domingo, 3 de julho de 2016

ENCANTAMENTO - Abgar Renault


Ante o deslumbramento do teu vulto
sou ferido de atônita surpresa
e vejo que uma auréola de beleza
dissolve em lua a treva em que me oculto.

Estás em cada reza do meu culto,
sonhas na minha lânguida tristeza,
e, disperso por toda a natureza,
paira o deslumbramento do teu vulto.

É tua vida a minha própria vida,
e trago em mim tua alma adormecida...
Mas, num mistério surdo que me assombra,

Tu és, às minhas mãos, fluida, fugace,
como um sonho que nunca se sonhasse
ou como a sombra vã de uma outra sombra...

sábado, 2 de julho de 2016

O MENOS VENDIDO – Ricardo Silvestrin

Custa muito
pra se fazer um poeta.
Palavra por palavra,
fonema por fonema.
Às vezes passa um século
e nenhum fica pronto.
Enquanto isso,
quem paga as contas,
vai ao supermercado,
compra o sapato das crianças?
Ler seu poema não custa nada.
Um poeta se faz com sacrifício.
É uma afronta à relação custo-benefício.

CHAMEM O POETA – Dilan Camargo

(Uma ladainha poética)


Algum mal nos afeta?
Chamem o poeta.
A platéia é seleta?
Chamem o poeta.
Ficou torta a reta?
Chamem o poeta.
Ninguém segue a seta?
Chamem o poeta.
Não se alcança a meta?
Chamem o poeta.
A sonda não prospecta?
Chamem o poeta.
Não escutam o profeta?
Chamem o poeta.
A internet não interneta?
Chamem o poeta.
A tecla não deleta?
Chamem o poeta.
A caixa está repleta?
Chamem o poeta.
O botão não ejeta?
Chamem o poeta.
O lixeiro não coleta?
Chamem o poeta.
O arquiteto não arquiteta?
Chamem o poeta.
O ator não interpreta?
Chamem o poeta.
O espeto não espeta?
Chamem o poeta.
O chato não desinfeta?
Chamem o poeta.
O avô renega a neta?
Chamem o poeta.
O ciclista caiu da bicicleta?
Chamem o poeta.
A vizinha é indiscreta?
Chamem o poeta.
Mas a dama é discreta?
Chamem o poeta.
Não adiantou a dieta?
Chamem o poeta.
Não sai a eleição direta?
Chamem o poeta.
O governo decreta?
Chamem o poeta.
Conflito burguês x proleta?
Chamem o poeta.
O corrupto se locupleta?
Chamem o poeta.
A conta é secreta?
Chamem o poeta.
Acham que somos patetas?
Chamem o poeta.
O delator alcagüeta?
Chamem o poeta.
Tem criança analfabeta?
Chamem o poeta.
A multidão se inquieta?
Chamem o poeta.
A carreta não acarreta?
Chamem o poeta.
O dinheiro usa cueca?
Chamem o poeta.
A rima está incorreta?
Chamem o poeta.
A poesia está incompleta?
Chamem o poeta.
Se for pouco um poeta
chamem um enxame de poetas.
Não importa que mais chamem
do que amem e declamem o poeta.
Chamem o poeta !
Chamem o poeta!

sexta-feira, 1 de julho de 2016

CARREGADO DE MIM - Gregório de Matos


Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo em mar de enganos
Ser louco com os demais, que ser sisudo.

QUANTO TEMPO NOS RESTA? - José Antonio Jacob

Nossa vida é uma história mal contada,
Uma vaga novela incompreendida...
Para alguns é um feliz conto de fada,
Para outros uma lenda indefinida...

Vivemos de alvorada em alvorada,
(Que tempo ainda nos resta nessa vida?)
A dar sorrisos largos na chegada
E a lamentar a perda na partida.

Que bom matar o tempo numa rede,
Se ele nos desse a viva eternidade
De um quadro pendurado na parede...

E, enquanto a vida passa e o tempo avança,
Quanta tristeza vai numa saudade,
Quanta alegria vem numa esperança!

MÁGOAS - Jenário de Fátima


Amei-te tanto amor... amei-te tanto!
Fostes meu ar, fostes meu alimento.
Fostes meu colo, abrigo, meu alento,
Fostes meu sono ao embalo do acalanto...

