quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A ÁRVORE DOS DESEJOS - Seamus Heaney

Tradução de Rui Carvalho Homem

Recordei-a como a árvore dos desejos que morreu
E vi-a subir, inteira, até ao céu,
Deixando um rasto de tudo o que se cravara

Por cada carência, uma e outra vez, na têmpera
Da sua casca e sâmago: moeda, alfinete e prego
Desfraldaram dela como uma cauda de cometa

Recém-cunhada e dissolvida. Tive uma visão
De uma ramada aérea atravessando úmidas nuvens,
De rostos erguidos, onde a árvore estivera.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

BLUES FÚNEBRES - W. H. Auden

Tradução de Nelson Ascher

Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

INVICTUS - William E. Henley

Tradução de André Masini

Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.

Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.

Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.

Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

EM MEU OFÍCIO OU ARTE TACITURNA – Dylan Thomas


Tradução de Ivan Junqueira

Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou por pão 
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.

MESA DOS SONHOS – Alexandre O’Neill


Ao lado do homem vou crescendo 

Defendo-me da morte quando dou 
Meu corpo ao seu desejo violento 
E lhe devoro o corpo lentamente 

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem 
Todas as formas e começam 
Todas as vidas 

Ao lado do homem vou crescendo 

E defendo-me da morte povoando 
de novos sonhos a vida.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

VANESSA EM MIM – Eleonora Galvão

Vanessa. Teus olhos
me dizem:
- Esqueça!
Vanessa. Tua boca
me pede:
- Entristeça!
Vanessa. Teus seios
me ordenam
- Padeça!
Vanessa de instantes
constantes rompantes
Vanessa da rua
da noite, da lua
Vanessa, poesia
das noites vadias
Vanessa em torno
a garrafas vazias
Vanessa fumaça
maconha, cachaça
Vanessa de ateus
me ama nos breus.
Vanessa em mim!
angústia da hora
poente a aurora

Princípio e fim
.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O ESCOLHIDO – Laércio José Pereira


Fosse eu, 
o escolhido,
O teu querido,
O teu deus

Fosse eu, 
O teu sonho antigo,
O diário amigo,
Íntimo e fiel.

Eu te adoraria,
Venerar-te-ia 
em genuflexão.

Pecaria misturando crenças
Monoteístas e ateias
Construiria para ti um templo de invocação,

E te adoraria sem fim,
Com devoção.

Fosse eu, 
Somente eu,
O escolhido entre a criação,
Atiraria pétalas
E ramos de alecrim.

Isso, se eu fosse, menina,
O DIABO da tua imaginação.

FUMAÇA – Celso Mendes

arrasto comigo uma sede
de cenas que não vivi
de barcos que já partiram
de peles que não senti
arrasto uma linha pendendo
pras bandas do fim do mundo
que escorre a cada segundo
nas brechas por onde adentro
e levo dois milhões de olhares
mil bocas que não beijei
imagens que guardo lá dentro
e um rastro que não deixei

A FITA MÉTRICA - Madalena Daltro


A fita métrica
mediou
minha medida
pela medida de quem
nem me viu.

Ou ouviu,
nem eu o vi!
Ou ouvi dizer.

Nem sei quem foi
que deu medida,
à fita métrica 
que me mediu.

Assim sou medida
pela medida
da fita criada
por quem 
não conheceu
a minha medida.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

RELATIVIDADE – Antonio Carlos Gomes

Na verdade, não morro:
Espero o tempo morrer,
Ele não existe sem mim.

Se fechar os olhos:
Talvez o horizonte solte as garras
Tente como louco me prender,
Grite
Agrida
Esbraveje
Lutando para eu viver.

Sem meus olhos
Não há cores
Nem poesias
Nem amores,
Não há dor
Nem tampouco tristeza,
Não há mundo!

O Universo é meu olhar...

Que ele me conserve aceso
Caso contrário,
O sol que explode
De forma psicodélica
A quem vai se mostrar?
.......

GARGALHADAS – Rafael Rocha

Do livro “Marcos do Tempo” - 2010

Amada, quando a dor bater em tua porta
Tenta lembrar de mim e gargalhar comigo
Recordando os instantes das desditas
Acabadas em anseios gloriosos

Nos teus momentos de escuridão
Recorda a mim e deixa o riso voar
Lembrando quando eu dizia que teus olhos
De tão pequenos eram pétalas de flores desconhecidas

Amada, quando ficares sem meu corpo
Não deixe as lágrimas deslizando na face
Ria, pois a tua risada sempre foi para mim
Uma das ganâncias maiores de minha vida

Em qualquer lugar onde eu ficar, amada
E escutar teu riso cristalino
Estarei dinâmico e buliçoso
E transformado em vento virei rir contigo.

