terça-feira, 2 de janeiro de 2018

VERSOS SOLTOS - Rafael Rocha

Das coisas boas que tenho nesta vida
e que não possuo condições de mostrar...
Uma delas é a mulher mais proibida:
- Vou escondê-la até a morte me levar!

De outra coisa a mim entregue pela vida
peguei emprestado de não sei qual mar.
Está guardada na poesia envelhecida.
Não a mostro para não desencantar.

Coisas boas que escondo são milhares
e espero outros milhares pelo caminho
que ainda resta nesses meus trilhares
para os meus sonhos acarinhar sozinho.

FRAGMENTAÇÃO - Valdeci Ferraz


Envelheço por dentro e por fora.
Um ano a mais, um ano a menos
não faz tanta diferença.
Meu corpo se afasta de mim
como o domingo se afasta do sábado.
O tempo é um escultor sádico, implacável,
que adora fazer riscos na face do homem.

Envelheço tal qual o pinheiro:
Olhando sempre para o alto,
numa tentativa inútil
de não voltar ao pó de onde vim.
Busco as estrelas fugindo da escuridão
e me alimento das lembranças
que insistem em me acompanhar.

Em algum lugar do passado
guardei o mapa da fonte da juventude.
Foi-me dado por uma mulher vestida de azul
com mil conselhos sobre a guarda e a proteção.
Hoje, ao tentar encontrar tal tesouro,
só consigo lembrar o nome da fada: ILUSÃO.

ACALANTO – Paulo Henrique Britto


Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,

despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;

e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos

em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, e um dia a menos.

E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno.

LIMITE– Sylvia Plath

Tradução  Luiz Carlos de Brito Rezende

A mulher está perfeita.
Seu corpo
Morto enverga o sorriso de completude,
A ilusão de necessidade
Grega voga pelos veios da sua toga,
Seus pés
Nus parecem dizer:
Já caminhamos tanto, acabou.
Cada criança morta, enrodilhada, cobra branca,
Uma para cada pequena
Tigela de leite vazia.
Ela recolheu-as todas
Em seu corpo, como pétalas
Da rosa que se encerra, quando o jardim
Enrija e aromas sangram
Da fenda doce, funda, da flor noturna.
A lua não tem porque estar triste
Espectadora de touca
De osso; ela está acostumada.
Suas crateras trincam, fissura.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

RECEITA DE ANO NOVO – Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

NOVEMBRO - Piedad Bonnett

Tradução de  Rodrigo Savazoni


E chegaram as chuvas de novembro.
E com as chuvas as glicínias lilases
floresceram em meu quintal,
e pontuais, dourados e zombeteiros,
vieram bater em meus vidros
os besouros.

Em novembro,
seu nome, de repente, foi o nome dos dias,
e a umidade do ar meu desejo
e tua língua
um recente calor entre ninhos.

E foi para minha sede festa a chuva,
e as glicínias lilases
foram para minhas brumas sóis perdidos,
e os torpes insetos contra minha porta uma gostosa,
cintilante orquestra.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

AMOR FEINHO – Adélia Prado



Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.

DISTÂNCIAS – Paul Celan

Tradução: Claudia Cavalcanti

Olho no olho, no frio,
deixa-nos também começar assim:
juntos
deixa-nos respirar o véu
que nos esconde um do outro,
quando a noite se dispõe a medir
o que ainda falta chegar
de cada forma que ela toma
para cada forma
que ela a nós dois emprestou.

sábado, 28 de outubro de 2017

DOMÍNIO DO ESPAÇO – Antonio Carlos Gomes

Falar
É nomear sentimentos
Catalogar objetos.

Criar arabescos
Em formas verbais
Separar o bem e o mal.

Balbuciar
Amor e medo
Delimitando espaços:
- Dizer amo ou odeio
Nada mais.

NOSTALGIA – Valdeci Ferraz

Onde está aquele olor inebriante
que tornava a emoção tão comestível
como as pétalas de uma rosa branca?
Onde estão aquelas notas
que de tão harmoniosas
geravam rios de lágrimas e arco-íris inversos?
Onde está aquela luz
que emanava dos nossos corpos
despertando as estrelas
tornando nossas noites muito mais iluminadas?
Onde se escondeu o beijo
que não aconteceu
e tornou mágica a manhã de abril?

