segunda-feira, 9 de maio de 2016

PARÁBOLA – Anderson Braga Horta

Trabalha diligente o velho jardineiro,
de cuja mão depende a sorte do jardim.
Cuida de cada planta e de cada canteiro
e seu árduo labor parece não ter fim.

Sua mão despejou a alegre sementeira
no solo que ela mesma adrede preparara,
e é sua mão que aduba, e escora, e poda, e joeira,
dentre as flores que cria, a mais bela e mais rara.

Mais que todos, conhece o valor do trabalho.
Mas sabe ele também que, da raiz ao galho
e do caule à corola, o anélito, a palavra,

o sopro, a seiva, o canto, a lúcida placenta
não é ele o demiurgo, o pródigo que a inventa,
e é preciso esperar que a rosa aos ventos se abra.

MAPA DO NOVO MUNDO – ARQUIPÉLAGOS – Derek Walcott


Ao cabo desta frase, choverá
À beira-chuva, uma vela.

A vela aos poucos perderá de vista as ilhas;
A fé nos portos de uma raça inteira
sumirá na neblina.

A guerra de dez anos terminou.
O cabelo de Helena: uma nuvem grisalha.
Tróia: um fosso branco de cinzas
junto ao mar onde garoa.

A garoa se reteza como as cordas de uma harpa.
Um homem de olhos nublados toma em mãos a chuva
e tange o primeiro verso da Odisseia.

CONVERSAR – Octavio Paz

Tradução Antonio Moura

Em um poema leio:
Conversar é divino.
Mas os deuses não falam:
fazem, desfazem mundos
enquanto os homens falam.
Os deuses, sem palavras,
jogam jogos terríveis.

O espírito baixa
e desata as línguas
mas não diz palavra:
diz luz. A linguagem
pelo deus acesa,
é uma profecia
de chamas e um desplume
de sílabas queimadas:
cinza sem sentido.

A palavra do homem
é filha da morte.
Falamos porque somos
mortais: as palavras
não são signos, são anos.
Ao dizer o que dizem
os nomes que dizemos
dizem tempo: nos dizem,
somos nomes do tempo.
Conversar é humano.

A ADORMECIDA – Paul Valéry

Tradução de Augusto de Campos

Que segredo incandesces no peito, minha amiga,
Alma por doce máscara aspirando a flor?
De que alimentos vãos teu cândido calor
Gera essa irradiação: mulher adormecida?

Sopro, sonhos, silêncio, invencível quebranto,
Tu triunfas, ó paz mais potente que um pranto,
Quando de um pleno sono a onda grave e estendida
Conspira sobre o seio de tal inimiga

Dorme, dourada soma: sombras e abandono.
De tais dons cumulou-se esse temível sono,
Corça languidamente longa além do laço,

Que embora a alma ausente, em luta nos desertos,
Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,
Vela, Tua forma vela, e meus olhos: abertos.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

PÁSSARO DE BAR – Rafael Rocha

Do livro – “Poemas Escolhidos”

Numa mesa de bar faço o consumo
de cervejas e petiscos e histórias
tecendo um ninho de pássaro sem rumo
na busca da invisível paixão.

Em cigarros e bebidas e fumaças
sorvo canções as mais irrisórias
e voo por sobre as telhas de tua casa
asas abertas catando uma ilusão

E sentes pouco o delírio da canção
bebida e mastigada e fumada
nos sonhos noturnais da sexta-feira

de quando eras a musa, eu o poeta
a tentar criar versos extraordinários
que nenhum outro escreveu no mundo.

MINHA MULHER É UMA FLOR – Valdeci Ferraz

Minha mulher é uma flor,
dessas que a brisa sopra de leve
temendo derrubar suas pétalas.
Ela mantém o lar sempre perfumado
e sua presença traz luz ao ambiente.
Ela adora a chuva no fim da tarde,
mas não dispensa o sol na manhã seguinte.
À noite, enquanto ela dorme,
escuto os beija-flores bicando o vidro da janela,
querendo sugar o seu néctar.

Quando me deito ao seu lado
me sinto um tronco de árvore, velho, sujo, enlameado.
Temo esmagá-la com meus dedos obscenos,
mas a seiva que escorre do seu corpo é tão forte
que me transformo em um menino.
E como menino, lembro-me de minha mãe,
que também era uma flor.
As duas flores se fundem
e surge a figura de uma fada.
Aninho-me em seus braços
e desafio os fantasmas, os dragões,
os vampiros e os lobisomens.

Minha mulher é uma flor. 
Gosta de me ouvir em sussurro
e espalha lã por onde passa. 
Esse é o caminho do meu amado,
ela parece dizer para todos os homens e mulheres. 
Engulo a corda e estufo o peito.
Satisfeito, prometo ser a fonte 
onde ela possa sempre se banhar. 
Prometo ser uma nuvem para livrá-la do sol quente. 
Prometo segurar o trovão para não vê-la estremecida.
Prometo segurar o tempo para não vê-la murchar. 
Prometo até na outra vida 
nascer um cravo e por ela esperar.

