quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O DEUS PÃ NÃO MORREU – Ricardo Reis ( Um dos heterônimos de Fernando Pessoa)


O deus Pã não morreu,
Cada campo que mostra
Aos sorrisos de Apolo
Os peitos nus de Ceres –
Cedo ou tarde vereis
Por lá aparecer
O deus Pã, o imortal.

Não matou outros deuses
O triste deus cristão.
Cristo é um deus a mais,
Talvez um que faltava.
Pã continua a dar
Os sons da sua flauta
Aos ouvidos de Ceres
Recumbente nos campos.

Os deuses são os mesmos,
Sempre claros e calmos,
Cheios de eternidade
E desprezo por nós,
Trazendo o dia e a noite
E as colheitas douradas
Sem ser para nos dar
O dia e a noite e o trigo
Mas por outro e divino
Propósito casual.

SINFONIA DE UMA NOITE INQUIETA – Bernardo Soares (Um dos heterônimos de Fernando Pessoa)

Dormia tudo como se o universo fosse um erro: e o vento, flutuando incerto, era uma bandeira sem forma desfraldada sobre um quartel sem ser. Esfarrapava-se coisa nenhuma no ar alto e forte, e os caixilhos das janelas sacudiam os vidros para que a extremidade se ouvisse. No fundo de tudo, calada, a noite era o túmulo de Deus (a alma sofria com pena de Deus). E, de repente, – nova ordem das coisas universais agia sobre a cidade – o vento assobiava no intervalo do vento e havia uma noção dormida de muitas agitações na altura. Depois a noite fechava-se como um alçapão, e um grande sossego fazia vontade de ter estado a dormir.

ESTA VELHA ANGÚSTIA – Álvaro de Campos (Um dos heterônimos de Fernando Pessoa)


Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.

Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer –
Júpiter, Jeová, a Humanidade –
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

MÁQUINA DO TEMPO- Alberto Caeiro (Um dos heterônimos de Fernando Pessoa)


O Universo
é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma. 
O resto, é a matéria.

Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

DE REPENTE – Rodrigo Rocha

Eu devo estar agindo errado
Pois todos agora me olham diferente
Tão de repente todos os sentimentos
Transformam-se em amor ao olhar para você

Mas não encontro minha inocência
Perdida entre meus medos infantis
Eu deveria voltar a acreditar
Que tudo é fácil sem medo

Eu devo estar agindo sem pensar
Pois não vejo você comigo
E de repente todos me julgam
Eu quero voltar a acreditar na vida

Mas não encontro ninguém para me ajudar
Tudo parece estar contra mim
Mas vejo sua sombra de longe
E isso me faz sentir melhor

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A FORMA DO FIM - Manuel Santos


Ganha forma a sombra do luar,
não a sombra fresca das figueiras
nas manhãs de Agosto, onde devagar
o sol troca, o louro trigo pelas eiras.
 
Ganha forma o desejo de vingança,
perto do fim, a crescer dentro do peito.
Penumbra de uma vida que balança 
já perdida e percorrida sem proveito.
 
Ganha forma o ar que não respiro,
a forma da raiva que não tenho,
dos sons que do silêncio já retiro
 
do grito interminável que contenho.
Ganha forma a morte em sons de festa,
a correr,  vermelho vivo pela testa.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

DELÍRIO – Olavo Bilac

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci....

CHEIRO DE ESPÁDUA – Alberto de Oliveira


Quando a valsa acabou, veio à janela, 
Sentou-se. O leque abriu. Sorria e arfava, 
Eu, viração da noite, a essa hora entrava 
E estaquei, vendo-a decotada e bela. 

Eram os ombros, era a espádua, aquela 
Carne rosada um mimo! A arder na lava 
De improvisa paixão, eu, que a beijava, 
Hauri sequiosa toda a essência dela! 

Deixei-a, porque a vi mais tarde, oh! ciúme! 
Sair velada da mantilha. A esteira 
Sigo, até que a perdi, de seu perfume. 

E agora, que se foi, lembrando-a ainda, 
Sinto que à luz do luar nas folhas, cheira 
Este ar da noite àquela espádua linda!

SEIOS – Judas Iscorogota

São duas ilhas os teus seios - duas
Ilhas americanas emergidas
De um mar de formas, como rijas puas
No aço da melhor têmpera fundidas.

Tropicalescamente constituídas,
Duas montanhas íngremes e nuas
Ambas as ilhas, pelas formas suas,
São de origens vulcânicas havidas.

Ilhas envoltas, às manhãs, da neve
Das rendas finas da camisa leve,
Que, assim, uma vez, como eu, as viu,

Jamais dirá que, ao plenilúnio brando,
Sejam desertos cálidos chorando
A saudade do olhar que as descobriu!

domingo, 29 de novembro de 2015

DO APERITIVO À SOBREMESA – Cléia Fialho

Como um aperitivo de entrada
de maneira louca e safada
me ofereço a você...

