segunda-feira, 4 de abril de 2016

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES – Jorge de Lima

Lá vem o acendedor de lampiões de rua!
Este mesmo que vem, infatigavelmente,
Parodiar o Sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente.

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite, aos poucos, se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade
Como este acendedor de lampiões de rua!

HORAS PERDIDAS - Anilda Leão

Eu vivo nesse momento a tristeza
Das horas perdidas,
Das horas mortas,
Das horas inúteis,
Horas que deixamos passar sem serem vividas.
Há tanta vida lá fora e nós dois tão distantes,
Tão dolorosamente afastados.
Por que matamos sem piedade tudo o que há de belo
Dentro de nós? Por que?
Há uma infinidade de horas entre a hora presente.
E ainda agora trago nas minhas mãos,
Na minha boca, no meu corpo,
A sensação da nossa última carícia.
Eu vivo neste momento a tristeza
Das nossas horas inúteis.
Horas estéreis. Melancolicamente vazias.

domingo, 3 de abril de 2016

OUTROS BARULHOS - Reinaldo Bessa

uma noite
minha mãe
puxava-me pela mão
éramos quatro;
eu, ela, o medo e a pressa
disso lembro-me bem
enquanto os três conversavam
eu pregava os olhos nos olhos tristes das casas e
me dava uma tremenda vontade de perguntar
"mamãe, o que elas têm?"

como figurinhas coladas
no horizonte,
navios iam e vinham parados,
fugiam dos nossos olhos
da margem, da terra, de longe,
de muito longe eu embarcava neles, pedindo;
navios, navios, me levem a lugar nenhum.

quando cai da rede
vi que eu existia mesmo
minha mae apareceu no umbral da porta
logo, meu pai, nu, nasceu de uma sombra e a puxou
ele queria terminar de foder com ela, e
parece que comigo também
os dois, silenciosamente, desapareceram na sombra
vi que eu nao existia mesmo
quando cai da rede.

quando eu tinha oito anos
descobri o tempo.
ele estava numa plaqueta,
numa mercearia
dizia:" fiado só amanhã"
foi aí que percebi que o tempo
não posa para fotos

um dia
caminhei descalço por entre as poças
deixadas pela chuva.
meus pés balançavam as estrelas,
baldeava o céu
relampejava e eu não tinha medo.
como pode alguém com fome
ter medo de relâmpagos?

FENECER – Marize Castro


Feneço na ausência
dos homens cor de bronze
do prepúcio de púrpura.

Quem me lapidou
esqueceu de me tirar
o veneno.

Ateio
fogo na minha própria
teia.

Como quem preserva fortalezas
corto minhas / alheias
veias.

Feneço, infinitamente
na presença dos homens
que têm grandes pés e nenhuma fé.
Que me rasgam a carne
e me sepultam em suas glandes.

Não fosse eu
uma pessoa de múltiplos escudos
viveria a vida toda 
como um único vestido
de veludo.

sábado, 2 de abril de 2016

CANTO FEMININO – Rafael Rocha

Do livro “Poemas Escolhidos”

Um belo rosto moreno... Um sorriso
e ao redor dos olhos um algo mais
como a desejar perder a paz
na liturgia da paixão mais obscena
em um louco amor

desses que crescem em gestos tresloucados
vindo e partindo sempre ao não mais.
Nesse lindo rosto moreno jaz
o desejo onírico de ser mais que uma cena
em um filme louco de amor

O sorriso é a marca da beleza indelével
a marcar o rosto feminino com as mais gerais
e sanguíneas cores das paixões carnais.
E sussurra a si mesma: – É uma pena
nesse jardim da vida ser uma solitária flor!

A ÁRVORE – Francisca Clotilde

Ao contemplá-la, triste, emurchecida,
Os galhos nus de folhas despojados,
Sem a seiva que outrora tanta vida
Lhe trazia em renovos delicados;

Ao vê-la assim tão só, tão esquecida,
Tendo gozado dias tão folgados,
Ao som dos passarinhos namorados,
Que nela achavam sombra apetecida:

Ai! Sem querer encontro semelhanças
Entre meus sonhos, minhas esperanças
E a mirrada árvore dolente.

Ela perdeu as folhas verdejantes,
Bem como eu as ilusões fragrantes
Que outrora me embalavam docemente.

A ÚLTIMA ESTRELA DA NOITE – Valdeci Ferraz

Quando a última estrela se despedir
Anunciando o fim da madrugada
Eu sei que vou chorar
Porque não poderei te possuir.
Minha mão como um pássaro sem asas
Vai se abrigar na solidão dos bolsos vazios.
Meus lábios não ousaram pronunciar o teu nome
Tal é a angústia que tua indiferença produz.

