terça-feira, 28 de junho de 2016

MARIETA – Castro Alves


Como o gênio da noite, que desata
o véu de rendas sobre a espada nua,
ela solta os cabelos... Bate a lua
nas alvas dobras de um lençol de prata.

O seio virginal que a mão recata,
embalde o prende a mão... cresce, flutua...
Sonha a moça ao relento... Além da rua
preludia um violão na serenata.

Furtivos passos morrem no lajedo...
Resvala a escada do balcão discreta...
Matam lábios os beijos em segredo...

Afoga-me os suspiros, Marieta!
Ó Surpresa! ó palor! ó pranto! ó medo!
Ai! noites de Romeu e Julieta!

segunda-feira, 27 de junho de 2016

QUASE-QUASE – Talis Andrade


Estou cansado
dos alcaloides
supositórios
do sexo comedido
o amor compulsório
o gozo frustrado
na ejaculação precoce

Farto das impotências
da farda das continências
das ordens de serviço
do jornalismo contido
e submisso

Quero ser livre
como um pássaro
que nunca comeu
alpiste em uma mão
Livre como um pássaro
que jamais esteve preso
em um alçapão

HARMONIA VELHA – Guilherme de Almeida

O teu beijo resume 
Todas as sensações dos meus sentidos 
A cor, o gosto, o tato, a música, o perfume 
Dos teus lábios acesos e estendidos 
Fazem a escala ardente com que acordas o fauno encantador 
Que, na lira sensual de cinco cordas, 
Tange a canção do amor! 

E o tato mais vibrante, 
O sabor mais sutil, a cor mais louca, 
O perfume mais doido, o som mais provocante 
Moram na flor triunfal da tua boca! 
Flor que se olha, e ouve, e toca, e prova, e aspira; 
Flor de alma, que é também 
Um acorde em minha lira, 
Que é meu mal e é meu bem... 

Se uma emoção estranha 
o gosto de uma fruta, a luz de um poente - 
chega a mim, não sei de onde, e bruscamente ganha 
qualquer sentido meu, é a ti somente 
que ouço, ou aspiro, ou provo, ou toco, ou vejo... 
E acabo de pensar 
Que qualquer emoção vem de teu beijo 
Que anda disperso no ar...

O LUPANAR e DEPOIS DA ORGIA – Augusto dos Anjos

Ah! Por que monstruosíssimo motivo
Prenderam para sempre, nesta rede,
Dentro do ângulo diedro da parede,
A alma do homem polígamo e lascivo?!

Este lugar, moços do mundo, vêde:
É o grande bebedouro coletivo,
Onde os bandalhos, como um gado vivo,
Todas as noites, vêm matar a sede!

É o afrodístico leito do hetairismo,
A antecâmara lúbrica do abismo,
Em que é mister que o gênero humano entre,

Quando a promiscuidade aterradora
Matar a última força geradora
E comer o último óvulo do ventre!
.............................

O prazer que na orgia a hetaíra goza
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma túnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!

Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.

Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,

Semelhante a um cachorro de atalaia
Às decomposições da Natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!

SE TU VIESSES VER-ME HOJE À TARDINHA – Florbela Espanca


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

sexta-feira, 24 de junho de 2016

ECOA O GRITO NO AR – Ivy Gomide

Desfia o novelo do gato
corre a hora temendo ilusão
na rua vazia o gato mia
late o cão por um acaso
o coração aflito
cava espasmos no infinito
repousa o desejo por um encanto
à espera do momento
chora o choro musicalmente
“sua” a chuteira por acidente
sem que nada interfira
trágica poesia rasga-me o dedo
desliza a bola em filme em câmera lenta
explode na rede
destrava a alma
aborta o silêncio
solta o grito


terça-feira, 21 de junho de 2016

ACALANTO PARA ABSTINÊNCIA E VAZIOS – Celso Mendes

é para agasalhar ausências que teço este poema
fantasmas não dormem
anseios me esperam

o que urge além do lábio e da palavra
é o mesmo que me trinca o esmalte dos dentes
vindo da lacuna que ocorre no rastro do voo
de cada pássaro que ousei ser
neste não sentir talhado nos ossos
feito rios secos a riscar-me a pele
álveos calcinados
onde escorrem congeladas
a doçura e a tortura
de vozes e olhares idos ou perseguidos
dentro de um pretérito que me bate à cara
ou em um porvir que se me escancara

é para agasalhar ausências que teço este poema
de vazios e de abstinências
e me permito à lagrima
tanto quanto ao riso

segunda-feira, 20 de junho de 2016

FARDO – Rita de Cássia Araújo

As amarguras eram tantas
que cobriram o canteiro
das borboletas brancas,
lindas e perfumadas.
Tarde cinza, sombria,
após o dia de chuvas.

O coração que deveria
permanecer leve
parecia mais um fardo
enorme, pesado
sobrecarregando as costas.