LAMENTO – Antônio Carlos Gomes

O tempo não passa:
Um lamento...
Reclamamos o vigor perdido.
O tempo está lá
Onde sempre esteve
Imutável.

Buscamos o que fomos
[como que se tivesse passado]
Chamamos isto de idade:
- Na verdade
O tempo fica
O vigor passa.

Eternos, dentro da finitude
Recordar é a única atitude.
Tudo que sobrou
Em um tempo estático
Que não nos olha.

domingo, 1 de maio de 2016

OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO – Vinicius de Moraes

 Homenagem de PALAVRAS DE ATEOP a todos os trabalhadores do Brasil e do Mundo 

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

sábado, 30 de abril de 2016

INIMIGO MEU - Rui Amaro Gil Marques

Sim, você é como todos que se aproveitam dos fracos
Que manipulam e exploram os ignorantes
Você é só mais um falso e hipócrita
Mais um que se esconde sob o manto da religião
Para ganhar dinheiro e poder
Você é só mais um inimigo meu
Inimigo meu, sim
Inimigo da verdade
Mentiroso e serviçal do sistema
Inimigo da liberdade
Inimigo meu, sim
Você com esse seu discurso de paz apoia a guerra contra nós
Sua religião é tão falsa quanto você
Falso profeta é o que você é
Inimigo meu, sim sim, inimigo meu
Não posso me calar frente aos seus abusos
Não posso me calar frente as suas mentiras
Não posso ficar quieto
Não posso aceitar essa hipocrisia toda
Inimigo da verdade inimigo meu, sim
Sim, inimigo meu
Sua religião é tão falsa quanto você
Lutar contra esse seu mundo é preciso
Lutar contra a mentira
Fazer revolução é o caminho
Revolução é o caminho
Você inimigo meu, sim!
Sim, inimigo meu!
Foda-se! 

EM MAIO – Oswaldo de Camargo

Já não há mais razão para chamar as lembranças
e mostrá-las ao povo
em maio.
Em maio sopram ventos desatados
por mãos de mando, turvam o sentido
do que sonhamos.
Em maio uma tal senhora Liberdade se alvoroça
e desce às praças das bocas entreabertas
e começa:
"Outrora, nas senzalas, os senhores..."
Mas a Liberdade que desce à praça
nos meados de maio,
pedindo rumores,
é uma senhora esquálida, seca, desvalida,
e nada sabe de nossa vida.
A Liberdade que sei é uma menina sem jeito,
vem montada no ombro dos moleques
ou se esconde
no peito, em fogo, dos que jamais irão
à praça.
Na praça estão os fracos, os velhos, os decadentes
e seu grito: "Ó bendita Liberdade!"
E ela sorri e se orgulha, de verdade,
do muito que tem feito!

MEU MAIO - Vladimir Maiakovski


A todos
Que saíram às ruas
De corpo-máquina cansado,
A todos
Que imploram feriado
Às costas que a terra extenua –
Primeiro de Maio!
Meu mundo, em primaveras,
Derrete a neve com sol gaio.
Sou operário –
Este é o meu maio!
Sou camponês - Este é o meu mês.
Sou ferro –
Eis o maio que eu quero!
Sou terra –
O maio é minha era!

ELOGIO DA DIALÉTICA - Bertolt Brecht (1898-1956)

A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.
Nenhuma voz além da dos que mandam.
E em todos os mercados proclama a exploração:
isto é apenas o começo.
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.
Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes.
Falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado, que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será: ainda hoje.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

A JANELA REFLETIDA – Juliano Cazarré

Cerrada no vento e no inverno,
Mas nos verões sempre aberta.
Grande e arejada em tempos de paz,
Pequena e sufocante na guerra.

Mudou conforme mudou o homem
Através dos tempos e da terra.
Se hoje está no céu, nos aviões,
Já esteve no mar, nas caravelas.

Palavra no feminino, como as fendas,
Que se realizam quando se abrem,
E nada são quando se fecham.

Palavra também no felino,
Como as felinas pupilas do gato:
Quanto menos luz, mais abertas.

ERÓTICA – Suzana Vargas

O sexo ronda as magnólias,
          pernas se entrelaçam na trepadeira em flor.
          Fundo cinza azul rosa
          para as bocas dos peixes
          mescladas ao silêncio das bolhas

A mesma sombra inquieta das árvores ao vento
          o cheiro da terra úmida
          uma janela aberta para a lua
          são convites

E nem é preciso nomear pênis
          bundas
          só um olhar basta para desencadear
          desejos
          e a dobra do corpo refaz
          a curva na esquina

Bigodes chuva em zinco
          a música do tempo
          e o corpo já galopa em si mesmo

REFÚGIO – Armindo Trevisan

Às praias dão garrafas com mensagens,
ou tábuas em que flutuaram náufragos.

Às praias dão navios com equipagens,
pingüins, baleias que se desnortearam.

Não é diverso o porto de teus lábios:
ali também vão dar tristes suspiros,

Gemidos, alaridos, menoscabos,
e a alegria de giros e regiros

em que te perdes quando amas de fato,
e o teu corpo se rende a um ultimato.