Em alguma esquina,
na ponta de um iceberg,
no topo de um mastro,
nas brumas de um sonho
alguém encontrará o nosso cheiro.
E por ele se guiará ao paraíso,
pois diante de nossos olhos desfilam os mortos,
enquanto os vivos vagueiam
na neblina de sua existência medíocre.

Eles voltam para refazer a sua história
que alguém não registrou como devia
ou morreu antes de escrevê-la.
Nas ruas se erguem paliçadas
para barrar o inevitável,
enquanto os mísseis cruzam o ar
e o homem da caneta de ouro distribui migalhas.

Onde está o violão
que fumegava tarântulas assustadoras
sobre a mesa do homem nu?
Onde estão os guardanapos
sobre os quais os poetas escreviam as suas profecias
embriagados de cerveja e sexo?

No tempo que se fez de chumbo
ergueram-se as baionetas
e amordaçaram o espantalho que vigiava o campo.
E veio a noite e veio o dia
as aves do céu devoraram o fígado do espantalho
enquanto Quíron dormia
sob as marquises dos velhos pardieiros.

O que fizeram dos corrimãos de sonhos dourados?
O que fizeram dos caracóis alados?
Cadê o meu cavalo de pau?
As ruas estão desertas ou repletas de homens vazios
embora conduzam o mundo nas mãos.

domingo, 22 de outubro de 2017

NO CORREDOR DA MORTE - Talis Andrade

Do livro A Partilha do Corpo

Não há neste mundo
uma palavra de compaixão
para os que sofrem
Todos sabem quanto dói
o abandono a solidão
o desamor. Todos sabem
Todos temem a morte

Todos se afastam dos velhos
dos moribundos
Todos sentem
do corpo exânime
o odor nauseabundo

ÉRATO – Marcus Accioly (1943/2017)

“por detrás o prazer é diferente
do gozo pela frente" (diz) e a boca
suplica ("mais") aí toda a carne é pouca
para todo o desejo (pela frente
o amor no Próprio amor se satisfaz)
mas é diverso o coito por detrás
da fêmea (é como os animais copulam)
existe um cio por detrás (um jeito
de pegar os cabelos quando ondulam
suas crinas) que o gozo insatisfeito
precisa de mais gozo para ser
em sua plenitude ou gozar mais
(se uma só vez o amor acontecer
é preciso que seja por detrás)

domingo, 1 de outubro de 2017

OUTUBRO – Rafael Rocha

No dia em que o fogo queimou as plantas.
No dia em que a água dançou no ar.
No dia em que a terra gritou pelo vento:
- Nasceu um poeta!

Tornou-se o dia de embelezamento das palavras.
Tornou-se o dia de abrir todos os livros.
Tornou-se o dia de enfeitar a atmosfera
com uma canção incomum.

O acaso trouxe o sangue à esfera
de um cérebro vivo e rutilante.
E as horas e os minutos e os segundos fizeram a reverência
igual àquela que se faz a um rei.

Às catorze horas de um sábado
hoje mais remoto que o primeiro sábado da idade da pedra
a carne se fez em paixão e inteligência
em plena tarde.

No dia em que o vento girava pela terra.
No dia em que o ar musicava as águas.
No dia em que as plantas apagavam o fogo
a vida tornava-se poema.

Era apenas o primeiro dia de outubro
tão comum como qualquer outro dia.
Era o meu!

terça-feira, 19 de setembro de 2017

DE AMOR NADA MAIS RESTA QUE UM OUTUBRO – Natália Correia

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

O SELVAGEM – Antonio Gomes Leal

Eu não amo ninguém. Também no mundo
Ninguém por mim o peito bater sente,
Ninguém entende meu sofrer profundo,
E rio quando chora a demais gente.

Vivo alheio de todos e de tudo,
Mais calado que o esquife, a morte e as lousas,
Selvagem, solitário, inerte e mudo,
- Passividade estúpida das Cousas.

Fechei, de há muito, o livro do Passado
Sinto em mim o desprezo do Futuro,
E vivo só comigo, amortalhado
N'um egoísmo bárbaro e escuro.

Rasguei tudo o que li. Vivo nas duras
Regiões dos cruéis indiferentes,
Meu peito é um covil, onde, às escuras,
Minhas penas calquei, como as serpentes.

E não vejo ninguém. Saio somente
Depois de pôr-se o sol, deserta a rua,
Quando ninguém me espreita, nem me sente,
E, em lamentos, os cães ladram à lua...