segunda-feira, 11 de julho de 2016

POEMA DA BUCETA CABELUDA – Bráulio Tavares

A buceta da minha amada
tem pelos barrocos,
lúdicos, profanos.
É faminta
como o polígono-das-secas
e cheia de ritmos
como o recôncavo-baiano.

A buceta da minha amada
é cabeluda
como um tapete persa.
É um buraco-negro
bem no meio do púbis
do Universo.

A buceta da minha amada
é cabeluda,
misteriosa, sonâmbula.
É bela como uma letra grega:
é o alfa-e-ômega dos meus segredos,
é um delta ardente sob os meus dedos
e na minha língua
é lambda.

A buceta da minha amada
é um tesouro
é o Tosão de Ouro
é um tesão.
É cabeluda, e cabe, linda,
em minha mão.

A buceta da minha amada
me aperta dentro, de um tal jeito
que quase me morde;
e só não é mais cabeluda
do que as coisas que ela geme
quando a gente fode.

domingo, 10 de julho de 2016

REFLEXÃO – Solano Trindade


Vieste acender o meu fogo poético, 
E minh’alma se abriu pras grandes festas, 
A música dos teus poemas, 
Faz-me dançar o bailado, 
Da primeira mocidade... 

Eu sinto vontade de não ser sexo, 
Para brincar contigo como criança, 
E brincar de cirandinha com tu’alma. 

Mas como sou sexo, 
Vou assistir um espetáculo humano; 
A confecção de bandeiras iguais, 
Para seres que parecem diferentes.

DISCURSO – Afonso Henriques Neto


nada existe, celebremos 
a alegria. 
o nascer e o morrer 
não nos acontece. 
só para os outros 
somos espetáculo. 
há vento em excesso 
pelos buracos da linguagem. 
um jardim muito espesso 
labirinto de idéias 
flocos de imagens sobre natais de fumaça. 
nada existe, celebremos 
aventura. 
tudo se instala 
o sentido esvaziou-se do oceano 
praias da totalidade. 
o que não existe 
celebra a concretude. 
é grave a pedra 
a pele desgarrada 
o esqueleto do silêncio. 
lábios se tocam em alegria 
beijo seco 
jardim de séculos. 
quase nenhuma fala 
ninguém 
mas os caminhos. 
recordemos: 
infância veloz 
olfato de espantos 
estátua ardente arfando 
no sonho. 
apenas não há 
ninguém 
mas os espaços 
(apenas o já nascido 
previamente ido). 
infinito buraco sem tempo 
celebração.

MARCAS – Conceição Lemos


Já se faz tarde para mim... 
As marcas do tempo são refletidas no espelho 
Olho em volta e tomo um susto... 
O tempo correu e eu não percebi!!! 
Quantos momentos bons eu deixei passar... 
Sem deles me deliciar! 
Não adianta, agora, lamentar-me. 
Tanto deixei de viver o presente, 
Que agora já é passado. 
As marcas em meu rosto 
Revelam momentos de profunda tristeza... 
Vejo em ti, em tua juventude 
A estrela que devo buscar. 
Mas... és estrela distante... 
E isso me causa inquietude. 
O tempo passou para mim... 
E vejo suas marcas impregnadas em meu rosto 
O tempo passou e eu não percebi! 
Já é tarde para mim!

terça-feira, 5 de julho de 2016

A CANÇÃO DA ESPERA – Afonso Estebanez Stael

Quando deixares meu desavisado coração
não esqueças de deixar a luz da lua acesa.
Deixa a chave da esperança sobre a mesa
do quarto onde dormiu teu último verão.

Não te esqueças das romãs do teu outono
só porque as sombras do inverno te virão
como lembranças de um amor de ocasião
que não conciliava mais o próprio sono.

Talvez eu me adormeça aqui para sonhar
com o outro lado temporão da primavera
onde eu sonhar me seja estar à tua espera
doendo de um retorno de qualquer lugar.

Estarei dividindo com as águas do riacho
uma breve canção de prazer e sofrimento
sobre a vida refeita de pena sem lamento
o coração envolto no seu próprio abraço.

