quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

GARGALHADAS – Rafael Rocha

Do livro “Marcos do Tempo” - 2010

Amada, quando a dor bater em tua porta
Tenta lembrar de mim e gargalhar comigo
Recordando os instantes das desditas
Acabadas em anseios gloriosos

Nos teus momentos de escuridão
Recorda a mim e deixa o riso voar
Lembrando quando eu dizia que teus olhos
De tão pequenos eram pétalas de flores desconhecidas

Amada, quando ficares sem meu corpo
Não deixe as lágrimas deslizando na face
Ria, pois a tua risada sempre foi para mim
Uma das ganâncias maiores de minha vida

Em qualquer lugar onde eu ficar, amada
E escutar teu riso cristalino
Estarei dinâmico e buliçoso
E transformado em vento virei rir contigo.

SOLIDÃO – Abgar Renault


O rio se entristece sob a ponte. 
Substância de homem na torrente escura 
flui, enternecimento ou desventura, 
misturada ao crepúsculo bifronte. 

Antes que débil lume além desponte, 
a sombra, que se apressa, desfigura 
e apaga o casario em sua alvura 
e a curva esquiva e sábia do horizonte. 

Os bois fecham nos olhos os arados, 
o pasto, a hora que tomba das subidas. 
Dorme o ocaso, pastor, entre as ovelhas. 

Sobem névoas dos vales fatigados 
e das árvores já enoitecidas 
pendem silêncios como folhas velhas.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

LUAR DO SERTÃO – Catulo da Paixão Cearense

Musicada por João Pernambuco

Não há, ó gente, oh não 
Luar como esse do sertão... 

Oh que saudade do luar da minha terra 
Lá na serra branquejando 
Folhas secas pelo chão 
Esse luar cá da cidade tão escuro 
Não tem aquela saudade 
Do luar lá do sertão 

Se a lua nasce por detrás da verde mata 
Mais parece um sol de prata prateando a solidão 
A gente pega na viola que ponteia 
E a canção é lua cheia 
A nos nascer do coração

Se Deus me ouvisse 
Com amor e caridade 
Me faria essa vontade 
O ideal do coração: 
Era que a morte 
A descontar surpreendesse 
E eu morresse numa noite 
De luar lá do sertão.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

SEU NOME – Maria Firmina dos Reis

Seu nome! em repeti-lo a planta, a erva,
A fonte, a solidão, o mar, a brisa
Meu peito se extasia!
Seu nome é meu alento, é-me deleite;
Seu nome, se o repito, é dúlia nota
De infinda melodia.

Seu nome! vejo-o escrito em letras d'ouro
No azul sideral à noite quando
Medito à beira-mar:
E sobre as mansas águas debruçada,
Melancólica, e bela eu vejo a lua,
Na praia a se mirar.

Seu nome! é minha glória, é meu porvir,
Minha esperança, e ambição é ele,
Meu sonho, meu amor!
Seu nome afina as cordas de minh'harpa,
Exalta a minha mente, e a embriaga
De poético odor.

Seu nome! embora vague esta minha alma
Em páramos desertos, - ou medite
Em bronca solidão:
Seu nome é minha ideia - em vão tentara
Roubar-mo alguém do peito - em vão - repito,
Seu nome é meu condão.

Quando baixar benéfico a meu leito,
Esse anjo de deus, pálido, e triste
Amigo derradeiro.
No seu último arcar, no extremo alento,
Há de seu nome pronunciar meus lábios,
Seu nome todo inteiro!...
  ........................................
- In CANTOS À BEIRA MAR, São Luís do Maranhão, 1871, pags. 71-72 –

A RUA DO RIO – Ascenso Ferreira

No começo da rua
Morava Agostinho - o aleijado -
A quem o povo acusava de alimentar-se de coisas imundas :
- Bichos mortos apanhados nos fundos dos quintais !

Fronteiro a ele morava o pedreiro Manuel Belo,
Que por ter sido mordido de cachorro da moléstia,
Quando falava com a gente avançava como um cão !

No meio da rua morava a celebérrima preta Inês,
Catimbozeira "afamanada",
Sempre às voltas com sapos e urubus !

