando a minha rota, descobrindo o que não minto
E o que monto atiro fora para nascer outra vez

Não sou forte nem sou pedra nem sou muro levantado
Nem sou obra que se erga pouco a pouco, tempo afora
Antes sou como uma ideia que se despe do passado
Uma planta enraizada na sina da sua hora

Se chover na madrugada em que eu procuro o meu caminho
E eu cair em cada charco mas seguir por onde vou
Deixarei de olhar no rio de todos mas tão baixinho
Porque é mais profundo o charco onde o que vejo é o que sou.

À NOITE – Francisca Júlia

Eis-me a pensar, enquanto a noite envolve a terra,
Olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso,
Eis-me, pois a pensar... De antro em antro, de serra
Em serra, ecoa, longo, um requiém doloroso.

No alto uma estrela triste as pálpebras descerra,
Lançando, noite dentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
Um mórbido langor de calma e de repouso...

Em noite assim, de repouso e de calma,
É que a alma vive e a dor exulta, ambas unidas,
A alma cheia de dor, a dor cheia de alma...

É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
Antegozando já quimeras pressentidas
Que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos.

JOELHO - Maria Teresa Horta

Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fossem
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

RECADO DO ADMINISTRADOR DESTE BLOG


O SOL NAS NOITES E O LUAR NOS DIAS – Natália Correia

De amor nada mais resta que um outubro
E quanto mais amada mais desisto:
Quanto mais tu me despes mais me cubro
E quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
Porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
Por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
Dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
Nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
Mais de terra e de fogo é o abraço
Com que na carne queres reter-me jovem.

A MINHA AMANTE – Judith Teixeira

Dizem que eu tenho amores contigo!
Deixa-os dizer!...
Eles sabem lá o que há de sublime
Nos meus sonhos de prazer...
De madrugada, logo ao despertar,
Há quem me tenha ouvido gritar
Pelo teu nome...

Dizem – e eu não protesto –
Seja qual for
O meu aspecto
Tu estás na minha fisionomia
E no meu gesto!

Dizem que eu me embriago toda em cores
Para te esquecer...
E que de noite pelos corredores
Quando vou passando para te ir buscar
Levo risos de louca, no olhar!

Não entendem dos meus amores contigo –
Não entendem deste luar de beijos...
- Há quem lhe chame a tara perversa,
Chamam-te o gênio do mal –
O meu castigo...
E eu em sobras alheio-me dispersa...

E ninguém sabe que é de ti que eu vivo
Que és tu que doiras ainda
O meu castelo em ruína...
Que fazes da hora má, a hora linda
Dos meus sonhos voluptuosos –
- Adormenta esta dor que me domina.

LEGENDA – Fernanda Botelho


Como quem sente
na legenda do presente
o fim duma história breve,
vou vivendo um sonho intacto
num pesadelo crescente
- uma luz fecunda e leve
nos olhos pardos dum gato.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

PERFUME EXÓTICO – Charles Beaudelaire (traduzido por Ivan Junqueira)


Quando, cerrando os olhos, numa noite ardente,
Respiro a fundo o odor dos teus seios fogosos,
Vejo abrirem-se ao longe litorais radiosos
Tingidos por um sol monótono e dolente.

Uma ilha preguiçosa que nos traz à mente
Estranhas árvores e frutos saborosos;
Homens de corpos nus, esguios, vigorosos,
Mulheres cujo olhar faísca à nossa frente.

Guiado por teu perfume a tais paisagens belas,
Vejo um porto a ondular de mastros e de velas
Talvez exaustos de afrontar os vagalhões,

Enquanto o verde aroma dos tamarineiros,
Que à beira-mar circula e inunda-me os pulmões,
Confunde-se em minha alma à voz dos marinheiros.

E A MORTE PERDERÁ O SEU DOMÍNIO – Dylan Thomas (traduzido por Fernando Guimarães)

E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Não hão de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corola em direção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga, 
e a morte perderá o seu domínio.