terça-feira, 2 de maio de 2017

ABUTRES - Rafael Rocha

Do livro “Poemas Escolhidos”

Não farei mais discursos falando de saudades
muito menos com lágrimas para marcar a dor.
O instante de agora não comporta essa ilusão
ou qualquer canção falando de amor.
Meus versos estão vestindo roupas cruéis
e perdendo os motivos de serem singelos.
Não mais farei discursos que façam chorar
falando de saudades e de lugares comuns.

Hoje os dias marcam descontroles e maldições.
e até os ares espaciais estão vazios e infelizes.
Abutres alçam voos em busca de suas presas
e os assassinos matam até os animais dos oceanos.
Meus versos agora vestem roupagem de aço
para tentar viajar no mundo dentro da realidade.
Não mais farei discursos que façam chorar
falando de lugares comuns e de saudades.

Tempus fugit!
A espécie humana tornou-se vulgar
agindo em total e monstruosa barbárie.
Os abutres vêm em mergulhos pelos ares
e os inocentes serão as suas primeiras vítimas.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

ESPELHO - Sylvia Plath

Tradução de André Cardoso


Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo imediatamente
Do jeito que for, desembaçado de amor ou aversão.
Não sou cruel, apenas verdadeiro –
O olho de um pequeno deus, de quatro cantos.
Na maior parte do tempo medito sobre a parede em frente.
Ela é rosa, pontilhada. Já olhei para ela tanto tempo,
Eu acho que ela é parte do meu coração. Mas ela oscila.
Rostos e escuridão nos separam toda hora.

Agora sou um lago. Uma mulher se dobra sobre mim,
Buscando na minha superfície o que ela realmente é.
Então ela se vira para aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e as reflito fielmente.
Ela me recompensa com lágrimas e um agitar das mãos.
Sou importante para ela. Ela vem e vai.
A cada manhã é o seu rosto que substitui a escuridão.
Em mim ela afogou uma menina, e em mim uma velha
Se ergue em direção a ela dia após dia, como um peixe terrível.

terça-feira, 25 de abril de 2017

CANÇÃO - Jacques Prévert

Qual dia somos nós
Nós somos todos os dias
Meu amigo
Nós somos toda a vida
Meu amor
Nós nos amamos e nós vivemos
nós vivemos e nós nos amamos
E não sabemos o que é a vida
E não sabemos o que é o dia
E não sabemos o que é o amor

ENCONTRO - Marina Tzvietáieva



Tradução de Décio Pignatari

Vou chegar tarde ao encontro marcado,
cabelos já grisalhos. Sim, suponho
ter-me agarrado à primavera, enquanto
via você subir de sonho em sonho.

Vou carregar esse amargo – por largo
tempo e muitos lugares, de penedos
a praças (como Ofélia – sem lámurias)
por corpos e almas – e sem medos!

A mim, digo que viva; à terra, gire
com sangue no bosque e sangue corrente,
mesmo que o rosto de Ofélia me espie
por entre as relvas de cada corrente,

e, amorosa sedenta, encha a boca
de lodo – oh, haste de luz no metal!
Não chega este amor à altura do seu
amor … Então, enterre-me no céu!

O TEU RISO – Pablo Neruda

Tradução de Thiago de Mello

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

POETA – Xavier de Carvalho

Sobre o largo portal do castelo onde mora
Meu grande coração de escritor insubmisso,
Inundada na luz de um resplendor de aurora,
Há uma lira de Rei feita de ouro maciço.

Ao meu trono enfrentar, trono de ouro inteiriço,
Curvam-se as vibrações da Palavra Sonora...
-E, embora seja o aplauso obrigado e postiço,
As mãos de muitos reis batem-me palma, embora!

Um soneto ao fazer, cheio de versos lautos,
Partem do meu palácio uma porção de arautos,
Lembrando o meu poder pela voz de cem trompas!

E os vendilhões, então, do amplo templo do Metro
Fogem em debandada ao fulgor de meu cetro
Feridos pelo Estilo e embriagados de Pompas!

(De Carvalho, I. Xavier. Missas Negras. Manaus:
Livraria Universal de M. Silva & C. 21, 1902. p.05-40.)

