quarta-feira, 30 de março de 2016

UMA BARQUINHA BRANCA... UMA CABANA... - Adelmar Tavares

Uma barquinha branca... Uma cabana...
E em volta da cabana, - coqueirais...
O mar em frente... A vida soberana
De ser pobre e pescador...
          Viver feliz com o teu amor
          E - nada mais...

Ou no cimo de um monte - uma choupana
E em volta da choupana - laranjais...
Soprar a frauta quérula, de cana,
Ter um rebanho, e ser pastor...
          Viver feliz com o teu amor
          E - nada mais...

segunda-feira, 28 de março de 2016

LABORATÓRIO DE SENSIBILIDADE – Jomard Muniz de Britto

entre o fruto e o dente
qual o lugar do inconsciente?

mais vale uma banana no inciso
que duas maçãs no paraíso.

entre o prazer e o dever
como o libido satisfazer?

mais vale uma fruta na mão
que três desejos em não.

entre memória e esquecimento
qual o mais gozar do sofrimento?

entre razão e com-paixão
existe o devir-povo-da-nação.

PSICOCARDIA – Altair Leal

Eu quero a lua
brilhando na madrugada,
eu quero o orvalho
molhando meu rosto.
Não quero restos,
quero rastros.
Quero gestos e gostos,
posto que seja vário,
quero uns, querubins.
quero nãos, quero sins.

Quero olhar
a menina dos teus olhos,
quero que os teus
olhem a minha,
não o olhar por olhar.
Quero manha e manhãs,
quero noites e nortes pra te amar.
Quero o vento soprando minha sorte,
que eu seja forte,
que eu corte o leste e litoral
em horizontes,
pra te servir em fatias,
o meu mundo.

domingo, 27 de março de 2016

A CASA – Nelson Saldanha

Destelho a casa e fecho-me nas salas.
Entro em mim mesmo e em mim estou: andando
pelos meus corredores, que são valas.
Refaço meus mosaicos, empilhados
junto às paredes, em que estalam febres,
e em que procuro as portas deslocadas.
Subo e desço no escuro estas escadas
que dão aos meus porões, ora entulhados
com lixo e com raízes. E entretanto
vou rever as colunas, e o orvalho
acumulado sobre as folhas, cujas
nervuras reconheço talho a talho.
E reencontro os castiçais molhados
postos sob a ramagem, e estes ares
que são da noite, e dormem. E revejo
o verde escuro e triste dos veludos
e dos musgos, e o azul vitrificado
que vem dos sonhos mortos, repassados.
Apoio-me a parede, úmida e antiga,
que reconstruo com esforço, e escondo
debaixo de uma pedra um grão de sonho.
Assumo e sofro o chão em que o deponho
depondo-me também, sobre os batentes
que pesam como sombras, entre as sombras
que fariam as árvores ausentes.
Assumo e sou a casa e o sonho, e abarco,
no sonho inabitável que me habita,
os encaixes, os vidros, os ferrolhos,
forros e pisos, onde andaram passos
de vida e morte, e onde escoaram dias
ora também passados para sempre.

SOU NEGRO – Solano Trindade

Sou negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh`alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gongôs e agogôs
Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor de engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu

Depois meu avô brigou como um danado
nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso
Mesmo vovó
não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou

Na minh`alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação


quinta-feira, 24 de março de 2016

HOMENS E BOIS – César Leal


Como um cruzador regressa 
ao porto e vai descansar 
das muitas fadigas juntas 
em suas patas de radar, 
regressam os bois ao curral 
a mugir na cerração 
do pó que as patas levantam 
do lombo-azul do verão. 
Marcham sempre organizados 
- como marcha um batalhão - 
são tristes, magros e tristes 
os magros bois do sertão. 
Alguns morrem mesmo bois, 
pescoço atado ao cambão, 
outros morrem a morte de homens: 
sangue a correr pelo chão. 
Esse o destino dos dois 
(homem ou boi, não importa o nome) 
ambos morrem para matar 
(dos canhões e homens) a fome. 

quarta-feira, 23 de março de 2016

CANÇÃO NOTURNA – Alberto Lins Caldas

O poema é uma lagoa distante
Onde os sapos segregam pios
Que se tecem como a noite
E se coagulam numa longa
Canção noturna
Que se adensa pela casa
Bailando com a neblina
Pelos quartos
Partindo
Sem o cheiro salino dos vales
E o vazado rangir da rede

