quarta-feira, 2 de março de 2016

LEGENDA DOS DIAS – Raul de Leôni

O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas... e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada...

As horas morrem sobre as horas... Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: "Se o Ideal da Vida
Não vejo hoje, virá na outra jornada..."

Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera;

E a Vida passa... efêmera e vazia:
Um adiantamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia...

terça-feira, 1 de março de 2016

SOBRE O TRAVESSEIRO - Maura Soares


Sobre o travesseiro rabisco estas notas.

É noite, quase madrugada.
Sob a luz do abajur,
registro a solidão
através de breves palavras.
Busco na memória os momentos felizes
da juventude.
Foram tantos...
Tantas, também, as decepções.
O amor ideal é difícil de encontrar,
pelo menos, encontrar alguém
que compartilhe os sonhos,
que divida as tristezas,
que ria nas alegrias,
que dê carinho na hora do amor.

Sobre o travesseiro,
a letra escarranchada em papel rascunho
manchado de tinta.
O sono está chegando e,
na breve interrupção de um cochilo,
rabisco a esperança
de que um novo dia
vai chegar.

PARADOXO – Leila Cristina de Carvalho

Meu coração partiu-se
Em duas partes iguais
Uma chora loucamente
Outra ri docemente
Uma é névoa negra
Outra nuvem cor-de-rosa
Uma é ferida que sangra
Outra riacho manso
Uma fez-se noite eterna
Outra repousa em silêncio.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

CONSELHO DO ADMINISTRADOR DO BLOG


O CAMINHO QUEU MAIS CURTO - Manoel José do Nascimento (Manuzé)

Tem gente que se curva
Eu gosto é de retas
A distância é menor
Tem muita gente destra
Eu prefiro ser sinistro
E aderir às diretas

..........
Veja mais em:
http://interpoetica.com/site/index.php?option=com_content&view=article&id=631&catid=47


RETORNO - Celina de Holanda


Este chão é pausa.
Deem-me a infância
para que eu retorne
reencontre meu chão,
seu verde, seus marcos,
seu barro plasmável.

Quero saber de novo
de terreiros limpos
com vassouras verdes

do tempo correndo
branco como um rio,
carregando as roupas
qual nuvens mais alvas.

Massapê das margens,
sapatos de lama,
toalhas de vento
e o regresso limpo,
lento como a tarde.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

REVOLTA NA ZONA DA MATA - Hermilo Borba Filho

Bicho ardente, verde claro
verde-escuro, amarelado,
no pasto da esperança
voam as crinas dos cavalos.
São animais, são guerreiros,
procurando a madrugada
e nela se ajeitando
com peixes, antas, serpentes,
passarinhos, pirilampos,
roedores, bestas de carne
na revolução da vida
dando exemplo ao bicho-homem.
No pendão da cana escura
corre o suor da agonia,
no eito da enxada aguda
cava, cava a própria dor.
E o céu sangrento, mudo,
recobre a pastagem gorda
que dará ao senhor dela
carros, perfumes e sedas,
enquanto na choça escura
chupando o peito resseco
o homem, criança hoje,
toma lições de animais
para como cobra irada
ou gavião bicador
arrancar do coração
o brado-revolta pura
do final da servidão.

MEU CORAÇÃO – J. G. de Araújo Jorge

Eu tenho um coração um século atrasado
ainda vive a sonhar... ainda sonha, a sofrer...
acredita que o mundo é um castelo encantado
e, criança, vive a rir, batendo de prazer...

Eu tenho um coração - um mísero coitado
que um dia há de por fim, o mundo compreender...
- é um poeta, um sonhador, um pobre esperançado
que habita no meu peito e enche de sons meu ser...

Quando tudo é matéria e é sombra - ele é uma luz
ainda crê na ilusão, no amor, na fantasia
sabe de cor todos os versos que compus...

Deus pôs-me um coração com certeza enganado:
- e é por isso talvez, que ainda faço poesia
lembrando um sonhador do século passado!

QUANDO FORES VELHA - William Butler Yeats

Tradução de José Agostinho Baptista

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

A ÁRVORE DOS DESEJOS - Seamus Heaney

Tradução de Rui Carvalho Homem

Recordei-a como a árvore dos desejos que morreu
E vi-a subir, inteira, até ao céu,
Deixando um rasto de tudo o que se cravara

Por cada carência, uma e outra vez, na têmpera
Da sua casca e sâmago: moeda, alfinete e prego
Desfraldaram dela como uma cauda de cometa

Recém-cunhada e dissolvida. Tive uma visão
De uma ramada aérea atravessando úmidas nuvens,
De rostos erguidos, onde a árvore estivera.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

BLUES FÚNEBRES - W. H. Auden

Tradução de Nelson Ascher

Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

INVICTUS - William E. Henley

Tradução de André Masini

Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.

Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.

Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.

Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

EM MEU OFÍCIO OU ARTE TACITURNA – Dylan Thomas


Tradução de Ivan Junqueira

Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou por pão 
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.

MESA DOS SONHOS – Alexandre O’Neill


Ao lado do homem vou crescendo 

Defendo-me da morte quando dou 
Meu corpo ao seu desejo violento 
E lhe devoro o corpo lentamente 

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem 
Todas as formas e começam 
Todas as vidas 

Ao lado do homem vou crescendo 

E defendo-me da morte povoando 
de novos sonhos a vida.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

VANESSA EM MIM – Eleonora Galvão

Vanessa. Teus olhos
me dizem:
- Esqueça!
Vanessa. Tua boca
me pede:
- Entristeça!
Vanessa. Teus seios
me ordenam
- Padeça!
Vanessa de instantes
constantes rompantes
Vanessa da rua
da noite, da lua
Vanessa, poesia
das noites vadias
Vanessa em torno
a garrafas vazias
Vanessa fumaça
maconha, cachaça
Vanessa de ateus
me ama nos breus.
Vanessa em mim!
angústia da hora
poente a aurora

Princípio e fim
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