terça-feira, 21 de junho de 2016

ACALANTO PARA ABSTINÊNCIA E VAZIOS – Celso Mendes

é para agasalhar ausências que teço este poema
fantasmas não dormem
anseios me esperam

o que urge além do lábio e da palavra
é o mesmo que me trinca o esmalte dos dentes
vindo da lacuna que ocorre no rastro do voo
de cada pássaro que ousei ser
neste não sentir talhado nos ossos
feito rios secos a riscar-me a pele
álveos calcinados
onde escorrem congeladas
a doçura e a tortura
de vozes e olhares idos ou perseguidos
dentro de um pretérito que me bate à cara
ou em um porvir que se me escancara

é para agasalhar ausências que teço este poema
de vazios e de abstinências
e me permito à lagrima
tanto quanto ao riso

segunda-feira, 20 de junho de 2016

FARDO – Rita de Cássia Araújo

As amarguras eram tantas
que cobriram o canteiro
das borboletas brancas,
lindas e perfumadas.
Tarde cinza, sombria,
após o dia de chuvas.

O coração que deveria
permanecer leve
parecia mais um fardo
enorme, pesado
sobrecarregando as costas.

O perfume das flores
embriagava as narinas
e a alma continuava
azeda, triste sem
o menor sinal de doçura
ou melhora de vida.

sábado, 18 de junho de 2016

SOU O CULPADO DO QUE NÃO SEI – Geraldo Holanda Cavalcanti

Que devera rendê-lo, sei
na extremosa viagem dura
preconcebida para o seu
repassar de oitocentas luas

Partira pensando talvez
que o rio era morada para
um só destino e o seu acaba —
ria completo de uma só vez

Toda viagem é um só trecho
porém, e mui forte é o desejo
de acabá-la ainda que em diversa
pessoa e o filho é quem se espera

alcançará a margem última
onde se acaba o sonho tido
Por isso buscou-me sofrido
mas nem a palavra mais limpa

quis revelar o seu apelo
Que devera rendê-lo, sei
mais se meu mundo entendi
do seu fugi e com mais medo

CANTO DE GRATIDÃO –Zélia Barreto

Por entre escória
e escolhos,
fui escolhida
colhida
pela palavra.

Já que não moldo,
emolduro
a minha dor
e dou
como presente.

Cada coisa em seu lugar
Cada coisa em seu lugar
Cada coisa em seu lugar
- é a cantiga que se ouve
com as cantigas de ninar.

Onde é o lugar das coisas?

quinta-feira, 16 de junho de 2016

VEJO-TE – Laura Limeira

Vejo-te no ontem
No hoje, no amanhã
No dia a amanhecer
No entardecer a surgir
Adentrando o anoitecer
E na madrugada a nascer

Vejo-te em meus sonhos
Na solidão e na saudade
No suspiro dos amantes
Na mais simples amizade
Vejo-te também nos trejeitos
De toda a gente passante

Tu és minha obsessão
Perseguindo-me aonde vou
Na terra, no céu, no mar
Vejo-te em qualquer lugar
Seja dia, tarde, ou noite
Estás sempre em meu olhar

Vejo-te no domingo e na segunda
Da terça à sexta, também
Já no sábado, que alegria
Reservo-o bem guardado
Somente para ficar em casa
Vendo-te nas fotografias

Vejo-te tanto, e em tantos lugares
Nos dias, meses e anos
Que nem dá para sentir saudade
Mas quando sonho contigo
Vejo-te ao meu lado, lá longe
No horizonte da minha mocidade!

quarta-feira, 15 de junho de 2016

MEU CADÁVER – Nogueira Netto

Vive a morte o papel de uma amante
Pois a fé, ex-esposa não repele
Já que faz companhia no instante
Que faltar um amigo que me vele

Perto desse calor apavorante
Desconheço organismo que não gele
Junto a ela serei fertilizante
Para as flores que adornam minha pele

Na prisão que se chama liberdade
Para uns eu irei deixar saudade
Para outros jamais tive existência

Espalhei meus vestígios maltrapilhos
Pus no DNA de alguns filhos
A miséria da minha descendência

TEMPO E CASUALIDADE – Edson Guedes de Morais

Nenhum deus me fez ou sabe.
Houve um gesto; depois,
a involuntária duração do gesto
como um punhado de areia
que se atira para o alto.
O fato é não podermos ver,
a cavaleiro, nossos próprios passos,
esquecermos depressa a semeada
e este germinar à nossa frente.
Muito antes de mim, depois,
a folha, o vento e o movimento
da folha sobre a estrada pelo vento.

