domingo, 20 de março de 2016

NO CAMINHO COM MAIAKOWSKI - Eduardo Alves da Costa

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo, 
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!

sexta-feira, 18 de março de 2016

MARÇO – Rafael Rocha

Está difícil viver em março!
O oráculo falava:
Cuidado com os idos de março!
Tem sempre ares aziagos!
É o mês do deus da guerra.
É o mês das armas.
É o mês da morte
falada e escutada e anunciada.

Os idiotas adoram a guerra.
Adoram sangue e matança.
Tudo isso faz de Marte
o tempo da viuvez no templo.
Ave, Júlio César!
Os que vão morrer te saúdam!

São sempre os idealistas a morrer!
São sempre os bons de coração a morrer!
São sempre os altruístas que morrem
nos idos de março!

ACORDAR, VIVER - Carlos Drummond de Andrade

Como acordar sem sofrimento? 
Recomeçar sem horror? 
O sono transportou-me 
àquele reino onde não existe vida 
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte, 
a fábula inconclusa, 
suportar a semelhança das coisas ásperas 
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas 
que rasga em mim o acontecimento, 
qualquer acontecimento 
que lembra a Terra e sua púrpura 
demente? 
E mais aquela ferida que me inflijo 
a cada hora, algoz 
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.

quarta-feira, 16 de março de 2016

RIO UNA - Manuel Bentevi

À margem do rio Una
nasci em uma casinha
onde um saudoso graúna
cantava de manhãzinha.
Mamãe disse, e eu me lembro
que foi a seis de setembro
num bom tempo de estio,
que cheguei ali, estranho
e tomei o primeiro banho
na água daquele rio.

Eu com a minha mãezinha
os meus irmãos e meu pai
em uma humilde casinha
já velhinha, cai não cai.
Aí fui crescendo
de tudo fui entendendo
comecei a compreender
dia e noite, noite e dia
o rio secava e enchia
e a água sempre a correr.

O rio de lado a lado
formava grossa corrente
e eu em casa sentado
olhando a enorme enchente
pau, caiçara, baronesa
desciam na correnteza
ali pro lado do mar
tudo na cheia descia
a água toda corria
e o rio no mesmo lugar.

Meus pais morreram, eu saí
e nunca mais fui por lá
porém depois que cresci
me lembro sempre de cá.
Daquela morada antiga
daquela gente amiga
que jamais esquecerei.
Aquele tempo ditoso
aquele rio bondoso
onde um dia me banhei.

Ó rio de Una falado
rio que o poeta adora
rio onde me banhei
naquele tempo de outrora
há pouco fui visitá-lo
e pensei até encontrá-lo
triste, velho e acabado
eu o achei um colosso
parece ainda mais moço
do que no tempo passado.

Eu fiquei cheio de mágoa
meu peito empalideceu
tomei banho e bebi água
o rio não me reconheceu
ele perdeu a lembrança
quando eu era pequenino
eu, velho, cheio de defeito
e o rio do mesmo jeito
parece ainda ser menino.

Não é por isso que eu deixo
de gabar meu rio Una
nem tampouco me queixo
do meu amado graúna
que toda manhã cantava
e eu o apreciava
naquele tempo sombrio
hoje lembro a mocidade
mas só me resta a saudade
do meu graúna e do rio.

Na margem do rio Una
não há mais minha casinha
nem o saudoso graúna
canta mais de manhãzinha.
Sem mãe, sem irmão, sem pai
da minha mente só sai
a triste recordação
jamais me banhei no Una
jamais eu vi meu graúna
e tudo termina em não.

terça-feira, 15 de março de 2016

AS DUAS FLORES – Castro Alves

São duas flores unidas
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!

segunda-feira, 14 de março de 2016

PÉ DIREITO, PÉ ESQUERDO - Antonio Carlos Gomes

Pé direito.
Pé esquerdo.
Bate forte...
Leste. Oeste.
Sul e Norte
Tenho a vida
Tenho a morte
Na luta pela Nação.

Pé direito.
Pé esquerdo.
Bate forte
Vence a opressão
Vence a fome
Não admite humilhação.

