sábado, 20 de fevereiro de 2016

A FITA MÉTRICA - Madalena Daltro


A fita métrica
mediou
minha medida
pela medida de quem
nem me viu.

Ou ouviu,
nem eu o vi!
Ou ouvi dizer.

Nem sei quem foi
que deu medida,
à fita métrica 
que me mediu.

Assim sou medida
pela medida
da fita criada
por quem 
não conheceu
a minha medida.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

RELATIVIDADE – Antonio Carlos Gomes

Na verdade, não morro:
Espero o tempo morrer,
Ele não existe sem mim.

Se fechar os olhos:
Talvez o horizonte solte as garras
Tente como louco me prender,
Grite
Agrida
Esbraveje
Lutando para eu viver.

Sem meus olhos
Não há cores
Nem poesias
Nem amores,
Não há dor
Nem tampouco tristeza,
Não há mundo!

O Universo é meu olhar...

Que ele me conserve aceso
Caso contrário,
O sol que explode
De forma psicodélica
A quem vai se mostrar?
.......

GARGALHADAS – Rafael Rocha

Do livro “Marcos do Tempo” - 2010

Amada, quando a dor bater em tua porta
Tenta lembrar de mim e gargalhar comigo
Recordando os instantes das desditas
Acabadas em anseios gloriosos

Nos teus momentos de escuridão
Recorda a mim e deixa o riso voar
Lembrando quando eu dizia que teus olhos
De tão pequenos eram pétalas de flores desconhecidas

Amada, quando ficares sem meu corpo
Não deixe as lágrimas deslizando na face
Ria, pois a tua risada sempre foi para mim
Uma das ganâncias maiores de minha vida

Em qualquer lugar onde eu ficar, amada
E escutar teu riso cristalino
Estarei dinâmico e buliçoso
E transformado em vento virei rir contigo.

SOLIDÃO – Abgar Renault


O rio se entristece sob a ponte. 
Substância de homem na torrente escura 
flui, enternecimento ou desventura, 
misturada ao crepúsculo bifronte. 

Antes que débil lume além desponte, 
a sombra, que se apressa, desfigura 
e apaga o casario em sua alvura 
e a curva esquiva e sábia do horizonte. 

Os bois fecham nos olhos os arados, 
o pasto, a hora que tomba das subidas. 
Dorme o ocaso, pastor, entre as ovelhas. 

Sobem névoas dos vales fatigados 
e das árvores já enoitecidas 
pendem silêncios como folhas velhas.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

LUAR DO SERTÃO – Catulo da Paixão Cearense

Musicada por João Pernambuco

Não há, ó gente, oh não 
Luar como esse do sertão... 

Oh que saudade do luar da minha terra 
Lá na serra branquejando 
Folhas secas pelo chão 
Esse luar cá da cidade tão escuro 
Não tem aquela saudade 
Do luar lá do sertão 

Se a lua nasce por detrás da verde mata 
Mais parece um sol de prata prateando a solidão 
A gente pega na viola que ponteia 
E a canção é lua cheia 
A nos nascer do coração

Se Deus me ouvisse 
Com amor e caridade 
Me faria essa vontade 
O ideal do coração: 
Era que a morte 
A descontar surpreendesse 
E eu morresse numa noite 
De luar lá do sertão.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

SEU NOME – Maria Firmina dos Reis

Seu nome! em repeti-lo a planta, a erva,
A fonte, a solidão, o mar, a brisa
Meu peito se extasia!
Seu nome é meu alento, é-me deleite;
Seu nome, se o repito, é dúlia nota
De infinda melodia.

Seu nome! vejo-o escrito em letras d'ouro
No azul sideral à noite quando
Medito à beira-mar:
E sobre as mansas águas debruçada,
Melancólica, e bela eu vejo a lua,
Na praia a se mirar.

Seu nome! é minha glória, é meu porvir,
Minha esperança, e ambição é ele,
Meu sonho, meu amor!
Seu nome afina as cordas de minh'harpa,
Exalta a minha mente, e a embriaga
De poético odor.