DOIS SONETOS DE ALEXANDRE O’NEILL

SONETO A DUAS MÃOS – Alexandre O’Neill

A mão que me sustenta e eu sustento
é mão capaz das vinte e cinco linhas
e do selado azul de um requerimento
ou doutras diligências comesinhas...

Habituada por secretarias,
esperta, decidiu de um grave acento,
a vírgulas guindou torpes cedilhas
e mastigou papel, seu alimento...

Contraiu calos, revoltou-se às vezes,
contra certos despachos, tão soezes
que até o dedo auricular se ria...

Com dois dedos de aumento se curvava
e logo, altiva, à esquerda se mostrava... Agora?
Estão as duas na poesia...
.....................................
A MORTE, ESSE LUGAR-COMUM – Alexandre O’Neill

É trivial a morte e há muito se sabe 
fazer — e muito a tempo! — o trivial. 
Se não fui eu quem veio no jornal, 
foi uma tosse a menos na cidade... 

A caminho do verme, uma beldade 
— não dirias assim, Gomes Leal? — 
vai ser coberta pela mesma cal 
que tapa a mais intensa fealdade. 

Um crocitar de corvo fica bem 
neste anúncio de morte para alguém 
que não vê n′alheia sorte a própria sorte... 

Mas por que não dizer, com maior nojo, 
que um menino saiu do imenso bojo 
de sua mãe, para esperar a morte?...

domingo, 3 de julho de 2016

INGRATO – Dom Pedro de Alcântara


Não maldigo o rigor de minha sorte,
Por mais feroz que fosse e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade
Quando a dois passos só estou da morte

Do jugo das paixões minha alma forte
Conhece bem a estulta vaidade,
Que hoje nos dá contínua felicidade
E amanhã nem um bem que nos conforte.

Mas a dor que excrucia e que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora,
Que fere o coração e quase o mata,

É ver na mão cuspir, à extrema hora,
A mesma boca, aduladora e ingrata,
Que tantos beijos nela deu outrora.

ENCANTAMENTO - Abgar Renault


Ante o deslumbramento do teu vulto
sou ferido de atônita surpresa
e vejo que uma auréola de beleza
dissolve em lua a treva em que me oculto.

Estás em cada reza do meu culto,
sonhas na minha lânguida tristeza,
e, disperso por toda a natureza,
paira o deslumbramento do teu vulto.

É tua vida a minha própria vida,
e trago em mim tua alma adormecida...
Mas, num mistério surdo que me assombra,

Tu és, às minhas mãos, fluida, fugace,
como um sonho que nunca se sonhasse
ou como a sombra vã de uma outra sombra...

sábado, 2 de julho de 2016

O MENOS VENDIDO – Ricardo Silvestrin

Custa muito
pra se fazer um poeta.
Palavra por palavra,
fonema por fonema.
Às vezes passa um século
e nenhum fica pronto.
Enquanto isso,
quem paga as contas,
vai ao supermercado,
compra o sapato das crianças?
Ler seu poema não custa nada.
Um poeta se faz com sacrifício.
É uma afronta à relação custo-benefício.

CHAMEM O POETA – Dilan Camargo

(Uma ladainha poética)