ILUSÕES – Medeiros e Albuquerque

Velas fugindo pelo mar em fora…
Velas…pontos - depois … depois vazia
a curva azul do mar onde, sonora,
canta do vento a triste psalmodia…

Partem pandas e brancas… Vem a aurora
e vem a noite após, muda e sombria…
E, se em porto distante a frota ancora,
é p’ra partir de novo em outro dia…

Assim as Ilusões. Chegam, garbosas,
palpitam sonhos, desabrocham rosas
na esteira azul das peregrinas frotas…

Chegam… Ancoram n‘alma um só momento;
logo, as velas abrindo, amplas ao vento,
fogem p’ra longe solidões remotas

ATRAÇÃO E REPULSÃO – Adelino Fontoura



Eu nada mais sonhava nem queria
Que de ti não viesse, ou não falasse;
E como a ti te amei, que alguém te amasse,
Coisa incrível até me parecia.

Uma estrela mais lúcida eu não via
Que nesta vida os passos me guiasse,
E tinha fé, cuidando que encontrasse,
Após tanta amargura, uma alegria.

Mas tão cedo extinguiste este risonho,
Este encantado e deleitoso engano,
Que o bem que achar supus, já não suponho.

Vejo, enfim, que és um peito desumano;
Se fui até junto a ti de sonho em sonho,
Voltei de desengano em desengano.

terça-feira, 11 de abril de 2017

SONETILHO DE VERÃO – Paulo Henriques Britto

Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
A idéia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.

O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.

RÓI – Carlito Azevedo

Rói qualquer possibilidade de sono
   essa minimalíssima música
   de cupins esboroando
   tacos sob a cama

imagino a rede de canais
   que a perquirição predatória
   possa ter riscado
   pelo madeirame apodrecido

se aguço o ouvido
   capto súbito
   o mundo dos vermes
            [Do livro: collapsus linguae, Carlito Azevedo, Editora Lynx]

SILÊNCIO – Donizete Galvão

De pedra ser.
Da pedra ter
o duro desejo de durar.
Passem as legiões
com seus ossos expostos.
Chorem os velhos
com casacos de naftalina.
A nave branca chega ao porto
e tinge de vinho o azul do mar.
O maciço de rocha,
de costas para a cidade
sete vezes destruída,
celebra o silêncio.
A pedra cala
o que nela dói.

EROS & CIVILIZAÇÃO – Geraldo Carneiro

se você diz eu te amo
meu coração se mira no espelho
e faz piruetas de circo

se você diz eu te quero
meu coração distraído lixa as unhas
e diz: não se comova, baby

se você diz eu te quero
meu coração faz versos como quem sonha demais
e não se abala nunca

se você diz eu não te amo
meu coração tristonho acende as luzes
porque a noite é negra como a asa da graúna

NOITE ADENTRO – Ana Martins Marques

Atado a um barco na noite
o sono curva-se sobre si mesmo,
entregue ao movimento secreto das ondas.
Durmo, acordo, vem dos livros fechados
o cheiro escuro dos sargaços.
Neste quarto, noite adentro, percebe-se
a presença perturbadora do mar:
nas estantes, nos tapetes, nos móveis submersos.
Nas paredes lisas de cansaço.
Sou jogada no sono de um sonho a outro,
lançada entre corais, como um peixe
que dorme na ressaca.
Quando for preciso novamente
acordar para o dia,
o mar terá se afastado lentamente
e voltado a ocupar o lugar
onde o vejo
pela janela esquerda do quarto
.

domingo, 9 de abril de 2017

ANGÚSTIA - Stéphane Mallarmé

Tradução de Augusto de Campos

Não vim domar teu corpo esta noite, ó cadela
Que encerras os pecados de um povo, ou cavar
Em teus cabelos torpes a triste procela
No incurável fastio em meu beijo a vazar:

Busco em teu leito o sono atroz sem devaneios
Pairando sob ignotas telas do remorso,
E que possas gozar após negros enleios,
Tu que acima do nada sabes mais que os mortos:

Pois o Vício, a roer minha nata nobreza,
Tal como a ti marcou-me de esterilidade,
Mas enquanto teu seio de pedra é cidade.

De um coração que crime algum fere com presas,
Pálido, fujo, nulo, envolto em meu sudário,
Com medo de morrer pois durmo solitário.

SE... (If...) - Rudyard Kipling

Tradução de Guilherme de Almeida

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti, quando estão todos duvidando,
E para esses, no entanto, achares uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares;
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais nem pretensioso;

Se és capaz de pensar, sem que a isso só te atires;
De sonhar, sem fazer dos sonhos teus senhores;
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires
Tratar da mesma forma esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder, e ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
A dar o que for que neles ainda existe;
E a persistir assim quando exausto, contudo,
Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste”!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
E, entre reis, não perder a naturalidade;
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade;
Se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra, com tudo o que existe no mundo,
E – o que é mais – serás um Homem, meu filho!