sexta-feira, 10 de março de 2017

MANUAL DA MÁQUINA CDA - Armando Freitas Filho

A máquina é de pedra e pensamento.
Funciona sem água, deslizando
seu lençol de laje e lembrança
aberto e desperto por natureza.
Tem por motor o atrito, a tração
a alavanca que levanta quem lê
e o modela, diferente, a cada passada
pois se faz também diversa:
novos perfis que se enfrentam
assimétricos, e que não esperam
o encaixe certo, feito à regua
mas o impossível, irregular, sem
efes-e-erres, com recortes irritados
se aproximando, como no boxe -
através do choque, onde se juntam -
íntimos, podendo parecer ternos
apesar dos dentes, roldanas, o amor
arranca, em chão de escorpião.
Quando revista, de perto, por dentro
a máquina - que não se passa a limpo -
se compreende um pouco do engenho
do mecanismo de suas linhas partidas.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

CARNAVAL - Rafael Rocha

Do livro “Poemas Escolhidos”

Vou vestir a fantasia da ilusão
neste carnaval da vida.
O frevo faz o coração
marcar o passo na avenida.
Escrevo a marcha poesia
e crio nova nostalgia:
a máscara negra do dia!

Homem da Meia-Noite:
em Olinda sou turbilhão
No Galo da Madrugada
conquisto um coração
Peço: tristeza vá embora!
E ainda assim a alma chora
o fim dessa glória!

É Carnaval! Carnaval!
Apenas três dias de alegria!
O amor é casual
e a pobreza se faz rainha!
A folia é uma passageira
da trama de um Zé Pereira
pra morrer na quarta-feira!

Sou o poeta carnavalesco
e um triste pierrô!
Arlequim grotesco
busco a colombina do amor!
E vendo a menina a frevar
sua boca quero beijar
e seu lindo corpo amar!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

SÓ – Olavo Bilac



Este, que um deus cruel arremessou à vida,
Marcando-o com o sinal da sua maldição,
- Este desabrochou como a erva má, nascida
Apenas para aos pés ser calcada no chão.

De motejo em motejo arrasta a alma ferida...
Sem constância no amor, dentro do coração
Sente, crespa, crescer a selva retorcida
Dos pensamentos maus, filhos da solidão.

Longos dias sem sol! Noites de eterno luto!
Alma cega, perdida à toa no caminho!
Roto casco de nau, desprezado no mar!

E, árvore, acabará sem nunca dar um fruto;
E, homem, há de morrer como viveu: sozinho!
Sem ar! Sem luz! Sem deus! Sem fé! Sem pão! Sem lar!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

CANTOCHÃO – Rafael Rocha



Do livro “Poemas Escolhidos”

Estou a te olhar
não sendo olhado.
Estou a te amar
não sendo amado.
Estou a te sentir
não sendo sentido.
Estou a te encantar
não sendo encantado.

Meu amor está vivo
em teus outros amores.
Beijarei teu rosto lindo
como a beijar as flores.
Sou um sonho atrevido
amaciando tua dor
até escutar comovido:
- Eu te amo! És meu amor!

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

OS NÃO LEMBRADOS – Talis Andrade



Não decoro nenhuma poesia
e li mil livros.
Não recordo nenhuma paisagem
e andei por mil cidades.
Não recordo nenhuma cena de filme
não solfejo nenhuma sofrível melodia
não guardo as feições de nenhum rosto.
Dei sumiço as lembranças
apaguei meu próprio rastro
para que não fique nenhum traço
nenhum traço.

sábado, 28 de janeiro de 2017

RITUAL – Lílian Aquino



No mesmo dia
em que o filho deixou
a casa
(se afastando de costas
para olhá-la nos olhos)
ela resolveu plantar
um ipê

na sala

Num ato solene
quebrou o chão
e
revirou o solo
e
chafurdou-se toda
contente

E do desfeito
pelo rebento
ficou aquela cicatriz
na barriga
a estranheza do ser
livre
e o olhar aquela árvore
ainda sem flores
e se perguntar:

roxo ou amarelo?

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

BEIJO – Cyrano de Bergerac



Hercule Savinien de Cyrano de Bergerac foi um livre-pensador, que viveu na França entre 1619 e 1655. O pensamento racionalista apresentado por Cyrano foi algo raro na época, pois o Iluminismo começou um século após a sua morte. Defendia ideias consideradas ousadas para a época, tais como a de que a matéria se compõe de átomos e de que os animais são dotados de inteligência.

A palavra sorri e queima-se detrás do lábio que a deseja.
Beijo a brincar na boca e boca que não beija,
porque o pudor retrai esse desejo louco...
Sem querer, sem sentir, via-a desfolhar há pouco
a flor do galanteio, e passar n'um encanto
do sorrir ao suspiro e do suspiro ao pranto!


