terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A ORIGEM DO MÊNSTRUO - Bernardo Guimarães


- De uma fábula de Ovídio achada nas escavações de Pompeia e

vertida em latim vulgar por Simão de Nuntua -

Stava Vênus gentil junto da fonte
fazendo o seu pentelho,
com todo o jeito, pra que não ferisse 
das cricas o aparelho.

Tinha que dar o cu naquela noite
ao grande pai Anquises,
o qual, com ela, se não mente a fama,
passou dias felizes...

Rapava bem o cu, pois, resolvia
na mente altas ideias:
– ia gerar naquela heroica foda
o grande e pio Eneias.

Mas a navalha tinha o fio rombo,
e a deusa, que gemia,
arrancava os pentelhos e peidando,
caretas mil fazia!

Nesse entretanto, a ninfa Galateia,
acaso ali passava, 
e vendo a deusa assim tão agachada,
julgou que ela cagava...

Essa ninfa travessa e petulante
era de gênio mau,
e por pregar um susto à mãe do Amor,
atira-lhe um calhau...

Vênus se assusta. A branca mão mimosa
se agita alvoroçada,
e no cono lhe prega (oh! caso horrendo!) 
tremenda navalhada.

Da nacarada cona, em sutil fio,
corre purpúrea veia,
e nobre sangue do divino cono
as águas purpureia...

(É fama que quem bebe dessas águas
jamais perde a tesão
e é capaz de foder noites e dias,
até no cu de um cão!)

– "Ora porra!" – gritou a deusa irada,
e nisso o rosto volta...
E a ninfa, que conter-se não podia,
uma risada solta.

A travessa menina mal pensava
que, com tal brincadeira,
ia ferir a mais mimosa parte
da deusa regateira...

– "Estou perdida!" – trêmula murmura 
a pobre Galateia,
vendo o sangue correr do róseo cono
da poderosa deia...

Mas era tarde! A Cípira, furibunda,
por um momento a encara,
e, após instantes, com severo acento,
nesse clamor dispara:

"Vê! Que fizeste, desastrada ninfa,
que crime cometeste!
Que castigo há no céu, que punir possa
um crime como este?

Assim, por mais de um mês inutilizas 
o vaso das delícias...
E em que hei de gastar das longas noites
as horas tão propícias?

Ai! Um mês sem foder! Que atroz suplício...
Em mísero abandono,
que é que há de fazer, por tanto tempo,
este faminto cono?

Ó Adonis! Ó Júpiter potentes!
E tu, mavorte invito!
E tu, Aquiles! Acudi de pronto 
da minha dor ao grito!

Este vaso gentil que eu tencionava 
tornar bem fresco e limpo
para recreio e divinal regalo
dos deuses do Alto Olimpo,

Vede seu triste estado, ó! Que esta vida 
em sangue já se esvai-me!
Ó Deus, se desejais ter foda certa
vingai-vos e vingai-me!

Ó ninfa, o teu cono sempre atormente
perpétuas comichões,
e não aches quem jamais nele queira
vazar os seus colhões...

Em negra, podridão imundos vermes
roam-te sempre a crica,
e à vista dela sinta-se banzeira
a mais valente pica!

De eterno esquentamento flagelada,
verta fétidos jorros,
que causem tédio e nojo a todo mundo,
até mesmo aos cachorros!"

Ouviu-lhe estas palavras piedosas
do Olimpo o Grão-Tonante,
que em pívia ao sacana do Cupido
comia nesse instante...

Comovido no íntimo do peito,
das lástimas que ouviu,
manda ao menino que, de pronto, acuda
à puta que o pariu...

Ei-lo que, pronto, tange o veloz carro
de concha alabastrina,
que quatro aladas porras vão tirando
na esfera cristalina

Cupido que as conhece e as rédeas bate
da rápida quadriga,
coa voz ora as alenta, ora coa ponta
das setas as fustiga.

Já desce aos bosques onde a mãe, aflita,
em mísera agonia,
com seu sangue divino o verde musgo
de púrpura tingia...

No carro a toma e num momento chega 
à olímpica morada,
onde a turba dos deuses, reunida,
a espera consternada!

Já Mercúrio de emplastros se aparelha
para a venérea chaga,
feliz porque aquele curativo
espera certa a paga...

