quinta-feira, 23 de março de 2017

DOS MEUS 67 ANOS EM DIANTE - Rafael Rocha

Do livro “Poemas Escolhidos”

Além do que pude ser gente tão jovem
buscando uma espaçonave na internet
para o voo interestelar entre planetas
com o Capitão Kirk no comando
da grandiosa nave Enterprise
tendo ao lado o orelhudo Spock
para me espelhar na sua lógica.

Dos meus 67 anos em diante
vou recordar coisas distantes e do antes
tentar atingir as nuvens
buscar sentir as paisagens
coisas de quando ainda
nem cabelos brancos tinha.
Histórias fantásticas que ninguém escreveria.

Dos meus 67 anos do antes para o adiante
tentei até escrever um blog na internet
sobre quando ainda nem possuía
uma história de gente.
De quando ainda escrevia
odes tímidas dedicadas às papoulas vermelhas
da casa dos meus velhos pais
em um bairro proletário.

Dos meus 67 anos em diante a vir do antes
vejo a mulher dormindo nua
sem oferecer promessas certas
para usufruir a carne crua.
Faço do espaço do tempo sexagenário
em diante e mais adiante e adiante mais
o que possa caber de poemas sobre a lua
bebendo a minha cerveja em algum bar da minha rua.

Além do que pude ser:
intelectual radical de mim com amigos radicais de si
com tantos espaços ilimitados
para imaginar os efeitos do que fazer dos meus 67 anos
de agora em diante e adiante lembrando o antes.
Como bem disse Pessoa
“O poeta é um fingidor”...
Vamos fingir!

“Filhos, filhos, filhos
melhor não tê-los”
disse Vinicius.
“Mas se não os temos como sabê-los?”
Como sofrer por eles quando velhos?
E esperá-los quase inerte
olhando relógios nos espelhos
a pensar se eles e eu somos iguais
e de onde a vida lhes traz
vertiginosos perigos?

Dos meus 67 anos em diante
não pretendo dissertar coisas amáveis.
Eu não sei os anos da frente.
Sei os 67 anos de antes
e as aventuras loucas concebidas
sem permissão de ninguém.
Conhecendo a dama de vermelho.
Trepando com a dama de vermelho.
Amando a dama de vermelho
com o consentimento do amigo.

Dos meus 67 anos em diante
não poderei dissertar história alguma
mas dos 67 anos do antes
lembro dos meus aniversários e das festas
de quando a minha mãe era a mulher mais bela
de quando o meu pai era meu indiscutível herói
de quando meus irmãos eram destinos
afetivos e amorosos e amigos
a cada passo de cada um e ao passo de todos.

Saudades!
Eram carnavais que nos faziam a vida
ser a cada dia mais relampejante.
Eram bocas iguais à boca da Regina
aquela fantasia feita de primeiro amor
que só beijei em uma noite de folia
sob a marchinha da lua cantada por Ângela Maria.

Saudades!
Eram fugitivos dias nas praias da cidade.
Doses de vodca com laranjas (coisas especiais).
Saudades!
Eram toques das mãos da piniqueira Suely
antes de a gente ser profissional de punheta
atacados por maruins nos canaviais.

Dos meus 67 anos para o agora em diante
melhor dissertar os anos distantes
faltam poucas coisas para ver o sol poente.
Mas ainda faço um brinde
encho meu copo com a mais espumosa cerveja
e grito: Evoé, Baco!
E o mundo ainda me responde!
Evoé! Evoé!

Dos meus 67 anos para o agora em diante
sentindo as recordações distantes
hoje posso morrer sem medo
e usufruir as coisas proibidas
e gritar bem alto e de bom som
para os idiotas acadêmicos:
– Vão tomar no cu! –

Dos meus 67 anos para o agora em diante
eu sou dono de toda a minha história.
Busco a sabedoria como um Lama!
Sou revolução como um Guevara!
E, simplesmente, sou um homem!
Ainda estou vivo!