Na outra ponta da rua morava a mulata Filomena,
A quem um jacaré acuou dentro de um banheiro no rio,
E que saiu nuinha pela estrada afora,
Gritando : "Me acudam ! Me acudam !"

Mas nem tudo na Rua do Rio,
Era infâmia, nojo, abominação !

Na outra ponta da rua,
Bem nos fundos do quintal da casa de minha mãe,
Morava o fogueteiro Lulu Higino,
Que no silêncio das noites consteladas,
Arrancava da flauta uns acordes tão suaves,
Que até parecia serem as estrelas lá no céu
Que estavam tocando...

........
Vejam mais em: http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/pernambuco/ascenso_ferreira.html

A ÁRVORE SOLITÁRIA - Carlos Gildemar Pontes

A árvore solitária na beira da estrada
Passa seu tempo contando os carros
Os caminhões, os ônibus, as motos
Olhei para ela nessa vida de solitário
E vi que só ela dava sombra
Em meio a tanto deserto

Pensei nela ali na estrada
Empoeirada, empoleirada de ninhos secos
Pensei nela um dia semente
Brotando da terra depois de uma chuva
Olhei para ela pelo retrovisor
E vi que sumia, pequenina, solitária
Como a vida que segue sem propósitos.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

PROCURANDO, ACHEI... – Fernando Serrate

Olho ao redor.
Tudo escuro pela penumbra.
Em  que o mundo se coloca;
tudo tão escondido, perdido.
Mas há algo que reluz
assim como o sol
algo que emana uma luz.
Sim, está a minha frente.
Se aproxima como a lua
sorrateira!
Embebe-se todo meu ser
deixa todos meus sentidos
em apuros!
Sim, coloque um toque manso.
É frágil, mas imponente.
Como a rosa,
pois tens suas armas,
espinhos calculados!
Mas que eu sei como pegar,
que sei como acariciar,
mas que sei como amar...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

TEMPO NORTE-AMERICANO II – Adrienne Rich

- Tradução de Maria Ramalho -

Tudo o que escrevemos
Será usado contra nós
ou contra aqueles que amamos.
São estas as condições,
é pegar ou largar.
A poesia nunca teve hipótese
de se pôr fora da história.
Um verso datilografado há vinte anos
pode ser escarrapachado a tinta na parede
para glorificar a arte como distanciamento
ou tortura daqueles que
não amamos mas também
não quisemos matar
Nós seguimos mas as nossas palavras ficam
tornam-se responsáveis
por mais do que tínhamos na intenção
e isto é privilégio verbal.

..........
- inUma Paciência Selvagem”, Livros Cotovia -

MÚSICA – Amy Lowell

- tradução de Miguel Martins -

O vizinho está sentado à janela tocando flauta.
Da minha cama consigo ouvi-lo,
E as notas suaves agitam-se e tamborilam pelo quarto,
E entrechocam-se,
Esbatendo-se em acordes inesperados.
É muito belo,
Com as pequenas notas de flauta à minha volta,
No escuro.

Durante o dia,
O vizinho come pão e cebola com uma mão
E copia música com a outra.
É gordo e tem a cabeça careca,
Pelo que não olho para ele,
E passo a correr frente à sua janela.
Há sempre o céu para olhar,
Ou a água no poço!

Mas quando chega a noite e ele toca a sua flauta,
Penso nele como um jovem,
Com medalhas de ouro pendendo do relógio,
E um casaco azul com botões de prata.
Deitada na minha cama,
As notas de flauta encostam-se-me aos ouvidos e aos lábios,
E adormeço, sonhando.
..

- in revista “Telhados de Vidro”, n.º 14 -

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

REMEMBER - Christina Rossetti

- Tradução de Manuel Bandeira -

Recorda-te de mim quando eu embora
for para o chão silente e desolado;
quando não te tiver mais ao meu lado
e sombra vá chorar por quem me chora.

Quando não mais puderes, hora a hora,
falar-me no futuro que hás sonhado,
ah! de mim te recorda e do passado,
delícia do presente por agora.

No entanto, se algum dia me olvidares
e depois te lembrares novamente,
não chores: que, se em meio aos meus pesares,

um resto houver do afeto que em mim viste,
- melhor é me esqueceres, mas contente,
que me lembrares e ficares triste.

