quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

PRIMEIRO DE ABRIL – Valdeci Ferraz

Menino,
onde você estava quando quebraram a manhã
e soltaram os elefantes pelas ruas?
Enquanto seus pés chutavam sapotis
coturnos sem alma esmagavam as flores
e os fuzis anunciavam uma noite sem fim.
Menino,
você não ouviu o pio triste
de um pássaro sufocado
pelas cordas de um violino mudo?
Não reparou na cor do vento,
nas rugas das árvores,
nos bancos das praças?

Menino,
trocaram o seu uniforme
pelo aborto de um sonho invertido
para manter a pergunta sempre se repetindo no ar:
Mamãe! Quando papai vai chegar?
Menino,
vai dormir, a noite chegou.

Menino,
onde você estava quando soou a corneta?
O que trazia nas mãos?
O que trazia na mente?
Onde ficou o riso inocente,
a calma aparente, o quadro pintado,
a vida latente?

Menino,
quem esticou o tempo
para não perder o trono?
Quem se arrastou na lama
para enfrentar velhas utopias?
Quem compôs uma sinfonia de trás para a frente?
Quem esmagou o sonho com balas de chumbo?

Ah!
Você não ouviu o grito das velhas árvores!
Não viu o sangue escorrendo entre as flores!
E quando a noite chegou, onde você se escondeu?
Ah!
Você não sabia da carta marcada
porque só ouvia a mesma piada.
O mesmo tom.
A mesma nota.
O mesmo som.
E trouxeram guizos e plumas,
prenderam os homens e seus sonhos,
porque era o primeiro dia
de um dia que nunca acabaria.

Menino,
por um  momento escuta o vento,
ouve o lamento dos que tombaram no palco
pois ainda se move nas sombras
o Leviatã implacável.

FADO DA CENSURA – Fernando Pessoa

- 1935 –

Neste campo da Política
Onde a Guarda nos mantém,
Falo, responde a Censura;
Olho, mas não vejo bem.

Há um campo lamacento
Onde se dá bem o gado;
Mas, no ar mais elevado,
Na altura do pensamento,
Paira um certo pó cinzento,
Um pó que se chama Crítica.
A Ideia fica raquítica
Só de sempre o respirar.
Por isso é tão mau o ar
Neste campo da Política.

Às vezes nesta planura,
Se o vento sopra do Norte,
O pó torna-se mais forte,
E chama-se então Censura.
É um pó de mais grossura,
Sente-se já muito bem,
E a Ideia, batida, tem
Uma impressão de pancada,
Como a que dão numa esquadra
Onde a Guarda nos mantém.

O pó parece que chove,
Paira em todos os sentidos,
Enche bocas e ouvidos,
Já ninguém fala nem ouve.
Se a minha boca se move,
Logo à primeira abertura
A enche esta areia escura.
Só trago e me oiço tragar.
É uma conversa a calar.
Falo, responde a Censura.

Vem então qualquer vizinho,
Dos que podem abrir boca;
No braço, irado, me toca,
E diz, «Não vê o caminho?
O seu dever comezinho
De patriota aí tem.
Vê o caminho e não vem?!»
Para isso, bolas aos molhos!
Se este pó me entrou prós olhos,
Olho, mas não vejo bem.

LUTA DE CLASSES – Paulo Leminsky

Na luta de classes
todas as armas são boas
pedras
noites
poemas

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI – Eduardo Alves da Costa



Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

TAPUIA - Raul Bopp



As florestas ergueram braços peludos para esconder-te
com ciúmes do sol.

E a tua carne triste se desabotoa nos seios,
recém-chegados do fundo das selvas.

Pararam no teu olhar as noites da Amazônia, mornas e imensas.

No teu corpo longo
ficou dormindo a sombra das cinco estrelas do Cruzeiro.

O mato acorda no teu sangue
sonhos de tribos desaparecidas
– filha de raças anônimas
que se misturaram em grandes adultérios!