Desce à Terra a nave Enterprise.
Nosso mundo não está perdido.
Eu estou no comando junto com meu amigo. 
O mundo jamais vai se acabar!

sexta-feira, 10 de março de 2017

GUARDAR - Antonio Cicero


Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem voos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

MANUAL DA MÁQUINA CDA - Armando Freitas Filho

A máquina é de pedra e pensamento.
Funciona sem água, deslizando
seu lençol de laje e lembrança
aberto e desperto por natureza.
Tem por motor o atrito, a tração
a alavanca que levanta quem lê
e o modela, diferente, a cada passada
pois se faz também diversa:
novos perfis que se enfrentam
assimétricos, e que não esperam
o encaixe certo, feito à regua
mas o impossível, irregular, sem
efes-e-erres, com recortes irritados
se aproximando, como no boxe -
através do choque, onde se juntam -
íntimos, podendo parecer ternos
apesar dos dentes, roldanas, o amor
arranca, em chão de escorpião.
Quando revista, de perto, por dentro
a máquina - que não se passa a limpo -
se compreende um pouco do engenho
do mecanismo de suas linhas partidas.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

CARNAVAL - Rafael Rocha

Do livro “Poemas Escolhidos”

Vou vestir a fantasia da ilusão
neste carnaval da vida.
O frevo faz o coração
marcar o passo na avenida.
Escrevo a marcha poesia
e crio nova nostalgia:
a máscara negra do dia!

Homem da Meia-Noite:
em Olinda sou turbilhão
No Galo da Madrugada
conquisto um coração
Peço: tristeza vá embora!
E ainda assim a alma chora
o fim dessa glória!

É Carnaval! Carnaval!
Apenas três dias de alegria!
O amor é casual
e a pobreza se faz rainha!
A folia é uma passageira
da trama de um Zé Pereira
pra morrer na quarta-feira!

Sou o poeta carnavalesco
e um triste pierrô!
Arlequim grotesco
busco a colombina do amor!
E vendo a menina a frevar
sua boca quero beijar
e seu lindo corpo amar!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

SÓ – Olavo Bilac



Este, que um deus cruel arremessou à vida,
Marcando-o com o sinal da sua maldição,
- Este desabrochou como a erva má, nascida
Apenas para aos pés ser calcada no chão.

De motejo em motejo arrasta a alma ferida...
Sem constância no amor, dentro do coração
Sente, crespa, crescer a selva retorcida
Dos pensamentos maus, filhos da solidão.

Longos dias sem sol! Noites de eterno luto!
Alma cega, perdida à toa no caminho!
Roto casco de nau, desprezado no mar!

E, árvore, acabará sem nunca dar um fruto;
E, homem, há de morrer como viveu: sozinho!
Sem ar! Sem luz! Sem deus! Sem fé! Sem pão! Sem lar!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

CANTOCHÃO – Rafael Rocha



Do livro “Poemas Escolhidos”

Estou a te olhar
não sendo olhado.
Estou a te amar
não sendo amado.
Estou a te sentir
não sendo sentido.
Estou a te encantar
não sendo encantado.

Meu amor está vivo
em teus outros amores.
Beijarei teu rosto lindo
como a beijar as flores.
Sou um sonho atrevido
amaciando tua dor
até escutar comovido:
- Eu te amo! És meu amor!

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

OS NÃO LEMBRADOS – Talis Andrade



Não decoro nenhuma poesia
e li mil livros.
Não recordo nenhuma paisagem
e andei por mil cidades.
Não recordo nenhuma cena de filme
não solfejo nenhuma sofrível melodia
não guardo as feições de nenhum rosto.
Dei sumiço as lembranças
apaguei meu próprio rastro
para que não fique nenhum traço
nenhum traço.

sábado, 28 de janeiro de 2017

RITUAL – Lílian Aquino



No mesmo dia
em que o filho deixou
a casa
(se afastando de costas
para olhá-la nos olhos)
ela resolveu plantar
um ipê

na sala

Num ato solene
quebrou o chão
e
revirou o solo
e
chafurdou-se toda
contente

E do desfeito
pelo rebento
ficou aquela cicatriz
na barriga
a estranheza do ser
livre
e o olhar aquela árvore
ainda sem flores
e se perguntar:

roxo ou amarelo?