Algum mal nos afeta?
Chamem o poeta.
A platéia é seleta?
Chamem o poeta.
Ficou torta a reta?
Chamem o poeta.
Ninguém segue a seta?
Chamem o poeta.
Não se alcança a meta?
Chamem o poeta.
A sonda não prospecta?
Chamem o poeta.
Não escutam o profeta?
Chamem o poeta.
A internet não interneta?
Chamem o poeta.
A tecla não deleta?
Chamem o poeta.
A caixa está repleta?
Chamem o poeta.
O botão não ejeta?
Chamem o poeta.
O lixeiro não coleta?
Chamem o poeta.
O arquiteto não arquiteta?
Chamem o poeta.
O ator não interpreta?
Chamem o poeta.
O espeto não espeta?
Chamem o poeta.
O chato não desinfeta?
Chamem o poeta.
O avô renega a neta?
Chamem o poeta.
O ciclista caiu da bicicleta?
Chamem o poeta.
A vizinha é indiscreta?
Chamem o poeta.
Mas a dama é discreta?
Chamem o poeta.
Não adiantou a dieta?
Chamem o poeta.
Não sai a eleição direta?
Chamem o poeta.
O governo decreta?
Chamem o poeta.
Conflito burguês x proleta?
Chamem o poeta.
O corrupto se locupleta?
Chamem o poeta.
A conta é secreta?
Chamem o poeta.
Acham que somos patetas?
Chamem o poeta.
O delator alcagüeta?
Chamem o poeta.
Tem criança analfabeta?
Chamem o poeta.
A multidão se inquieta?
Chamem o poeta.
A carreta não acarreta?
Chamem o poeta.
O dinheiro usa cueca?
Chamem o poeta.
A rima está incorreta?
Chamem o poeta.
A poesia está incompleta?
Chamem o poeta.
Se for pouco um poeta
chamem um enxame de poetas.
Não importa que mais chamem
do que amem e declamem o poeta.
Chamem o poeta !
Chamem o poeta!

sexta-feira, 1 de julho de 2016

CARREGADO DE MIM - Gregório de Matos


Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo em mar de enganos
Ser louco com os demais, que ser sisudo.

QUANTO TEMPO NOS RESTA? - José Antonio Jacob

Nossa vida é uma história mal contada,
Uma vaga novela incompreendida...
Para alguns é um feliz conto de fada,
Para outros uma lenda indefinida...

Vivemos de alvorada em alvorada,
(Que tempo ainda nos resta nessa vida?)
A dar sorrisos largos na chegada
E a lamentar a perda na partida.

Que bom matar o tempo numa rede,
Se ele nos desse a viva eternidade
De um quadro pendurado na parede...

E, enquanto a vida passa e o tempo avança,
Quanta tristeza vai numa saudade,
Quanta alegria vem numa esperança!

MÁGOAS - Jenário de Fátima


Amei-te tanto amor... amei-te tanto!
Fostes meu ar, fostes meu alimento.
Fostes meu colo, abrigo, meu alento,
Fostes meu sono ao embalo do acalanto...

Contudo amor... contudo, entretanto...
Só eu vivi total deslumbramento,
Pra ti eu fui qual uma bolha ao vento
Que logo estoura e perde seu encanto.

Culpar-te amor? ...Culpar-te já não posso!
Foi o meu sonho de um mundo só nosso,
Contra teu medo de viver a dois.

Mágoas não tenho amor... Porque teria?!
Se conheci contigo a fantasia
Mesmo eu ficando assim tão só depois...

INSENSATO - Francisco Settineri


Reparo cada tom do teu retrato
E nada justifica essa demora
Pois que hoje a madrugada foi-se embora
E o tempo que passou agora é fato...

Porém, eu reconheço de imediato,
Vislumbre que me diz que já é hora
Pois vejo que uma vez mais se assenhora
Aquela que de mim fez insensato.

Ao dar-te ao coração delicadeza,
Assim um desafio a mais levanto
Que eu sei que não escapas da certeza

Pois giras na vertigem do meu canto
Que vai assinalar grande proeza,
Não houve outro poeta a te amar tanto!

A UM POETA – Francisca Júlia


Poeta, quando te leio, a angústia dolorida 
Que te mina a existência e que em teu peito impera, 
Faz-me também sofrer, d´alma se me apodera, 
Como se da minh´alma ela fosse nascida. 

Sinto o que sentes: ora a lágrima sincera 
Que foi pela saudade ou pelo amor vertida, 
Ora a mágoa que habita em tua alma, -- guarida 
Onde a negra legião das mágoas se aglomera. 

Não há nos versos teus um sentimento alheio 
À dor; neles se encontra a aspereza das fráguas; 
Há neles ora o suave e módulo gorjeio 

Das aves, ora a queixa harmônica das águas... 
Leio os teus versos; e, em minh´alma, quando os leio, 
Vai gemendo, em surdina, a música das mágoas...