Como um manjar apetitoso
de modo quente e gostoso
me dou pra você provar...

Como uma sobremesa
suculenta sobre a mesa
me dou pra você lamber...

Vem me degustar
vem me comer
vem se fartar
e morrer de prazer!

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O DESEJO - Carlos Drummond de Andrade

Quando desejos outros é que falam
e o rigor do apetite mais se aguça,
despetalam-se as pétalas do ânus
à lenta introdução do membro longo.
Ele avança, recua, e a via estreita
vai transformando em dúlcida paragem.

Mulher, dupla mulher, há no teu âmago
ocultas melodias ovidianas.

NA HORA DO LOBO – Bráulio Tavares

Quando um homem consome a madrugada
rabiscando umas folhas de papel
e ele sabe que a vida é tonelada
oscilando na ponta de um cordel;

ele sabe que o fim de toda estrada
não desagua no inferno nem no céu,
e ele pensa na feira, na empregada,
água e luz, condomínio e aluguel;

quando um homem fatiga a voz cansada
com palavras da Torre de Babel
e ele entende que a coisa mais amada
se transmuda na coisa mais cruel;

quando a taça em que bebe está quebrada,
tanto vidro a boiar em tanto fel
e no peito uma dor desatinada
essa dor que é tão nítida e fiel;

quando um homem de boca tão calada
sente a mente girar num carrossel,
ele escreve através da madrugada
com cuidados de abelha que faz mel:
sua vida, talvez, foi destinada
a salvar estas folhas de papel.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

REVOLTA NA ZONA DA MATA - Hermilo Borba Filho

Bicho ardente, verde claro
verde-escuro, amarelado,
no pasto da esperança
voam as crinas dos cavalos.
São animais, são guerreiros,
procurando a madrugada
e nela se ajeitando
com peixes, antas, serpentes,
passarinhos, pirilampos
roedores, bestas de carne
na revolução da vida
dando exemplo ao bicho-homem.
No pendão da cana escura
corre o suor da agonia,
no eito da enxada aguda
cava, cava a própria dor.
E o céu sangrento, mudo,
recobre a pastagem gorda
que dará ao senhor dela
carros, perfumes e sedas,
enquanto na choça escura
chupando o peito resseco
o homem, criança hoje,
toma lições de animais
para como cobra irada
ou gavião bicador
arrancar do coração
o brado-revolta pura
do final da servidão.

RUA ESTREITA DO ROSÁRIO DA BOA VISTA - Mauro Mota

Rua, rua,
poeira da rua,
moleque de rua,
verdureiro,
carroça de leite, jornal de vizinho,
lata de lixo, vira-lata.
Galinha e capão gordo, garajau.
Caderneta de venda, açougue na esquina,
safadezas a carvão na calçada.
Cara de mãe
- É a sua, s...
Pedrada na vidraça,
Apelido de Inocêncio:
- Bico Doce!
- É a p. que pariu, seu f. da p.
Fio, papagaio, fio,
ponteira,
pião, pião,
missa pedida,
baú de mascate,
colchetes, fitas, carretéis, anéis,
gaita de amolador de tesoura,
vassoureiro, copo, quartinha resfriadeira.
Menô! Êo! Miú! Jacaiu!
O gato mourisco
andando por cima
dos cacos de vidro
do muro da casa
de Dona Mocinha.
Horácio bêbedo chamando nome.
Os seres noturnos descendo do céu
morcego,
               sapoti,
                          lua.

OS TRABALHADORES – Rogaciano Leite

Uma língua de fumo, enorme, bamboleante,
Vai lambendo o infinito - espessa e fatigada.. .
É a fumaça que sai da chaminé bronzeada
E se condensa em nuvens pelo espaço adiante!

Dir-se-ia uma serpente de inflamada fronte
Que assomando ao covil, ameaçadora e turva,
E subindo... e subindo... assim, de curva em curva,
Fosse enrolar a cauda ao dorso do horizonte!

Mas, não! É a chaminé da fábrica do outeiro
- Esse enorme charuto que a amplidão bafora -
Que vai gerando monstros pelo céu afora,
Cobrindo de fumaça aquele bairro inteiro.

Ouve-se da bigorna o eco na oficina,
O soluço da safra e o grito do martelo...
Como tigres travando ameaçador duelo
As máquinas estrugem no porão da usina!

É o antro onde do ferro o rebotalho impuro
Faz-se estrela brilhante à luz de áureo polvilho!
É o ventre do Trabalho onde se gera o filho
Que estende a fronte loura aos braços do Futuro!

Um dia, de uma ideia uma semente verte,
Resvala fecundante e, se agregando ao solo,
Levanta-se... floresce... e ei-la a suster no colo
Os frutos que não tinha - enquanto estava inerte!

Foi o germe da Luz, a flor do Pensamento
Multiplicando a ação da força pequenina:
- De um retalho de bronze ergueu uma oficina!
- De uma esteira de cal gerou um monumento!