SOLIDÃO – Abgar Renault


O rio se entristece sob a ponte. 
Substância de homem na torrente escura 
flui, enternecimento ou desventura, 
misturada ao crepúsculo bifronte. 

Antes que débil lume além desponte, 
a sombra, que se apressa, desfigura 
e apaga o casario em sua alvura 
e a curva esquiva e sábia do horizonte. 

Os bois fecham nos olhos os arados, 
o pasto, a hora que tomba das subidas. 
Dorme o ocaso, pastor, entre as ovelhas. 

Sobem névoas dos vales fatigados 
e das árvores já enoitecidas 
pendem silêncios como folhas velhas.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

LUAR DO SERTÃO – Catulo da Paixão Cearense

Musicada por João Pernambuco

Não há, ó gente, oh não 
Luar como esse do sertão... 

Oh que saudade do luar da minha terra 
Lá na serra branquejando 
Folhas secas pelo chão 
Esse luar cá da cidade tão escuro 
Não tem aquela saudade 
Do luar lá do sertão 

Se a lua nasce por detrás da verde mata 
Mais parece um sol de prata prateando a solidão 
A gente pega na viola que ponteia 
E a canção é lua cheia 
A nos nascer do coração

Se Deus me ouvisse 
Com amor e caridade 
Me faria essa vontade 
O ideal do coração: 
Era que a morte 
A descontar surpreendesse 
E eu morresse numa noite 
De luar lá do sertão.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

SEU NOME – Maria Firmina dos Reis

Seu nome! em repeti-lo a planta, a erva,
A fonte, a solidão, o mar, a brisa
Meu peito se extasia!
Seu nome é meu alento, é-me deleite;
Seu nome, se o repito, é dúlia nota
De infinda melodia.

Seu nome! vejo-o escrito em letras d'ouro
No azul sideral à noite quando
Medito à beira-mar:
E sobre as mansas águas debruçada,
Melancólica, e bela eu vejo a lua,
Na praia a se mirar.

Seu nome! é minha glória, é meu porvir,
Minha esperança, e ambição é ele,
Meu sonho, meu amor!
Seu nome afina as cordas de minh'harpa,
Exalta a minha mente, e a embriaga
De poético odor.

Seu nome! embora vague esta minha alma
Em páramos desertos, - ou medite
Em bronca solidão:
Seu nome é minha ideia - em vão tentara
Roubar-mo alguém do peito - em vão - repito,
Seu nome é meu condão.

Quando baixar benéfico a meu leito,
Esse anjo de deus, pálido, e triste
Amigo derradeiro.
No seu último arcar, no extremo alento,
Há de seu nome pronunciar meus lábios,
Seu nome todo inteiro!...
  ........................................
- In CANTOS À BEIRA MAR, São Luís do Maranhão, 1871, pags. 71-72 –

A RUA DO RIO – Ascenso Ferreira

No começo da rua
Morava Agostinho - o aleijado -
A quem o povo acusava de alimentar-se de coisas imundas :
- Bichos mortos apanhados nos fundos dos quintais !

Fronteiro a ele morava o pedreiro Manuel Belo,
Que por ter sido mordido de cachorro da moléstia,
Quando falava com a gente avançava como um cão !

No meio da rua morava a celebérrima preta Inês,
Catimbozeira "afamanada",
Sempre às voltas com sapos e urubus !

Na outra ponta da rua morava a mulata Filomena,
A quem um jacaré acuou dentro de um banheiro no rio,
E que saiu nuinha pela estrada afora,
Gritando : "Me acudam ! Me acudam !"

Mas nem tudo na Rua do Rio,
Era infâmia, nojo, abominação !

Na outra ponta da rua,
Bem nos fundos do quintal da casa de minha mãe,
Morava o fogueteiro Lulu Higino,
Que no silêncio das noites consteladas,
Arrancava da flauta uns acordes tão suaves,
Que até parecia serem as estrelas lá no céu
Que estavam tocando...

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Vejam mais em: http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/pernambuco/ascenso_ferreira.html