 Aclare um pouco mais a luz do sentimento:
nas lágrimas um beijo, é um deslumbramento!
E afinal o que é um beijo? Um céu aberto.
Juramento d'amor, feito mui de perto!
Numa promessa linda uma confirmação.
Ponto róseo a cair no i d'uma afeição.
Segredo que se diz a uma boca vermelha.
Num ponto d'infinito um ruído d'abelha...


 É uma comunhão com um sabor de rosas.
O respirar subtil das almas amorosas;
O precioso subir d'um coração à boca...
Luz que do lábio sai, numa volúpia louca!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

AVISO ADMINISTRATIVO


CÚPULA DA PEDRA – Talis Andrade

Poemas do livro inédito O Judeu Errante

Em Jerusalém uma pedra

Dos judeus a convicção
a criação do mundo
a partir de uma pedra

A pedra que estava Abraão
quando falou com Deus
A pedra de onde Maomé
ascendeu ao céu
para rezar com Deus

Em Jerusalém uma pedra
divide duas religiões
em uma guerra santa

Em Jerusalém uma pedra

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

CÁLIDO - Celso Mendes



e não ouvi
de tua boca
a seda
nem vi o sândalo
ou o céu
em teus olhos
a me falar de sol

por que, meu bem
minha palavra lacra-se
solitária
e muda
em tua cabeça
se é de teus dentes
o veneno
que me mata e grita
em gotas
e de tua pele
esta eterna
insolvência
cálida
que me faz viver?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

NOTAS DE SINFONIA INTERCALADA - Ivy Gomide - Rio de Janeiro/RJ


pétala por pétala
na boca do algodão doce
vozes algozes
emudecem gritos
de tiro-teio
eu tiro-teimo
em ti
apenas porque
o perfume
suspira
e aspira
na sequência da
sinfonia
interCALADA
notas orvalhadas
re escrevem
brincos
na lua.

sábado, 7 de janeiro de 2017

EU SOU O POETA DO CORPO - Walt Whitmann



Eu sou o poeta do corpo e sou o poeta da alma,
as delícias do céu estão em mim
e os horrores do inferno estão em mim
- o primeiro eu enxerto e amplio ao meu redor,
o segundo eu traduzo em nova língua.

Eu sou o poeta da mulher tanto quanto o do homem
e digo que tanta grandeza existe no ser mulher
quanta no ser homem,
e digo que não há nada maior do que uma mãe de homens.

Canto o cântico da expansão e orgulho:
já temos tido o bastante em esquivanças e súplicas,
eu mostro que tamanho nada mais é do que desenvolvimento.

Eu sou aquele que vai com a noite tenra e crescente,
e invoco a terra e o mar que a noite leva pela metade.
Aperte mais, noite de peito nu!
Aperte mais, noite nutriz magnética!
Noite dos ventos do sul,
noite das poucas estrelas grandes!
Noite silenciosa que me acena
- alucinada noite nua de verão!

Sorria, ó terra cheia de volúpia, de hálito frio!
Terra das árvores líquidas e dormentes!
Terra em que o sol se põe longe,
terra dos montes cobertos de névoa!
Terra do vítreo gotejar da lua cheia apenas tinta de azul!
Terra do brilho e sombrio encontro nas enchentes do rio!
Terra do cinza límpido das nuvens, por meu gosto mais claras e brilhantes!
Terra que faz a curva bem distante, rica terra de macieiras em flor!
Sorria: o seu amante vem chegando!

Pródiga, amor você tem dado a mim:
o que eu dou a você, portanto, é amor
- indizível e apaixonado amor!

QUANDO FORES VELHA - William Butler Yeats

Quando já fores velha, e grisalha, e com sono,
Pega este livro: junto ao fogo, a cabecear,
Lê com calma; e com os olhos de profundas sombras
Sonha, sonha com o teu antigo e suave olhar.

Muitos amaram-te horas de alegria e graça,
Com amor sincero ou falso amaram-te a beleza;
Só um, amando-te a alma peregrina em ti,
De teu rosto a mudar amou cada tristeza.

E curvando-te junto à grade incandescente,
Murmura com amargura como o amor fugiu
E caminhou montanha acima, a subir sempre,
E o rosto em multidão de estrelas encobriu.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

DÁ-ME TUA MÃO - Gabriela Mistral

Dá-me tua mão, e dançaremos;
dá-me tua mão e me amarás.
Como uma só flor nós seremos,
como uma flora, e nada mais.

O mesmo verso cantaremos,
no mesmo passo bailarás.
Como uma espiga ondularemos,
como uma espiga, e nada mais.

Chamas-te Rosa e eu Esperança;
Porém teu nome esquecerás,
Porque seremos uma dança
sobre a colina, e nada mais.