PIANISTA – Maria Alves

Sentimento martelado entre o preto e o branco
Num teclado tão banal como as mãos que lhe tocam
Reflectindo a alma grandiosa que se senta no banco
Que tocando nota a nota liberta sensações que marcam.

Cordas que vibram tornando-se belas melodias
Sob a forma de dedos esfuziantes e dançantes
Ao comando de compassos e de grande euforia
E assim surge aquela magnitude da sinfonia.

Ao de leve martela a corda que vibra livremente
Assim como os pensamentos de quem ouve e sente
Sons, sentires que impregnam o ar que se respira
De quem reflecte calmaria ou uma grande ira.

Piano bem afinado pelo harmónico coração
Reflexo de notas bem tocadas e em harmonia
É pianista que comanda com grande paixão.
Alma e corpo florescendo em sintonia.

...............
in "Palavras ao Vento - Oscilação dos Sentimentos"

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

ENSINAMENTO - Christine Matta

Descalça sobre as areias frias da vida
deixo minhas pegadas no caminho molhado.
Alguém as seguirá a qualquer tempo novo
e por saber: estarei ali por perto
agasalhada em algum ninho de prazer.

Àquela a chegar eu darei um sonho intenso
até deixar seu pensamento com minha marca.
Destinarei em pedras postas nas areias
criando momentos celestiais de meu ser mulher
a vivenciar o gosto melhor da vida.

Meu tempo sempre deu tempo ao meu presente
e jamais deixou de crer na certeza da chegada.
Sei o instante de como estou enfeitiçada
ninfa ou fada com o cetro da sáfica
ou báquica deusa a mirar o melhor prazer.

Nunca deixei de ser sábia nesses caminhos
a quem posso cativar de mansinho
com as coisas destinadas pela vida.
Descalça e despida à luz da lua
vou temperar a paixão e rasgar céus.

Deito o corpo nas areias frias desta vida.
Amada! Amante minha! A quem me pertença:
Jamais terei pudor hipócrita a revelar.
Descalça e límpida sob a luz das estrelas
ensinarei teu corpo macio de fêmea a me adorar!
.......
 in http://novosrumoshumanos.blogspot.com.br/

ABRAÇOS – Helen Costa

Amo os abraços bem dados
Do tipo daqueles
Que não vêm acompanhados só de braços
Mas de todo afeto
Que não cabe no peito
Daqueles que vêm acompanhados
Do tempo que se alonga
Que quando terminam
Deixam o cheiro preso na gente
Amo abraços
De todos os jeitos
Os que vêm de encontro
Que são encontros de alma
Ah! Esses sim, são os perfeitos.

PRINCÍPIOS – Nuno Júdice

Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exatamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A ORIGEM DO MÊNSTRUO - Bernardo Guimarães


- De uma fábula de Ovídio achada nas escavações de Pompeia e

vertida em latim vulgar por Simão de Nuntua -

Stava Vênus gentil junto da fonte
fazendo o seu pentelho,
com todo o jeito, pra que não ferisse 
das cricas o aparelho.

Tinha que dar o cu naquela noite
ao grande pai Anquises,
o qual, com ela, se não mente a fama,
passou dias felizes...

Rapava bem o cu, pois, resolvia
na mente altas ideias:
– ia gerar naquela heroica foda
o grande e pio Eneias.

Mas a navalha tinha o fio rombo,
e a deusa, que gemia,
arrancava os pentelhos e peidando,
caretas mil fazia!

Nesse entretanto, a ninfa Galateia,
acaso ali passava, 
e vendo a deusa assim tão agachada,
julgou que ela cagava...

Essa ninfa travessa e petulante
era de gênio mau,
e por pregar um susto à mãe do Amor,
atira-lhe um calhau...

Vênus se assusta. A branca mão mimosa
se agita alvoroçada,
e no cono lhe prega (oh! caso horrendo!) 
tremenda navalhada.

Da nacarada cona, em sutil fio,
corre purpúrea veia,
e nobre sangue do divino cono
as águas purpureia...

(É fama que quem bebe dessas águas
jamais perde a tesão
e é capaz de foder noites e dias,
até no cu de um cão!)

– "Ora porra!" – gritou a deusa irada,
e nisso o rosto volta...
E a ninfa, que conter-se não podia,
uma risada solta.

