sábado, 13 de janeiro de 2018

OS “POLÍTICOS” - Juareiz Correya

(de “Canção Portátil”)

os “políticos” todos os dias
ensaiam as mesmas loas
e o homens cantam,
remontam os mesmos figurinos
e os homens copiam,
repetem os mesmos chavões
e os homens aplaudem,
discursam as mesmas louvações
e os homens se encantam,
mantêm as mesmas lutas
e os homens lhes seguem,
recitam as mesmas cartilhas
e os homens publicam,
usam os mesmos métodos
e os homens arrebanham-se,
postulam os mesmos credos
e os homens guerreiam,
revivem a mesma vida
e os homens matam-se.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

BRASÍLHA-ME… - Gustavo Dourado

Brasília: voou além do signo da cruz:
Dantes:…Era altiplano de suave luz…
Devastidão tortuosa, ex-mar-cerrado:
Virevi LúciOscarte, JK no céu-sol alado…

Urbi Sempiterna, fantasia, cidade-estado:
Sonho de Dom Bosco, poema de Bernardo…
Planaltina cosmovisão dos Inconfidentes:
Antevista por Bonifácio, Cruls e Tiradentes…

Nave, musa, deu$a, fada, fênix na luacheia…
Multigaláxia, dura irrealidade, concrevia:
Árdua solidão no silên cio ensimesmado…

Na Espla.nada: projeta-se nosso dia-a-dia:
Programa-se o futuro dum ser milimetrado:
Sempre-viva, calliandra, girassol, nave-sereia…

TRISTEZA – Ivan Junqueira

Esta noite eu durmo de tristeza.
(O sono que eu tinha morreu ontem
queimado pelo fogo de meu bem.)
O que há em mim é só tristeza,
uma tristeza úmida, que se infiltra
pelas paredes de meu corpo
e depois fica pingando devagar
como lágrima de olho escondido.

(Ali, no canto apagado da sala,
meu sorriso é apenas um brinquedo
que a mãozinha da criança quebrou.)

E o resto é mesmo tristeza.

SOBRE UM POEMA - Herberto Helder

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

O DESEJO - Ana Martins Marques

Sou alérgica ao desejo
como ao mofo, ao mar,
aos gatos, ao leite,
aos lugares fechados, a certas flores.
Sou alérgica ao desejo –
doem-me os olhos,
incham-me as pernas,
o sexo arde
como uma caixa de abelhas
lacrada.
O desejo acende-me
como uma casa incendiada;
o desejo me deixa
sem mais nada.

SETE ANOS – Alice Sant’Anna

ela come tangerina
com centenas de dedos
meditativos
empenhados na função
de descascar, separar um gomo
do outro
mas não mastiga, empurra
com a língua até a pele
descosturar
feito tecido ou papel
e romper
em suco

depois caminha pelos quartos
acaricia os cabelos das bonecas
muda a posição dos objetos
desliza dedos pelas paredes

até que cada canto da casa
cheire como os dias de verão

***
dentro do apartamento
a janela sustenta a paisagem.
me aproximo, apoio
os braços: todo o mundo
desmedido
em minha frente.

mas nada
que eu possa segurar, reter.
nem mesmo o perfume
dessas tardes sem perfume, nem
um bibelô
para colecionar na estante
como fazem as avós
que não medem cuidados
com a porcelana

DESTRUIÇÃO - Orides Fontela

A coisa contra a coisa:
a inútil crueldade
da análise. O cruel
saber que despedaça
o ser sabido.

A vida contra a coisa:
a violentação
da forma, recriando-a
em sínteses humanas
sábias e inúteis.

A vida contra a vida:
a estéril crueldade
da luz que se consome
desintegrando a essência
inutilmente.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

ALVOROÇO – Bianca Velloso

quando há lua
nos meus olhos de rio
teu amor é céu
.
constelação
:
estrela, estrela, estrela


quando há sol
nos teus olhos de cio
meu amor é mar
.
oceano
:
onda, onda, onda
...
de calor e arrepio

