quinta-feira, 15 de março de 2018

CIÊNCIA – Nathalia Campos

Derreter a certeza dos astros
E com a parafina colorida do giz de cera
Animar os sistemas
Como nos dias da nossa infância
Quando a luz elétrica pingava
Um dia sim um dia sim
E qualquer verde era azul
Ou nem tanto

Acaçapar as bolas de sinuca em gozo de anarquia
(Rico mesmo era quem nem vela tinha)
Nos dava o luxo de recontar o universo
Com a goela do breu

Só as crianças sabem
Que o que existe mesmo é a luz
E se safam da fogueira

A HORA DA ESTRELA – Rita Isadora Pessoa

esse é para você
morcego noctívago
que não reconhece nem teto nem parede
nem o próprio brilho
seguimos no nosso diadorim off-sertão
modernismo wannabe dos que vieram
diretamente da água
para matar a sede do rio

no fim prosaico da discussão de duas horas
sobre o copo quebrado
ou o lixo vazando na cozinha
ou a panela de batata doce que cozinhou demais
você constata que, de nós dois, sim,
 você é o mais romântico
e eu digo “mas nós somos
românticos de formas diferentes”
e você graceja “é, de fato, eu sou da tradição
 do romantismo inglês e alemão”
[sim, com tua solidão proporcionada pelo bosque
 e a vastidão dos espaços naturais abertos,
 você, oxóssi-caçador da bílis negra]
mas eu, no caso, segundo você, sou a tragédia!
você me diz, “você é a própria grécia”,
 [cassandra, antígona e medeia
enfileiradas na cabeça da hidra,
mais a fúria do olimpo
 com raios de iansã e ingenuidade de macabea]
você diz que sou a origem de todo
o romantismo, de todo o cinismo,
da neurose, perversão e da forclusão
do nome-do-pai, da mãe […]

e aí, cá para nós, você há de me
responder então como faremos
para cumprir a nossa parte, nosso fair share
na tarefa hercúlea de soçobrar
o mito do amor romântico,
essa bitch, essa marca indisputável - 
fardo-sísifo da nossa geração pós-yuppie

- se somos nós, meu amor, o próprio mito
se nós somos o amor romântico
o perverso, a amor perdido
 (encenado reencontrado)
 -  o amor com a faca na mão

e a própria sede do rio.

terça-feira, 13 de março de 2018

CANÇÃO DO AMOR LIVRE – Jacinta Passos

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.

Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.
Teu corpo.

Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.

OUTRA CIDADE – Laura Wittner

Quando levanto os olhos vejo neve,
neve que vem brilhando da televisão.
Como sempre, cintilam no mapa
os lugares onde não se está.
Certamente sentiria falta do mercado de flores
e de acordar neste oitavo andar
que se abre desafiando o vento.
A verdade é que só houve um dia de neve
e que há uma possível segunda versão
para as coisas conhecidas.
As malas estão feitas desde sempre
e além disso estão no sofá
em posição de espera.
Esse momento dura, se mantém,
é uma maneira de estar:
estar prestes a ser abandonado.
O poço preto das malas feitas,
reverso do desembarque:
o desejo humano pelo incompleto
que se reflete, dizem,
na predileção pelo pequeno,
o breve, o fragmento.

CANTO DE DISSOLUÇÃO – Matheus Guménin Barreto

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

quarta-feira, 7 de março de 2018

PARTIDA – Yasmin Nigri

Já não somos mais as mesmas 
Desde que voltamos
Lembro das vezes 
Que você lamentou 
Porque não como peixe 
E nada de origem animal 
Não posso te acompanhar 
No seu maior prazer 
Ontem mesmo estive 
Acuada feito animal 
Nas suas mãos 
Não sou capaz 
Muito menos você
Explico de qualquer jeito 
Como fogem os animais 
Se você tenta machucá-los 
E uma alface não reage 
Quando você a corta 
Estou de partida

CORAÇÃO – Carla Diacov

eu inventei que era chá
inventei que era uma raiz que
nasce só lá na Índia
nasce só e sozinha
uma por ano
dizem
inventei que dizem que
olho muito pequeno é sangue
muito engrossado nas partes íntimas
invento para amanhã que
será chuva junto das
montanhas na Índia
lá em
bem perto da
raiz só
invento que espirro
é ultimato pra libélula de
coração negligenciado
agora invento que não você
sabe que as libélulas quando pro
criam formam um hexágono exatamente irregular?

ANTES DE PARTIR – Isaias Edson Sidney

antes de partir quebre todos os ovos
espalhe as cinzas do fogão a lenha
colha asas de borboletas ao pé do vulcão
empacote os doze mil livros nunca lidos
dobre a cor dos sinos que badalam dia e noite
invente barcos que naveguem nas areias
sofra ataques epilépticos ao fazer amor
compre ações da bolsa e vomite os dividendos
capte a energia proveniente das estrelas solitárias
meça o espanto no canto do galo da madrugada
aspire o orvalho de templos hindus na califórnia
instigue os instintos selvagens do bule de café
absorva o som de pássaros de uma orquestra sinfônica
beba o absinto que escorre do trono azul do rei
aplauda o final do show com garras de gárgulas
e sobretudo antes do fim não deixe de marcar
muito bem marcado no seu peito com ferro em brasa
o nome oculto das suas paixões mais proibidas

terça-feira, 6 de março de 2018

GESTO – Daniele Delias

um gesto claro, eu diria

este de escorregarmos pra fora
até que a memória acendesse ternuras
por campos inteiros de obscuridade

só depois pediríamos à noite
que estendesse sua língua de fogo
sobre nossos olhos cansados

só depois nos diríamos
o que mães dizem às filhas
quando inauguram o primeiro silêncio

