O Grande Ateop nasceu do choque de uma constelação fantástica de treze estrelas lá nos limites insondáveis do universo. O Grande Ateop não teve pai nem mãe e nenhum deus ou deusa para gerar sua vida. Sua idade é de bilhões de anos e seus escritos estão em todos os murais das civilizações humanas universais.
quinta-feira, 21 de julho de 2016
RESTOS – Ildasio Tavares
Há um resto de noite pela rua
Que se dissolve em bruma e madrugada.
Há um resto de tédio inevitável
Que se evola na tênue antemanhã.
Há um resto de sonho em cada passo
Que antes de ser se foi, já não existe.
Há um resto de ontem nas calçadas
Que foi dia de festa e fantasia.
Há um resto de mim em toda a parte
Que nunca pude ser inteiramente.
Que se dissolve em bruma e madrugada.
Há um resto de tédio inevitável
Que se evola na tênue antemanhã.
Há um resto de sonho em cada passo
Que antes de ser se foi, já não existe.
Há um resto de ontem nas calçadas
Que foi dia de festa e fantasia.
Há um resto de mim em toda a parte
Que nunca pude ser inteiramente.
VIDA – Elza Fraga
Pobre, suja, desonrada,
pelos becos violada
por homens que nem tem rosto.
A dor, o ultraje, o desgosto
se transformam em semente.
Barriga cresce, aparece,
empina, torce, contorce
e espirra mais um ente
pra esta peste de vida...
Chega mais um pra desdita
enquanto o beco anoitece.
Demente canta cantigas
de lembranças esquecidas.
E chora ao tempo que ora
pedindo pra que esteja morto
o seu pobre anjo torto...
Mas os santos, adormecidos,
não ouvem o seu pedido
e então entre detritos
o vagido vira grito
urgência, fome de vida!
Tenta calar com um peito
seco, murcho e inútil veio.
E se consola a bendita
é só mais um nesta lida
com a tarefa maldita
de disputar com os ratos
espaço, teto e comida...
PERMANÊNCIAS – Ana Merij
o monograma atávico no linho das horas
vívido, nunca falece, menos esmaece
tua voz, como piche, gravada nas paredes
húmus-lítico nas veias, no dorso do tempo
todas as palavras ditas, todos os gestos
aderências, na pele, nos sulcos do gosto
pela madrugada nua e comprida
nessa manhã que custa a chegar
tua textura e teu sopro tatuados
nas retinas sôfregas dessa casa:
- impotente
um silêncio engasgado invade as nervuras do poema
incrustada nas fibras da página virgem, a tua imagem
dentro da dor persistes em mil fôlegos
calcinando a carne, e artérias da alma
como sentença:- tudo teu é nascente!
segunda-feira, 18 de julho de 2016
MEU SONHO – Álvares de Azevedo
Eu:
Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sangrenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?
Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sangrenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?
Cavaleiro,
quem és? o remorso?
Do corcel te debruças no dorso.
E galopas do vale através.
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?
Do corcel te debruças no dorso.
E galopas do vale através.
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?
Onde
vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?..
Tu escutas. Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?..
Tu escutas. Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?
Cavaleiro,
quem és? – que mistério,
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?
O
Fantasma:
Sou o sonho da tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!..
Sou o sonho da tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!..
ISMÁLIA - Alphonsus de Guimaraens
Pôs-se
na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No
sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…
E,
no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…
E
como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…
As
asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…
sábado, 16 de julho de 2016
DOIS POEMAS DE MANUEL BANDEIRA
O ANEL DE VIDRO
Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…
Assim também o eterno amor que prometeste,
- Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.
Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou, –
Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…
Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo no peito a saudade celeste…
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste…
..................................
PORQUINHO DA ÍNDIA
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas . . .
- O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas . . .
- O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.
A CHAMA – Ascenso Ferreira
na minha vida cruel e avara
és irrequieta chama clara
iluminando a solidão.
Porém, repara bem, repara
e vê se a nada se compara
o imenso horror desta aflição:
Se acaricio a chama clara
a chama queima minha mão.
POR DECORO – Artur Azevedo
Quando me esperas,
palpitando amores,
e os lábios grossos e úmidos me estendes,
e do teu corpo cálido desprendes
desconhecido olor de estranhas flores;
quando, toda suspiros e fervores,
nesta prisão de músculos te prendes,
e aos meus beijos de sátiro te rendes,
furtando às rosas as purpúreas cores;
os olhos teus, inexpressivamente,
entrefechados, lânguidos, tranquilos,
olham, meu doce amor, de tal maneira,
que, se olhassem assim, publicamente,
deveria, perdoa-me, cobri-los
uma discreta folha de parreira.
AULA DE AMOR - Bertold Brecht
Tradução de Aires Graça
Mas, menina, vai com calma
Mais sedução nesse grasne:
Carnalmente eu amo a alma
E com alma eu amo a carne.
Faminto, me queria eu cheio
Não morra o cio com pudor
Amo virtude com traseiro
E no traseiro virtude pôr.
Muita menina sentiu perigo
Desde que o deus no cisne entrou
Foi com gosto ela ao castigo:
O canto do cisne ele não perdoou.