Vulcano, vendo o estado da consorte,
mil pragas vomitou...
Marte arranca um suspiro que as abóbadas
celestes abalou...

Sorriu a furto a ciumenta Juno,
lembrando o antigo pleito,
e Palas, orgulhosa lá consigo,
resmoneou: – "Bem-feito"!

Coube a Apolo lavar dos roxos lírios
o sangue que escorria,
e de tesão terrível assaltado,
conter-se mal podia!

Mas, enquanto se faz o curativo,
em seus divinos braços,
Jove sustém a filha, acalentando-a
com beijos e com abraços.

Depois, subindo ao trono luminoso,
com carrancudo aspecto,
e erguendo a voz troante, fundamenta
e lavra este DECRETO:

– "Suspende, ó filha, os lamentos justos
por tão atroz delito,
que no tremendo Livro do Destino
de há muito estava escrito.

Desse ultraje feroz será vingado
o teu divino cono,
e as imprecações que fulminaste
agora sanciono.

Mas, inda é pouco: – a todas as mulheres
estenda-se o castigo
para expiar o crime que esta infame
ousou para contigo...

Para punir tão bárbaro atentado,
toda humana crica,
de hoje em diante, lá de tempo em tempo,
escorra sangue em bica...

E por memória eterna chore sempre
o cono da mulher,
com lágrimas de sangue, o caso infando,
enquanto mundo houver..."

Amém! Amém! como voz atroadora
os deuses todos urram!
E os ecos das olímpicas abóbadas,
Amém! Amém! sussurram...

UMA VELHINHA – Antonio Maria

Quem me dera um pouco de poesia, esta manhã, de simplicidade, ao menos para descrever a velhinha do Westfália! É uma velhinha dos seus setenta anos, que chega todos os dias ao Westfália (dez e meia, onze horas), e tudo daquele momento em diante começa a girar em torno dela. Tudo é para ela. Quem nunca antes a viu, chama o garçom e pergunta quem ela é. Saberá, então, que se trata de uma velhinha "de muito valor", professora de inglês, francês e alemão, mas "uma grande criadora de casos".

Não é preciso perguntar de que espécie de casos, porque, um minuto depois, já a velhinha abre sua mala de James Bond, de onde retira, para começar, um copo de prata, em seguida, um guardanapo, com o qual começa a limpar o copo de prata, meticulosamente, por dentro e por fora. Volta à mala e sai lá de dentro com uma faca, um garfo e uma colher, também de prata. Por último o prato, a única peça que não é de prata. Enquanto asseia as "armas" com que vai comer, chama o garçom e manda que leve os talheres e a louça da casa. Um gesto soberbo de repulsa.

O garçom (brasileiro) tenta dizer alguma coisa amável, mas ela repele, por considerar (tinha razão) a pronúncia defeituosa. E diz, em francês, que é uma pena aquele homem tentar dizer todo dia a mesma coisa e nunca acertar. Olha-nos e sorri, absolutamente certa de que seu espetáculo está agradando. Pede um filet e recomenda que seja mais bem do que malpassado. Recomenda pressa, enquanto bebe dois copos de água mineral. Vem o filet e ela, num resmungo, manda voltar, porque está cru. Vai o filet, volta o filet e ela o devolve mais uma vez alegando que está assado de mais. Vem um novo filet e ela resolve aceitar, mas, antes, faz com os ombros um protesto de resignação.

Pela descrição, vocês irão supor que essa velhinha é insuportável. Uma chata. Mas não. É um encanto. Podia ser avó da Grace Kelly. Uma mulher que luta o tempo inteiro pelos seus gostos. Não negocia sua comodidade, seu conforto. Não confia nas louças e nos talheres daquele restaurante de aparência limpíssima. Paciência, traz de sua casa, lavados por ela, a louça, os talheres e o copo de prata. Um dia o garçom lhe dirá um palavrão? Não acredito. A velhinha tão bela e frágil por fora, magrinha como ela é, se a gente abrir, vai ver tem um homem dentro. Um homem solitário, que sabe o que quer e não cede "isso" de sua magnífica solidão. (16/10/1964)

domingo, 31 de janeiro de 2016

AMAR – Florbela Espanca


Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

ELE PREFERE AS NÓRDICAS – Martha Medeiros


ele prefere as nórdicas
as ricas, as putas
as filhas das tias
letradas, peitudas
alunas da puc
solteiras, taradas
mulheres pudicas
peludas, escravas
as boas de cama
mulatas, mineiras
as freiras da itália
escocesas, peladas
as bem mal-amadas
aquelas que dizem te amo
e mais nada