E erras sem rumo assim, pelas beiras do rio,
que teus antepassados te deixaram de herança.

O vento desarruma os teus cabelos soltos
e modela um vestido na intimidade do teu corpo exato.
À noite o rio te chama
e então te entregas à água preguiçosamente,
como uma flor selvagem
ante a curiosidade das estrelas.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

SOL E ÁGUA - Aimé Césaire

Tradução de André Caramuru Aubert

Minha água não ouve
minha água canta como um segredo
Minha água não canta
minha água exulta como um segredo
minha água trabalha
e através do junco exulta
até o leite do riso
Minha água é uma pequena criança
minha água é um surdo
minha água é um gigante que segura um leão sobre seu peito
ó vinho
vasto imenso
pelo basílico de seu olhar cúmplice e suntuoso

UM POEMA DE AMOR - Nicolas Guillén

Tradução de João G. Paiva

Não sei. Ignoro.
Desconheço o tempo que andei
sem novamente encontrá-la.
Talvez um século? Acaso.
Talvez um pouco menos: noventa e nove anos?
Ou um mês? Poderia ser. De qualquer forma,
um tempo enorme, enorme, enorme.
Ao fim como uma rosa súbita,
repentina campânula trêmula,
a notícia.
Saber logo
que iria vê-la outra vez, que lá teria
perto, tangível, real, como nos sonhos.
Que trovão surdo
rodando-me nas veias,
estalando acima
em meu sangue, em uma
noturna tempestade!
E o achado, em seguida? E a maneira
que ninguém compreendera
ser nossa própria maneira?
Um toque apenas, um contato elétrico,
um aperto conspirativo, uma visão,
um palpitar de coração
gritando, gritando com silenciosa voz.
Depois
(Sabes mesmo desde teus quinze anos)
esse tatear de palavras presas,
palavras de olhos caídos,
penitenciais,
entre testemunhas e inimigos,
todavia
um amor de “te amo”
de “você”, de “bem quisera,
mas é impossível…” De “não podemos,
não, pense melhor…”
É um amor assim,
é um amor de abismo em primavera,
cortês, cordial, feliz, fatal.
A despedida, logo,
genérica,
na tempestade de amigos.
Vê-la partir e amá-la como nunca;
segui-la com os olhos,
e já sem olhos seguir vendo-a longe,
bem longe, e ainda segui-la
mais longe todavia,
feito a noite,
de mordidas, beijos, insônia,
veneno, êxtase, convulsões,
suspiro, sangue, morte…
Feita
dessa matéria conhecida
com que amassamos uma estrela.

NEGRO - Langston Hughes

Tradução de Leo Gonçalves

Sou Negro:
Negro como a noite é negra,
Negro como as profundezas da minha África.

Fui escravo:
Cesar me disse para manter os degraus da sua porta limpos.
Eu engraxei as botas de Washington.

Fui operário:
Sob minhas mãos ergueram-se as pirâmides.
Eu fiz a argamassa do Woolworth Building.

Fui cantor:
Durante todo o caminho da África até a Georgia
Carreguei minhas canções de dor.
Criei o ragtime.

Fui vítima:
Os belgas cortaram minhas mãos no Congo
Estão me linchando agora no Mississipi.

Sou Negro
Negro como a noite é negra
Negro como as profundezas da minha África.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

SONO DA BALZAQUIANA - Rafael Rocha

Qual sonho dança na bela escultura adormecida,
mulher em parecença de anjo a viver na mudez
do belo corpo onde anseios voejam (aves atrevidas)
como se paixões chegassem pela primeira vez?

Seus segredos dormem em completa languidez
e o poeta busca avistá-los com um triste olhar,
tentando escutar sussurros, mas a sua surdez
não ajuda a imaginação no versejar.

Fica assim! Durma nessa tranquilidade humana!
Tenha os sonhos mais atrevidos com que possa
mergulhar nas correntes de luxúria da sua vida.