Mais sedução nesse grasne:
Carnalmente eu amo a alma
E com alma eu amo a carne.
Faminto, me queria eu cheio
Não morra o cio com pudor
Amo virtude com traseiro
E no traseiro virtude pôr.
Muita menina sentiu perigo
Desde que o deus no cisne entrou
Foi com gosto ela ao castigo:
O canto do cisne ele não perdoou.
QUE MUNDO GROSSO... – Heinrich Heine
Tradução de Décio Pignatari
Que mundo grosso, gente avara,
– E mais e mais sem mais sabor!
Diz de você... o quê, amor?
Que não tem vergonha na cara.
Mundinho avaro, mundo cego,
Sempre disposto a julgar mal.
Seu beijo doce é meu apego,
Sem falar na ardência final.
– E mais e mais sem mais sabor!
Diz de você... o quê, amor?
Que não tem vergonha na cara.
Mundinho avaro, mundo cego,
Sempre disposto a julgar mal.
Seu beijo doce é meu apego,
Sem falar na ardência final.
segunda-feira, 11 de julho de 2016
ÚLTIMA CANÇÃO - Rafael Rocha
Do livro “Poemas
Escolhidos”
No momento de compor a
última canção
lembre de escrever no
papel a partitura.
Porque a letra dessa
música é a figura
do amor intenso a
morar no coração.
Lembre o quanto a vida
foi uma loucura
na intensidade mais
frenética da paixão
e que o ritmo musical
deixa de ser ilusão
quando um sonho até
hoje se perdura
Possa eu então em
qualquer espaço escutar
tua voz macia cantando
os tempos idos
as alegrias e os
momentos mais sofridos
que trazem a nós o
saber o que foi amar.
Então assim poderemos
sem lamentos
nas rimas da canção
recriar laços
que mesmo presos a
velhos cansaços
são as relíquias de
saudosos sentimentos.
Enfim quando outras
vozes passionais
cantarem a música
inteira para o mundo
possamos regredir ao
mais profundo
tempo
de antanho que não volta mais.
NÃO TE RENDAS JAMAIS – Eduardo Alves da Costa
Procura acrescentar um côvado
à tua altura. Que o mundo está
à míngua de valores
e um homem de estatura justifica
a existência de um milhão de pigmeus
a navegar na rota previsível
entre a impostura e a mesquinhez
dos filisteus. Ergue-te desse oceano
que dócil se derrama sobre a areia
e busca as profundezas, o tumulto
do sangue a irromper na veia
contra os diques do cinismo
e os rochedos de torpezas
que as nações antepõem a seus rebeldes.
Não te rendas jamais, nunca te entregues,
foge das redes, expande teu destino.
E caso fiques tão só que nem mesmo um cão
venha te lamber a mão,
atira-te contra as escarpas
de tua angústia e explode
em grito, em raiva, em pranto.
Porque desse teu gesto
há de nascer o Espanto.
POEMA DA BUCETA CABELUDA – Bráulio Tavares
A buceta da minha amada
tem pelos barrocos,
lúdicos, profanos.
É faminta
como o polígono-das-secas
e cheia de ritmos
como o recôncavo-baiano.
A buceta da minha amada
é cabeluda
como um tapete persa.
É um buraco-negro
bem no meio do púbis
do Universo.
A buceta da minha amada
é cabeluda,
misteriosa, sonâmbula.
É bela como uma letra grega:
é o alfa-e-ômega dos meus segredos,
é um delta ardente sob os meus dedos
e na minha língua
é lambda.
A buceta da minha amada
é um tesouro
é o Tosão de Ouro
é um tesão.
É cabeluda, e cabe, linda,
em minha mão.
A buceta da minha amada
me aperta dentro, de um tal jeito
que quase me morde;
e só não é mais cabeluda
do que as coisas que ela geme
quando a gente fode.
tem pelos barrocos,
lúdicos, profanos.
É faminta
como o polígono-das-secas
e cheia de ritmos
como o recôncavo-baiano.
A buceta da minha amada
é cabeluda
como um tapete persa.
É um buraco-negro
bem no meio do púbis
do Universo.
A buceta da minha amada
é cabeluda,
misteriosa, sonâmbula.
É bela como uma letra grega:
é o alfa-e-ômega dos meus segredos,
é um delta ardente sob os meus dedos
e na minha língua
é lambda.
A buceta da minha amada
é um tesouro
é o Tosão de Ouro
é um tesão.
É cabeluda, e cabe, linda,
em minha mão.
A buceta da minha amada
me aperta dentro, de um tal jeito
que quase me morde;
e só não é mais cabeluda
do que as coisas que ela geme
quando a gente fode.
domingo, 10 de julho de 2016
REFLEXÃO – Solano Trindade
Vieste acender o meu fogo poético,
E minh’alma se abriu pras grandes festas,
A música dos teus poemas,
Faz-me dançar o bailado,
Da primeira mocidade...
Eu sinto vontade de não ser sexo,
Para brincar contigo como criança,
E brincar de cirandinha com tu’alma.
Mas como sou sexo,
Vou assistir um espetáculo humano;
A confecção de bandeiras iguais,
Para seres que parecem diferentes.
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