Contudo amor... contudo, entretanto...
Só eu vivi total deslumbramento,
Pra ti eu fui qual uma bolha ao vento
Que logo estoura e perde seu encanto.

Culpar-te amor? ...Culpar-te já não posso!
Foi o meu sonho de um mundo só nosso,
Contra teu medo de viver a dois.

Mágoas não tenho amor... Porque teria?!
Se conheci contigo a fantasia
Mesmo eu ficando assim tão só depois...

INSENSATO - Francisco Settineri


Reparo cada tom do teu retrato
E nada justifica essa demora
Pois que hoje a madrugada foi-se embora
E o tempo que passou agora é fato...

Porém, eu reconheço de imediato,
Vislumbre que me diz que já é hora
Pois vejo que uma vez mais se assenhora
Aquela que de mim fez insensato.

Ao dar-te ao coração delicadeza,
Assim um desafio a mais levanto
Que eu sei que não escapas da certeza

Pois giras na vertigem do meu canto
Que vai assinalar grande proeza,
Não houve outro poeta a te amar tanto!

A UM POETA – Francisca Júlia


Poeta, quando te leio, a angústia dolorida 
Que te mina a existência e que em teu peito impera, 
Faz-me também sofrer, d´alma se me apodera, 
Como se da minh´alma ela fosse nascida. 

Sinto o que sentes: ora a lágrima sincera 
Que foi pela saudade ou pelo amor vertida, 
Ora a mágoa que habita em tua alma, -- guarida 
Onde a negra legião das mágoas se aglomera. 

Não há nos versos teus um sentimento alheio 
À dor; neles se encontra a aspereza das fráguas; 
Há neles ora o suave e módulo gorjeio 

Das aves, ora a queixa harmônica das águas... 
Leio os teus versos; e, em minh´alma, quando os leio, 
Vai gemendo, em surdina, a música das mágoas...

SONETO XLIII - COMO TE AMO? - Elizabeth Browning

Tradução de Manuel Bandeira


Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minh’alma alcança quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do Ser, a Graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do Sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.

Amo-te com o doer das velhas penas;
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingênua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E, assim Deus o quiser,
Ainda mais te amarei depois da morte.

O BEIJA-FLOR – Tobias Barreto

Era uma moça franzina,
Bela visão matutina
Daquelas que é raro ver,
Corpo esbelto, colo erguido,
Molhando o branco vestido
No orvalho do amanhecer.

Vede-a lá: tímida, esquiva...
Que boca! é a flor mais viva,
Que agora está no jardim;
Mordendo a polpa dos lábios
Como quem suga o ressábio
Dos beijos de um querubim!

Nem viu que as auras gemeram,
E os ramos estremeceram
Quando um pouco ali se ergueu...
Nos alvos dentes, viçosa,
Parte o talo de uma rosa,
Que docemente colheu.

E a fresca rosa orvalhada,
Que contrasta descorada,
Do seu rosto a nívea tez,
Beijando as mãozinhas suas,
Parece que diz: nós duas!...
E a brisa emenda: nós três! ...

Vai nesse andar descuidoso,
Quando um beija-flor teimoso
Brincar entre os galhos vem,
Sente o aroma da donzela,
Peneira na face dela,
E quer-lhe os lábios também

Treme a virgem de surpresa,
Leva do braço em defesa,
Vai com o braço a flor da mão;
Nas asas d'ave mimosa
Quebra-se a flor melindrosa,
Que rola esparsa no chão.

Não sei o que a virgem fala,
Que abre o peito e mais trescala
Do trescalar de uma flor:
Voa em cima o passarinho...
Vai já tocando o biquinho
Nos beiços de rubra cor.

A moça, que se envergonha
De correr, meio risonha
Procura se desviar;
Neste empenho os seios ambos
Deixa ver; inconhos jambos
De algum celeste pomar! ...

Forte luta, luta incrível
Por um beijo! É impossível
Dizer tudo o que se deu.
Tanta coisa, que se esquece
Na vida! Mas me parece
Que o passarinho venceu! ...

