quarta-feira, 27 de abril de 2016

PAIXÃO – Gilberto Mendonça Teles

- Quanto dura uma paixão?

Uma paixão não dura nada, apenas
a eternidade simples de um sorriso
que, por ser belo, e possuir antenas
capta constantemente o paraíso.

Uma paixão é sempre um peixe grande,
uma alegria que se torna amarga
quando se perde a noite e, na manhã
de sol, se perde o anzol na linha larga.

Nem adianta, aí, mudar de isca,
cevar o poço e procurar no fundo:
o peixe da paixão é sombra arisca
na melhor pescaria deste mundo.

Ela não dura muito e, por ser peixe,
não dura na emoção, não dura nada:
se se perde no fundo, é sempre um feixe
de luz
        - alguma escama nacarada,
caco de vidro, areia no sol quente
que cintila e se apaga, de repente.

SONETO DO REENCONTRO – Afonso Felix de Souza

Nada mais esperar, se o sentimento
que um dia escravo e deus de mim fizera,
é hoje o doce e amargo no alimento
a alimentar quem sou com quem eu era

e nunca o fui, senão em pensamento.
Nada mais esperar? - Mas clama a espera
no fundo do que sonho, quero e invento
com o que resiste, em mim, ao anjo e à fera.

Oh, não mais esperar! - E o desespero
seria em minha voz, como em meus braços,
a espera mais total, do prisioneiro

que, encerrado em si mesmo, sente o espaço ...
Que inteiro está o amor no derradeiro
pedaço deste amor que despedaço.

terça-feira, 26 de abril de 2016

REVELAÇÃO – Renata Bomfim

Com Freud e Lacan, muito sexo.
Flerte com Foucault.
Com Bakhtin, pura amizade.
Mas com Jung, amor.

Com Deleuze, um chá à tarde,
Com Baudelaire, cigarro, rapé, campari.
Conselhos tomo com o Jameson,
Mas sigo sempre as dicas do Paz.

Sedutores pirados, visionários, poetas,
Combinam bizarrices e genialidade,
Roubam meu tempo, minhas letras e
Partem falando de mim. Fica a saudade.


VIGILIA – Geir Campos

Não, meu amigo, não precisas ter
nenhum cuidado: havendo o que cuidar,
cuidarei eu constantemente a te poupar
coitas que vão teu coito arrefecer.

Coitado de quem deixa a noite ser
vinda fora de tempo e de lugar
sombreando as alturas do prazer
com rasteiras tribulações do lar.

Antes que venha a noite, vai o dia
mostrando os horizontes de alegria
que tem a palmilhar no corpo dela:

são costas, são gargantas, são colinas
- toda uma geografia em que te empinas
enquanto pelo teu meu amor vela.

VAZIO – Aline Yasmin

é um nó

é um só bem fundo

tem cheiro de festa desfeita
cara amarela
buraco sem rumo
^doença sem cura
ferida
loucura
pão velho
sopa estragada
chá com açúcar
roupa jogada

esse vazio tão só
tem cara de sol na cabeça
de jardim sem cuidar
e uma dor no peito
rasgando bem devagar

tem jeito de gato miando
num velho filme noir

A ORIGEM DA NOITE – Jorge Tufic

A Noite era um fantasma que se repartia
entre a luz e a escuridão.

Um lado desse fantasma era escuro e feio.
O outro lado era claro e bonito.

Nãmi, era como se chamava o dono da Noite.

Os grilos teciam as folhagens do sono
enquanto o pássaro japu tratava de afastar,
com seu bico,
as cortinas da madrugada.

Antes de dar a Noite a seus netos,
Nãmi comeu ipadu e fumou olé-o (cigarro).

O resto dessa estória ninguém sabe,
porque uma parte dela ficou com a Gente da Noite
e a outra parte ficou com a Gente do Dia.

LARANJAS E FANTAS – Walquiria Raizer


Eu te avisei!
...disse Mário com cara de Maria...
(como se houvesse menos multa
quando se buzina antes de passar o sinal)

Avisou sim é verdade,
mas queria não ser entendido.
Avisou só por desencargo.
E isso não conta.

Disse que o ipê floria,
que era amarelo e só.
Disse que era desse jeito todos os anos,
e que não pensava em mudar.

Mas o ipê muda Mário,
e sou eu
é que estou te avisando.

Há de nascer laranjas nele...

Se não nascer eu mesma subo
e prego umas garrafas de fanta.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

ANDARILHO – Rafael Rocha

Do livro “Poemas Escolhidos”

Eu conheço-me homem de há tempos idos
Eterno componente de água vagabundo
Poeta em desvario de fogo e irmão da terra.