Pé direito.
Pé esquerdo.
Bate forte!
Sangue e linfa
Vasos que correm
De dentro do coração
Defendendo a Constituição.

Pé direito.
Pé esquerdo.
Bate forte...

quinta-feira, 10 de março de 2016

POEMA DA VIDA DISSOLUTA – Rafael Rocha

Do livro POEMAS ESCOLHIDOS

Quando eu nasci, um anjo bêbado
Desses que habitam os bares da vida, disse:
Vai Rafa! Vai escrever umas poesias
Daquelas que saem duras e frias
E prontas para matar e morrer.

Ora, ora! Os bares também fecham as portas
E a solidão também vive neles
Ainda que as tristezas se afoguem
Nos copos de chope e nas músicas dos cornos.

O garçom ainda tem jeito no seu ir e vir
E os amigos sabem o que fazer...
Mas para que tanta frescura, minha gente?
Seria tão bom que as mulheres fossem cervejas
Para a gente bebê-las calma e suavemente!

O poeta escreve um texto no seu ofício
De ser pessoa natural
E sonha e fala com os poucos amigos
Buscando um entendimento conjuntural

Porra, anjo safado, por que essa idiotice
De chegar a mim no dia de meu nascer
Quando sabias que eu seria tão sentimentaloide?

Ah, esses bares! Ah, esses botequins!
Se meu pai tinha sobrenome Lins
Isso não solucionou minha vinda ao planeta
Não existiram explicações!
Ah! Esses botequins!
Todos eles repletos de pérfidas canções!

E eu tinha de escrever esse poema, meu amigo!
Porque essa cerveja gelada
Essa música cantada pelo Nelson
Deixam meu cérebro mais bêbado que o do bêbado real!

terça-feira, 8 de março de 2016

RETRATO DE MULHER TRISTE – Cecília Meireles


Vestiu-se para um baile que não há. 
Sentou-se com suas últimas joias. 
E olha para o lado, imóvel. 

Está vendo os salões que se acabaram, 
embala-se em valsas que não dançou, 
levemente sorri para um homem. 
O homem que não existiu. 

Se alguém lhe disser que sonha, 
levantará com desdém o arco das sobrancelhas, 
Pois jamais se viveu com tanta plenitude. 

Mas para falar de sua vida 
tem de abaixar as quase infantis pestanas, 
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

SONETO DO CORIFEU – Vinicius de Morais

(da peça Orfeu da Conceição)

São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua

COM LICENÇA POÉTICA – Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.


quarta-feira, 2 de março de 2016

TELHA DE VIDRO – Rachel de Queiroz

Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
Mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...

A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...

Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que - coitados - tão velhos
só hoje é que conhecem a luz do dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.

Que linda camarinha! Era tão feia!
- Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você não experimenta?
A moça foi tão bem sucedida...

Ponha uma telha de vidro em sua vida!

LEGENDA DOS DIAS – Raul de Leôni

O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas... e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada...

As horas morrem sobre as horas... Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: "Se o Ideal da Vida
Não vejo hoje, virá na outra jornada..."

Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera;

E a Vida passa... efêmera e vazia:
Um adiantamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia...

terça-feira, 1 de março de 2016

SOBRE O TRAVESSEIRO - Maura Soares


Sobre o travesseiro rabisco estas notas.

É noite, quase madrugada.
Sob a luz do abajur,
registro a solidão
através de breves palavras.
Busco na memória os momentos felizes
da juventude.
Foram tantos...
Tantas, também, as decepções.
O amor ideal é difícil de encontrar,
pelo menos, encontrar alguém
que compartilhe os sonhos,
que divida as tristezas,
que ria nas alegrias,
que dê carinho na hora do amor.

Sobre o travesseiro,
a letra escarranchada em papel rascunho
manchado de tinta.
O sono está chegando e,
na breve interrupção de um cochilo,
rabisco a esperança
de que um novo dia
vai chegar.

PARADOXO – Leila Cristina de Carvalho

Meu coração partiu-se
Em duas partes iguais
Uma chora loucamente
Outra ri docemente
Uma é névoa negra
Outra nuvem cor-de-rosa
Uma é ferida que sangra
Outra riacho manso
Uma fez-se noite eterna
Outra repousa em silêncio.