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

OFERENDA – Paulo Véras

Trago nas mãos

um resto da noite passada

e entre os dedos o suco das estrelas

que como sábias irmãs

me fizeram companhia

 

Faltou tua orelhinha de búzio

onde eu escutava as marés

e retirava o sal amargo

com a língua em arpão

 

Esta memória de hoje

é apenas o retrato morto

de um corpo com impressões digitais

sobre a pele

Uma lembrança

que traz de volta

uma dor antiga

uma ferida que é uma boca

de tão aberta

 

E este peito

está tão cinzento

que chego a pensar

que chove nas vísceras

PROCURANDO ESTRELAS – Lago Burnett

Faz frio! vou em busca de agasalho,

oh! lágrimas... (e luto por contê-las!)

olhos abertos, procurando estrelas,

sigo, e na estrada, minha mágoa espalho.

 

As flores choram lágrimas de orvalho,

lágrimas vivas, trêmulas e, ao vê-las,

vejo toda a criação chorando pelas

folhas a balançar em cada galho.

 

Sigo tristonho... Baila pelo espaço

o lamento das cousas que ficaram

sem um amor, sequer, para entendê-las.

 

Deixo um pouco de dor por onde passo...

Paro.  Olho o céu.  As mágoas debandaram

ante o esplendor do riso das estrelas!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

O DIA PASSA... Antonio Carlos Gomes

O dia passa...
Não liga, não!
Viver é fugir da solidão.

O sol que se anuncia,
Esperança de encontro,
A noite macia,
Desejos de encantos.

Todos os caminhos
Indicam o amor.
A pedra em que tropeças,
O dedão que incha:
Vontade infinda
De cataplasma
De dedos macios.


O rio banha o corpo
Como moça formosa
Suada e gostosa
Querendo amor.
Nas águas:
A solidão vai embora
Quando
O corpo que chora
Em outro encosta.

O TEMPO – Valdeci Ferraz

Escorreu o tempo pelos nossos dedos
Deixando marcas e rugas indigestas
Destruindo as esperanças e os medos
E também as horas tristes e inquietas

Desfez a música e a lira dos aedos
E erigiu no seio das bocas abertas
Uma estátua coberta com segredos
Cujos braços apontam ruas desertas

Mas deixou ladrilhos reluzentes
Os quais brilharão na eternidade
Como os faróis erguidos na beira-mar

Onde os crentes e os descrentes
Que formam juntos a humanidade
Poderão com alegria sempre caminhar

TEMPOS IDOS – Rafael Rocha

Do livro “Marcos do Tempo” – 2010

 


Deixando em sal as minhas águas da península
Tristeza do ter sido mundo em tempo exilado.
Como dando sabor às lagrimas do desterro
O meu outrora da vida ter-me desajustado.

A dor fluiu! E os dias ficaram inúteis e vazios.
Tal presença de glória tanto eu ousei sonhar
Cabelos brancos a emoldurar o belo crânio
A caminho de Caronte essas geleiras vão passar.

Lembro a voz na mesa do bar: Eu não te conheço!
Preso o pranto enregelou-se em pedra a dor
Marcante dor a invadir a espécie de mim.
Lembro a voz sorrindo a desprezar o amor.

Paixão interrompida. Dá-se e tira. Tudo a se acabar.
Mundo que expira. Vai-se para outros mares a flor.
Tal os versos mais infantes a sonhar desditas.
“Fonte não me leves, não me leves para o mar”.

Eis no tempo a fonte fria. Sorriso zombador.
A matar o esplendor maior daquela triste lira.
Antes de ser jogado ao mar o corpo frágil
Salvaram-no as areias e o perfume da ilha.

Braços amplos acolheram o poeta incendiado.
Deram-se mãos à paixão na jovem pressa da vida.
O amor fluiu venoso em novo corpo recriado
E renasceu na glória da ilusão imperecida.