Sou entregue ao mundo em paixão extrema
Eterno componente de ar embebedado
Destinatário de canções e dono do espaço.

Existindo outros mundos eu habito neste
Signo de água, fogo, terra e ar
Minha beleza é totalmente desatada e louca.

Sou andarilho de universos insolentes
E no caminho das andanças o perseguidor
Das horas permitidas à paixão do meu amor.

CRUEL – Vespasiano Ramos

Ah, se as dores que eu sinto ela sentisse,
se as lágrimas que eu choro ela chorasse;
talvez nunca um momento me negasse
tudo que eu desejasse e lhe pedisse!

Talvez a todo instante consentisse
minha boca beijar a sua face,
se o caminho que eu tomo ela tomasse,
se o calvário que eu subo ela subisse!

Se o desejo que eu tenho ela tivesse,
se os meus sonhos de amor ela sonhasse,
aos meus rogos talvez não se opusesse!

Talvez nunca negasse o que eu pedisse,
se as lágrimas que eu choro ela chorasse
e se as dores que eu sinto ela sentisse!...

MIRITIBA – Humberto de Campos

É o que me lembra: uma soturna vila
olhando um rio sem vapor nem ponte;
Na água salobra, a canoada em fila...
Grandes redes ao sol, mangais defronte...

De um lado e de outro, fecha-se o horizonte...
Duas ruas somente... a água tranqüila...
Botos no prea-mar... A igreja... A fonte
E as grandes dunas claras onde o sol cintila.

Eu, com seis anos, não reflito, ou penso.
Põem-me no barco mais veleiro, e, a bordo,
Minha mãe, pela noite, agita um lenço...

Ao vir do sol, a água do mar se alteia.
Range o mastro... Depois... só me recordo
Deste doido lutar por terra alheia!

MAL SECRETO – Raimundo Correia

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N´alma e destroi cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora,
Ver através da mascara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez, existe
Cuja ventura única consiste,
Em parecer aos outros venturosa!

O VIOLINO DO ARTISTA – Dunschee de Abranchez

Só lhe restava o mágico violino
nessa vida de eterno sofrimento;
único amigo, um outro peregrino
na rota desgraçada do talento.

Como sentia o mísero instrumento,
nessa alma rude, um lenho pequenino,
que tinha em mãos do dono um sentimento
que era "mais do que humano, era divino!"

E juntos iam no fulgor das cenas
confundir num adágio as suas penas,
irmãos na glória, gêmeos no tormento!...

Mas morto um dia o artista, gente absurda
quis tocá-lo... mas ah! tinha a alma surda...
já não sentia o mísero instrumento!...

domingo, 24 de abril de 2016

D’ÁFRICA – Juarez Pedrossiano Goitá

Levantar a dor sobre meu corpo
transgressor.
A vida assassinada pelo chicote
do feitor.
Coração negro não me abate
nessa dor.
Só tanto dói saber esse látego
ser da mesma cor
d’África,

Ah! Como é ruim saber tanto
desamor.
Ainda ver/sentir a senzala viva
a casa grande em flor.
A um negro/negra bater em mim
sem dó
Sem dizer o argumento bom
para um da mesma cor
bater/matar.

Meu corpo negro tem história viva
d’África
E aflição de viver esse paroxismo
de amor...


O CASO DOS DOIS BEIJOS – Paulo José Cunha

No tapete ao lado da cama,
hoje pela manhã,
encontrei dois beijos vadios
que se desprenderam à noite
de teus cabelos
e caíram no chão.
Um deles (o mais tímido)
machucou-se um pouco na queda,
chora e só fala em voltar pra casa.
Já o outro, de uma família de saltimbancos,
em troca de dois vinténs
tomou o lugar de um dos meus.
Agora, teu beijo saltimbanco anda comigo.
Faz piruetas dentro do bolso da calça,
e diz que nunca mais voltará pra casa.
Enquanto isso o meu beijo, um andarilho,
fugiu e agora anda contigo.
Tem feito longas caminhadas pelo teu rosto,
se enrosca em teus cabelos,
escorrega pelo teu corpo,
pendura-se no bico de um seio,
vez por outra se esborracha no chão,
e, com um sorriso safado,
abre os bracinhos
e diz umas piadas sujas
que te fazem rir,
encabulada...

HAMLET – Alcides Freitas

Não sei que estranha dor meu peito dilacera,
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhos de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!

Sou malvado e sou bom! Minh'alma ora é sincera,
Ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!

Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga ...

Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
O suicídio - uma bala... um punhal... uma corda!...