Seu nome! embora vague esta minha alma
Em páramos desertos, - ou medite
Em bronca solidão:
Seu nome é minha ideia - em vão tentara
Roubar-mo alguém do peito - em vão - repito,
Seu nome é meu condão.

Quando baixar benéfico a meu leito,
Esse anjo de deus, pálido, e triste
Amigo derradeiro.
No seu último arcar, no extremo alento,
Há de seu nome pronunciar meus lábios,
Seu nome todo inteiro!...
  ........................................
- In CANTOS À BEIRA MAR, São Luís do Maranhão, 1871, pags. 71-72 –

A RUA DO RIO – Ascenso Ferreira

No começo da rua
Morava Agostinho - o aleijado -
A quem o povo acusava de alimentar-se de coisas imundas :
- Bichos mortos apanhados nos fundos dos quintais !

Fronteiro a ele morava o pedreiro Manuel Belo,
Que por ter sido mordido de cachorro da moléstia,
Quando falava com a gente avançava como um cão !

No meio da rua morava a celebérrima preta Inês,
Catimbozeira "afamanada",
Sempre às voltas com sapos e urubus !

Na outra ponta da rua morava a mulata Filomena,
A quem um jacaré acuou dentro de um banheiro no rio,
E que saiu nuinha pela estrada afora,
Gritando : "Me acudam ! Me acudam !"

Mas nem tudo na Rua do Rio,
Era infâmia, nojo, abominação !

Na outra ponta da rua,
Bem nos fundos do quintal da casa de minha mãe,
Morava o fogueteiro Lulu Higino,
Que no silêncio das noites consteladas,
Arrancava da flauta uns acordes tão suaves,
Que até parecia serem as estrelas lá no céu
Que estavam tocando...

........
Vejam mais em: http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/pernambuco/ascenso_ferreira.html

A ÁRVORE SOLITÁRIA - Carlos Gildemar Pontes

A árvore solitária na beira da estrada
Passa seu tempo contando os carros
Os caminhões, os ônibus, as motos
Olhei para ela nessa vida de solitário
E vi que só ela dava sombra
Em meio a tanto deserto

Pensei nela ali na estrada
Empoeirada, empoleirada de ninhos secos
Pensei nela um dia semente
Brotando da terra depois de uma chuva
Olhei para ela pelo retrovisor
E vi que sumia, pequenina, solitária
Como a vida que segue sem propósitos.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

PROCURANDO, ACHEI... – Fernando Serrate

Olho ao redor.
Tudo escuro pela penumbra.
Em  que o mundo se coloca;
tudo tão escondido, perdido.
Mas há algo que reluz
assim como o sol
algo que emana uma luz.
Sim, está a minha frente.
Se aproxima como a lua
sorrateira!
Embebe-se todo meu ser
deixa todos meus sentidos
em apuros!
Sim, coloque um toque manso.
É frágil, mas imponente.
Como a rosa,
pois tens suas armas,
espinhos calculados!
Mas que eu sei como pegar,
que sei como acariciar,
mas que sei como amar...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

TEMPO NORTE-AMERICANO II – Adrienne Rich

- Tradução de Maria Ramalho -

Tudo o que escrevemos
Será usado contra nós
ou contra aqueles que amamos.
São estas as condições,
é pegar ou largar.
A poesia nunca teve hipótese
de se pôr fora da história.
Um verso datilografado há vinte anos
pode ser escarrapachado a tinta na parede
para glorificar a arte como distanciamento
ou tortura daqueles que
não amamos mas também
não quisemos matar
Nós seguimos mas as nossas palavras ficam
tornam-se responsáveis
por mais do que tínhamos na intenção
e isto é privilégio verbal.

..........
- inUma Paciência Selvagem”, Livros Cotovia -

MÚSICA – Amy Lowell

- tradução de Miguel Martins -

O vizinho está sentado à janela tocando flauta.
Da minha cama consigo ouvi-lo,
E as notas suaves agitam-se e tamborilam pelo quarto,
E entrechocam-se,
Esbatendo-se em acordes inesperados.
É muito belo,
Com as pequenas notas de flauta à minha volta,
No escuro.