Das fendas do nosso leito brotarão as cinzas
Do desejo sepultado pelas sombras da noite.
O meu corpo enrijecido pelo frio
Não poderá te possuir
Já não terá sentido a minha vida 
Embora a esperança desperte com o amanhecer.

quinta-feira, 31 de março de 2016

MULHER NÃO TEM CORAÇÃO – Lourival Batista Patriota


Um cientista profundo
Solicitou-me uma vez
Que eu enumerasse os três
Desmantelos desse mundo
Eu respondi num segundo
Doido, mulher e ladrão
E disse mais a razão:
Doido não tem paciência
Ladrão não tem consciência
Mulher não tem coração.

IMPASSE – Orlando Tejo

Se ficar onde estou não faço nada,
Se sair por aí corro perigo,
Se me calo minhalma é sufocada,
Se disser o que sei faço inimigo...

Se pensar vou trair a madrugada
E se sonho demais vem o castigo,
Se quiser subo até o fim de escada,
Mas precisa brigar, e eu não brigo!

Se cantar atropelo o contracanto,
Se não canto maltrato o coração,
Se me faço sofrer me desencanto,

Se reprimo o ideal perco a razão,
Se perder a razão, resta-me o pranto
E meu pranto não faz uma canção.

ONDE FOI RIO – Nísia Nóbrega

Onde foi rio, era chão,
duro, lavado, sem brio.
Nenhuma flora para espera,
rachando ao sol,
chão de estio.
Onde foi rio, corri,
lágrima e sal de esperança.
Espera e anseio perdi
de me rever em criança.
E já não cri, já não cri.
Por onde os grilos da infância?
Quem de buscar não se cansa?

quarta-feira, 30 de março de 2016

O LOUCO – Geraldino Brasil

Inventou que era deus e fez das suas:
Óleos n´água pingou, criou aquarelas
Partiu uma maçã em duas luas
e cortou carambolas fez estrelas.

Quis ser o diabo e riu nos desatinos:
e riu caretas diante de dois cegos
Falou na história antiga a dois meninos
E da vida moderna a poetas gregos.

Chorou e o diabo o fez cortar cebolas
e lhe enxugou as lágrimas com lãs
de vidro e gritou puuum! com as suas artes.

Deus bondoso o acalmou com carambolas
que comeu e então fez duas manhãs
partindo uma laranja em duas partes.

SONETO À ROSA DA MANHÃ NASCENTE – Francisco Valois

Da fuligem do tempo entardecido,
emerge a rosa da manhã nascente:
- plenilúnio de agosto acontecido
vogante pelo espaço opalescente.

No canteiro do olhar anoitecido,
- fonte de orvalho puro e permanente -
opaliza-se a rosa e, renascido
o tempo, um novo mundo se pressente:

(dissimulado, o sol poreja sangue
e, no pálio do céu, a lua exangue
vela a noite da infância adolescida)

- é que a rosa de cor avermelhada
transfigurou-se em flor purificada
nascente na manhã azulecida.

CANTO VERDE – Luiz Alberto Machado


Convém lembrar, companheiro, a vida
Para os olhos de todas as manhãs
Não permitindo ao fedor das sentenças
Vender o dia às trevas;
Convém lembrar, companheiro, a terra
Onde pisam os pés de todas as cores, raças e crenças;
O rio de todas as canoas, de todos os peixes,
De todas as cachoeiras que assobiam prá gente
Um outro sentido de vida;
O sol, manifestação real da própria existência.
Convém lembrar, companheiro,
Do sopro de todos os ventos,
Das matas de todas as flores,
Do quintal de todas as infâncias,
De todas as várzeas, todos os campos,
Todas as selvas dos bichos de todas as feras e mansas;
Das águas de todos os mares,
Todos os brejos, lagos e lagoas;
Convém lembrar, acima de tudo,
O direito de viver e deixar viver.

AMOR E MEDO – Antonio Rangel Bandeira

És bela, eu velho;
Tens amor, eu tédio.
Que adianta seres
Bela, se a beleza
É coisa externa que
Não está no coração?
E minha velhice
Não te interessa
Já que, na vida,
Seguimos destinos
Opostos.

Tens amor, bem sei
É próprio da idade,
Que amor é
Tão somente impulso
Da natureza cega,
Para perpetuar
A miséria amarga
De nosso próprio
Infortúnio.
És bela, fui moço,
Tens amor, eu... medo.

UMA BARQUINHA BRANCA... UMA CABANA... - Adelmar Tavares

Uma barquinha branca... Uma cabana...
E em volta da cabana, - coqueirais...
O mar em frente... A vida soberana
De ser pobre e pescador...
          Viver feliz com o teu amor
          E - nada mais...

Ou no cimo de um monte - uma choupana
E em volta da choupana - laranjais...
Soprar a frauta quérula, de cana,
Ter um rebanho, e ser pastor...
          Viver feliz com o teu amor
          E - nada mais...