GERÚNDIO E INFINITIVO – Davino Ribeiro de Sena


Entender as solidões, escrevendo
na ressaca de um mundo abandonado.
Percorrer os labirintos, afastando
as nostalgias mais persistentes.
Acompanhar os jovens, titubeando
como um fóssil de museu.
Frequentar as boates, revivendo
um estado de delírio perpétuo.
Confundir os hábitos, fingindo
não chamar as coisas pelo nome.
Imitar os gatos, madrugando
para as travessuras eróticas.
Deslumbrar as visitas, ocultando
a satisfação íntima da picardia.
Surpreender os cactos, desabrochando
numa adolescência magnífica.
Valorizar as premonições, navegando
num lago inviolável do coração.
Traduzir as insônias, uivando
sem rumo no povoado deserto.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

PAGANISMO – Olegário Mariano

Sinto às vezes horror do modo diferente
Com que em louca emoção voluptuoso te espio,
Meu suave amor que tens a figura inocente
De um lírio muito branco, um lírio muito frio.

Ao meu olfato chega o perfume doentio
Do teu corpo mudado em corpo de serpente:
E através desse aspecto anêmico e sombrio
Meu desejo passeia alucinadamente.

Fauno, os olhos boiando em volúpias bizarras,
Quem me dera que tu viesses, na noite escura,
Minha fronte adornar de crótons e de parras,

E na calma do bosque onde o meu sonho medra,
Unisses para sempre, entre o amor e a loucura,
Os teus lábios de sangue aos meus lábios de pedra.

EU – Laert Wanderley Navarro Lins


Eu, talqualmente, todos os mortais,
Vivo algemado à leis da Natureza;
Se tenho em mim blandícias sensuais,
Sinto, às vezes, assomos de maleza.

Tudo, na vida, é instável e fugaz;
E eu, plenamente certo da certeza,
De que todos os homens são iguais,
De mim afasto a idéia de grandeza.

Quero, mesmo, ser como toda a gente,
Que, neste Mundo mísero e inclemente,
Suporta as contingências da matéria!

É insano aquele que, visando a glória,
Trabalha para se inscrever na História,
De um Mundo de maldade e de miséria!

DEUS HUMANO – Bastos Tigre

Assusta-me este Deus de barba imensa,
Pai severo e tirano à moda antiga,
Que com o fogo do inferno os maus castiga
Porém, na terra, os bons não recompensa.

Este Deus que a adorá-lo nos obriga,
Mas que só ama a quem o adula e incensa
Nunca há de ser o Deus da minha crença
Que eu venere e entre cânticos bendiga.

O Jeová que no Antigo Testamento
Os profetas nos pintam, truculento,
É um velho Deus, motivo de pavor.

Moço é o meu Deus, de eterna juventude:
Perdoa. Todo o mal muda em virtude.
De tão humano, é quase um pecador.

terça-feira, 7 de junho de 2016

EXISTIAM TUAS MÃOS – Antonio Gamoneda

Tradução de Thiago Ponce de Moraes

Um dia o mundo ficou em silêncio;
as árvores, acima, eram profundas e majestosas,
e nós sentimos sob nossa pele
o movimento da terra.

Tuas mãos foram suaves nas minhas
E eu senti a gravidade e a luz
E que vivias em meu coração.

Tudo era verdade sob as árvores,
tudo era verdade. Eu compreendia
todas as coisas como se compreende
um fruto com a boca, uma luz com os olhos

SE HOUVESSE DEGRAUS NA TERRA... - Herberto Helder


Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

CONVÍVIO COM O SILÊNCIO – Paulo Cardoso

Prefiro consumir noturnas musas.
Delas é que mais flui a essência poética
irrigando e regando a forma, a estética
e as dúvidas das métricas confusas.

Meus versos são lavados pelas chuvas
que caem finas nas manhãs desérticas,
muitas vezes levadas pelas célicas
e indestinadas passageiras nuvens.

Em silêncio se entendem surdos-mudos.
A solidão é a casa dos viúvos
- revivência de lutas e de glórias.

Na grade de azulejo existe um rosto
que o fascínio de ver, antes exposto,
ficou microfilmado na memória.

FUGITIVA – Múcio Carneiro Leão

Ela chegou, sorrindo... eu a buscava...
Buscava-a, fria de receio e pejo...
Trémula e fria, ela se aproximava       ,
Para a louca embriaguez do meu desejo.

Chegou, lenta, suavíssima.. .brilhava
Seu vulto sob as árvores ... seu beijo
Cantou na minha boca que a beijava...
Foi um brando suspiro ... um brando arquejo ...

Depois fugiu-me... ainda avistei seu vulto,
Que entre as noturnas sombras se escondia,
E, depois... aflição... febre... tumulto...

O céu, que esplende... o mar, que se encapela...
A noite, que arde... a brisa, que cicia...
Tudo a sofrer comigo... a anelar por ela...