Durante o dia,
O vizinho come pão e cebola com uma mão
E copia música com a outra.
É gordo e tem a cabeça careca,
Pelo que não olho para ele,
E passo a correr frente à sua janela.
Há sempre o céu para olhar,
Ou a água no poço!

Mas quando chega a noite e ele toca a sua flauta,
Penso nele como um jovem,
Com medalhas de ouro pendendo do relógio,
E um casaco azul com botões de prata.
Deitada na minha cama,
As notas de flauta encostam-se-me aos ouvidos e aos lábios,
E adormeço, sonhando.
..

- in revista “Telhados de Vidro”, n.º 14 -

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

REMEMBER - Christina Rossetti

- Tradução de Manuel Bandeira -

Recorda-te de mim quando eu embora
for para o chão silente e desolado;
quando não te tiver mais ao meu lado
e sombra vá chorar por quem me chora.

Quando não mais puderes, hora a hora,
falar-me no futuro que hás sonhado,
ah! de mim te recorda e do passado,
delícia do presente por agora.

No entanto, se algum dia me olvidares
e depois te lembrares novamente,
não chores: que, se em meio aos meus pesares,

um resto houver do afeto que em mim viste,
- melhor é me esqueceres, mas contente,
que me lembrares e ficares triste.

PIANISTA – Maria Alves

Sentimento martelado entre o preto e o branco
Num teclado tão banal como as mãos que lhe tocam
Reflectindo a alma grandiosa que se senta no banco
Que tocando nota a nota liberta sensações que marcam.

Cordas que vibram tornando-se belas melodias
Sob a forma de dedos esfuziantes e dançantes
Ao comando de compassos e de grande euforia
E assim surge aquela magnitude da sinfonia.

Ao de leve martela a corda que vibra livremente
Assim como os pensamentos de quem ouve e sente
Sons, sentires que impregnam o ar que se respira
De quem reflecte calmaria ou uma grande ira.

Piano bem afinado pelo harmónico coração
Reflexo de notas bem tocadas e em harmonia
É pianista que comanda com grande paixão.
Alma e corpo florescendo em sintonia.

...............
in "Palavras ao Vento - Oscilação dos Sentimentos"

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

ENSINAMENTO - Christine Matta

Descalça sobre as areias frias da vida
deixo minhas pegadas no caminho molhado.
Alguém as seguirá a qualquer tempo novo
e por saber: estarei ali por perto
agasalhada em algum ninho de prazer.

Àquela a chegar eu darei um sonho intenso
até deixar seu pensamento com minha marca.
Destinarei em pedras postas nas areias
criando momentos celestiais de meu ser mulher
a vivenciar o gosto melhor da vida.

Meu tempo sempre deu tempo ao meu presente
e jamais deixou de crer na certeza da chegada.
Sei o instante de como estou enfeitiçada
ninfa ou fada com o cetro da sáfica
ou báquica deusa a mirar o melhor prazer.

Nunca deixei de ser sábia nesses caminhos
a quem posso cativar de mansinho
com as coisas destinadas pela vida.
Descalça e despida à luz da lua
vou temperar a paixão e rasgar céus.

Deito o corpo nas areias frias desta vida.
Amada! Amante minha! A quem me pertença:
Jamais terei pudor hipócrita a revelar.
Descalça e límpida sob a luz das estrelas
ensinarei teu corpo macio de fêmea a me adorar!
.......
 in http://novosrumoshumanos.blogspot.com.br/

ABRAÇOS – Helen Costa

Amo os abraços bem dados
Do tipo daqueles
Que não vêm acompanhados só de braços
Mas de todo afeto
Que não cabe no peito
Daqueles que vêm acompanhados
Do tempo que se alonga
Que quando terminam
Deixam o cheiro preso na gente
Amo abraços
De todos os jeitos
Os que vêm de encontro
Que são encontros de alma
Ah! Esses sim, são os perfeitos.