quinta-feira, 13 de outubro de 2016

LÁGRIMAS - FRANCISCA CLOTILDE

Chora a noite sentida a lágrima tremente
Do orvalho que aviventa a flor abandonada.
Da estrela cai na terra a luz meiga e dourada,
O pranto do infinito em gota aurifulgente.

E o velho mar que anseia, o velho mar fremente
Com zelo vai guardar na concha nacarada
As bagas que arrancou-lhe a dor amargurada,
Irisando-as da luz na pérola nitente!

Tudo adoece enfim!... Tudo chora e se queixa,
Da brisa o ciciar tem, às vezes, da endeixa
A mágoa dolorida e o tristonho dulçor.

O regato suspira... Há soluços nas águas,
A palmeira estremece e um concerto de mágoas
A saudade mistura aos idílios do amor!

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

DOIS SONETOS DE ALBERTO DE OLIVEIRA

CHEIRO DE ESPÁDUA

Quando a valsa acabou, veio à janela,
Sentou-se. O leque abriu. Sorria e arfava,
Eu, viração da noite, a essa hora entrava
E estaquei, vendo-a decotada e bela.

Eram os ombros, era a espádua, aquela
Carne rosada um mimo! A arder na lava
De improvisa paixão, eu, que a beijava,
Hauri sequiosa toda a essência dela!

Deixei-a, porque a vi mais tarde, oh! ciúme!
Sair velada da mantilha. A esteira
Sigo, até que a perdi, de seu perfume.

E agora, que se foi, lembrando-a ainda,
Sinto que à luz do luar nas folhas, cheira
Este ar da noite àquela espádua linda!

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O PIOR DOS MALES


Baixando à Terra, o cofre em que guardados 
Vinham os Males, indiscreta abria 
Pandora. E eis deles desencadeados 
À luz, o negro bando aparecia. 

O Ódio, a Inveja, a Vingança, a Hipocrisia, 
Todos os Vícios, todos os Pecados 
Dali voaram. E desde aquele dia 
Os homens se fizeram desgraçados. 

Mas a Esperança, do maldito cofre 
Deixara-se ficar presa no fundo, 
Que é última a ficar na angústia humana... 

Por que não voou também? Para quem sofre 
Ela é o pior dos males que há no mundo, 
Pois dentre os males é o que mais engana. 

REFÚGIOS PARA GUARDAR MEU PAI - Patrícia Claudine Hoffmann (in memoriam)


A saudade desenha seus estiletes, pai.
De dentro para fora.

Teus molinetes, agora
ornamentam a casa
com inconformável beleza:
procuram tua pesca.

Nenhuma fresta entre nós.
Nenhuma isca.

Na antifesta de estar,
o mar desfeito
não comemora comigo:
estamos sós.

E não há pacto
de anzóis que capture
a precocidade de tua ausência
ou te devolva
como devolvíamos os peixes para a água.
— Lembras?

Apareceram uns cansaços nas paredes.
Onde antes teu descanso
sobre o dorso das redes,
agora memórias rendadas
avarandam a chuva
em chamamento.

Enquanto o vento motiva algum sol,
embala-me ainda teu riso
nos braços já fracos
da infância.

- As tarrafas cresceram, pai.
Ainda não aprendi a dobrá-las.

sábado, 24 de setembro de 2016

TRANSEUNTE VIAJANTE - Rafael Rocha

Do livro “Poemas Escolhidos”

Quando da mente e do corpo a paixão expira
a esperança morre como o ator que se retira
de um palco vazio sem plateia alguma.
Resta no teatro da vida apenas dissabor
e o enredo que um dia chamamos de amor
dissolvido em eterna e merencória espuma.

Atores estão lutando ainda com perseverança
acreditando (simplórios) que a esperança
está viva e novas alegrias irão nascer.
Esqueceram a tempestade a levar o navio
a naufragar no delta do oceano vindo de um rio
onde a barca de Caronte navega ao entardecer.

E no estio do tempo na busca de aventuras
os poetas criam versos repletos de obscuras
ilusões antigas a matar sonhos de glórias.
Voltam os olhos ao passado e só restam lágrimas
na revelação da dor maior de suas rimas
e nas saudades débeis mentais de suas histórias.