O perfume das flores
embriagava as narinas
e a alma continuava
azeda, triste sem
o menor sinal de doçura
ou melhora de vida.

sábado, 18 de junho de 2016

SOU O CULPADO DO QUE NÃO SEI – Geraldo Holanda Cavalcanti

Que devera rendê-lo, sei
na extremosa viagem dura
preconcebida para o seu
repassar de oitocentas luas

Partira pensando talvez
que o rio era morada para
um só destino e o seu acaba —
ria completo de uma só vez

Toda viagem é um só trecho
porém, e mui forte é o desejo
de acabá-la ainda que em diversa
pessoa e o filho é quem se espera

alcançará a margem última
onde se acaba o sonho tido
Por isso buscou-me sofrido
mas nem a palavra mais limpa

quis revelar o seu apelo
Que devera rendê-lo, sei
mais se meu mundo entendi
do seu fugi e com mais medo

CANTO DE GRATIDÃO –Zélia Barreto

Por entre escória
e escolhos,
fui escolhida
colhida
pela palavra.

Já que não moldo,
emolduro
a minha dor
e dou
como presente.

Cada coisa em seu lugar
Cada coisa em seu lugar
Cada coisa em seu lugar
- é a cantiga que se ouve
com as cantigas de ninar.

Onde é o lugar das coisas?

quinta-feira, 16 de junho de 2016

VEJO-TE – Laura Limeira

Vejo-te no ontem
No hoje, no amanhã
No dia a amanhecer
No entardecer a surgir
Adentrando o anoitecer
E na madrugada a nascer

Vejo-te em meus sonhos
Na solidão e na saudade
No suspiro dos amantes
Na mais simples amizade
Vejo-te também nos trejeitos
De toda a gente passante

Tu és minha obsessão
Perseguindo-me aonde vou
Na terra, no céu, no mar
Vejo-te em qualquer lugar
Seja dia, tarde, ou noite
Estás sempre em meu olhar

Vejo-te no domingo e na segunda
Da terça à sexta, também
Já no sábado, que alegria
Reservo-o bem guardado
Somente para ficar em casa
Vendo-te nas fotografias

Vejo-te tanto, e em tantos lugares
Nos dias, meses e anos
Que nem dá para sentir saudade
Mas quando sonho contigo
Vejo-te ao meu lado, lá longe
No horizonte da minha mocidade!

quarta-feira, 15 de junho de 2016

MEU CADÁVER – Nogueira Netto

Vive a morte o papel de uma amante
Pois a fé, ex-esposa não repele
Já que faz companhia no instante
Que faltar um amigo que me vele

Perto desse calor apavorante
Desconheço organismo que não gele
Junto a ela serei fertilizante
Para as flores que adornam minha pele

Na prisão que se chama liberdade
Para uns eu irei deixar saudade
Para outros jamais tive existência

Espalhei meus vestígios maltrapilhos
Pus no DNA de alguns filhos
A miséria da minha descendência

TEMPO E CASUALIDADE – Edson Guedes de Morais

Nenhum deus me fez ou sabe.
Houve um gesto; depois,
a involuntária duração do gesto
como um punhado de areia
que se atira para o alto.
O fato é não podermos ver,
a cavaleiro, nossos próprios passos,
esquecermos depressa a semeada
e este germinar à nossa frente.
Muito antes de mim, depois,
a folha, o vento e o movimento
da folha sobre a estrada pelo vento.

GERÚNDIO E INFINITIVO – Davino Ribeiro de Sena


Entender as solidões, escrevendo
na ressaca de um mundo abandonado.
Percorrer os labirintos, afastando
as nostalgias mais persistentes.
Acompanhar os jovens, titubeando
como um fóssil de museu.
Frequentar as boates, revivendo
um estado de delírio perpétuo.
Confundir os hábitos, fingindo
não chamar as coisas pelo nome.
Imitar os gatos, madrugando
para as travessuras eróticas.
Deslumbrar as visitas, ocultando
a satisfação íntima da picardia.
Surpreender os cactos, desabrochando
numa adolescência magnífica.
Valorizar as premonições, navegando
num lago inviolável do coração.
Traduzir as insônias, uivando
sem rumo no povoado deserto.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

PAGANISMO – Olegário Mariano

Sinto às vezes horror do modo diferente
Com que em louca emoção voluptuoso te espio,
Meu suave amor que tens a figura inocente
De um lírio muito branco, um lírio muito frio.

Ao meu olfato chega o perfume doentio
Do teu corpo mudado em corpo de serpente:
E através desse aspecto anêmico e sombrio
Meu desejo passeia alucinadamente.

Fauno, os olhos boiando em volúpias bizarras,
Quem me dera que tu viesses, na noite escura,
Minha fronte adornar de crótons e de parras,

E na calma do bosque onde o meu sonho medra,
Unisses para sempre, entre o amor e a loucura,
Os teus lábios de sangue aos meus lábios de pedra.