segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

CARTA ABERTA AOS HOMENS DE PASSAGEM – Natasha Felix

você com certeza vai
você com certeza vai lembrar de mim
quando topar com a salamandra azul 
no orquidário vai com certeza 
você vai com certeza
lembrar de mim.
do anel que foi parar no ralo 
cheio de cabelo e porra, 
você vai lembrar
dos filhos que não fez em mim
eu te disse 
era sério quando
o elevador quebrou no oitavo andar eu te disse
aquele era o nosso momento de glória
eu te disse 
pra botar no formol e você não entendeu
na hora mas acho que agora olhando a 
salamandra azul vai sacar 
eu chego sabendo que vou embora.
você vai lembrar 
a gente
com vinte anos sem vergonha na cara
nem pra comprar um cortador de unha
imediatista 
eu arrancava os excessos com os dentes.
tinha dez reais pra catuaba e um baseado no bolso
eu arrancava os excessos com os dentes. 
você vai lembrar disso
de hoje pra trinta anos isso vai ser uma lenda
você vai lembrar de mim
com certeza vai
encostar a testa no box no segundo banho
do dia 
enquanto tua mulher tira os
pentelhos da virilha e lê sobre o golpe na turquia
e eu vou estar 
em qualquer lugar longe da casa
que nunca tivemos.

BIGODE – Mariana Payno

por uma dessas assimetrias da natureza
- talvez a mesma que a fazia carregar tamanhos diferentes nos olhos,
os pelos cresciam-lhe mais do lado direito do rosto

um bom observador logo percebia
algo que não barba
mas um emaranhado de confusões

como cócegas
ou alegrias
de perto

a despeito disso
importante fazia-se o bigode
(este, sim, perfeitamente estabelecido em seu lugar)

digno de técnicos de futebol,
bandidos dos anos 1950,
aristocratas,
surrealistas,
qualquer mexicano ou português,
quem sabe um gato

movia-se acima da boca
com naturalidade felina

sorria
como a malícia infantil de dick vigarista,
um poema com duas estrofes de leminski,
o quadro mais famoso de dali

e por mais cinco minutos
(os corriqueiros)
— esticados na cama

a felicidade roçaria a nuca
escovada
no silêncio das manhãs.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

RUBAYAT - Omar Khayyam


Nunca murmurei uma prece,
nem escondi os meus pecados.
Ignoro se existe uma Justiça, ou Misericórdia;
mas não desespero: sou um homem sincero.

Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes,
mas ninguém se deleita sempre em suas páginas.
No copo de vinho está gravado um texto de adorável
sabedoria que a boca lê, a cada vez com mais delícia.

Que pobre o coração que não sabe amar
e não conhece o delírio da paixão.
Se não amas, que sol pode te aquecer,
ou que lua te consolar?

Tenho igual desprezo por libertinos ou devotos.
Quem irá dizer se terão o Céu ou o Inferno?
Conheces alguém que visitou esses lugares?
E ainda queres encher o mar com pedras?

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

ROSA AMARELA – Antonio Carlos Gomes

No supermercado
comprei uma rosa amarela,
muito bela!
Comprei:
Ela rimava
com a donzela
bela
singela.
Aquela donzela bela
que eu sonhava com ela.

Na mesa
coloquei toalha verde
para contrastar com ela
e a pizza de mussarela
servi:
brindei com a taça amarela
a moça tão bela
pois eu sonhava
com ela.

VERSOS SOLTOS - Rafael Rocha

Das coisas boas que tenho nesta vida
e que não possuo condições de mostrar...
Uma delas é a mulher mais proibida:
- Vou escondê-la até a morte me levar!

De outra coisa a mim entregue pela vida
peguei emprestado de não sei qual mar.
Está guardada na poesia envelhecida.
Não a mostro para não desencantar.

Coisas boas que escondo são milhares
e espero outros milhares pelo caminho
que ainda resta nesses meus trilhares
para os meus sonhos acarinhar sozinho.

FRAGMENTAÇÃO - Valdeci Ferraz


Envelheço por dentro e por fora.
Um ano a mais, um ano a menos
não faz tanta diferença.
Meu corpo se afasta de mim
como o domingo se afasta do sábado.
O tempo é um escultor sádico, implacável,
que adora fazer riscos na face do homem.

Envelheço tal qual o pinheiro:
Olhando sempre para o alto,
numa tentativa inútil
de não voltar ao pó de onde vim.
Busco as estrelas fugindo da escuridão
e me alimento das lembranças
que insistem em me acompanhar.

Em algum lugar do passado
guardei o mapa da fonte da juventude.
Foi-me dado por uma mulher vestida de azul
com mil conselhos sobre a guarda e a proteção.
Hoje, ao tentar encontrar tal tesouro,
só consigo lembrar o nome da fada: ILUSÃO.