Quando ao amanhecer
A cantoria se transforma
No mugir das vacas
E duendes e morcegos
Vão dormir
É chegada a hora de o poema
Mergulhar no lodo da Titara
Hibernando a linguagem da terra
Buscando a busca do tempo
Para quando o sol morrer
A força vegetal da vida
Brotar mais fundo
Do coração das serras
Arrancando lá de dentro
Os frutos apodrecidos
E os olhos de fogo
Da canção noturna

segunda-feira, 21 de março de 2016

OS “POLÍTICOS” – Juareiz Correya

os “políticos” todos os dias
ensaiam as mesmas loas
e o homens cantam,
remontam os mesmos figurinos
e os homens copiam,
repetem os mesmos chavões
e os homens aplaudem,
discursam as mesmas louvações
e os homens se encantam,
mantêm as mesmas lutas
e os homens lhes seguem,
recitam as mesmas cartilhas
e os homens publicam,
usam os mesmos métodos
e os homens arrebanham-se,
postulam os mesmos credos
e os homens guerreiam,
revivem a mesma vida
e os homens matam-se.

O EXÍLIO DO POUSO DAS ESTRELAS – Tereza Tenório

Trinta e três luas acesas
no tempo do desencontro
Trinta e três vozes amargas
no rastro das diligências
Trinta e três pedras de toque
vazias de toda crença
Trinta e três sorrisos mortos
nos lábios do afogado
Trinta e três sais na moleira

da que ficou sem o amigo
da que ficou sem parelha
da que ficou sem marido
a misturar na poeira
a dor desse amor perdido

RETRATO DO ARTISTA QUANDO COISA – Manoel de Barros


A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
- eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

SONETO DE JULHO – Ruy Espinheira Filho


É muito tarde para não te amar.
Tudo o que ouço é o sopro do teu nome.
O que sinto é teu corpo, que consome
- presente, ausente - o meu corpo. Luar 

em que me abraso, morro: teu olhar
ofuscando memórias, onde some
um mundo, e outro se ergue. Sede, fome
e esperança. Ah, para não te amar 

é tão tarde que tudo é já distância,
que só respiro este luar que me arde,
este sopro sem praias do teu nome, 

esta pedra em que pulsa e medra a ânsia
e esta aura, enfim, em que me envolve (é tarde!)
o que és - presente, ausente - e me consome.

domingo, 20 de março de 2016

JÁ FAZ TEMPO QUE ESCOLHI – Thiago de Melo

A luz que me abriu os olhos
para a dor dos deserdados
e os feridos de injustiça,
não me permite fechá-los
nunca mais, enquanto viva.
Mesmo que de asco ou fadiga
me disponha a não ver mais,
ainda que o medo costure
os meus olhos, já não posso
deixar de ver: a verdade
me tocou, com sua lâmina
de amor, o centro do ser.
Não se trata de escolher
entre cegueira e traição.
Mas entre ver e fazer
de conta que nada vi
ou dizer da dor que vejo
para ajudá-la a ter fim,
já faz tempo que escolhi.

NO CAMINHO COM MAIAKOWSKI - Eduardo Alves da Costa

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo, 
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!

sexta-feira, 18 de março de 2016

MARÇO – Rafael Rocha

Está difícil viver em março!
O oráculo falava:
Cuidado com os idos de março!
Tem sempre ares aziagos!
É o mês do deus da guerra.
É o mês das armas.
É o mês da morte
falada e escutada e anunciada.

Os idiotas adoram a guerra.
Adoram sangue e matança.
Tudo isso faz de Marte
o tempo da viuvez no templo.
Ave, Júlio César!
Os que vão morrer te saúdam!

São sempre os idealistas a morrer!
São sempre os bons de coração a morrer!
São sempre os altruístas que morrem
nos idos de março!

ACORDAR, VIVER - Carlos Drummond de Andrade

Como acordar sem sofrimento? 
Recomeçar sem horror? 
O sono transportou-me 
àquele reino onde não existe vida 
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte, 
a fábula inconclusa, 
suportar a semelhança das coisas ásperas 
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas 
que rasga em mim o acontecimento, 
qualquer acontecimento 
que lembra a Terra e sua púrpura 
demente? 
E mais aquela ferida que me inflijo 
a cada hora, algoz 
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.