Eis meu corpo aqui de transeunte viajante
tentando recriar a trilha do comediante
para a plateia imbecil gargalhar e sonhar.
Só não posso mais mergulhar em repouso
meus versos querem agora o ritmo poderoso
da correnteza que me leva direto para o mar.

Assim no vazio do teatro eis a peça inédita
saindo da voz do ator como se fosse uma prédica
ao mundo louco e maldito onde a vida cresceu:
sem motivos de ser e encaminhada à morte,
sem deuses para crer, mas a se fazer consorte
do frio a enregelar o amor que feneceu.

sábado, 3 de setembro de 2016

EU NÃO ACREDITO NA BONDADE DOS ANJOS – Camila Vardarac

eu não acredito na bondade dos anjos
todos parecem bebês de rosemary
o colorido dos vitrais não ameniza
a melancolia assustadora estampada em seus semblantes

no centro da casa
sagrada
o homem abre o livro
sagrado
e recita para si palavras pesadas
como o som de mil crucifixos arremessados ao chão

e eu penso nos pecados mais bizarros
que rondam o confessionário de vozes alteradas
depois aliviadas,
por depositarem nos ombros do representante do pai
a culpa dos seus atos impensados ou dolorosamente calculados

penso nos joelhos esfolados
por baixo das calças puídas dos fiéis fervorosos
que não sentem o gosto de ferro na boca
nem o gosto do sangue no cálice

e os sinos badalam doze vezes pausadas
ensurdecendo meus sonhos sacros
fazendo-me abrir todas as noites os olhos
quando deveriam estar fechados.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

CINCO POEMAS DE FLORBELA ESPANCA

A DOIDA

A Noite passa, noivando.
Caem ondas de luar.
Lá passa a doida cantando
Num suspiro doce e brando
Que mais parece chorar!

Dizem que foi pela morte
D’alguém, que muito lhe quis,
Que endoideceu. Triste sorte!
Que dor tão triste e tão forte!
Como um doido é infeliz!
Desde que ela endoideceu,
(Que triste vida, que mágoa!)
Pobrezinha, olhando céu,
Chama o noivo que morreu
Com os olhos rasos d’água!
E a noite passa, noivando.
Passa noivando o luar:
“Num suspiro doce e brando,
Podre doida vai cantando
Que esse teu canto, é chorar!”
.............................
A MINHA TRAGÉDIA

Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh′alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida!...
Duns beijos que me deste noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade!...

Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!... 
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AMIGA

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-mas bem!... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei p′rà minha boca!... 
......................
ERRANTE

Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.

Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura...

Meu coração não chega lá decerto...
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto...

Eu tecerei uns sonhos irreais...
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!... 
.................................
DESEJO

Quero-te ao pé de mim na hora de morrer.
Quero, ao partir, levar-te, todo suavidade,
Ó doce olhar de sonho, ó vida dum viver
Amortalhado sempre à luz duma saudade!

Quero-te junto a mim quando o meu rosto branco
Se ungir da palidez sinistra do não ser,
E quero ainda, amor, no meu supremo arranco
Sentir junto ao meu seio teu coração bater!

Que seja a tua mão tão branda como a neve
Que feche o meu olhar numa carícia leve
Em doce perpassar de pétala de lis...

Que seja a tua boca rubra como o sangue
Que feche a minha boca, a minha boca exangue!...
Ah, venha a morte já que eu morrerei feliz!...

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A DAMA E OS VAGABUNDOS - Gilvandro Filho

Vi uma mulher sozinha
Contra um pelotão inteiro
De velhacos traiçoeiros
Armados em plena rinha
Com sangue a escorrer na boca
E tão falsos argumentos
E a moça, sem fingimento
A combater, firme e rouca

Compunha o triste tropel
Só gente de muita astúcia
Um honesto só no papel
Um relator de pelúcia
Outro, senhor de escravos
E os que roubam na surdina
Qual entidades divinas
Fingindo até serem bravos

Durante o dia e a noite
Canalhas empedernidos
Em seu inferno escondidos
Saindo só para o açoite
E a moça forte, valente
A suportar cada lanho
Blefe de todo tamanho
Com coragem, paciente