Mesmo que o corpo durma, a alma balzaquiana
viaja a rituais de amor, onde a vivaz paixão se apossa,
adorando no sonho o prazer de ser apetecida.

O INDIFERENTE – John Donne

in “Poemas Eróticos”
Tradução de Helena Barbas
 
Posso amar tanto louras como morenas,
A que cede à abundância e a que trai por pobreza,
A que busca a solidão e a que se mascara e brinca,
Aquela que o campo cultivou e a da cidade,
A que acredita, e a que hesita,
A que ainda lacrimeja com olhos esponjosos,
E a rolha seca que nunca chora.
Eu posso amar essa e esta, e tu, e tu,
Posso amar qualquer uma, desde que não seja leal.

Nenhum outro vício vos satisfará?
Não vos será útil fazer como as vossas mães?
Ou, gastos todos os velhos vícios, inventaram novos?
Ou atormenta-vos o medo de que os homens sejam fiéis?
Oh, não o somos, não o sejais vós também,
Deixai-me conhecer, eu e vós, mais de vinte.
Roubem-me, mas não me prendam, deixai-me ir.
Devo eu, que vim a estas dores através de vós
Tornar-me vosso fiel súdito, porque sois leais?
 
Vênus ouviu-me suspirar esta canção,
E pela maior doçura do amor, a variedade, jurou
Que a não ouvira até então, e não mais seria assim.
E foi-se, investigou, e depressa regressando
Disse: “Enfim, existem umas duas ou três
Pobres heréticas do amor
Que pretendem instaurar a perigosa constância.
Mas eu disse-lhes: Dado que pretendeis ser leais,
Sereis leais para com aqueles que vos sejam falsos”.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

SONETO DE AMOR – José Régio

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., — unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... — abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

ENVOI (1919) – Ezra Pound



Tradução de Augusto de Campos
Vai, livro natimudo,
e diz a ela
que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
mais canção, menos temas,
então se acabariam minhas penas,
meus defeitos sanados em poemas
para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
tais tesouros no ar,
sem querer nada mais além de dar
vida ao momento,
que eu lhes ordenaria: vivam,
quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
rubribordadas de ouro, só
uma substância e cor
desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
com a canção nos lábios
mas não canta a canção e ignora
quem a fez, que talvez uma outra boca
tão bela quanto a dela
em novas eras há de ter aos pés
os que a adoram agora,
quando os nossos dois pós
com o de Waller se deponham, mudos,
no olvido que refina a todos nós,
até que a mutação apague tudo
salvo a Beleza, a sós.

UMA FACA SÓ LÂMINA - João Cabral de Melo Neto

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse um
vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

A ADORMECIDA – Paul Valery


Tradução de Augusto de Campos

Que segredo incandesces no peito, minha amiga,
Alma por doce máscara aspirando a flor?
De que alimentos vãos teu cândido calor
Gera essa irradiação: mulher adormecida?

Sopro, sonhos, silêncio, invencível quebranto,
Tu triunfas, ó paz mais potente que um pranto,
Quando de um pleno sono a onda grave e estendida
Conspira sobre o seio de tal inimiga

Dorme, dourada soma: sombras e abandono.
De tais dons cumulou-se esse temível sono,
Corça languidamente longa além do laço,

Que embora a alma ausente, em luta nos desertos,
Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,
Vela, Tua forma vela, e meus olhos: abertos.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

XADREZ – Jorge Luiz Borges

Em seu grave rincão, dois jogadores
regem peças, sem pausa. O tabuleiro
os prende até a aurora no certeiro
âmbito em que se odeiam duas cores.

Dentro irradiam mágicos rigores.
As formas: torre homérica, ligeiro
cavalo, audaz rainha, rei guerreiro,
bispo oblíquo e peões ameaçadores.

Quando os rivais já se tiverem ido,
quando o tempo os houver já consumido,
por certo não terá cessado o rito.

O Oriente é a origem dessa guerra
cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Como o outro, este jogo é infinito.