terça-feira, 7 de junho de 2016

SE HOUVESSE DEGRAUS NA TERRA... - Herberto Helder


Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

CONVÍVIO COM O SILÊNCIO – Paulo Cardoso

Prefiro consumir noturnas musas.
Delas é que mais flui a essência poética
irrigando e regando a forma, a estética
e as dúvidas das métricas confusas.

Meus versos são lavados pelas chuvas
que caem finas nas manhãs desérticas,
muitas vezes levadas pelas célicas
e indestinadas passageiras nuvens.

Em silêncio se entendem surdos-mudos.
A solidão é a casa dos viúvos
- revivência de lutas e de glórias.

Na grade de azulejo existe um rosto
que o fascínio de ver, antes exposto,
ficou microfilmado na memória.

FUGITIVA – Múcio Carneiro Leão

Ela chegou, sorrindo... eu a buscava...
Buscava-a, fria de receio e pejo...
Trémula e fria, ela se aproximava       ,
Para a louca embriaguez do meu desejo.

Chegou, lenta, suavíssima.. .brilhava
Seu vulto sob as árvores ... seu beijo
Cantou na minha boca que a beijava...
Foi um brando suspiro ... um brando arquejo ...

Depois fugiu-me... ainda avistei seu vulto,
Que entre as noturnas sombras se escondia,
E, depois... aflição... febre... tumulto...

O céu, que esplende... o mar, que se encapela...
A noite, que arde... a brisa, que cicia...
Tudo a sofrer comigo... a anelar por ela...

PENÉLOPE ÀS AVESSAS – Fátima Ferreira

Bordo as ondas do cais
O sol, qual serpente enrolada no horizonte,
Fere o mastro de Brennand

Corro nas calçadas do bordado
Quando ventos enlouquecidos
Misto de maresia e cetim
Chegam nos corvos fantasiados

Bordo o cheiro da chuva
Nas folhas de alecrim
E cachoeiras tranças na menina
Vestida de por de sol

Subo as ribanceiras
Com os meninos verdes de cola e fome
E nessa trama me perco nos becos

Chego ao ponto alto
Maneira de viver prisioneira
Dos arranha-céus, irmãos dos pássaros

Esperança de um dia
A lei dos vencidos subir a ladeira
Sem agulha, seda, nem ponto-de-cruz

E as madames das academias
Com os medos presos nos músculos
Amamentarem os dias
Com seios inúteis de cirurgias

Bordo todos os dias o amor
Com o cordão das veias
E espero-te no abraço dos rios.

CÂNTICO AO SOL – Luciene Freitas

Quando o sol desponta, nascendo para o dia, canto.
Dissipam-se desditas, enfileiradas sombras vão sumindo.
Apresento-me ao mundo de braços abertos. Rindo
ao ver desabrochar a inocência, sem rumor de pranto.

Quando o sol brilha sobre o céu azul, tal qual um manto
de luz dourada, desdobrando em claridade o firmamento.
Corro em alamedas de flores multicores, ó encantamento
e o pensamento acompanha a aurora no manifesto santo.

Quando o sol esclarece as trevas me alegro tanto,
passo à limpo o caminhar, bendigo os dons que recebi,
de joelhos agradeço, enternecida, os dias que vivi
e novas estradas percorro em busca de encanto.

Quando o sol no horizonte desce, eu já não me espanto.
Sem o anoitecer não há o novo dia. Tudo é tão breve.
O amanhecer é abraço de esperança, beijo de brisa leve,
translação de almas caminhantes da luz, em canto.

FATALISMO – Joaquim de Araújo Filho

Foi meu erro idear maior altura,
para um Sonho tão pobre e pequenino:
— Ninguém torna em ventura a desventura,
que é mais forte o desígnio do Destino.

Ninguém pode mudar a noite escura
em dia azul, sem nuvens, cristalino...
Da vida, a estrada é tão agreste e dura
que leva muita vez ao desatino.

Gira em torno de tudo uma Alta Força,
que, com letras de fogo, escreve a sorte
de cada Ser... Escreve, e passa adiante...

E do que escrito foi, não há quem torça
ou mude uma só letra, nem durante
a vida, nem também depois da morte.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

MERO METEORO - Dirceu Thomaz Rabelo


Quem te via toda estrela,
Achincalhando luas
Espezinhando sóis
Não acredita que agora 
És um mero e estéril meteoro
Vagando no infinito espaço
Crente que tens ainda
Uma nesga de luz própria.
.
Vives acoitada em tristes memórias
Repletas de magmas, fissuras, erupções...
Recebes agora o açoite de tuas tramas
O que já era de se esperar.
.
Deves buscar constantemente
Com os anzóis dos teus lânguidos olhos
Em delírios infinitos de culpa atroz
Teus fracassados e lúdicos amores
Que, estilhaçados ficaram para trás
São agora, abstratas caudas de cometas!
Estes, já passaram e se vão distantes
A milhares de anos-luz...