O mau perdedor fingindo
Lobo em pele de cordeiro
Afronta o País inteiro
Sabendo que está mentindo
E vindo da Paraíba
Mais sujo que um poleiro
Caninos de dolo inteiro
Vociferou, caraíba

E o que dizer dos traidores
Que mentiam ser amigos
Que foram buscar abrigos
E hoje, tão maus atores
Sem coragem, os gabolas
Ao fugir do téte a téte
Covardes, jogam confete
Nos novos donos da bola

De nada adiantaria
Por si, qualquer argumento
Porque em nenhum momento
Qualquer dos fatos valia
Jogo de cartas marcadas
Encenação de teatro
Um discurso, três ou quatro
Meras palavras ditadas

E a mulher qual heroína
Foi até o fim da peça
No drama, a dor começa
Com a História a dor termina
Pois quem age com paixão
Tem no fim a sua glória
E quem age contra a História...
No fim vai pedir perdão

O BRASIL ESTÁ DE LUTO! O GOLPE DE ESTADO FOI CONCRETIZADO!


sábado, 27 de agosto de 2016

DOIS POEMAS DE LORD BYRON

George Gordon Byron, 6º Barão Byron, conhecido como Lord Byron,
foi um poeta inglês e uma das figuras mais influentes do romantismo

ESTÂNCIAS PARA MÚSICA
Tradução de Castro Alves

Alegria não há que o mundo dê, como a que tira.
Quando, do pensamento de antes, a paixão expira
Na triste decadência do sentir;
Não é na jovem face apenas o rubor
Que esmaia rápido, porém do pensamento a flor
Vai-se antes de que a própria juventude possa ir.

Alguns cuja alma bóia no naufrágio da ventura
Aos escolhos da culpa ou mar do excesso são levados;
O ímã da rota foi-se, ou só e em vão aponta a obscura
Praia que nunca atingirão os panos lacerados.

Então, frio mortal da alma, como a noite desce;
Não sente ela a dor de outrem, nem a sua ousa sonhar;
toda a fonte do pranto, o frio a veio enregelar;
Brilham ainda os olhos: é o gelo que aparece.

Dos lábios flua o espírito, e a alegria o peito invada,
Na meia-noite já sem esperança de repouso:
É como na hera em torno de uma torre já arruinada,
Verde por fora, e fresca, mas por baixo cinza anoso.

Pudesse eu me sentir ou ser como em horas passadas,
Ou como outrora sobre cenas idas chorar tanto;
Parecem doces no deserto as fontes, se salgadas:
No ermo da vida assim seria para mim o pranto
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A INÊS
Tradução de Castro Alves

Não me sorrias à sombria fronte,
Ai! sorrir eu não posso novamente:
Que o céu afaste o que tu chorarias
E em vão talvez chorasses, tão somente.

E perguntas que dor trago secreta,
A roer minha alegria e juventude?
E em vão procuras conhecer-me a angústia
Que nem tu tornarias menos rude?

Não é o amor, não é nem mesmo o ódio,
Nem de baixa ambição honras perdidas,
Que me fazem opor-me ao meu estado
E evadir-me das coisas mais queridas.

De tudo o que eu encontro, escuto, ou vejo,
É esse tédio que deriva, e quanto!
Não, a Beleza não me dá prazer,
Teus olhos para mim mal têm encanto.

Esta tristeza imóvel e sem fim
É a do judeu errante e fabuloso
Que não verá além da sepultura
E em vida não terá nenhum repouso.

Que exilado - de si pode fugir?
Mesmo nas zonas mais e mais distantes,
Sempre me caça a praga da existência,
O Pensamento, que é um demônio, antes.

Mas os outros parecem transportar-se
De prazer e, o que eu deixo, apreciar;
Possam sempre sonhar com esses arroubos
E como acordo nunca despertar!

Por muitos climas o meu fado é ir-me,
Ir-se com um recordar amaldiçoado;
Meu consolo é saber que ocorra embora
O que ocorrer, o pior já me foi dado.

