quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

ENVOI (1919) – Ezra Pound



Tradução de Augusto de Campos
Vai, livro natimudo,
e diz a ela
que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
mais canção, menos temas,
então se acabariam minhas penas,
meus defeitos sanados em poemas
para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
tais tesouros no ar,
sem querer nada mais além de dar
vida ao momento,
que eu lhes ordenaria: vivam,
quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
rubribordadas de ouro, só
uma substância e cor
desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
com a canção nos lábios
mas não canta a canção e ignora
quem a fez, que talvez uma outra boca
tão bela quanto a dela
em novas eras há de ter aos pés
os que a adoram agora,
quando os nossos dois pós
com o de Waller se deponham, mudos,
no olvido que refina a todos nós,
até que a mutação apague tudo
salvo a Beleza, a sós.

UMA FACA SÓ LÂMINA - João Cabral de Melo Neto

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse um
vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

A ADORMECIDA – Paul Valery


Tradução de Augusto de Campos

Que segredo incandesces no peito, minha amiga,
Alma por doce máscara aspirando a flor?
De que alimentos vãos teu cândido calor
Gera essa irradiação: mulher adormecida?

Sopro, sonhos, silêncio, invencível quebranto,
Tu triunfas, ó paz mais potente que um pranto,
Quando de um pleno sono a onda grave e estendida
Conspira sobre o seio de tal inimiga

Dorme, dourada soma: sombras e abandono.
De tais dons cumulou-se esse temível sono,
Corça languidamente longa além do laço,

Que embora a alma ausente, em luta nos desertos,
Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,
Vela, Tua forma vela, e meus olhos: abertos.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

XADREZ – Jorge Luiz Borges

Em seu grave rincão, dois jogadores
regem peças, sem pausa. O tabuleiro
os prende até a aurora no certeiro
âmbito em que se odeiam duas cores.

Dentro irradiam mágicos rigores.
As formas: torre homérica, ligeiro
cavalo, audaz rainha, rei guerreiro,
bispo oblíquo e peões ameaçadores.

Quando os rivais já se tiverem ido,
quando o tempo os houver já consumido,
por certo não terá cessado o rito.

O Oriente é a origem dessa guerra
cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Como o outro, este jogo é infinito.

IDEALISMO – Augusto dos Anjos

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isso que na minha lira
de amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
é o amor do sibarita e da hetaíra,
de Messalina e de Sardanapalo?!

Pois é mister que, para o amor sagrado,
o mundo fique imaterializado
- Alavanca desviada do seu fulcro -

E haja só amizade verdadeira
duma caveira para outra caveira,
do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

sábado, 13 de janeiro de 2018

MUTATIS MUTANDIS - Bartyra Soares

Tomo a forma do mar.

Se é preciso que em minhas águas

navegue o vento e em mim

o sol refaça caminhos

de impulsos e chamas verdes

não me furto ao compromisso que hoje

me impõe esta manhã.

 

Minhas águas de sal e segredo

ferem-se na aspereza dos corais

e por não ser lâmina e por não

ser espinho não tenho

como revidar.  Deixo que minha dor

em mim desabe.  Recolho meu grito

de incertezas e convicções.

 

E quando a última gaivota

da tarde no poente pousar

a sombra do seu cansaço

só então serei quem fui.

Assim sobre penhascos

e dunas não mais depositarei

lembranças e sargaços.

AO TEMPO – Dante Milano



Tempo, vais para trás ou para diante?
O passado carrega a minha vida
Para trás e eu de mim fiquei distante,

Ou existir é urna continua ida
E eu me persigo nunca me alcançando?
A hora da despedida é a da partida

A um tempo aproximando e distanciando...
Sem saber de onde vens e aonde irás,
Andando andando andando andando andando

Tempo, vais para diante ou para trás?

OS “POLÍTICOS” - Juareiz Correya

(de “Canção Portátil”)

os “políticos” todos os dias
ensaiam as mesmas loas
e o homens cantam,
remontam os mesmos figurinos
e os homens copiam,
repetem os mesmos chavões
e os homens aplaudem,
discursam as mesmas louvações
e os homens se encantam,
mantêm as mesmas lutas
e os homens lhes seguem,
recitam as mesmas cartilhas
e os homens publicam,
usam os mesmos métodos
e os homens arrebanham-se,
postulam os mesmos credos
e os homens guerreiam,
revivem a mesma vida
e os homens matam-se.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

BRASÍLHA-ME… - Gustavo Dourado

Brasília: voou além do signo da cruz:
Dantes:…Era altiplano de suave luz…
Devastidão tortuosa, ex-mar-cerrado:
Virevi LúciOscarte, JK no céu-sol alado…

Urbi Sempiterna, fantasia, cidade-estado:
Sonho de Dom Bosco, poema de Bernardo…
Planaltina cosmovisão dos Inconfidentes:
Antevista por Bonifácio, Cruls e Tiradentes…

Nave, musa, deu$a, fada, fênix na luacheia…
Multigaláxia, dura irrealidade, concrevia:
Árdua solidão no silên cio ensimesmado…

Na Espla.nada: projeta-se nosso dia-a-dia:
Programa-se o futuro dum ser milimetrado:
Sempre-viva, calliandra, girassol, nave-sereia…

TRISTEZA – Ivan Junqueira

Esta noite eu durmo de tristeza.
(O sono que eu tinha morreu ontem
queimado pelo fogo de meu bem.)
O que há em mim é só tristeza,
uma tristeza úmida, que se infiltra
pelas paredes de meu corpo
e depois fica pingando devagar
como lágrima de olho escondido.

(Ali, no canto apagado da sala,
meu sorriso é apenas um brinquedo
que a mãozinha da criança quebrou.)

E o resto é mesmo tristeza.

SOBRE UM POEMA - Herberto Helder

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

O DESEJO - Ana Martins Marques

Sou alérgica ao desejo
como ao mofo, ao mar,
aos gatos, ao leite,
aos lugares fechados, a certas flores.
Sou alérgica ao desejo –
doem-me os olhos,
incham-me as pernas,
o sexo arde
como uma caixa de abelhas
lacrada.
O desejo acende-me
como uma casa incendiada;
o desejo me deixa
sem mais nada.

SETE ANOS – Alice Sant’Anna

ela come tangerina
com centenas de dedos
meditativos
empenhados na função
de descascar, separar um gomo
do outro
mas não mastiga, empurra
com a língua até a pele
descosturar
feito tecido ou papel
e romper
em suco

depois caminha pelos quartos
acaricia os cabelos das bonecas
muda a posição dos objetos
desliza dedos pelas paredes

até que cada canto da casa
cheire como os dias de verão

***
dentro do apartamento
a janela sustenta a paisagem.
me aproximo, apoio
os braços: todo o mundo
desmedido
em minha frente.

mas nada
que eu possa segurar, reter.
nem mesmo o perfume
dessas tardes sem perfume, nem
um bibelô
para colecionar na estante
como fazem as avós
que não medem cuidados
com a porcelana

DESTRUIÇÃO - Orides Fontela

A coisa contra a coisa:
a inútil crueldade
da análise. O cruel
saber que despedaça
o ser sabido.

A vida contra a coisa:
a violentação
da forma, recriando-a
em sínteses humanas
sábias e inúteis.

A vida contra a vida:
a estéril crueldade
da luz que se consome
desintegrando a essência
inutilmente.