terça-feira, 15 de março de 2016

AS DUAS FLORES – Castro Alves

São duas flores unidas
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!

segunda-feira, 14 de março de 2016

PÉ DIREITO, PÉ ESQUERDO - Antonio Carlos Gomes

Pé direito.
Pé esquerdo.
Bate forte...
Leste. Oeste.
Sul e Norte
Tenho a vida
Tenho a morte
Na luta pela Nação.

Pé direito.
Pé esquerdo.
Bate forte
Vence a opressão
Vence a fome
Não admite humilhação.

Pé direito.
Pé esquerdo.
Bate forte!
Sangue e linfa
Vasos que correm
De dentro do coração
Defendendo a Constituição.

Pé direito.
Pé esquerdo.
Bate forte...

quinta-feira, 10 de março de 2016

POEMA DA VIDA DISSOLUTA – Rafael Rocha

Do livro POEMAS ESCOLHIDOS

Quando eu nasci, um anjo bêbado
Desses que habitam os bares da vida, disse:
Vai Rafa! Vai escrever umas poesias
Daquelas que saem duras e frias
E prontas para matar e morrer.

Ora, ora! Os bares também fecham as portas
E a solidão também vive neles
Ainda que as tristezas se afoguem
Nos copos de chope e nas músicas dos cornos.

O garçom ainda tem jeito no seu ir e vir
E os amigos sabem o que fazer...
Mas para que tanta frescura, minha gente?
Seria tão bom que as mulheres fossem cervejas
Para a gente bebê-las calma e suavemente!

O poeta escreve um texto no seu ofício
De ser pessoa natural
E sonha e fala com os poucos amigos
Buscando um entendimento conjuntural

Porra, anjo safado, por que essa idiotice
De chegar a mim no dia de meu nascer
Quando sabias que eu seria tão sentimentaloide?

Ah, esses bares! Ah, esses botequins!
Se meu pai tinha sobrenome Lins
Isso não solucionou minha vinda ao planeta
Não existiram explicações!
Ah! Esses botequins!
Todos eles repletos de pérfidas canções!

E eu tinha de escrever esse poema, meu amigo!
Porque essa cerveja gelada
Essa música cantada pelo Nelson
Deixam meu cérebro mais bêbado que o do bêbado real!

terça-feira, 8 de março de 2016

RETRATO DE MULHER TRISTE – Cecília Meireles


Vestiu-se para um baile que não há. 
Sentou-se com suas últimas joias. 
E olha para o lado, imóvel. 

Está vendo os salões que se acabaram, 
embala-se em valsas que não dançou, 
levemente sorri para um homem. 
O homem que não existiu. 

Se alguém lhe disser que sonha, 
levantará com desdém o arco das sobrancelhas, 
Pois jamais se viveu com tanta plenitude. 

Mas para falar de sua vida 
tem de abaixar as quase infantis pestanas, 
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

SONETO DO CORIFEU – Vinicius de Morais

(da peça Orfeu da Conceição)

São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua

COM LICENÇA POÉTICA – Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.


quarta-feira, 2 de março de 2016

TELHA DE VIDRO – Rachel de Queiroz

Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
Mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...

A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...

Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que - coitados - tão velhos
só hoje é que conhecem a luz do dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.

Que linda camarinha! Era tão feia!
- Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você não experimenta?
A moça foi tão bem sucedida...

Ponha uma telha de vidro em sua vida!

LEGENDA DOS DIAS – Raul de Leôni

O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas... e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada...

As horas morrem sobre as horas... Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: "Se o Ideal da Vida
Não vejo hoje, virá na outra jornada..."

Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera;

E a Vida passa... efêmera e vazia:
Um adiantamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia...

terça-feira, 1 de março de 2016

SOBRE O TRAVESSEIRO - Maura Soares


Sobre o travesseiro rabisco estas notas.

É noite, quase madrugada.
Sob a luz do abajur,
registro a solidão
através de breves palavras.
Busco na memória os momentos felizes
da juventude.
Foram tantos...
Tantas, também, as decepções.
O amor ideal é difícil de encontrar,
pelo menos, encontrar alguém
que compartilhe os sonhos,
que divida as tristezas,
que ria nas alegrias,
que dê carinho na hora do amor.

Sobre o travesseiro,
a letra escarranchada em papel rascunho
manchado de tinta.
O sono está chegando e,
na breve interrupção de um cochilo,
rabisco a esperança
de que um novo dia
vai chegar.

PARADOXO – Leila Cristina de Carvalho

Meu coração partiu-se
Em duas partes iguais
Uma chora loucamente
Outra ri docemente
Uma é névoa negra
Outra nuvem cor-de-rosa
Uma é ferida que sangra
Outra riacho manso
Uma fez-se noite eterna
Outra repousa em silêncio.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

CONSELHO DO ADMINISTRADOR DO BLOG


O CAMINHO QUEU MAIS CURTO - Manoel José do Nascimento (Manuzé)

Tem gente que se curva
Eu gosto é de retas
A distância é menor
Tem muita gente destra
Eu prefiro ser sinistro
E aderir às diretas

..........
Veja mais em:
http://interpoetica.com/site/index.php?option=com_content&view=article&id=631&catid=47


RETORNO - Celina de Holanda


Este chão é pausa.
Deem-me a infância
para que eu retorne
reencontre meu chão,
seu verde, seus marcos,
seu barro plasmável.

Quero saber de novo
de terreiros limpos
com vassouras verdes

do tempo correndo
branco como um rio,
carregando as roupas
qual nuvens mais alvas.

Massapê das margens,
sapatos de lama,
toalhas de vento
e o regresso limpo,
lento como a tarde.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

REVOLTA NA ZONA DA MATA - Hermilo Borba Filho

Bicho ardente, verde claro
verde-escuro, amarelado,
no pasto da esperança
voam as crinas dos cavalos.
São animais, são guerreiros,
procurando a madrugada
e nela se ajeitando
com peixes, antas, serpentes,
passarinhos, pirilampos,
roedores, bestas de carne
na revolução da vida
dando exemplo ao bicho-homem.
No pendão da cana escura
corre o suor da agonia,
no eito da enxada aguda
cava, cava a própria dor.
E o céu sangrento, mudo,
recobre a pastagem gorda
que dará ao senhor dela
carros, perfumes e sedas,
enquanto na choça escura
chupando o peito resseco
o homem, criança hoje,
toma lições de animais
para como cobra irada
ou gavião bicador
arrancar do coração
o brado-revolta pura
do final da servidão.

MEU CORAÇÃO – J. G. de Araújo Jorge

Eu tenho um coração um século atrasado
ainda vive a sonhar... ainda sonha, a sofrer...
acredita que o mundo é um castelo encantado
e, criança, vive a rir, batendo de prazer...

Eu tenho um coração - um mísero coitado
que um dia há de por fim, o mundo compreender...
- é um poeta, um sonhador, um pobre esperançado
que habita no meu peito e enche de sons meu ser...

Quando tudo é matéria e é sombra - ele é uma luz
ainda crê na ilusão, no amor, na fantasia
sabe de cor todos os versos que compus...

Deus pôs-me um coração com certeza enganado:
- e é por isso talvez, que ainda faço poesia
lembrando um sonhador do século passado!