MEDO – Luís Carlos Dias

Tenho medo das mãos humanas,
mãos imprevisíveis nos gestos:

hábeis no sentido da amabilidade,
ágeis instrumentos de atrocidades.

Tenho medo da inconstância do ser,
insensato ser no agir impulsivamente,
raro animal, racional, intelectual,
mau animal que mata o ser sem fome ter.

De que serão as minhas mãos capazes,
se o meu coração não mais consentir
comandá-las... adestrá-las?

Não são castas as minhas mãos,
porém, são mãos que escrevem sonhos -
a ficção ausente de medo: poesia.

LOUVAÇÃO DA MULHER AMADA – Dirceu Rabelo

Estando a própria vida encarregada
de me levar a crer que o amor existe,
na minha escuridão desmantelada
deu-se um raio de luz e tu surgiste.

Daí então, minha fiel amada,
daí então tu sempre preferiste
(franca de tudo e sem exigir nada)
padecer de tristeza a me ver triste.

Agora tudo o que de ti me vem
me reanima e alegra o coração
da forma e na medida que esperei.

E já me basta ter - aqui e além -
teu amor e a certeza do perdão
pelo que pude dar-te e não te dei.

INTERLÚDIO – Amílcar Dória Matos

Precisamos de datas no interlúdio:
foi antes ou depois de fevereiro?
foi em dezembro que acordamos cedo
e andamos a pescar peixes avaros?
e que setembro aquele de qual ano,
quando a gramática exibiu vogais?

Perguntas básicas, questões vitais:
saber qual eixo onde pendemos fios
que podem destrinçar o nosso rio.

Pois de outro modo, sem o calendário
dos recorrentes focos da existência,
sofremos coordenadas discrepantes,
flutuamos em naves sem velames,
morremos de lembranças arbitrárias.

Neste interlúdio que nos cinge agora,
os signos de um outrora se misturam
aos futuros enigmas delirantes
pelo horizonte que nos fez amantes.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

NOTA DO ADMINISTRADOR DO BLOG


NOITE DE BAR - Rafael Rocha

Noite vazia em vertigem tão calada.
Mesa de bar sem um só companheiro.
Faço o soneto da tristeza descarada
Sob um gole de cerveja, derradeiro.

Diz o garçom: Esta vida é um nada!
Sem bebida, sem mulher, sem dinheiro!
E as cinzas da solidão descontrolada
Fazem o cigarro apagar-se no cinzeiro.

Meia-noite! Quero beber sofregamente!
Quero escrever o verso condizente
Com a dor desta maciça solidão!

E o dia nasce! E o bar fecha a porta!
O sol escala o céu e a noite morta
Marca encontro com o sono lá no chão!

segunda-feira, 30 de maio de 2016

ALMA SIMULTÂNEA – Daniel Lima

Tenho qualquer idade em qualquer tempo:
velho agora e menino logo adiante;
aqui jovem e depois homem maduro;
às vezes nem nascido, às vezes morto.

A idade em mim rebenta impetuosa
não do tempo existido, mas das coisas
que me criam, e também que são criadas
pelo que sou e sinto em face delas.

Menino e velho sou, não sucessivo,
mas simultâneo a cada sentimento
- múltipla idade de uma alma múltipla.

Às vezes já estou morto há muitos anos,
muito depois e frio; mas às vezes
sinto que vou nascer, sinto-me antes.

HORA RUBRA - Bartira Soares

Pelas copas das árvores o sol
arrasta-se minguante para os caminhos
do oeste. Súbito um pássaro de asas
atrevidas fende o fio do tempo
e cai vertiginoso no íntimo da tarde .
Recolho em mim os escombros
dessa hora rubra e deixo que a agonia
dessa paisagem talhe em minha face
um rio e um ricto de sinuosas revelações.

NA VÉSPERA – Jorge Wanderley


Porque o cansaço tem ruas de sono
Conseguirás agora adormecer.
Tudo anda mal nas coisas que abandonas;
Em solo ingrato a noite vai descer.
Que traga a paz imensa que ambicionas,
Sem sonho algum; para não conceber
Meias-vidas sem rumo onde és o dono
Do que não queres, de insano poder.
Que a lida agora interrompida, amarga,
Possa passar a um outro espaço-tempo,
E volte nova dos frios astrais.
Que esqueça longo o peso, a dor, a carga,
O mal que te contempla e que contemplas.

Se assim não, que não acordes mais.