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

BEIJO – Cyrano de Bergerac



Hercule Savinien de Cyrano de Bergerac foi um livre-pensador, que viveu na França entre 1619 e 1655. O pensamento racionalista apresentado por Cyrano foi algo raro na época, pois o Iluminismo começou um século após a sua morte. Defendia ideias consideradas ousadas para a época, tais como a de que a matéria se compõe de átomos e de que os animais são dotados de inteligência.

A palavra sorri e queima-se detrás do lábio que a deseja.
Beijo a brincar na boca e boca que não beija,
porque o pudor retrai esse desejo louco...
Sem querer, sem sentir, via-a desfolhar há pouco
a flor do galanteio, e passar n'um encanto
do sorrir ao suspiro e do suspiro ao pranto!


 Aclare um pouco mais a luz do sentimento:
nas lágrimas um beijo, é um deslumbramento!
E afinal o que é um beijo? Um céu aberto.
Juramento d'amor, feito mui de perto!
Numa promessa linda uma confirmação.
Ponto róseo a cair no i d'uma afeição.
Segredo que se diz a uma boca vermelha.
Num ponto d'infinito um ruído d'abelha...


 É uma comunhão com um sabor de rosas.
O respirar subtil das almas amorosas;
O precioso subir d'um coração à boca...
Luz que do lábio sai, numa volúpia louca!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

AVISO ADMINISTRATIVO


CÚPULA DA PEDRA – Talis Andrade

Poemas do livro inédito O Judeu Errante

Em Jerusalém uma pedra

Dos judeus a convicção
a criação do mundo
a partir de uma pedra

A pedra que estava Abraão
quando falou com Deus
A pedra de onde Maomé
ascendeu ao céu
para rezar com Deus

Em Jerusalém uma pedra
divide duas religiões
em uma guerra santa

Em Jerusalém uma pedra

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

CÁLIDO - Celso Mendes



e não ouvi
de tua boca
a seda
nem vi o sândalo
ou o céu
em teus olhos
a me falar de sol

por que, meu bem
minha palavra lacra-se
solitária
e muda
em tua cabeça
se é de teus dentes
o veneno
que me mata e grita
em gotas
e de tua pele
esta eterna
insolvência
cálida
que me faz viver?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

NOTAS DE SINFONIA INTERCALADA - Ivy Gomide - Rio de Janeiro/RJ


pétala por pétala
na boca do algodão doce
vozes algozes
emudecem gritos
de tiro-teio
eu tiro-teimo
em ti
apenas porque
o perfume
suspira
e aspira
na sequência da
sinfonia
interCALADA
notas orvalhadas
re escrevem
brincos
na lua.

sábado, 7 de janeiro de 2017

EU SOU O POETA DO CORPO - Walt Whitmann



Eu sou o poeta do corpo e sou o poeta da alma,
as delícias do céu estão em mim
e os horrores do inferno estão em mim
- o primeiro eu enxerto e amplio ao meu redor,
o segundo eu traduzo em nova língua.

Eu sou o poeta da mulher tanto quanto o do homem
e digo que tanta grandeza existe no ser mulher
quanta no ser homem,
e digo que não há nada maior do que uma mãe de homens.

Canto o cântico da expansão e orgulho:
já temos tido o bastante em esquivanças e súplicas,
eu mostro que tamanho nada mais é do que desenvolvimento.

Eu sou aquele que vai com a noite tenra e crescente,
e invoco a terra e o mar que a noite leva pela metade.
Aperte mais, noite de peito nu!
Aperte mais, noite nutriz magnética!
Noite dos ventos do sul,
noite das poucas estrelas grandes!
Noite silenciosa que me acena
- alucinada noite nua de verão!

Sorria, ó terra cheia de volúpia, de hálito frio!
Terra das árvores líquidas e dormentes!
Terra em que o sol se põe longe,
terra dos montes cobertos de névoa!
Terra do vítreo gotejar da lua cheia apenas tinta de azul!
Terra do brilho e sombrio encontro nas enchentes do rio!
Terra do cinza límpido das nuvens, por meu gosto mais claras e brilhantes!
Terra que faz a curva bem distante, rica terra de macieiras em flor!
Sorria: o seu amante vem chegando!

Pródiga, amor você tem dado a mim:
o que eu dou a você, portanto, é amor
- indizível e apaixonado amor!