Qual foi esse pior? Não me perguntes,
Não pesquises por que é que consterno!
Sorri! não sofras risco em desvendar
O coração de um homem: dentro é o Inferno.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

TESTEMUNHA – Rafael Rocha (Escrito em 1967)

Do livro “Poemas dos Anos de Chumbo – 1964/1985”
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 "A história se repete, a primeira vez como tragédia 
e a segunda como farsa" (Karl Marx) 
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Fechadas as portas e as janelas
das ruas vêm os gritos.
Estampidos secos de tiros.

Escondido nas sombras
um homem testemunha
jovens sendo mortos.

Em seu peito bate
estímulos de medo.
Ele tenta silenciar o coração.

Os corpos são arrastados
aos caminhões verdes.
As trevas calam a dor.

O homem escondido
não viu nada.
Fecha os olhos e parte.

Na manhã seguinte as ruas
presidem o silêncio
e a vida escravizada.

LUA CONGELADA - Mario Benedetti

Com esta solidão
ingrata
tranquila
com esta solidão
de sangrados achaques
de distantes uivos
de monstruoso silêncio
de lembranças em alerta
de lua congelada
de noite para outros
de olhos bem abertos
com esta solidão
desnecessária
vazia
se pode algumas vezes
entender
o amor.

EROS E PSIQUE - Fernando Pessoa

Conta a lenda que dormia 
Uma Princesa encantada 
A quem só despertaria 
Um Infante, que viria 
Do além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado, 
Vencer o mal e o bem, 
Antes que, já libertado, 
Deixasse o caminho errado 
Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida, 
Se espera, dormindo espera. 
Sonha em morte a sua vida, 
E orna-lhe a fronte esquecida, 
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado, 
Sem saber que intuito tem, 
Rompe o caminho fadado. 
Ele dela é ignorado. 
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino - 
Ela dormindo encantada, 
Ele buscando-a sem tino 
Pelo processo divino 
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro 
Tudo pela estrada fora, 
E falso, ele vem seguro, 
E, vencendo estrada e muro, 
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera, 
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão , e encontra hera, 
E vê que ele mesmo era 
A Princesa que dormia –

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

AUTO-RETRATO – Ruy Paranatinga Barata

Entre a espuma e a navalha sou legenda
O espelho neutraliza o ângulo da morte,
a barba estrangulou a metafísica
e o problema do mal é bem remoto.
Aqui sim !
Aqui resistirei à mímica,
ao dicionário e ao laboratório !
- a herança do punhal brilha de novo
- o fantasma de Abel não me intimida.
Vejo a testa crescer
entre espirais de fumo,
o olhar que não vacila,
da ruga a pré-história
e o peito rasgado
pela fúria do poema.

Aqui sim,
aqui iniciarei a espécie nova,
aqui derrotarei o homem-harpa
e pronto estou para a descoberta do sexo.
O pincel dá-me o poder do patriarca,
a navalha reduz a timidez e o medo,
o palavrão rola na boca e salva o mundo.

A ADORMECIDA – Paul Valéry

Tradução de Augusto de Campos

Que segredo incandesces no peito, minha amiga,
Alma por doce máscara aspirando a flor?
De que alimentos vãos teu cândido calor
Gera essa irradiação: mulher adormecida?

Sopro, sonhos, silêncio, invencível quebranto,
Tu triunfas, ó paz mais potente que um pranto,
Quando de um pleno sono a onda grave e estendida
Conspira sobre o seio de tal inimiga

Dorme, dourada soma: sombras e abandono.
De tais dons cumulou-se esse temível sono,
Corça languidamente longa além do laço,

Que embora a alma ausente, em luta nos desertos,
Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,
Vela, Tua forma vela, e meus olhos: abertos.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A CIDADE DO RECIFE – Adelmar Tavares

Pátria do meu amor! Recife linda,
como te guarda o meu saudoso olhar!
Velas ao longe... Os coqueirais de Olinda,
e uma terra a nascer da água do mar...

Um céu de estrelas que entrevejo ainda.
Sob as pontes, o rio a se estirar...
Noites de lua... que saudade infinda...
brancas... que dão vontade de chorar...

Filho ingrato, parti... Mas nem um dia,
deixei de te lembrar, por mundo alheio,
onde me trouxe a glória fugidia.

Pátria, quando eu morrer, piedosa e boa,
dá que eu durma o meu sono no teu seio,
como um seio de Mãe que ama e perdoa...