CARTA ABERTA AOS HOMENS DE PASSAGEM – Natasha Felix

você com certeza vai
você com certeza vai lembrar de mim
quando topar com a salamandra azul 
no orquidário vai com certeza 
você vai com certeza
lembrar de mim.
do anel que foi parar no ralo 
cheio de cabelo e porra, 
você vai lembrar
dos filhos que não fez em mim
eu te disse 
era sério quando
o elevador quebrou no oitavo andar eu te disse
aquele era o nosso momento de glória
eu te disse 
pra botar no formol e você não entendeu
na hora mas acho que agora olhando a 
salamandra azul vai sacar 
eu chego sabendo que vou embora.
você vai lembrar 
a gente
com vinte anos sem vergonha na cara
nem pra comprar um cortador de unha
imediatista 
eu arrancava os excessos com os dentes.
tinha dez reais pra catuaba e um baseado no bolso
eu arrancava os excessos com os dentes. 
você vai lembrar disso
de hoje pra trinta anos isso vai ser uma lenda
você vai lembrar de mim
com certeza vai
encostar a testa no box no segundo banho
do dia 
enquanto tua mulher tira os
pentelhos da virilha e lê sobre o golpe na turquia
e eu vou estar 
em qualquer lugar longe da casa
que nunca tivemos.

BIGODE – Mariana Payno

por uma dessas assimetrias da natureza
- talvez a mesma que a fazia carregar tamanhos diferentes nos olhos,
os pelos cresciam-lhe mais do lado direito do rosto

um bom observador logo percebia
algo que não barba
mas um emaranhado de confusões

como cócegas
ou alegrias
de perto

a despeito disso
importante fazia-se o bigode
(este, sim, perfeitamente estabelecido em seu lugar)

digno de técnicos de futebol,
bandidos dos anos 1950,
aristocratas,
surrealistas,
qualquer mexicano ou português,
quem sabe um gato

movia-se acima da boca
com naturalidade felina

sorria
como a malícia infantil de dick vigarista,
um poema com duas estrofes de leminski,
o quadro mais famoso de dali

e por mais cinco minutos
(os corriqueiros)
— esticados na cama

a felicidade roçaria a nuca
escovada
no silêncio das manhãs.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

RUBAYAT - Omar Khayyam


Nunca murmurei uma prece,
nem escondi os meus pecados.
Ignoro se existe uma Justiça, ou Misericórdia;
mas não desespero: sou um homem sincero.

Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes,
mas ninguém se deleita sempre em suas páginas.
No copo de vinho está gravado um texto de adorável
sabedoria que a boca lê, a cada vez com mais delícia.

Que pobre o coração que não sabe amar
e não conhece o delírio da paixão.
Se não amas, que sol pode te aquecer,
ou que lua te consolar?

Tenho igual desprezo por libertinos ou devotos.
Quem irá dizer se terão o Céu ou o Inferno?
Conheces alguém que visitou esses lugares?
E ainda queres encher o mar com pedras?

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

ROSA AMARELA – Antonio Carlos Gomes

No supermercado
comprei uma rosa amarela,
muito bela!
Comprei:
Ela rimava
com a donzela
bela
singela.
Aquela donzela bela
que eu sonhava com ela.

Na mesa
coloquei toalha verde
para contrastar com ela
e a pizza de mussarela
servi:
brindei com a taça amarela
a moça tão bela
pois eu sonhava
com ela.

VERSOS SOLTOS - Rafael Rocha

Das coisas boas que tenho nesta vida
e que não possuo condições de mostrar...
Uma delas é a mulher mais proibida:
- Vou escondê-la até a morte me levar!

De outra coisa a mim entregue pela vida
peguei emprestado de não sei qual mar.
Está guardada na poesia envelhecida.
Não a mostro para não desencantar.

Coisas boas que escondo são milhares
e espero outros milhares pelo caminho
que ainda resta nesses meus trilhares
para os meus sonhos acarinhar sozinho.

FRAGMENTAÇÃO - Valdeci Ferraz


Envelheço por dentro e por fora.
Um ano a mais, um ano a menos
não faz tanta diferença.
Meu corpo se afasta de mim
como o domingo se afasta do sábado.
O tempo é um escultor sádico, implacável,
que adora fazer riscos na face do homem.

Envelheço tal qual o pinheiro:
Olhando sempre para o alto,
numa tentativa inútil
de não voltar ao pó de onde vim.
Busco as estrelas fugindo da escuridão
e me alimento das lembranças
que insistem em me acompanhar.

Em algum lugar do passado
guardei o mapa da fonte da juventude.
Foi-me dado por uma mulher vestida de azul
com mil conselhos sobre a guarda e a proteção.
Hoje, ao tentar encontrar tal tesouro,
só consigo lembrar o nome da fada: ILUSÃO.