A travessa menina mal pensava
que, com tal brincadeira,
ia ferir a mais mimosa parte
da deusa regateira...

– "Estou perdida!" – trêmula murmura 
a pobre Galateia,
vendo o sangue correr do róseo cono
da poderosa deia...

Mas era tarde! A Cípira, furibunda,
por um momento a encara,
e, após instantes, com severo acento,
nesse clamor dispara:

"Vê! Que fizeste, desastrada ninfa,
que crime cometeste!
Que castigo há no céu, que punir possa
um crime como este?

Assim, por mais de um mês inutilizas 
o vaso das delícias...
E em que hei de gastar das longas noites
as horas tão propícias?

Ai! Um mês sem foder! Que atroz suplício...
Em mísero abandono,
que é que há de fazer, por tanto tempo,
este faminto cono?

Ó Adonis! Ó Júpiter potentes!
E tu, mavorte invito!
E tu, Aquiles! Acudi de pronto 
da minha dor ao grito!

Este vaso gentil que eu tencionava 
tornar bem fresco e limpo
para recreio e divinal regalo
dos deuses do Alto Olimpo,

Vede seu triste estado, ó! Que esta vida 
em sangue já se esvai-me!
Ó Deus, se desejais ter foda certa
vingai-vos e vingai-me!

Ó ninfa, o teu cono sempre atormente
perpétuas comichões,
e não aches quem jamais nele queira
vazar os seus colhões...

Em negra, podridão imundos vermes
roam-te sempre a crica,
e à vista dela sinta-se banzeira
a mais valente pica!

De eterno esquentamento flagelada,
verta fétidos jorros,
que causem tédio e nojo a todo mundo,
até mesmo aos cachorros!"

Ouviu-lhe estas palavras piedosas
do Olimpo o Grão-Tonante,
que em pívia ao sacana do Cupido
comia nesse instante...

Comovido no íntimo do peito,
das lástimas que ouviu,
manda ao menino que, de pronto, acuda
à puta que o pariu...

Ei-lo que, pronto, tange o veloz carro
de concha alabastrina,
que quatro aladas porras vão tirando
na esfera cristalina

Cupido que as conhece e as rédeas bate
da rápida quadriga,
coa voz ora as alenta, ora coa ponta
das setas as fustiga.

Já desce aos bosques onde a mãe, aflita,
em mísera agonia,
com seu sangue divino o verde musgo
de púrpura tingia...

No carro a toma e num momento chega 
à olímpica morada,
onde a turba dos deuses, reunida,
a espera consternada!

Já Mercúrio de emplastros se aparelha
para a venérea chaga,
feliz porque aquele curativo
espera certa a paga...

Vulcano, vendo o estado da consorte,
mil pragas vomitou...
Marte arranca um suspiro que as abóbadas
celestes abalou...

Sorriu a furto a ciumenta Juno,
lembrando o antigo pleito,
e Palas, orgulhosa lá consigo,
resmoneou: – "Bem-feito"!

Coube a Apolo lavar dos roxos lírios
o sangue que escorria,
e de tesão terrível assaltado,
conter-se mal podia!

Mas, enquanto se faz o curativo,
em seus divinos braços,
Jove sustém a filha, acalentando-a
com beijos e com abraços.

Depois, subindo ao trono luminoso,
com carrancudo aspecto,
e erguendo a voz troante, fundamenta
e lavra este DECRETO:

– "Suspende, ó filha, os lamentos justos
por tão atroz delito,
que no tremendo Livro do Destino
de há muito estava escrito.

Desse ultraje feroz será vingado
o teu divino cono,
e as imprecações que fulminaste
agora sanciono.

Mas, inda é pouco: – a todas as mulheres
estenda-se o castigo
para expiar o crime que esta infame
ousou para contigo...

Para punir tão bárbaro atentado,
toda humana crica,
de hoje em diante, lá de tempo em tempo,
escorra sangue em bica...

E por memória eterna chore sempre
o cono da mulher,
com lágrimas de sangue, o caso infando,
enquanto mundo houver..."

Amém! Amém! como voz atroadora
os deuses todos urram!
E os ecos das olímpicas abóbadas,
Amém! Amém! sussurram...