ACALANTO – Paulo Henrique Britto


Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,

despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;

e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos

em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, e um dia a menos.

E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno.

LIMITE– Sylvia Plath

Tradução  Luiz Carlos de Brito Rezende

A mulher está perfeita.
Seu corpo
Morto enverga o sorriso de completude,
A ilusão de necessidade
Grega voga pelos veios da sua toga,
Seus pés
Nus parecem dizer:
Já caminhamos tanto, acabou.
Cada criança morta, enrodilhada, cobra branca,
Uma para cada pequena
Tigela de leite vazia.
Ela recolheu-as todas
Em seu corpo, como pétalas
Da rosa que se encerra, quando o jardim
Enrija e aromas sangram
Da fenda doce, funda, da flor noturna.
A lua não tem porque estar triste
Espectadora de touca
De osso; ela está acostumada.
Suas crateras trincam, fissura.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

RECEITA DE ANO NOVO – Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

NOVEMBRO - Piedad Bonnett

Tradução de  Rodrigo Savazoni


E chegaram as chuvas de novembro.
E com as chuvas as glicínias lilases
floresceram em meu quintal,
e pontuais, dourados e zombeteiros,
vieram bater em meus vidros
os besouros.

Em novembro,
seu nome, de repente, foi o nome dos dias,
e a umidade do ar meu desejo
e tua língua
um recente calor entre ninhos.

E foi para minha sede festa a chuva,
e as glicínias lilases
foram para minhas brumas sóis perdidos,
e os torpes insetos contra minha porta uma gostosa,
cintilante orquestra.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

AMOR FEINHO – Adélia Prado



Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.

DISTÂNCIAS – Paul Celan

Tradução: Claudia Cavalcanti

Olho no olho, no frio,
deixa-nos também começar assim:
juntos
deixa-nos respirar o véu
que nos esconde um do outro,
quando a noite se dispõe a medir
o que ainda falta chegar
de cada forma que ela toma
para cada forma
que ela a nós dois emprestou.

sábado, 28 de outubro de 2017

DOMÍNIO DO ESPAÇO – Antonio Carlos Gomes

Falar
É nomear sentimentos
Catalogar objetos.

Criar arabescos
Em formas verbais
Separar o bem e o mal.

Balbuciar
Amor e medo
Delimitando espaços:
- Dizer amo ou odeio
Nada mais.

NOSTALGIA – Valdeci Ferraz

Onde está aquele olor inebriante
que tornava a emoção tão comestível
como as pétalas de uma rosa branca?
Onde estão aquelas notas
que de tão harmoniosas
geravam rios de lágrimas e arco-íris inversos?
Onde está aquela luz
que emanava dos nossos corpos
despertando as estrelas
tornando nossas noites muito mais iluminadas?
Onde se escondeu o beijo
que não aconteceu
e tornou mágica a manhã de abril?

Em alguma esquina,
na ponta de um iceberg,
no topo de um mastro,
nas brumas de um sonho
alguém encontrará o nosso cheiro.
E por ele se guiará ao paraíso,
pois diante de nossos olhos desfilam os mortos,
enquanto os vivos vagueiam
na neblina de sua existência medíocre.

Eles voltam para refazer a sua história
que alguém não registrou como devia
ou morreu antes de escrevê-la.
Nas ruas se erguem paliçadas
para barrar o inevitável,
enquanto os mísseis cruzam o ar
e o homem da caneta de ouro distribui migalhas.

Onde está o violão
que fumegava tarântulas assustadoras
sobre a mesa do homem nu?
Onde estão os guardanapos
sobre os quais os poetas escreviam as suas profecias
embriagados de cerveja e sexo?

No tempo que se fez de chumbo
ergueram-se as baionetas
e amordaçaram o espantalho que vigiava o campo.
E veio a noite e veio o dia
as aves do céu devoraram o fígado do espantalho
enquanto Quíron dormia
sob as marquises dos velhos pardieiros.

O que fizeram dos corrimãos de sonhos dourados?
O que fizeram dos caracóis alados?
Cadê o meu cavalo de pau?
As ruas estão desertas ou repletas de homens vazios
embora conduzam o mundo nas mãos.

domingo, 22 de outubro de 2017

NO CORREDOR DA MORTE - Talis Andrade

Do livro A Partilha do Corpo

Não há neste mundo
uma palavra de compaixão
para os que sofrem
Todos sabem quanto dói
o abandono a solidão
o desamor. Todos sabem
Todos temem a morte

Todos se afastam dos velhos
dos moribundos
Todos sentem
do corpo exânime
o odor nauseabundo