Conheço a moça franzina
Que a fronte cândida inclina
Ao sopro de casto amor:
Seu rosto fica mais lindo,
Quando ela conta sorrindo
A história do beija-flor.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

ILUSÃO DE AMOR - Rafael Rocha

Do livro “Poemas Escolhidos”

Só uma paixão especial é vibrante
nas loucuras da carne e dos sentidos,
ao ver-se o ventre abrir-se ao latejante
membro a cumprir os anseios proibidos,
levando os corpos a gemer como se a dor
desse prazer marcasse o sonho delirante
muito além de um simples caso de amor.

Nas peles as vidas todas vêm ao lume
nas sutilezas de um beijo noutra boca
e a língua é o falo onde o lúbrico resume
líquidos doces tornando a vida louca.
E o vaivém de dois corpos suarentos
traz na abertura do ventre esse perfume:
fatalidade maior dos sentimentos.

Se luzes estelares chegam de repente
trazendo aquela emoção estranha
de um gozo amplo e mais que envolvente
a amplidão do prazer torna-se ganha.
Misturam sonho e cansaço à eterna dor
e no ultimato desse fim o homem sonha
a doce ilusão de que foi amor.

terça-feira, 28 de junho de 2016

MEU CORAÇÃO – Alceu Wamosy


O triste coração que eu trago, é tão velhinho,
E tanto tem amado, e tem vivido tanto,
Que não suporta mais o fogo de um carinho,
Nem de outro coração o cálido quebranto.

Às vezes, alta noite, ouço-o chorar sozinho,
Do meu peito escondido ao último recanto,
Assim como quem sente a dor de algum espinho
Que o fere, e quer leni-lo , ao afagá-lo em pranto.

É ele! É o coração tristíssimo, que chora
De saudade de alguém, que o fez antegozar
Um grande, um santo amor, que se foi embora.

E escuto-o palpitar, tão leve, que parece
Um ser que sente frio, e treme, a murmurar
Num soluço infinito, os restos de uma prece...

SONETO VI E VII – Pablo Neruda

Tradução de Carlos Nejar

Nos bosques, perdido, cortei um ramo escuro
e aos lábios, sedento, levantei seu sussurro:
era talvez a voz da chuva chorando
um sino fendido ou um coração cortado.

algo que de tão longe me parecia
oculto gravemente, coberto pela terra,
um grito ensurdecido por imensos outonos,
pela entreaberta e úmida escuridão das folhas.

Por ali, despetando dos sonos do bosque,
o ramo de avelã cantou sob minha boca
e seu vagante olor subiu por meu critério

como se buscassem de repente as raízes
que abandonei, a terra perdida com minha infância,
e me detive ferido pelo aromo errante.
...............................
"Virás comigo", disse, sem que ninguém soubesse
onde e como pulsava meu estado doloroso
e para mim não havia cravo nem barcarola,
nada senão uma ferida pelo amor aberta.

Repeti: vem comigo, como se morresse,
e ninguém viu em minha boca a lua que sangrava,
ninguém viu aquele sangue que subia ao silêncio.
Oh amor, agora esqueçamos a estrela com pontas!

Por isso quando ouvi que tua voz repetia
"Virás comigo", foi como se desatasses
dor, amor, a fúria do vinho encarcerado

que de sua cantina submergida soubesse
e outra vez em minha boca senti um sabor de chama,
de sangue e cravos, de pedra e queimadura.

MARIETA – Castro Alves


Como o gênio da noite, que desata
o véu de rendas sobre a espada nua,
ela solta os cabelos... Bate a lua
nas alvas dobras de um lençol de prata.

O seio virginal que a mão recata,
embalde o prende a mão... cresce, flutua...
Sonha a moça ao relento... Além da rua
preludia um violão na serenata.

Furtivos passos morrem no lajedo...
Resvala a escada do balcão discreta...
Matam lábios os beijos em segredo...

Afoga-me os suspiros, Marieta!
Ó Surpresa! ó palor! ó pranto! ó medo!
Ai! noites de Romeu e Julieta!

segunda-feira, 27 de junho de 2016

QUASE-QUASE – Talis Andrade


Estou cansado
dos alcaloides
supositórios
do sexo comedido
o amor compulsório
o gozo frustrado
na ejaculação precoce

Farto das impotências
da farda das continências
das ordens de serviço
do jornalismo contido
e submisso

Quero ser livre
como um pássaro
que nunca comeu
alpiste em uma mão
Livre como um pássaro
que jamais esteve preso
em um alçapão