DE REPENTE EU QUERO DAR – Luana Muniz




sete pulos
sete mergulhos no Jordão
matar minha sede
da gélida água santa
De repente tenho vontade
de ser víbora, traiçoeira
o cavalo de Tróia
que a sua Odisseia particular
glorificou
De repente quero imolar
um cordeiro em teu nome
usar o sangue pra conceber
o assédio que sempre amei
De repente quero ser
a conflituosa fêmea
a inimiga parasita
o bicho sangrador mensal
que te sacraliza os dias
De repente quero desempenhar
os 12 trabalhos hérculeos
apenas porque a inércia
me parece uma lei
demasiado radical
De repente quero ser fantoche
buginganga sua
seu troféu
vestir meias 3/4
ensaiar o palavreado baixo
geniosa
petulante
e dizer que quero ser movida
como a rainha do xadrez
que você joga todo sábado
De repente quero que morda
o meu fruto proibido
e que a minha nódoa
não te saia da camisa
nem com alvejante caro
De repente quero ser paga
para espalhar a decência
pregar o sermão da montanha
num monte ermo do Líbano
sem macular
seu lençol de linho fino
De repente quero implantar
uma cláusula
na constituição federal
e advogar todos os seus danos
(foram muitos)
De repente quero ser agredida
como um judeu
na alemanha nazista
e quero que o meu crime seja
totalmente inafiançável
De repente sinto um complexo
de Vladimir Putin
me dá ganas
de governar o seu país
ser ditadora déspota tirânica
De repente quero ser stripper
virar título de romance
do idiota que me comeu
De repente eu adoraria ser
fuzilada
em praça pública
com requintes de crueldade
só pro seu zoom óptico
focalizar o meu prazer
De repente o diabo
fala comigo
numa língua ébria e barroca
o dialeto molhado dos anjos
a linguagem dos poetas
e eu tenho vontade de
vender a minha alma
em troca de
três, quatro ou cinco
horas
de fluidos com você

BAIXO GÁVEA – Alice Sant’Anna

você está mais magra
a qualquer momento o cordão
vai arrebentar de tão velho
se alguém puxasse mesmo
que de leve já era
mas ela sempre foi magra
ficamos marcados para sábado
ninguém me chamou? não é isso
daquela vez também
ninguém me convidou para o café
não li a segunda parte, mas a primeira
me fez mal fisicamente falando
não posso andar com vocês
não tenho pós-graduação
pra citar deleuze, falar em epistemologia etc.
mas vocês já se separaram?
a menina vem pra cá nesse fim de semana
no fundo não estou assim tão a fim
você está com uma cara
parece que alguém que você queria
que viesse não veio
apareceu tanta gente
e é sempre assim
a gente só lembra de quem não veio
você que está sumida
não te vejo faz quantos meses
essa viagem não te fez bem, está magra demais
e por que não deu certo? achei que fosse
durar, todo mundo achou
então marcamos sábado
ou domingo não lembro
trabalho perto de você, vamos combinar
a gente sempre aprende
alguma coisa qualquer coisa
no carnaval duzentas mil pessoas no aterro
ela disse que queria ficar só comigo
eu e ela e eu
falei que aquilo não tinha como
em pleno carnaval aquela gente toda
bateu uma saudade
não bolei nenhum plano b
mas fica bem, você está bem?
vou comemorar amanhã com a minha mãe
talvez alguma coisa na minha casa
você tem que conhecer minha casa
minha casa já está com cara de casa.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

FLOR SEM TEMPO - José de Sottomayor

Na mesma rua
Na mesma cor
Passava alegre
Sorria amor
Amor nos olhos
Cabelo ao vento
Gestos de prata
De flor sem tempo
É dela o mundo
É a certeza de viver

Canta o sol
Que tens na alma
És a flor de ser feliz
Olha o mar
De tarde calma
Ouve o que ele diz

Foi como o vento
Soprou um dia
Passava alegre
Alguém a via
É nossa a vida
É a certeza de te ver

Canta o sol
Que tens na alma
És a flor de ser feliz
Olha o mar
De tarde calma
Ouve o que ele diz

DAMA - Stéphane Mallarmé


Tradução Augusto de Campos

Sem tanto ardor embora ainda flamante
A rosa que cruel ou lacerada e lassa
Se deveste do alvor que a púrpura deslaça
Para em sua carne ouvir o choro do diamante

Sim sem crises de orvalho antes em doce alento
Nem brisa o fragor do céu leve ao fracasso
Com ciúme de criar não sei bem qual espaço
No simples dia o dia real do sentimento,

Não te ocorre, talvez, que a cada ano que passa
Quando em tua fronte se alça o encanto ressurreto
Basta-me um dom qualquer natural de tua graça

Como na alcova o cintilar de um leque inquieto
A reviver do pouco de emoção que grassa
Todo o nosso nativo e monótono afeto.

POEMA DO AMANHECER – Gláucia Lemos

Que hoje o meu primeiro pensamento
seja como a luz branca da manhã
que envolve os picos
e as pontas da grama.
E faça amanhecerem as emoções.

Que nessa luz eu esteja.

Que hoje a minha intenção primeira
seja como a mão de Deus na estrada certa
ou bastão de pastor
na trilha verde.

E nessa mão me vejas.

Que hoje a minha sílaba primeira
não se abra em meu lábio,
e eu me cale.
Que nada te dirá mais que o meu beijo.

E que esse beijo eu seja.

RESGATE – João José Cochofel

Meus pés moídos na calçada,
minhas tardes envenenadas de álcoois nos cafés,
e o vazio por dentro
a encher o tédio das horas sem nome.

Tudo isto
- moeda triste
que nem chega a pagar o sol da tardinha
e a poeira de feno que pontilhou de oiro
teu corpo entre trigais.