Menino,
onde você estava quando quebraram a manhã
e soltaram os elefantes pelas ruas?
Enquanto seus pés chutavam sapotis
coturnos sem alma esmagavam as flores
e os fuzis anunciavam uma noite sem fim.
Menino,
você não ouviu o pio triste
de um pássaro sufocado
pelas cordas de um violino mudo?
Não reparou na cor do vento,
nas rugas das árvores,
nos bancos das praças?
Menino,
trocaram o seu uniforme
pelo aborto de um sonho invertido
para manter a pergunta sempre se repetindo
no ar:
Mamãe! Quando papai vai chegar?
Menino,
vai dormir, a noite chegou.
Menino,
onde você estava quando soou a corneta?
O que trazia nas mãos?
O que trazia na mente?
Onde ficou o riso inocente,
a calma aparente, o quadro pintado,
a vida latente?
Menino,
quem esticou o tempo
para não perder o trono?
Quem se arrastou na lama
para enfrentar velhas utopias?
Quem compôs uma sinfonia de trás para a
frente?
Quem esmagou o sonho com balas de chumbo?
Ah!
Você não ouviu o grito das velhas árvores!
Não viu o sangue escorrendo entre as
flores!
E quando a noite chegou, onde você se
escondeu?
Ah!
Você não sabia da carta marcada
porque só ouvia a mesma piada.
O mesmo tom.
A mesma nota.
O mesmo som.
E trouxeram guizos e plumas,
prenderam os homens e seus sonhos,
porque era o primeiro dia
de um dia que nunca acabaria.
Menino,
por um
momento escuta o vento,
ouve o lamento dos que tombaram no palco
pois ainda se move nas sombras
o
Leviatã implacável.














