sábado, 14 de novembro de 2015

BEIJO - Rafael Rocha – Do livro “Poemas Escolhidos”

Se eu beijar a sua boca e você gostar desse carinho
A excitação será intensa e impossível de esquecer
Escreverei um poema para ser lido bem baixinho
Sussurrando em seus ouvidos o gosto desse prazer

Do sentimento que ora vivo e da luxúria que ora sinto
Minha boca em sua boca a salivar meu bem querer
 Deglutindo o sabor do sal e lentamente descobrindo
Os desejos poderosos para muito mais viver

Se beijar a sua boca faz nascer o encantamento
 Serei o homem pronto para criar essa paixão
Na sua carne e na sua pele e um novo sentimento
Que persiga os meus momentos com a mais fina obsessão

Se eu beijar a sua boca e você gostar desse carinho
E mergulhar em transe louco toda dentro em mim
Prometo para sempre invadir cada espaço do seu ninho
E amar com intensidade sem jamais querer ter fim


GARRAS DOS SENTIDOS – Agustina Bessa-Luís

Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos,
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.

São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas,
não quero cantar amores.

Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.

São demências dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.

Dá má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.

Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.

MODO DE AMAR – Astrid Cabral

Amor como tremor de terra
abalando montanhas e minérios
nas entranhas da minha carne.
Amor como relâmpagos e sóis
inaugurando auroras
ou ateando faíscas e incêndios
nas trevas da minha noite.
Amor como açudes sangrando
ou caudais tempestades
despencando dilúvios.
E não me falem de ruínas
nem de cinzas, nem de lama.

VELHO TEMA – Vicente de Carvalho

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A CONCHA – Vitorino Nemésio

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

SUNETTO CRASSICO - Juó Bananére

Sette anno di pastore, Giacó servia Labó,
Padre da Raffaela, serrana bella,
Ma non servia o pai, che illo non era trouxa nó!
Servia a Raffaela p'ra si gazá c'oella.

I os dia, na speranza di un dia só,
Apassava spiano na gianella;
Ma o páio, fugino da gombinaçó,
Deu a Lia inveiz da Raffaela.

Quano o Giacó adiscobri o ingano,
E che tigna gaido na sparella,
Ficô c'um brutto d'um garó di arara,

I incominciô di servi otros sette anno
Dizeno: Si o Labó non fossi o pai d'ella
Io pigava elli i li quibrava a gara.

.........................................................................
NOTA: Publicado em O Pirralho, São Paulo, n.201, 4 set. 1915. Paródia do soneto "Sete Anos de Pastor Jacó Servia", de Luís de Camões. Juó Bananére era o pseudônimo do escritor, poeta e engenheiro brasileiro Alexandre Ribeiro Marcondes Machado.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

HÁ DIAS... – Débora Novaes de Castro

Há dias
em que os quero longos
para que da magia, a trama
vá traçando sonhos
urdindo fantasias.

Há dias
em que os quero curtos
para que num minuto
se acabem os desenganos
e a dor do desamor
desabe como areias.

Há dias
em que os quero festa
para que se deem mãos
homens e natureza
e eu cante então a certeza
de enfim saber
que existo!

LUA CHEIA – Carol Pires

Demorou muito tempo.   
A cada dia ela estava em um lugar diferente   
Ora no quarto da mamãe,   
Ora no alto do prédio   
Ou, até mesmo,   
em lugar nenhum.

Um dia ela aparece,   
Na frente da minha janela,   
Sorrindo e irradiando todas as emoções vividas   
enquanto adormecia nas sombras.

As nuvens nadam num céu cinza claro.   
Um contorno natural emudece a noite.   
As estrelinhas parecem brilhar   
como jamais fora visto.