Cabelos brancos emolduram o belo crânio.
Tais espessas geleiras no caminho de Caronte.
E a voz repete na vida:
Não mais te conheço!
Não sei quem és! Nem imagino de qual lugar de onde...

sábado, 16 de janeiro de 2016

TRÊS SONETOS METAFÍSICOS – Cláudio Aguiar

I
Por que gostamos tanto do passado? 
A interrogante leva-me a pensar
no segredo que fica em si guardado,
que não sei se algum dia vou achar.

Perdido na palavra ou termo dado,
sempre o presente vive a deslizar
em busca do impossível já pensado
ou do que não se pode desvendar:

os três instantes num sopro da vida,
que poderia até vê-la esquecida,
no que será ou já foi existente.

O melhor é não mais perder o tempo,
ainda que eu resuma num momento
o passado e o futuro no presente.


II
Quanto mistério tem a flor guardado,
pois, desde sempre, desafia a mente 
dos que desejam descobrir o dado
oculto no desvão duma semente.

E como o pólen nela está cravado,
dele o áspide mau tira somente
o venenoso, enquanto o mel levado
por uma abelha logo se pressente.

Quem tudo sabe pouco talvez veja.
Quem nada sabe afronta sua verdade
ou seu direito de bem percebê-la.

Que o mistério segredo sempre seja
para que nunca o mal vença a bondade,
impondo a morte à vida sem querê-la.

III
Algo há nas flores que acalentam feras, 
chamando abelhas vivas do sereno
para as tocarem, há perdidas eras,
nunca alterando forma nem aceno.

É preciso viver as primaveras
para sentir o gestual e ameno, 
esforço feito, sol florindo esperas,
elaborando o bom mel e o veneno.


Há nelas algo que esconde o mistério,
fazendo com que a abelha encontre o mel
no mesmo pólen que o áspide tira

o veneno letal, momento sério,
grito de morte, do holocausto ao fel,
que cega os olhos, apagando a pira.

INTENTO - Maria Maia

Chove, chove, chove
A folha branca me chama
No chão, uma poça de lama
Por dentro algo se move
É tão vivo e me comove
Por fora separo a ganga
Palavras vão outras ficam
Me enchem de vida
Miçangas que são coloridas
Unindo o dito e o não dito
Tudo existe pra ser palavra
Cá dentro suporto um calvário sem uma lágrima
Se sofro, rio, calo ou canto
Pro poema pouco importa
Só dizem que não estou morta
Realizam meu intento
Palavras descem ao vento por linhas tortas

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A FERA – Max Martins

Das cavernas do sono das palavras, dentre
os lábios confortáveis de um poema lido
e já sabido
voltas

para ela - para a terra
maleável e amante. Dela
de novo te aproximas

e de novo a enlaças firme sobre o lago
do diálogo, moldas
novo destino

Firme penetra e cresce a aproximação conjunta
E ocupa um centro: A morte, a fera
da vida
te lambendo

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

FUI ME ADIVINHANDO – Meire Moreira

Fui me adivinhando
Nas coisas que não fiz
Nas palavras que não disse
Nos lugares que não fui
Nos momentos que não vivi
Nas vezes em que me poupei para não sofrer…
E a vida foi ficando assim:
Calma,
Lenta,
Mansa,
Morna…

VIAGEM – Jacqueline Batista

E fui deixando pedaços pelo caminho
Um olhar distraído, perdido na beleza
Um afago no coração aquietado
Vesti-me com a leveza dos sonhos
Compartilhei carinho
Na manhã ensolarada
Ou no entardecer silencioso
Regozijei-me em agradecimento
Descalcei os pés e senti o poder da terra
Mergulhei no espaço esquecida do tempo
Na encruzilhada do caminho
Escolhi o menos gasto
Fechei os olhos da carne
Enxerguei com os olhos da alma
Tão longa a viagem
Tão curto o tempo
Enquanto realidade fui apenas fantasia
Enquanto sonho desabrochei minha verdade
E no despertar do augusto dia
Dei asas a minha liberdade.

FAMINTO DE TI - Afonso Rocha


Meus dedos
são crisântemos
em flor...
que se transformam
para tocar-te
no mais profundo
de ti
 
Ardo
em desejo
de tocar
a pele aveludada
de tua alma...
onde teus segredos
são os meus segredos...
 
Língua...
faminta do teu sabor...