Honra a minha, de tê-la a minha frente   
Num dia como este   
A luz que ilumina a cidade,   
Que ilumina o meu quarto anuncia,   
é lua cheia!

domingo, 25 de outubro de 2015

III - SALMOS DA NOITE – Alphonsus de Guimaraens

Ó minha amante, eu quero a volúpia vermelha
Nos teus braços febris receber sobre a boca;
Minh'alma, que ao calor dos teus lábios se engelha
E morre, há de cantar perdidamente louca.

O peito, que a uma furna escura se assemelha,
De mágicos florões o teu olhar me touca;
Ao teu lábio que morde e tem mel como a abelha,
Dei toda a vida... e eterna ela seria pouca.

Ao teu olhar, oceano ora em calma ora em fúria,
Canta a minha paixão um salmo fundo e terno,
Como o ganido ao luar de uma cadela espúria...

- Salmo de tédio e dor, hausteante, negro e eterno,
E no entanto eu te sigo, ó verme da luxúria,
E no entanto eu te adoro, ó céu do meu inferno!

CHARCO – Mafalda Veiga

Se chover na madrugada em que eu procuro o meu caminho
Será vaga a nostalgia que outro charco faz viver
A canção lânguida e lenta de quem vai devagarinho
Em cada charco uma mágoa que não se pode esquecer

Tenho ideias que não tenho, sentimentos que não sinto
Sou imagem de outra imagem que se fez não sei de quê
Procurando a minha rota, descobrindo o que não minto
E o que monto atiro fora para nascer outra vez

Não sou forte nem sou pedra nem sou muro levantado
Nem sou obra que se erga pouco a pouco, tempo afora
Antes sou como uma ideia que se despe do passado
Uma planta enraizada na sina da sua hora

Se chover na madrugada em que eu procuro o meu caminho
E eu cair em cada charco mas seguir por onde vou
Deixarei de olhar no rio de todos mas tão baixinho
Porque é mais profundo o charco onde o que vejo é o que sou.

À NOITE – Francisca Júlia

Eis-me a pensar, enquanto a noite envolve a terra,
Olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso,
Eis-me, pois a pensar... De antro em antro, de serra
Em serra, ecoa, longo, um requiém doloroso.

No alto uma estrela triste as pálpebras descerra,
Lançando, noite dentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
Um mórbido langor de calma e de repouso...

Em noite assim, de repouso e de calma,
É que a alma vive e a dor exulta, ambas unidas,
A alma cheia de dor, a dor cheia de alma...

É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
Antegozando já quimeras pressentidas
Que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos.

JOELHO - Maria Teresa Horta

Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fossem
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

RECADO DO ADMINISTRADOR DESTE BLOG


O SOL NAS NOITES E O LUAR NOS DIAS – Natália Correia

De amor nada mais resta que um outubro
E quanto mais amada mais desisto:
Quanto mais tu me despes mais me cubro
E quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
Porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
Por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
Dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
Nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
Mais de terra e de fogo é o abraço
Com que na carne queres reter-me jovem.

A MINHA AMANTE – Judith Teixeira

Dizem que eu tenho amores contigo!
Deixa-os dizer!...
Eles sabem lá o que há de sublime
Nos meus sonhos de prazer...
De madrugada, logo ao despertar,
Há quem me tenha ouvido gritar
Pelo teu nome...

Dizem – e eu não protesto –
Seja qual for
O meu aspecto
Tu estás na minha fisionomia
E no meu gesto!

Dizem que eu me embriago toda em cores
Para te esquecer...
E que de noite pelos corredores
Quando vou passando para te ir buscar
Levo risos de louca, no olhar!

Não entendem dos meus amores contigo –
Não entendem deste luar de beijos...
- Há quem lhe chame a tara perversa,
Chamam-te o gênio do mal –
O meu castigo...
E eu em sobras alheio-me dispersa...

E ninguém sabe que é de ti que eu vivo
Que és tu que doiras ainda
O meu castelo em ruína...
Que fazes da hora má, a hora linda
Dos meus sonhos voluptuosos –
- Adormenta esta dor que me domina.